Um mundo (novo) à nossa espera

Já aqui falei da sua prosa; já mostrei a sua pintura (também aqui); e até a sua poesia. Agora, gostava de recomendar o novíssimo blog do meu querido amigo Francisco Duarte Azevedo: sob o título O Mundo à Nossa Espera, é um espaço exactamente igual ao seu autor — bom, generoso, erudito, sem pretensiosismo, e imensamente agradável. Vale a pena passar por lá. E ir voltando. Parabéns pelo blog, Francisco. E obrigado por o escreveres.

Rua da Judiaria no Facebook

A Rua da Judiaria conta, já há algum tempo, com uma página no Facebook, facultando assim aos leitores uma plataforma para trocar ideias, colocar questões, partilhar fotos e experiências. O espaço encontra-se aberto a todos os que quiserem e sentirem desejo de participar. É só clicar aqui: Rua da Judiaria no Facebook (se ainda não tem conta no Facebook poderá também criar uma facilmente).
Entretanto, estejam atentos, porque o blog vai voltar a ter actualizações mais frequentes… muito, muito em breve.

Mais vale tarde que nunca…

Pronto, ainda sem perceber muito bem a coisa (cheirando-lhe os cantos como um gato em casa nova), mas já fascinado com as possibilidades, resolvi aderir ao Twitter. Os leitores que desejarem, e tiverem paciência, podem seguir-me em http://twitter.com/nguerreiroj. Lá twitterei diariamente em três línguas (português, inglês e hebraico), escrevendo sobre tudo e sobre nada. O meu Twitter, é claro, encerra para o shabbat.
Shabbat shalom!

Clave de Sol


Seios soltos
Desejo envolto
Ensejo.
Percurso de
Solfejo sôfrego —
O teu corpo.

Este é um poema antigo, envergonhadamente meu, escrito em Lisboa há quase duas décadas. Tem exactamente 12 palavras, tantas quantas me foram amavelmente pedidas pelo Ricardo António Alves e pelo Luís Simões.
Com um abraço a ambos.

Ilustração: três nus de Anna Akhmatova desenhados pelo lápis de Amadeo Modigliani, judeu italiano, em 1911

5(000) Filmes


Luís Simões, autor do Elypse, desafia-me a nomear os “meus” 5 filmes. Os critérios são, obviamente, pessoais e subjectivos. Então, aqui vão eles, por ordem cronológica:

The Jazz Singer (1927)

Casablanca (1942)

Night on Earth (1991)

Urga (1991)

Everything Is Illuminated (2005)

As listas, por definição, têm sempre de ser redutoras. Esta, por exemplo podia sem bem mais longa… houve um número quase infindável de filmes que me marcaram em diferentes momentos da minha vida. Fosse a lista maior, poderia acrescentar mais estes (pela ordem a que me vêm à cabeça):

8 ½, de Felilni; Schindler’s List, de Spielberg; Miller’s Crossing, Fargo e The Big Lebowski, dos irmãos Ethan e Joel Coen; Fanny & Alexander, de Ingmar Bergman; 400 Coups, de Truffaut; Der Himmel über Berlin (Asas do Desejo), de Wim Wenders; Aguirre, der Zorn Gottes (Aguirre o Aventureiro), de Werner Herzog; Chinatown, de Roman Polanski; The Maltese Falcon (A Relíquia Macabra), de John Huston; The Big Sleep, de Howard Hawks; Captains Courageous, de Victor Fleming; The Godfather (a trilogia), de Coppola; Citizen Kane, de Orson Wells; The Cradle Will Rock, de Tim Robbins; Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore; The Graduate, de Mike Nichols; To Kill a Mockingbird, de Robert Mulligan; Mississippi Burning, de Alan Parker; Short Cuts, de Robert Altman; Spartacus, Dr. Strangelove e Full Metal Jacket, de Stanley Kubrick; Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa; La Vingt-cinquième Heure (A 25ª Hora), de Henri Verneuil; Coffee and Cigarretts, Dead Man e Broken Flowers, de Jim Jarmusch; Lost in Translation, de Sofia Coppola; In the Heat of the Night, Fiddler on the Roof (Violino no Telhado) e Moonstruck (O Feitiço da Lua) de Norman Jewison; Au revoir, les enfants, de Louis Malle; Big Night, de Stanley Tucci; Love and Death, Take the Money and Run, Annie Hall, Manhattan, Hannah and Her Sisters, Zelig, Hollywood Ending e Scoop, de Woody Allen…
Havia mais, muitos mais, numa lista que, a continuar, seria cada vez mais incongruente e contraditória.

Para prosseguir esta “corrente” gostaria agora de convidar Francisco José Viegas, Rui Cerdeira Branco, Heitor, Ricardo António Alves e Filinto Melo a darem conta dos seus 5 filmes de eleição.

Hanuká com Manhattan em fundo

Uma das primeiras grandes lições de Kabbalah que o rabino Solomon me deu em Los Angeles condensava-se numa simples frase composta por três palavras: “Não há coincidências.” O judaísmo é pródigo em frases destas; aparentemente simples, aparentemente banais, mas densas de significados – cada uma destas frases é um verdadeiro novelo hermenêutico –, tal como, para um olhar destreinado, um diamante pode aparentar não ser mais do que um simples pedaço de vidro.
Na primeira noite de Hanuká, o Francisco José Viegas, fez-me uma enorme surpresa mas, ao evocar o milagre do reencontro, o Francisco nem imaginava este milagre da coincidência: no exacto local onde, em Fevereiro, tirámos aquela foto, ergue-se hoje um imenso Hanukiá – o candelabro de nove braços acendido paulatinamente durante os oito dias de Hanuká. A foto acima, tirada ao fim da tarde gélida que marcou o início do terceiro dia de Hanuká, com Manhattan e o fantasma das Torres Gémeas do World Trade Center no outro lado do rio, prova o feliz acaso. Se é que as coincidências existem mesmo…

Feliz Hanuká (!חנוכה שמח)


::PARA OUVIR::

Hanukkah Dance, de Woody Guthrie, o baladeiro de Oklahoma, gravada na década de 40 por Moses Asch, fundador da Folkways Records, de Nova Iorque (ver Smithsonian Global Sound: The Asch Recordings, Vol. 1-4)

Esta inesperada e deliciosa cantiga – fruto, entre outras coisas, da profunda amizade que Woody Guthrie nutria pela sua sogra, a poetiza yiddish Aliza Greenblatt – serve de mote para desejar a todos os leitores da Rua da Judiaria um feliz Hanuká. Que o Festival das Luzes possa trazer milagres, saúde e paz.
O Francisco José Viegas aproveitou o primeiro dia de Hanuká para me fazer uma grande surpresa, oferecendo-me a mais valiosa das prendas. Um abraço imenso para ti Francisco, e espero logo mais poder responder-te na mesma moeda… como? É surpresa…

Outras Judiarias

NÃO ESPALHEM: No filme “Capitão Alatriste” (com o Vigo Mortensen um bocado desfasado como soldado espanhol do século XVII) há uma cena do cerco católico a Breda. No meio dos espanhóis aparece um soldado português que os companheiros não têm em grande conta: “Vocês, portugueses, são todos meios judeus”.
Filipe Nunes Vicente, no Mar Salgado

JUDEN: Conversava sobre literatura alemã com o senhor E. O senhor E., cultíssimo e (mesmo assim) quase nazi, discordava de tudo o que eu ia dizendo. Em meu abono, comecei a frase “O George Steiner escreveu que”. O senhor E. não me deixou sequer citar. Fez um gesto de desprezo e declarou: “O George Steiner é judeu”.
Isto foi há uns 3 anos. Hoje, um sujeito do outro extremo ideológico chamou-me “sionista” porque eu sou entusiasta de Philip Roth. Tendo em conta que Roth não é cidadão israelita nem apoiante da política israelita, “sionista” neste contexto quer dizer simplesmente: “judeu”.
Dizer que “os extremos se tocam” é cada vez mais um eufemismo.
Pedro Mexia no Estado Civil

JUDEN (2): Primeiro passei pela estante do romance: tirei Kafka e Proust. E Bellow, Malamud, Perec, Bruno Schulz e Joseph Roth. Trouxe também os contos de Isaac Babel. Da pequena secção italiana extraí Natalia Ginzburg e Primo Levi. Dei com uns ensaios de Cynthia Ozick que nem sabia que tinha. Na poesia, estavam Osip Mandelstam e Leonard Cohen.
Atei-os todos num pacote de papel pardo, com umas guitas. Amanhã vou devolvê-los à Embaixa de Israel. Não quero cá em casa autores coniventes com o belicismo sionista.
Pedro Mexia no Estado Civil

DE GALEGOS E XUDEUS: Non sei por que na Lisboa de hai séculos galegos e xudeus compartían o odio dos cidadáns do común ata o punto de a paremioloxía lusitana recoller un acusatorio “De galegos e judeus, dos melhores livra-nos Deus”.
Afonso Vázquez-Monxardín, em Vieiros: Galiza Hoxe

Os antisemitazinhos

Os antisemitazinhos contemporâneos aprenderam a dizer que as acusações de antisemitismo, de que merecidamente são alvo, são apenas uma forma de os “fazer calar”. Mas, a despeito da lógica do seu próprio argumento, estes antisemitazinhos não se calam.
Tal como é definido por qualquer dicionário decente, antisemitismo (recuso-me a utilizar o hífen pelo simples facto de não se tratar de uma palavra composta, mas sim criada originalmente nesta sua forma – Der Antisemitismus – para traduzir unicamente ódio aos judeus), é antisemita quem alimenta, e se orgulha em exibir, uma profunda antipatia particular em relação aos judeus. Mesmo que diga não ser antisemita, um(a) antisemitazinho(a) é sempre um(a) antisemita.

Monumento à memória das vítimas do massacre de 1506


A Câmara Municipal de Lisboa vai discutir na quarta-feira, dia 31 de Outubro, a criação de um monumento evocativo da memória dos milhares de judeus portugueses assassinados na capital durante os sangrentos motins de 19, 20 e 21 de Abril de 1506. A proposta parte do vereador José Sá Fernandes, do Bloco de Esquerda, e conta com o apoio dos vereadores do PS e da vereadora Helena Roseta.
Segundo a proposta de Sá Fernandes o monumento será instalado no Largo de São Domingos, ao Rossio, local onde há 500 anos começaram os motins.
Aqui segue na integra a nota que nos chegou do gabinete do vereador José Sá Fernandes:

Na próxima sessão pública da CML, dia 31 de Outubro, Quarta-feira, o Vereador José Sá Fernandes irá propor a criação em Lisboa de um Memorial às Vítimas da Intolerância, evocativo do massacre judaico ocorrido na Cidade, em 1506, e de todas as vítimas que sofreram a discriminação e o aviltamento pessoal pelas suas origens, convicções ou ideias.
A 19, 20 e 21 de Abril de 1506, Lisboa foi palco do mais dramático e sanguinário episódio antijudaico de todos os que são conhecidos no nosso território, quando, por mera suspeita de professarem o judaísmo, foram barbaramente assassinados e queimados cerca de dois mil lisboetas.
Os acontecimentos tiveram início junto ao Convento de São Domingos (actual Largo de São Domingos) e culminaram em duas enormes fogueiras, no Rossio e na Ribeira, onde os crimes foram perpetrados.
O Vereador José Sá Fernandes propõe que a CML assinale estes acontecimentos, fazendo justiça póstuma a todas as vítimas da intolerância, naquilo que considera que constituirá uma afirmação inequívoca de Lisboa como cidade cosmopolita, multiétnica e multicultural, através da instalação de um Memorial às Vítimas da Intolerância, no Largo de São Domingos.
O memorial deverá ter, como elemento central, uma oliveira de grande porte e contemplará ainda uma lápide evocativa do massacre de 1506.
O arranjo urbanístico da área envolvente, a sua concepção, execução e instalação serão assegurados pelos serviços municipais.
De acordo com a proposta, a inauguração do Memorial deverá ter lugar no dia 19 de Abril de 2008, numa cerimónia promovida pela Câmara Municipal de Lisboa, para a qual serão convidadas todas as comunidades étnicas e religiosas da Cidade.
O Vereador José Sá Fernandes congratula-se pelo facto dos Senhores Vereadores do PS e da Senhora Vereadora Helena Roseta se terem associado a esta proposta, subscrevendo-a em conjunto.

::A LER:: 500 Anos do Massacre de Lisboa: Salomão Ibn Verga / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Garcia de Resende / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Samuel Usque / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Damião de Góis / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Alexandre Herculano / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Camilo Castelo Branco / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Oliveira Martins / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Ferreira Fernandes / 500 Anos do Massacre de Lisboa IX: Memória e Esquecimento

Quatro anos de Judiaria

Hoje, 27 de Outubro de 2007, faz precisamente quatro anos que a Rua da Judiaria nasceu na blogosfera.
Obrigado a todos os leitores que por aqui vão passando, permitindo que um simples blog sobre um tema tão restrito tenha alcançado, até ao momento em que escrevo, 1.813.044 visitas, a uma média de cerca de 2 mil leitores diários.
A 27 de Outubro de 2003 estava longe de imaginar que tal poderia ser possível.

ADENDA: Obrigado pelas amáveis referências: Francisco José Viegas; João Carvalho Fernandes; Heitor; Luís Novaes Tito; Miguel Noronha; Mário Pires; Filinto Melo; Teresa Castro; Armando Rocheteau; Miguel Lomelino; Jorge Ferreira; Justo; Elsa Ribeiro; Marco Oliveira; José Pimentel Teixeira; João Tunes; Sérgio Aires; Philosemite; Adolfo Mesquita Nunes; Pedro Gómez Valadés; Pedro Correia; Joaquim Moreira; João Moreira; Maria Fragoso; Nérida Madeira; Cristina Gomes da Silva…
(em actualização)

Os nossos fantasmas em Salónica

A Chave em Salónica

Abarbanel, Farias ou Pinedo
atirados de Espanha por ímpia
perseguição, conservam todavia
a chave de uma casa de Toledo.

Livres agora da esperança e do medo,
olham a chave ao declinar do dia;
no bronze há outroras, distância,
cansado brilho e sofrimento quedo.

Hoje que sua porta é poeira, o instrumento
é cifra da diáspora e do vento,
como essa outra chave do santuário

que alguém lançou ao azul quando o romano
com fogo temerário acometeu,
e que no céu uma mão recebeu.

Jorge Luís Borges,
in El Otro, El Mismo, 1964

Este belo poema de Borges – que se considerava a si próprio um descendente de judeus portugueses fugidos da Inquisição –, vem a propósito de um interessante post no Abrupto sobre Salónica e sobre os fantasmas de uma cidade que, durante séculos, serviu de refúgio e morada a uma florescente comunidade de judeus portugueses e espanhóis que acabaria por ser aniquilada quase na totalidade pelos nazis entre 1941 e 1944. Hoje, dos sefarditas de Salónica pouco ou nada resta. Aconselho vivamente a leitura do texto de José Pacheco Pereira: Nunca é tarde para aprender: “Las mocicas de agora / todas vistem de tango”.
Leiam o que por lá se escreve e, depois, regressem à Judiaria para ouvir uma melodia cantada em Salónica, nessa língua mesclada de português e castelhano que os judeus ibéricos levaram para os lados do Levante. Chama-se “Morenica”, cantada por Savina Yannatou, do álbum “Primavera en Salonico”.
Escutem.


Savina YannatouMorenica
in Primavera en Salonico

Dois judeus… uma sinagoga! *


Francisco José Viegas e o autor da Judiaria, com Manhattan em fundo. Fez-me muito bem ver-te por estes lados.

* referência a um velho provérbio judaico cuja essência incontestável deita logo por terra a base de muitas teorias da conspiração: “Onde há dois judeus tem de haver três sinagogas: uma onde tu vais e eu não vou; outra onde eu vou e tu não vais; e uma terceira onde nenhum de nós vai”

A História das Palavras

É a primeira incursão de Inácio Steinhardt pela blogosfera. Chama-se História das Palavras e promete desenlear os novelos de história e histórias que se escondem por detrás de palavras comuns da língua portuguesa. Começou há menos de uma semana, mas já tem muito que ler atentamente.
Na língua hebraica, um dos termos utilizados para “palavras” é “devarim” (דברים) que, além de “palavra”, quer também dizer “coisa”, “objecto” ou “matéria”, fornecendo à “palavra” uma qualidade tangível e palpável. Segundo a tradição judaica, o próprio universo foi criado com palavras. Por tudo isto, e pelas deliciosas histórias que nos conta Inácio Steinhardt, aconselho uma visita regular ao seu História das Palavras.