O Trompete de Miles Davis, o belo romance de estreia de Francisco Duarte Azevedo, já está à venda nas livrarias, com chancela da Planeta Manuscrito. Tive o prazer (acho que será mais privilégio do que outra coisa qualquer) de acompanhar de perto a evolução do livro. Chamar-lhe-ia mesmo manufactura — o Francisco é dos poucos escritores a quem a palavra “manuscrito” se aplica ainda em sentido literal, porque a escrita lhe sai directamente do punho para uma resma de pequenos cadernos, antes de ser depurada com minúcia ao teclado do computador.
Já aqui escrevi sobre ele há uns anos, ainda o livro estava muito longe da versão final que agora se pode encontrar nos escaparates. Sobre ele escreve agora Lídia Jorge:
Porque me comove O Trompete de Miles Davis? Porque é um livro que alcança muito mais do que pretende e atinge muito mais longe do que anuncia. Porque, nesse desprendimento, nos entrega figuras que nunca mais se afastam do nosso pensamento. Um primeiro livro que parece ser o sexto.”
A apresentação oficial é feita dia 15 de Março, terça-feira, às 18h30, no Salão Nobre do Instituto Camões, em Lisboa (Avenida da Liberdade, 270, ao Marquês de Pombal). Lídia Jorge faz a apresentação. Anotem, por favor. É leitura obrigatória.
“Ladies and Gentlemen…Mr. Leonard Cohen” é um documentário “ïnformal” sobre o poeta, produzido em 1965 sob a chancela do Canada National Film Board. Uma verdadeira preciosidade. Narrado ao estilo da época, nele se descobre, entre outras coisas, que Leonard Cohen também fazia comédia na melhor tradição de stand up. Imperdível.
(via Jewlicious)
Numa altura em que se fazem e consultam listas de presentes, a Rua da Judiaria sugere aqui uma lista de dez livros, para tornar as festas verdadeiramente felizes. Tal como em todas as listas, muitos ficaram de fora — especialmente porque, devido ao carácter específico do blog, o crivo regeu-se por três critérios fundamentais: os livros desta lista teriam de publicados em 2009, escritos por autores judeus ou ser, eles próprios, sobre temas judaicos. Vamos então à lista. A ordem é puramente arbitrária.
O Mar em Casablanca, Francisco José Viegas
O novo romance de Francisco José Viegas, vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da APE, 2005, com a obra Longe de Manaus.
O que une um cadáver encontrado nos bosques que rodeiam o belo Palace do Vidago e um homicídio no cenário deslumbrante do Douro? O que une ambos os crimes às recordações tumultuosas dos acontecimentos de Maio de 1977 em Angola? Jaime Ramos, o detective dos anteriores romances de Francisco José Viegas, regressa para uma nova investigação onde reencontra a sua própria biografia, as recordações do seu passado na guerra colonial – e uma personagem que o persegue como uma sombra, um português repartido por todos os continentes e cuja identidade se mistura com o da memória portuguesa do último século.
História de uma melancolia e de uma perdição, O Mar em Casablanca retoma o modelo das histórias policiais para nos inquietar com uma das personagens mais emblemáticas do romance português de hoje.
Breve História dos Judeus em Portugal, Jorge Martins
Já se publicaram algumas histórias dos judeus portugueses, todas elas de acentuado cariz académico, mas faltava uma obra de conjunto, actualizada e acessível ao grande público, destinada, particularmente, aos professores e aos estudantes, complementando ou suprindo as omissões dos nossos programas escolares. Sem escamotear o facto de que os estudos académicos são, por vezes, de difícil acesso aos leitores não especializados, sabemos que há apetência natural pelo conhecimento. Por outro lado, os estudantes, particularmente os universitários, necessitam de abordagens iniciáticas para se envolverem nas temáticas historiográficas. É este o objectivo de Breve História dos Judeus em Portugal, que vem demonstrar, a todos os leitores, que os judeus portugueses têm uma história para contar que faz parte da própria História de Portugal.
(Sobre a Breve História dos Judeus em Portugal irei publicar em breve uma recensão, dando-lhe o destaque que esta obra merece.)
Os Anagramas de Varsóvia, Richard Zimler
Um romance policial arrepiante e soberbamente escrito passado no gueto judaico de Varsóvia. Narrado por um homem que por todas as razões devia estar morto e que pode estar a mentir sobre a sua identidade… No Outono de 1940, os nazis encerraram quatrocentos mil judeus numa pequena área da capital da Polónia, criando uma ilha urbana cortada do mundo exterior. Erik Cohen, um velho psiquiatra, é forçado a mudar-se para um minúsculo apartamento com a sobrinha e o seu adorado sobrinho-neto de nove anos, Adam.
Num dia de frio cortante, Adam desaparece. Na manhã seguinte, o seu corpo é descoberto na vedação de arame farpado que rodeia o gueto. Uma das pernas do rapaz foi cortada e um pequeno pedaço de cordel deixado na sua boca. Por que razão terá o cadáver sido profanado? Erik luta contra a sua raiva avassaladora e o seu desespero jurando descobrir o assassino do sobrinho para vingar a sua morte. Um amigo de infância, Izzy, cuja coragem e sentido de humor impedem Erik de perder a confiança, junta-se-lhe nessa busca perigosa e desesperada. Em breve outro cadáver aparece – desta vez o de uma rapariga, a quem foi cortada uma das mãos. As provas começam a apontar para um traidor judeu que atrai crianças para a morte. Neste thriller histórico profundamente comovente e sombrio, Erik e Izzy levam o leitor até aos recantos mais proibidos de Varsóvia e aos mais heróicos recantos do coração humano. (Ler excerto aqui: Richard Zimler: Os Anagramas de Varsóvia @ Rua da Judiaria)
Rashi, Elie Wiesel
Para muitos, o rabino Shlomo Yitzhaki (mais conhecido pelo acrónimo “Rashi”) é conhecido pelos seus clássicos comentários ao Talmude. Outros encontraram-no pela primeira vez como o patriarca da popular série de romances históricos Rashi’s Daughters, escritos por Maggie Anton. Mas, no entanto, talvez a melhor apresentação é a que lhe faz o memorialista e Prémio Nobel Elie Wiesel, que em criança ouvira dos seus pais a garantia de que ele era descendente directo do ilustre e venerado estudioso medieval. “Rashi”, a curta biografia que Wiesel agora publica na colecção Jewish Encounters (Schocken), é uma oportunidade para observar a gloriosa vida interior da análise bíblica e da discussão que têm sustentado o povo judeu durante as alturas mais difíceis e para compreender como o judaísmo é definido tanto pelo Talmude como pela Torá, e tanto pelo debate sobre as escrituras como pelas próprias escrituras.
Collected Stories , Isaac Bashevis Singer
Para os leitores anglófonos, os romances e as colecções de Isaac Bashevis Singer não são difíceis de encontrar, mas a melhor forma de conhecer este grande mestre contador de histórias — ou para fazer recordar a magia que Singer é capaz de traduzir para a escrita — é a compacta mas elegante colecção de três volumes da Library of America, Isaac Bashevis Singer: Collected Stories. Galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1978, Isaac Bashevis Singer consegue ser um iídichista, um modernista, um mágico-realista, um cronista e um contador de histórias escabrosas, mas toda a sua prosa brilha com irónica sagacidade e cintila com a certeza clara de uma história bem contada. “O romance de Deus tem suspense”, escreveu Singer uma vez na revista Esquire — tal e qual as histórias ricas e vibrantes do próprio Isaac Bashevis Singer.
Anne Frank: The Book, The Life, The Afterlife, Francine Prose
Dos seis milhões de judeus assassinados no Holocausto o único rosto que conhecemos intimamente pertence a Anne Frank. Mas este é apenas o ponto de partida de Anne Frank: The Book, The Life, The Afterlife escrito pela romancista e ensaísta Francine Prose, um soberbo trabalho de história, biografia e crítica. Francine Prose tem algo de novo e importante a dizer acerca da jovem rapariga cujo diário foi simultaneamente celebrado e explorado, usado e abusado, e a autora rejeita a noção habitual de Anne Frank como “espevitada mensageira adolescente de paz e amor”. Em vez disso, Francine Prose aborda de forma corajosa a identidade judaica de Anne Frank, a sua sexualidade, as posições políticas da sua família e as suas ambições literárias — tudo distorcido, quando não meramente ignorado por todos os que têm usado e abusado do diário para seu proveito próprio. Acima de tudo, Francine Prose permite que olhemos para Anne Frank não apenas como uma vítima de um crime contra a humanidade, mas também como uma jovem escritora com um grande talento.
A Literary Bible, David Rosenberg
Esta não é uma Bíblia qualquer. Na verdade, mais do que uma tradução é um re-imaginar daquilo que o autor chama “o âmago da Bíblia Hebraica”. A linguagem arcaica é omitida, mas a poesia e a prosa que constituem o pulsar da Bíblia recebem uma nova e refrescante leitura. Rosenberg, que escreveu com Harold Bloom o best-seller The Book of J, está apostado em convencer o leitor que a Bíblia é uma obra “subtil e irónica”, escrita por autores de carne e osso que experimentaram os mesmos impulsos que nós sentimos. Assim, por exemplo, quando serve de intermediário ao autor de Eclesiastes, David Rosenberg apresenta-o como um ambicioso escritor (“set to work/in the grand style/building an oeuvre/ten books in five years,”) que acaba por se aperceber que a ambição não é tudo (“we can take in anything/and we are still empty/on the short of the life/our blood flows to”). De uma forma audaciosa, David Rosenberg reformula o livro angular da civilização ocidental numa obra onde o leitor moderno se revê de uma forma inesperada.
The Book of Genesis Illustrated, R. Crumb
Este livro oferece não só o texto completo e integral do primeiro livro da Bíblia, mas também ilustrações de seios nus, nudez a granel e actos vários de violência. “Supervisão adulta recomendada a menores”, é o aviso prévio transmitido pelo rótulo desenhado na capa. Por outras palavras, o livro é absolutamente fiel ao que realmente se pode encontrar nas Escrituras Sagradas. E precisamente por essa razão vai chocar e surpreender muitos leitores desprevenidos. Mas é também um astuto trabalho de exegese visual do célebre artista dos anos 60 que deu ao mundo o Senhor Natural e o Gato Fritz. Um livro inesperado e fascinante.
The Enemy I Knew: German Jews in the Allied Military in World War II, Steven Karras
Até Elie Wiesel, o Prémio Nobel sobrevivente de Auschwitz e Buchenwald, se debateu com a pergunta: Porque não lutaram os judeus contra a barbárie nazi? Finalmente, em virtude das circunstâncias — mesmo hoje, quem acreditaria no que estava a acontecer? —, Elie Wiesel concluiu que a questão não era porque não tinham os judeus combatido, mas sim como tantos o tinham conseguido fazer. “Torturados, espancados e famintos, onde encontraram eles a força — espiritual e física — para resistir?” Na verdade, mas de 10 mil judeus alemães — 34 por cento do total de refugiados com idades entre os 18 e os 40 anos — combateu nos exércitos aliados na Segunda Guerra Mundial. Em The Enemy I Knew: German Jews in the Allied Military in World War II, Steven Karras conta as memórias destes soldados judeus, refugiados da Alemanha e da Áustria que enfrentaram os seus opressores nazis juntando-se às forças aliadas para combater o regime que subjugava os países onde tinham nascido.
Ao longo de 27 entrevistas, Karras dá a conhecer histórias como a de Fritz Weinschenk, um judeu alemão que fugira da Europa em 1933, para voltar a 6 de Junho de 1944 — pela Praia de Omaha, durante a invasão da Normandia.
The Case for God , Karen Armstrong
O ultimo livro da mais famosa historiadora das religiões da actualidade é uma abrangente história da ideia de Deus que refuta best-sellers recém-publicados por famosos ateístas como Christopher Hitchens e Richard Dawkins. Sobre o livro escreveu recentemente Jonathan Kirsch: “Não há ninguém mais qualificado do que Karen Armstrong para entrar no aceso debate público entre crentes e descrentes sobre a existência de Deus. O seu último livro, ansiosamente antecipado e recebido, traz consigo as qualidades que ela imprime a todos os seus trabalhos — The Case for God é lúcido, erudito, provocador e esclarecedor. Na verdade, Armstrong consegue uma vez mais o que ela faz de melhor ao iluminar com uma luz clara os mais profundos mistérios da imaginação religiosa.”
::BONUS:: Duas excelentes entrevistas, conduzidas por Carlos Vaz Marques, a Francisco José Viegas e Richard Zimler, dois judeus magníficos. Para ouvir com muita atenção. Aqui:
Francisco José Viegas conversa sobre O Mar em Casablanca
Richard Zimler conversa sobre Os Anagramas de Varsóvia
Os Anagramas de Varsóvia (Um Mistério Cabalístico) é o título do último romance do escritor luso-americano Richard Zimler, lançado recentemente em Portugal. Richard Zimler apresenta-nos um policial bem urdido, com o Gueto de Varsóvia e a singularidade do Holocausto como pano de fundo. Extraordinariamente bem escrita, a narrativa é habilmente desenrolada na primeira pessoa, de uma forma que por vezes chega a fazer lembrar Isaac Bashevis Singer, tanto na fluidez da escrita como na mestria com que são moldadas as suas personagens centrais — Erik, Izzy, Stefa e Adam.
Por tudo isto, Os Anagramas de Varsóvia deve marcar uma presença obrigatória no topo de qualquer lista de presentes…
A Rua da Judiaria publica hoje um excerto do romance, mais concretamente o prefácio, onde a história é introduzida e situada.
A publicação deste excerto no blog deve-se à extraordinária generosidade de Richard Zimler, que acedeu ao convite sem hesitar. Para ele, os meus mais sinceros agradecimentos.
Desde miúdo que trago um mapa de Varsóvia nas solas dos pés, por isso consegui fazer o caminho quase todo até casa sem qualquer engano ou esforço.
Foi então que vi o alto muro de tijolo à volta da nossa ilha. O coração deu-me um salto no peito, e uma esperança impossível dispersou-me os pensamentos – embora soubesse que a Stefa e o Adam não estariam em casa para me dar as boas-vindas.
Um guarda alemão gordo, de pé, mastigava uma batata fumegante junto ao portão da Rua Swieojerska. Assim que me esgueirei lá para dentro, vi um jovem com um boné de tweed enterrado pela testa abaixo passar por mim a correr. O saco de farinha que levava ao ombro pingava pontos e traços de líquido sobre o seu casaco código Morse escrito com sangue de galinha, calculei.
Homens e mulheres vagueavam pesadamente pelas ruas geladas, esmagando a camada de gelo que as cobria com os sapatos gastos, as mãos enfiadas bem fundo pelos bolsos dos casacos abaixo e nuvens de vapor a fugir-lhes da boca.
Na minha inquietação, quase tropecei num velho que morrera gelado à porta de uma pequena mercearia. Vestia apenas uma camisola interior toda suja, e tinha os joelhos nus e terrivelmente inchados encolhidos contra o peito, numa tentativa de se proteger. Os lábios cobertos de crostas de sangue eram de um cinzento-azulado, mas tinha os olhos debruados a um fio vermelho, o que me deu a impressão de que o último dos seus sentidos a deixar este mundo fora a visão. No átrio de entrada do prédio da Stefa, o papel de parede de cor verde-azeitona descolara-se do estuque e caía às tiras, revelando manchas aveludadas de bolor negro. O apartamento estava gelado; e não havia uma migalha de comida à vista.
Espalhados pela sala, viam-se cuecas, meias e camisas. De homem. Tive a sensação de que a Bina e a mãe já lá não estavam há muito tempo. O sofá, a mesa de jantar e o piano da Stefa tinham desaparecido – talvez vendidos, ou despedaçados para fazer lume. Gravadas na porta do seu quarto estavam as marcas que ela e eu tínhamos feito para marcar a altura do Adam todos os meses. Aproximei devagarinho a ponta dos dedos da marca mais alta, de 15 de Fevereiro de 1941, mas perdi a coragem mesmo no último segundo – não quis arriscar-me a tocar em tudo o que podia ter sido.
Quem quer que fosse que agora dormia no quarto da minha sobrinha, gostava de ler; a minha tradução para polaco de A Midsummer Night’s Dream estava aberta ao contrário no chão, junto à cabeceira da cama. Junto ao livro havia uma caneca de folha, agora vazia, que fora enchida com água do gueto; ao evaporar-se, deixara ficar o depósito amarelado de que eu tão bem me lembrava.
A busca pelo apartamento reavivou a consciência do meu objectivo ali, e tive a esperança de que o mundo voltasse a tocar-me agora, mas quando tentei abrir a porta do guarda-vestidos da Stefa, os meus dedos penetraram na madeira escura como se se enterrassem num barro denso e frio.
Como seria ter nove anos de idade e estar encurralado na nossa ilha esquecida? Uma pista: o Adam costumava acordar sobressaltado durante as nossas primeiras semanas juntos, catapultado dos seus terrores nocturnos, e inclinar-se por cima de mim para agarrar no copo de água que eu sempre deixava sobre a mesa-de-cabeceira. Eu acordava com os movimentos dele e levava-lhe o copo à boca, mas ao princípio não gostava de que ele me perturbasse o sono. Só ao fim de quase um mês juntos é que comecei a adorar senti-lo a remexer-se, e ouvi-lo a dar goles seguidos, sem respirar, e depois, quando voltava a deitar-se, a forma como puxava o meu braço para o enroscar à sua volta. O suave sobe-e-desce do seu peito magro recordava-me tudo aquilo que ainda tinha para agradecer à vida.
Deitado na cama com o meu sobrinho-neto, costumava obrigar-me a permanecer acordado, porque não me parecia justo que um acto tão simples como inspirar pudessemanter o rapazinho no nosso mundo, e precisava de o observar cuidadosamente, de pôr a minha mão em concha sobre aquela cabecita loura e transmitir-lhe assim a minha protecção. Queria que o acto de permanecer vivo dependesse de um processo muito mais complexo. Para ele, e para mim também. Porque, então, morrer seria muito mais difícil para ambos.
Quase todos os meus livros tinham desaparecido das prateleiras que eu próprio fizera – queimados para aquecer a casa, sem dúvida. Mas A Interpretação dos Sonhos, de Freud, e alguns dos meus outros textos de psiquiatria ainda lá estavam. Quem quer que fosse que lá estivesse a viver agora, descobrira provavelmente que a maior parte deles eram primeiras edições, e talvez valessem um bom preço fora do gueto.
O meu olhar pousou sobre o tratado médico alemão no qual enfiara dois matzos de emergência, mas não fiz qualquer tentativa para os recuperar; embora a fome ainda me esfaqueasse as entranhas, já não precisava daquele tipo de sustento.
Ávido pelo consolo de um horizonte longínquo, subi pelas escadas do prédio até ao telhado, e passei cuidadosamente para a plataforma de madeira que os Tarnowski – os nossos vizinhos – tinham construído para observar as estrelas. À minha volta, a cidade erguia-se em espirais, torreões e cúpulas de contos de fadas – uma fantasia de criança transformada em realidade. Dei uma volta completa sobre mim próprio, e senti a ternura invadir-me. Será possível acariciar uma cidade? Ser o rio Vístula, e poder abraçar Varsóvia, deve ser por vezes uma recompensa que ele dá a si próprio.
E, contudo, o bairro da Stefa parecia mais tristonho do que nas minhas recordações – os prédios ainda mais afundados num pântano de degradação, ruína e sujidade, apesar de todos os nossos arames e colas.
Um grito rouco cortou o ar, espantando os meus devaneios. Do outro lado da rua, debruçado de uma janela do quarto andar, um homem de cara chupada e sobretudo esfarrapado acenava-me freneticamente. Tinha as têmporas encovadas, e a barba por fazer punha-lhe uma sombra branca no rosto.
— Ei! – gritou-me. – Você aí, olhe que cai e parte o pescoço!
Vi um reflexo de mim mesmo naqueles ombros encolhidos, naquele olhar de pânico. Ergui a mão, fazendo-lhe sinal que esperasse no sítio onde estava, desci atabalhoadamente do telhado e pelas escadas abaixo, e atravessei a rua, patinhando na lama.
Lá em cima, no seu apartamento, o homem percebeu logo que eu não era como ele. Abriu muito os olhos congestionados de vermelho, espantado, e deu um passo atrás.
— Olá – disse, cauteloso.
— Então…então consegue mesmo ver-me? – gaguejei.
O rosto dele descontraiu-se.
— Perfeitamente. Embora os seus contornos…– Rodou a mão no ar, depois inclinou a cabeça, como quem avalia qualquer coisa. – Não estão lá muito bem, um pouco indefinidos.
— E não tem medo de mim? – perguntei.
— Ná, já tive outras visões. E além disso, você fala iídiche. Porque
é que um ibbur judeu me havia de fazer mal?
— Um ibbur?
— Um ser como você, que regressou da terra que fica atrás da berma do mundo.
Tinha uma maneira poética de falar, o que me agradou. Sorri de alívio; ele conseguia mesmo ver-me e ouvir-me. E senti-me menos preocupado por saber que havia um nome para aquilo que eu era.
— Chamo-me Heniek Corben – disse-me ele.
— Erik Benjamin Cohen – respondi, apresentando-me como fazia quando era miúdo e andava na escola.
— É de Varsóvia? – perguntou.
— Sou, cresci perto do centro da cidade, na Rua Bednarska.
Franzindo os lábios numa expressão cómica, assobiou baixinho.
— Belo bairro! – comentou entusiasmado, mas quando a boca se lhe rasgou num sorriso, vi que era uma ruína de dentes podres.
Interpretando a minha careta como sinal de dor física, Heniek sentou-se.
— Sente-se, sente-se, Reb Yid – disse-me em tom preocupado puxando de um banco, para eu me sentar à mesa da cozinha.
Aquele formalismo parecia um pouco absurdo depois de tudo o que nós, judeus, tínhamos sofrido.
— Por favor, chame-me Erik – pedi-lhe.
Sentei-me em câmara lenta, com receio de não encontrar um assento sólido, mas a madeira do seu banco acolheu generosamente o meu traseiro escanzelado — prova de que já estava a apanhar o jeito a esta vida nova.
Heniek olhou-me de alto a baixo, e a sua expressão tornou-se mais séria.
— O que foi? – perguntei.
— Esbateu-se por um momento. Acho que talvez…– Terminando a frase abruptamente, ergueu a mão nodosa e disforme por sobre a minha cabeça e abençoou-me em hebraico. — Com um pouco de sorte, isto há-de resolver o assunto — disse-me com ar jovial.
Apercebendo-me de que era provavelmente religioso, comentei:
— Não tenho visto qualquer indício de Deus, nem nada que se pareça com um anjo ou um demónio. Nem fantasmas, nem seres necrófagos, nem vampiros…nada. — Não queria que ele me achasse capaz de responder a qualquer das suas perguntas metafísicas.
Fez um gesto com a mão, como quem não quer saber disso.
— Então, o que posso oferecer-lhe? Que tal um chá de urtiga?
— Obrigado, mas descobri que já não preciso de beber nada.
— Importa-se que faça um para mim?
— Por favor.
Enquanto ele fervia a água, fiz-lhe perguntas sobre o que acontecera desde que eu saíra de Varsóvia em Março passado.
Com um suspiro, respondeu:
— Ech, basicamente, a mesma velha desgraça. O grande entusiasmo foi durante o Verão, os russos bombardearam-nos. Infelizmente, aqueles pilotos idiotas não acertaram na sede da Gestapo, mas ouvi dizer que a Praça do Teatro ficou reduzida a escombros. – Baixou a voz e inclinou-se para mim. – Mas há uma boa notícia, os Americanos entraram na guerra. Os Japoneses bombardearam-nos há uma semana, segundo a BBC, tenho um amigo que tem um rádio clandestino.
— Porque está a sussurrar?
Apontou para o céu.
— Não quero parecer optimista, Deus ainda nos pode pregar mais umas partidas, se achar que estou a ser arrogante.
Dantes, o espírito supersticioso de Heniek teria provocado em mim um comentário sarcástico, mas era óbvio que, com a morte, me tinha tornado mais paciente.
— Então e onde é que trabalha? – perguntei.
— Numa fábrica de sabão clandestina.
— E hoje está de folga?
— Não, hoje é o Shabbat.
— Em que dia estamos?
— 16 de Dezembro de 1941.
Tinham decorrido sete dias desde que eu saíra do campo de trabalho de Lublin, onde estivera como prisioneiro, mas pelas minhas contas só tinha levado cinco dias a chegar a casa, por isso perdera quarenta e oito horas algures pelo caminho. Talvez o tempo passasse de modo diferente para os da minha laia.
Heniek disse-me que, antes de se mudar para o gueto, era impressor. A mulher e a filha tinham morrido de tuberculose havia um ano.
— Eu até era capaz de aguentar a solidão – disse ele, baixando o olhar para esconder a sua perturbação –, mas o resto é…é mesmo demasiado.
Eu sabia da minha própria experiência que o resto significava culpa, e também emoções mais subtis e confusas, para as quais não tínhamos um nome adequado.
Deixou cair as folhas de urtiga no jarro de cerâmica branca que lhe servia de bule. Depois, erguendo os olhos com um vigor renovado, perguntou pela minha família, e eu disse-lhe que a minha filha Liesel estava em Esmirna.
— Andava a trabalhar numas escavações arqueológicas quando rebentou
a guerra, por isso ficou por lá.
— Já foi visitá-la?
— Não, tinha de vir aqui primeiro. Mas ela está em segurança. A menos que…– pus-me em pé de um salto, aflito. – A Turquia não entrou na guerra, pois não?
— Não, não, ainda é território neutro. Não se preocupe.
Despejou água a ferver sobre as folhas de urtiga num círculo lento e perfeito, e aquela precisão encantou-me. Voltei a sentar-me.
— Desculpe a minha curiosidade, Erik, mas porque voltou para nós? — perguntou.
— Não sei bem. Mas qualquer resposta que lhe desse não faria muito sentido, a menos que lhe contasse o que me aconteceu no gueto; acima de tudo, teria de lhe falar do meu sobrinho.
— E então, o que o impede? Podemos passar o dia inteiro juntos, se quiser.
Surgiu-lhe um brilho maroto nos olhos. Apesar do desgosto e da solidão, Heniek parecia ansioso por uma nova aventura.
— Conto-lhe daqui a pouco – respondi. – O facto de ter conseguido falar consigo…deixou-me enervado.
Heniek fez que sim com a cabeça, compreensivo. Depois de beber o seu chá, sugeriu que fôssemos dar um passeio. Levou um saco de ruibarbo branco para a irmã, que partilhava com mais seis inquilinos um apartamento de duas assoalhadas perto da Grande Sinagoga, e a seguir fomos os dois ouvir o Noel Anbaum a cantar à porta do Teatro Nowy Azazel. O seu acordeão fez-me dançar diante dos olhos um enxame de borboletas rubras e douradas – uma sensação estranha e magnífica, mas a que me tenho vindo a acostumar ultimamente; os meus sentidos fluem agora muitas vezes juntos, como as tintas de um vitral a transbordar dos seus contornos. Será que, no fim, acabarão por se fundir completamente? Irei cair dentro de uma paisagem demasiado rica de som, vista e toque, e sentir-me incapaz de fazer às cegas o caminho de regresso a mim próprio? Talvez seja dessa maneira que a morte irá finalmente apoderar-se de mim.
Heniek, enquanto ouço o zumbido paciente do candeeiro de petróleo pousado entre nós, e observo a dança trémula da sua chama azul, a gratidão que me invade abraça-me, como fez o Adam quando lhe disse que havíamos de visitar Nova Iorque juntos. E o contentamento que sinto por ter conseguido falar consigo segreda-me ao ouvido: apesar de todas as tentativas dos Alemães para refazer o mundo, as leis naturais continuam a existir.
Por isso, tenho de lhe contar a minha história pela ordem certa, senão ainda vou sentir-me tão perdido quanto o Hansel e a Gretel.
E, ao contrário dessas crianças cristãs, não tenho migalhas de pão para marcar o meu caminho de regresso a casa. Porque não tenho casa. Foi isso que me ensinou o regresso à cidade em que nasci.
Primeiro vamos falar de como o Adam desapareceu, e voltou para nós sob forma diferente. E depois, vou contar-lhe como a Stefa me fez acreditar em milagres.
É sempre difícil escrever sobre a obra de alguém de quem gostamos. É sempre fácil deixar que a amizade, as cumplicidades do quotidiano, as private jokes e um sem número de outras condicionantes próprias da proximidade toldem a visão e impeçam o necessário distanciamento exigido pela objectividade e pela justiça. Ainda assim, há excepções a esta regra que nem sequer o é. Quando um livro, um romance ou uma novela, neste caso, nos consegue convencer que transporta em si um universo que transcende quem o escreve, aí, a relação do leitor com o texto ganha independência e a tarefa de escrever sobre a obra liberta-se daquelas que podiam ser as restrições iniciais implícitas ditadas pela amizade.
Foi exactamente isto que senti ao voltar a página 260 do manuscrito intitulado O Trompete de Miles Davis, da autoria de Francisco Duarte Azevedo — o facto dele ser meu amigo, talvez o meu melhor amigo, se é que gradações aqui têm algum significado, pouco ou nada influiu na minha relação com o romance. Só por si, tanto o novelo narrativo como as personagens que dá a conhecer fazem de O Trompete de Miles Davis um texto cativante. Só isso já seria suficiente para despertar a atenção e a agarrar, mas a tudo isto junta-se o facto de ser bastante bem escrito — temperado aqui e ali com rasgos de um humor pícaro e de uma introspecção que raramente se conseguem casar entre a capa e a contra-capa do mesmo romance. Depois são também os lugares: a cidade de Newark — a pouco menos de 15 quilómetros de Nova Iorque —, o Ironbound, a Ferry Street, ícones da geografia e das emoções da imensa comunidade portuguesa emigrante de New Jersey. Na prática, se não estou enganado, este é o primeiro romance a retratar a diáspora lusitana destas paragens dos Estados Unidos. Nova Iorque também lá está, tal como o jazz, ambos catalogados num registo nítido reservado às paixões.
Usando os contornos da tradicional narrativa de um policial, como artifício para contar histórias que pouco ou nada têm a ver com as minúcias investigativas a que nos habituaram os CSI que vão enxameando os serões televisivos, O Trompete de Miles Davis tem como personagem principal um detective sem nome, um luso-americano introspectivo, um “coleccionador de rotinas”, como o descreve Francisco, que nos vai contanto os passos da sua vida e a forma como ela se altera a partir do dia em que o trompete verde de Miles Davis desaparece da biblioteca do Instituto de Estudos de Jazz da Rutgers University, em Newark (ver Institute of Jazz Studies, Rutgers University Libraries). Pelo meio, por entre uma trama por vezes leve e divertida, este detective é forçado a encarar coisas tão austeras como a morte e a deterioração (da cidade, do amor, das relações, dos corpos). Mas não se pense que O Trompete de Miles Davis é um romance pesado, antes pelo contrário. O grande trunfo que Francisco Duarte Azevedo tem ali é ter sido capaz de transportar numa narrativa descontraída, trabalhada com os sabores da linguagem do quotidiano, um romance fortemente introspectivo que merece sem dúvida absolutamente nenhuma ser chamado Literatura.
(a meu pedido, o Francisco acedeu a que desse a conhecer aqui, em pré-publicação e estreia absoluta, um pequeno excerto da abertura do romance)
O Trompete de Miles Davis
Francisco Duarte Azevedo
I PARTE
1.
Uma manhã de fevereiro dois mil e sete entrei no escritório como habitualmente. E antes de entrar, poli a placa metálica com o meu nome, fixei o horizonte indigo ao fundo do corredor, rodei o trinco da porta e enfrentei a confusão dos montículos de jornais e revistas que Mary Sue espalhava estrategicamente na sala de espera para ser mais fácil pegar num exemplar sem uma pessoa ter de se levantar do seu lugar. Todos os montículos estavam ao alcance de um braço ou da inclinação do tronco. Não era preciso tanto. A sala permanecia vazia a maior parte do tempo e nem havia muito para fazer.
Eu tinha comprado uma mesa de centro num yard sale, uma mesa quadrada, em madeira, meio rústica que Mary Sue detestava e cobria com revistas e jornais lidos e remexidos para que não se vissem senão as quatro pernas de trinta centímetros de altura em forma de traves de baliza de um campo de futebol de salão, carunchosas e repassadas de verniz mate. Sobre a mesa pairava o cheiro fresco de papel impresso vindo do exemplar do Star Ledger liberto dos periódicos empilhados no quiosque do lobby level. Era uma loja gerida por um indiano que, tendo o negócio às moscas o dia inteiro (o maior afluxo de clientes via-se na primeira hora da manhã), mudava permanentemente de lugar todos os recheios para dar a sensação de uma grande azáfama. Havia também pastilhas elásticas e medicinas de venda livre, aspirinas, tylenol, advil, aleve, preservativos, chocolates, sumos, bolachas, tostitos, caramelos, postais de felicitações e muitas outras coisas que não valiam um carago. Havia uma máquina de levantamentos automáticos com um aviso pedindo desculpas pela inconveniência de nunca funcionar.
O exemplar fora posto num ponto cartográfico impossível de contornar, estava ali para chamar a atenção e travar as minhas passadas largas e apressadas. Tinha sido empurrado para a sala de entrada por um dos virtuosos ou até, quem sabe, um passa-paredes divertido e fugaz. Um título a preto, em caixa, ocupava o cabeçalho da primeira página e era difícil não o ver.
Miles Davis trumpet stolen
Roubado o trompete de Miles Davis
Não esperava voltar a falar sobre jazz. Não esperava de verdade. Eu já não vivia com Glory e Willy também já não estava ali. Deixei de ter com quem falar sobre jazz. A possibilidade de voltar a falar de jazz era muito pequena. Mas aquela notícia alterou tudo.
Vi muitas vezes esse trompete exposto na vitrina do instituto de jazz da Dana Library e imaginava os sons que dele se desprendiam como a batida de tranquilas vagas de maré na vazante rodopiando e retrocedendo e voltando a rodopiar. Comecei a criar hologramas de Miles por toda a parte e, onde quer que estivesse, ele tornara-se uma espécie de presença viva competindo com divindades e cores. Vi sempre cores, uma imperturbável e explosiva mistura de cores nas composições de Miles.
(…)
Acaba de ser posto à venda em Portugal, com chancela da Quetzal, O Velho Expresso da Patagónia, de Paul Theroux, a minha primeira tradução literária — lançado exactamente 30 anos depois da sua edição original americana. A experiência da tradução (que tinha já sido anunciada em Novembro no blogue da revista LER, ver Paul Theroux – LER), não podia ter sido melhor. Arrisco mesmo confessar que esta foi a minha mais gratificante experiencia profissional — ao ponto de me ter feito repensar muita coisa; afinal a vida é demasiado curta para que não se invista verdadeiramente no que se gosta. Prometo contar novidades em breve…
Paul Theroux esteve na semana passada em Matosinhos, onde participou no IV Encontro Literatura em Viagem (ver IOL Diário – 40 escritores falam de viagens em Matosinhos e Notícia – C.M. Matosinhos: LEV com vasto público dos «oito aos oitenta»). Aproveitando a ocasião, Isabel Coutinho e Paulo Moura fazem-lhe uma deliciosa e imperdível entrevista, publicada na última edição da Ípsilon: Paul Theroux: “Quero que me aconteça alguma coisa hoje” (Isabel Coutinho, aliás, estreou o seu Sony Reader com a leitura de O Velho Expresso da Patagónia).
O Ilídio Martins aproveitou ainda o lançamento do livro como pretexto para escrever sobre o estado da literatura de viagens entre os escritores portugueses, no seu Esmaltes e Jóias
eram pegadas, legiões, bandos,
autómatos caminheiros, peregrinos
sem bordão, que as promessas
vivas navegavam entre os corpos
e as incertezas, pisavam a lama
tijolos de adobe, inconsistente
desespero do sangue dos braços
caídos, sem forças para erguer
clamores, lamentos inauditos,
inaudíveis fronteiras de aço,
gritos de nevoeiro rasgado,
urgência de um clarão
para lá do abandono. porquê
… as eternas diferenças
intemporais?! anjos
Poema de João S Martins, aguarela de Fernando Silva (inéditos).
Hoje, 21 de Abril de 2009, assinala-se o Yom HaShoá, o Dia da Memória do Holocausto. A cada passo, o presente recorda-nos a necessidade premente de nos tornarmos — cada um de nós — guardiões da Memória. Porque essa Memória é a voz de milhões de vozes. É a nós que nos cabe garantir que não foram caladas em vão.
Um muito obrigado ao João Martins e ao Fernando Silva pela generosidade dos seus talentos.
Procuro,
folheio livros e livros,
em busca de um poema,
de um parágrafo, de uma frase,
que me falasse de ti
sem que eu tivesse que procurar-te
nas minhas entranhas.
Celan, Heine e Ginsberg não te conheceram,
e nem nos seus mais tristes versos
contam a falta que me fazes.
Mas as palavras dos outros são sempre
mais fáceis. Mais distantes.
Procurei,
em livros e livros,
um poema, um parágrafo, uma frase,
que me resguardasse da mágoa,
como janela de vidro protegendo o rosto
da chuva.
Mas nada do que leio
chega para contar o que sinto. I miss you
Perco-te. Perdi-te.
Mais do que saudade, que a saudade,
a dor verdadeira está na eternidade
da tua ausência. I miss you
Perco-te. Perdi-te.
Nada que eu faça — nem que galgue quilómetros,
nem que nade o Atlântico — fará com que
me beijes novamente a testa,
que me chames outra vez filhote.
Fecho os livros. Não há poemas
que me possam abrigar a ferida em chaga
que faz hoje dois anos se me abriu na alma.
Com o rosto molhado de lágrimas, desvio
o olhar para a janela. Fixando as luzes da cidade
sob o fundo negro do céu e do rio, vejo o teu rosto
como se estivesses ao meu lado.
Instintivamente levo as mãos aos olhos,
para os secar.
Não quero que me vejas chorar.
Um homem encarcerado e enfeitiçado
um homem condenado a ser serpente
que guarda um ouro infame,
um homem condenado a ser Shylok,
um homem que se inclina sobre a terra
e sabe que esteve no Paraíso,
um homem velho e cego que há de destruir
as colunas do templo,
um rosto condenado a ser máscara,
um homem que apesar dos homens
é Espinosa e o Baal Shem e os Cabalistas,
um homem que é o Livro,
um homem que louva do abismo
a justiça do firmamento,
um advogado ou um dentista
que falou com Deus na montanha,
um homem condenado a ser o escárnio,
a abominação, o judeu,
um homem lapidado, incendiado
e atirado em câmaras letais,
um homem que se obstina em ser imortal
e que agora voltou à sua batalha,
à violenta luz da vitória,
formoso como um leão ao meio-dia.
Jorge Luis Borges, Elogio de la sombra (1969) (Republicação. Tradução minha)
Acabados de arrebanhar quatro Oscares com No Country for Old Man, os Irmãos Joel e Ethan Coen estão a preparar dois filmes com temas judaicos. O primeiro projecto chama-se A Serious Man, mas o que me prendeu a atenção foi o segundo: uma adaptação cinematográfica do romance The Yiddish Policemen’s Union, de Michael Chabon.
Lembram-se de Fargo? Da omnipresença da neve, da claustrofobia das imensidões infinitamente brancas? Sim?! Agora polvilhem por lá uns milhões de judeus e terão o início de The Yiddish Policemen’s Union — um livro que mistura a ficção histórica com o que de melhor se pode desejar num romance policial. Chabon escreve aqui como se Sholem Aleichem ou Isaac Bashevis Singer se tivessem fundido com Raymond Chandler. Phillip Roth que me perdoe, mas The Yiddish Policemen’s Union é o melhor romance que li nos últimos meses. E o detective Meyer Landsman é o melhor personagem de um policial desde Phillip Marlowe, Sam Spade e Jaime Ramos.
A premissa conta-se em poucas linhas: depois do Holocausto, os judeus perdem a guerra da Independência de Israel, em 1948, e são forçados a aceitar o asilo temporário concedido no Alasca pelo presidente americano Franklin Roosevelt. Por incrível que possa parecer à primeira vista, esta proposta do Departamento do Interior dos EUA existiu de facto (ver Slattery Report), mas a sua votação no plenário do Congresso nunca chegou a acontecer por veemente oposição do congressista do Alasca Anthony Dimond.
Neste universo gelado Chabon inventa todos os pormenores de um quotidiano alternativo, chegando ao detalhe de engendrar, por exemplo, um calão que, de uma forma natural como o ar que ali se respira, mistura palavras hebraicas com sonoridades do iídiche e do inglês — piece (literalmente pedaço ou peça em inglês), no jargão noir quer dizer arma, mas a palavra lembra também a sua homófona peace (que quer dizer paz), logo, naquela imaginária colónia judaica do Alasca, que poderiam polícias, ladrões e gangsters chamar às suas armas senão… shalom. Pois. Se a adaptação cinematográfica não vai ser uma tarefa fácil, não menos complexa será a tradução do livro para português. O penúltimo livro de Michael Chabon, As Espantosas Aventuras de Kavalier & Clay teve já edição portuguesa, dada à estampa pela Gradiva, mas The Yiddish Policemen’s Union é um verdadeiro grau 9 na Escala de Richter para qualquer tradutor menos preparado.
Enquanto me deliciava com o romance, parei muitas vezes a meio de uma página, coçando o queixo e tentando antever como iria o tradutor português desvencilhar-se do primoroso nó cego que Michael Chabon acabava de dar numa frase brilhante. Não invejo o tradutor português de The Yiddish Policemen’s Union que, para além de um inglês americano com arcaboiço significativo, terá de ter conhecimentos de hebraico e iídiche — tudo isto misturado com uma necessária fluência de cultura e costumes judaicos.
Não invejo? Se calhar, o problema é que invejo mesmo… sim, porque há gente com muita sorte!
Seios soltos
Desejo envolto
Ensejo.
Percurso de
Solfejo sôfrego —
O teu corpo.
Este é um poema antigo, envergonhadamente meu, escrito em Lisboa há quase duas décadas. Tem exactamente 12 palavras, tantas quantas me foram amavelmente pedidas pelo Ricardo António Alves e pelo Luís Simões.
Com um abraço a ambos.
Ilustração: três nus de Anna Akhmatova desenhados pelo lápis de Amadeo Modigliani, judeu italiano, em 1911
Há aqueles que descobrem que são Judeus.
E não podem acreditar.
Sempre odiaram Judeus.
Ainda crianças, vagueavam em bandos nas noites de Inverno
no velho bairro, à procura de Judeus.
Não eram Judeus, eram Irlandeses.
Agitavam garrafas quebradas, gajos rijos com sangue nos
lábios, à procura de Judeus.
Apanhavam rapazes Judeus andando sozinhos e batiam-lhes.
Às vezes ficavam satisfeitos por perseguir um Judeu que lhes
escapava fugindo. Ficavam contentes de o ver assim
a fugir. O cobarde! Todos os judeus eram medrosos.
Escreviam Judeu com um j pequeno.
E agora descobrem que eles próprios são Judeus
Aconteceu por alturas da Inquisição.
Para escapar à perseguição, fingiram converter-se à Cristandade.
Vieram para cá e estabeleceram-se no Sudoeste.
Ninguém viria a saber se não fossem os ossos aparecidos
na escavação.
Que desastre. Como podia isto acontecer-lhes? (…)
Excerto do poema A Little History, de David Lehman.
Tradução minha, com a devida vénia a Ana Murteira, que me sugerira o poema há alguns meses.
You depart while others, unamazingly enough, stay behind to continue doing what they’ve always done – and upon returning, you are surprised and momentarily thrilled to see that they are still there, and, too, reassured by there being somebody who is spending his whole life in the same little place and who as no desire to go.”
Das navegações à distancia
que empreendemos de costa a costa
sob motivos e circunstancia
de exorcismos e alguma esperança
de fugirmos ao pedaço circunscrito
do legado ou povoado
onde parimos nossos filhos,
ficou essa paisagem do mar
em fim de terra, da tarde em fim de mar
e da terra cruzada por esses ambos elementos
mais a saudade tremelicando nos dedos
dos que partidos se foram
definitivamente
somente com a ideia de voltar
quando do cabo do mundo
trouxessem a mágica fórmula
de enriquecer para nos serões
com nossa prole recordarmos
gestas, historietas, lendas e canções
de anónimos heróis,
sábios poetas e cavaleiros andantes
despidos de andrajos dourados
e apenas fardados de suas palavras
exigindo às tábuas da lei
a única porção de chão
onde depositar seu corpo
com vistas para o vasto oriente
de um promontório extremo.
Como uma barca “roja” atracada
em fim de tarde.
Francisco Duarte Azevedo Newport, Jersey City, 5 de Outubro de 2007
Depois de alguma insistência, o Francisco deixou que eu publicasse aqui este seu belíssimo poema – um poema de Diáspora – feito a partir do quadro, também de sua autoria, que aqui o ilustra. Já agora, aconselho uma passagem pela galeria online onde o Francisco tem expostos alguns dos seus quadros. É só seguir o link: aqui.