Exílio

Sophia de Mello Breyner Andresen

Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades

Sophia de Mello Breyner Andresen

Durme

Cantiga de embalar tradicional em Ladino

Durme, durme
mi alma donzella
durme, durme
sin ansia y dolor
durme, durme
sin ansia y dolor.
Heq tu sclavo tanto dezea
ver tu sueño con grande amor
ver tu sueño con grande amor.
Hay dos años que sufre mi alma
por ti, joya, mi linda dama
por ti, joya, mi linda dama.
Siente, siente al son de mi guitarra
siente, hermosa, mis males cantar
siente, hermosa, mis males cantar

Cantiga de embalar tradicional, em Ladino, dos judeus portugueses e espanhóis (século XIV).

A Eternidade de Fernando Assis Pacheco no Aniversário da Sua Morte

Estava em Londres a 30 de Novembro de 1995. Liguei para a redacção a avisar que a prosa da semana ia já a caminho. Foi então que me deram a notícia: Fernando Assis Pacheco tinha morrido. Mudara-me para Londres meses antes e ainda sentia na pele o peso da distância de Lisboa. A notícia da morte de Assis Pacheco deixou-me ainda mais só. Já lá vão oito anos.
“Estas efemérides são muito chatas porque, não tendo nós o dom da ressurreição, caímos não obstante num discurso tão próximo do evangélico que soa a falso.” – escreveu Assis sobre o aniversário da morte de Zeca Afonso no Jornal de Letras a 25 de Fevereiro de 1992. Agora, perante a possibilidade de fazer o mesmo, não lhe podia dar mais razão.
Conheci-o na redacção d’O Jornal no início da década de 90. Eu um novato. Ele um jornalista lendário. Tive a sorte de crescer no jornalismo com ele ao lado. E de lhe ouvir as histórias que contava ao fim do dia no seu pequeno cubículo da redacção na Avenida da Liberdade.
É quase irónico estar agora a escrever sobre ele, aqui do outro lado do mundo, num computador. Assis nunca usou o computador. Escrevia as melhores prosas de cada edição numa máquina de escrever manual, que acariciava com a mão esquerda enquanto o indicador direito matraqueava letra a letra.
Os antigos sábios judaicos escreveram no Talmude e no Zohar que quando morre um homem singular, a data da sua morte abre ciclicamente um alçapão cósmico que nos permite aspirar a imitar as suas qualidades. E o Assis tinha muito que imitar.
Fernando Assis Pacheco morreu como gostariam de morrer muitos escritores: numa livraria. Na Bucholz, em Lisboa. Já lá vão oito anos.

Fernando Assis Pacheco
Fernando Assis Pacheco (1937-1995)

COMO UM RELÂMPAGO VERDE

Nesse ano e mês chamaram de Lisboa
era o pai de meu pai
morrendo velozmente ao telefone
eu ouvia os gritos baterem
nas portas da cristaleira
quis chamar Deus para convencê-lo
a suspender o voo
mas já ia longe para lá de Alfeizerão (1)
espero agora que a monotonia e a chuva
tornem à minha vida
um pouco é de supor mais intrigante

(1) à velocidade soube depois
de 1.500 Mach
como um relâmpago verde

Fernando Assis Pacheco, Variações em Sousa