
É sempre difícil escrever sobre a obra de alguém de quem gostamos. É sempre fácil deixar que a amizade, as cumplicidades do quotidiano, as private jokes e um sem número de outras condicionantes próprias da proximidade toldem a visão e impeçam o necessário distanciamento exigido pela objectividade e pela justiça. Ainda assim, há excepções a esta regra que nem sequer o é. Quando um livro, um romance ou uma novela, neste caso, nos consegue convencer que transporta em si um universo que transcende quem o escreve, aí, a relação do leitor com o texto ganha independência e a tarefa de escrever sobre a obra liberta-se daquelas que podiam ser as restrições iniciais implícitas ditadas pela amizade.
Foi exactamente isto que senti ao voltar a página 260 do manuscrito intitulado O Trompete de Miles Davis, da autoria de Francisco Duarte Azevedo — o facto dele ser meu amigo, talvez o meu melhor amigo, se é que gradações aqui têm algum significado, pouco ou nada influiu na minha relação com o romance. Só por si, tanto o novelo narrativo como as personagens que dá a conhecer fazem de O Trompete de Miles Davis um texto cativante. Só isso já seria suficiente para despertar a atenção e a agarrar, mas a tudo isto junta-se o facto de ser bastante bem escrito — temperado aqui e ali com rasgos de um humor pícaro e de uma introspecção que raramente se conseguem casar entre a capa e a contra-capa do mesmo romance. Depois são também os lugares: a cidade de Newark — a pouco menos de 15 quilómetros de Nova Iorque —, o Ironbound, a Ferry Street, ícones da geografia e das emoções da imensa comunidade portuguesa emigrante de New Jersey. Na prática, se não estou enganado, este é o primeiro romance a retratar a diáspora lusitana destas paragens dos Estados Unidos. Nova Iorque também lá está, tal como o jazz, ambos catalogados num registo nítido reservado às paixões.
Usando os contornos da tradicional narrativa de um policial, como artifício para contar histórias que pouco ou nada têm a ver com as minúcias investigativas a que nos habituaram os CSI que vão enxameando os serões televisivos, O Trompete de Miles Davis tem como personagem principal um detective sem nome, um luso-americano introspectivo, um “coleccionador de rotinas”, como o descreve Francisco, que nos vai contanto os passos da sua vida e a forma como ela se altera a partir do dia em que o trompete verde de Miles Davis desaparece da biblioteca do Instituto de Estudos de Jazz da Rutgers University, em Newark (ver Institute of Jazz Studies, Rutgers University Libraries). Pelo meio, por entre uma trama por vezes leve e divertida, este detective é forçado a encarar coisas tão austeras como a morte e a deterioração (da cidade, do amor, das relações, dos corpos). Mas não se pense que O Trompete de Miles Davis é um romance pesado, antes pelo contrário. O grande trunfo que Francisco Duarte Azevedo tem ali é ter sido capaz de transportar numa narrativa descontraída, trabalhada com os sabores da linguagem do quotidiano, um romance fortemente introspectivo que merece sem dúvida absolutamente nenhuma ser chamado Literatura.
(a meu pedido, o Francisco acedeu a que desse a conhecer aqui, em pré-publicação e estreia absoluta, um pequeno excerto da abertura do romance)
O Trompete de Miles Davis
Francisco Duarte Azevedo
I PARTE
1.Uma manhã de fevereiro dois mil e sete entrei no escritório como habitualmente. E antes de entrar, poli a placa metálica com o meu nome, fixei o horizonte indigo ao fundo do corredor, rodei o trinco da porta e enfrentei a confusão dos montículos de jornais e revistas que Mary Sue espalhava estrategicamente na sala de espera para ser mais fácil pegar num exemplar sem uma pessoa ter de se levantar do seu lugar. Todos os montículos estavam ao alcance de um braço ou da inclinação do tronco. Não era preciso tanto. A sala permanecia vazia a maior parte do tempo e nem havia muito para fazer.
Eu tinha comprado uma mesa de centro num yard sale, uma mesa quadrada, em madeira, meio rústica que Mary Sue detestava e cobria com revistas e jornais lidos e remexidos para que não se vissem senão as quatro pernas de trinta centímetros de altura em forma de traves de baliza de um campo de futebol de salão, carunchosas e repassadas de verniz mate. Sobre a mesa pairava o cheiro fresco de papel impresso vindo do exemplar do Star Ledger liberto dos periódicos empilhados no quiosque do lobby level. Era uma loja gerida por um indiano que, tendo o negócio às moscas o dia inteiro (o maior afluxo de clientes via-se na primeira hora da manhã), mudava permanentemente de lugar todos os recheios para dar a sensação de uma grande azáfama. Havia também pastilhas elásticas e medicinas de venda livre, aspirinas, tylenol, advil, aleve, preservativos, chocolates, sumos, bolachas, tostitos, caramelos, postais de felicitações e muitas outras coisas que não valiam um carago. Havia uma máquina de levantamentos automáticos com um aviso pedindo desculpas pela inconveniência de nunca funcionar.O exemplar fora posto num ponto cartográfico impossível de contornar, estava ali para chamar a atenção e travar as minhas passadas largas e apressadas. Tinha sido empurrado para a sala de entrada por um dos virtuosos ou até, quem sabe, um passa-paredes divertido e fugaz. Um título a preto, em caixa, ocupava o cabeçalho da primeira página e era difícil não o ver.
Miles Davis trumpet stolen
Roubado o trompete de Miles DavisNão esperava voltar a falar sobre jazz. Não esperava de verdade. Eu já não vivia com Glory e Willy também já não estava ali. Deixei de ter com quem falar sobre jazz. A possibilidade de voltar a falar de jazz era muito pequena. Mas aquela notícia alterou tudo.
Vi muitas vezes esse trompete exposto na vitrina do instituto de jazz da Dana Library e imaginava os sons que dele se desprendiam como a batida de tranquilas vagas de maré na vazante rodopiando e retrocedendo e voltando a rodopiar. Comecei a criar hologramas de Miles por toda a parte e, onde quer que estivesse, ele tornara-se uma espécie de presença viva competindo com divindades e cores. Vi sempre cores, uma imperturbável e explosiva mistura de cores nas composições de Miles.
(…)
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