Jorge Drexler: El Pianista del Gueto de Varsovia


Jorge Drexler, músico judeu uruguaio, venceu, em 2004, o Oscar para a melhor canção com Al Otro Lado del Río, do filme The Motorcycle Diaries — a primeira vez que este galardão foi atribuído a uma canção em língua espanhola. Soube agora que ele passou recentemente por Lisboa.
Deixo-vos aqui uma das mais marcantes canções de Jorge Drexler (e uma das minhas preferidas), uma homenagem às suas raízes judaicas: El Pianista del Gueto de Varsovia.

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Jorge Drexler: El Pianista del Gueto de Varsovia

200 anos de Mendelssohn

Este ano, assinalam-se os 200 anos do nascimento de Felix Mendelssohn (1809–1847) , um compositor notável de ascendência judaica, neto do filósofo Moses Mendelssohn, o “pai” do chamado iluminismo judaico. Neste vídeo, outro judeu magnífico, o violinista israelita Itzhak Perlman, então com 13 anos (sim, 13 anos!), interpreta o famoso Concerto para Violino em Mi menor de Mendelssohn (ainda hoje uma das minhas peças musicais favoritas).

Miriam Makeba (1932 — 2008)

Morreu a Mãe África, Miriam Makeba, cujo nome completo tinha o tamanho do seu talento: Zenzile Makeba Qgwashu Nguvama Yiketheli Nxgowa Bantana Balomzi Xa Ufun Ubajabulisa Upaphekeli Mbiza Yotshwala Sithi Xa Saku Qgiba Ukutja Sithathe Izitsha Sizi Khabe Singama Lawu Singama Qgwashu Singama Nqamla Nqgithi.

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Erev Shel Shoshanim (“Noite das Rosas”), Miriam Makeba canta em hebraico.

Israel: 60 anos


A Rua da Judiaria inicia hoje a publicação de uma série de posts destinados a assinalar a passagem do 60° Aniversário da Independência de Israel. Os primeiros serão textos e testemunhos de convidados lusófonos, escritos por luso-israelitas e basileiro-israelenses que vivem o seu dia a dia em Israel.
Para já, e em jeito de lançamento das comemorações, aqui fica uma canção oferecida ao Estado de Israel por Serge Gainsbourg:

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Le Sable & le Soldat, de Serge Gainsbourg

Uma homenagem no último dia de Páscoa


Este quadro, da autoria de Francisco Duarte Azevedo, apresentado aqui em estreia absoluta, intitula-se The Day After the Auto-da-Fé, uma homenagem do pintor aos mortos do massacre de Lisboa, de Abril de 1506. Com uma beleza de calma aparente e toda uma carga de violência subentendida, o quadro pode também ler-se como uma metáfora à vida daqueles que tiveram de viver sob um terror constante.
Obrigados a converter-se ao catolicismo sob pena de morte e sem outra opção possível, os judeus portugueses continuaram a ser judeus, não só no segredo das suas casas, mas também aos olhos dos vizinhos cristãos-velhos que, com intolerância, nunca lhes haveriam de fazer esquecer a sua diferença. Com o correr dos séculos, as tradições judaicas familiares de muitos diluíram-se nas poeiras da história. Outros preservaram esboços de liturgias ancestrais sem se aperceberem dos significados. Outros ainda, numa tradição oral passada de pais para filhos, de avós para netos, cinco séculos depois, sabem que são judeus — um facto teimoso que continua a deitar por terra as teorias daqueles que acreditavam que o judaísmo tinha sido expulso de Portugal. A estes, convencionou-se chamar-lhes marranos — uma palavra que para uns é insulto, mas para outros motivo de intenso orgulho.

Zog Maran (Diz-me Marrano)
(uma canção para a Páscoa Judaica)

Diz-me Marrano, meu irmão,
onde pões a mesa para o Seder?
— Numa caverna escura e funda,
a minha Páscoa irei fazer.

Diz-me Marrano, onde vais
buscar os brancos matzos?
— Na caverna, com a ajuda de Deus,
a minha mulher os lá amassa.

Diz-me Marrano, como consegues
encontrar uma Hagadá?
Na caverna, entre as fendas,
há muito que escondi os livros lá.

Diz-me Marrano, como te
defenderás quando te ouvirem cantar?
— Se me vierem prender, com uma
canção nos lábios irei morrer.

Avrom Reisen

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Zog Maran, Vocolot, poema de Avrom Reisen música de Shmuel Bugatch.

Marrano” é a designação tradicional dada aos judeus forçados a converterem-se ao catolicismo na península Ibérica, sob pena de morte e confiscação de bens, nos séculos XV e XVI. Durante séculos a expressão foi considerada depreciativa por se julgar que derivava de “porco” em castelhano, na verdade, ela é obtida pela contracção das palavras hebraicas márre (מר — amargo/amargurado) e anúze (אונס — forçado / violado) – refere-se também aos seus descendentes, muitos dos quais optam agora pelo processo de conversão para “regressar” à sua tradição ancestral. Em hebraico, os marranos são conhecidos simplesmente como “anussim” (אנוסים). Para diferenciar a palavra da sua homófona depreciativa, e evitar assim qualquer tipo de comparações, o capitão Barros Basto insistia que ela deveria ser escrita com apenas um “r”.

Teresa Salgueiro: uma voz Sefardita


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La Serena, Teresa Salgueiro & Lusitânia Emsemble, 2007

La Serena é a canção que dá o título ao último álbum de Teresa Salgueiro. Discretamente, sem pompa nem circunstância, mas com uma qualidade imensa, esta canção marca o regresso a Portugal — pela primeira vez em cinco séculos — do Ladino, a língua sefardita dos judeus ibéricos, feita de mesclas de castelhano e português medievais com hebraico. Na prática, La Serena é o resultado da junção de pelo menos duas canções distintas; uma delas, Mar de Leche, já passara pelas Músicas da Judiaria, há quatro anos, na voz igualmente notável de Suzy (que pode ser ouvida aqui: Mar de Leche, Suzy).

Yael Naim: New Soul


Sefardita franco-israelita de ascendência tunisina, Yael Naim tem uma voz notável e um talento da mesma medida. Quando Steve Jobs escolheu esta canção para o anúncio televisivo do MacBook Air, a popularidade da bela cantora israelita disparou em flecha nos EUA. Merecidamente.

Raiz judaica do Cantar Alentejano…

Sempre ouvi dizer que as raízes dos cantares tradicionais alentejanos eram árabes, e que remontavam aos séculos de domínio muçulmano do Sul de Portugal mas, confesso, e apesar de conhecer bastante música árabe, nunca encontrara entre elas qualquer analogia. Inclusive, alguma tentativas de aproximação entre as duas empreendidas por músicos contemporâneos, apesar de agradáveis, tinham sempre um sabor a casamento forçado.
Curiosamente, foi nas sinagogas sefarditas que encontrei melodias que me faziam de imediato lembrar as “modas” alentejanas das terras dos meus país.
As semelhanças encontram-se no todo, mas elas notam-se principalmente em pontos de contacto muito específico – o maior dos quais a sua forma “responsiva”, pois tanto na oração judaica como no cantar tradicional alentejano há um “líder” e um coro que responde. Mas é a forma como essa relação, esse diálogo melódico, se desenrola que parece deixar pouca margem para dúvidas acerca da evidente afinidade.
Comparem lá…

::PARA OUVIR::

Kedushah, gravada na Sinagoga Portuguesa e Espanhola de Londres, nos finais dos anos 50 e editada em 1960 pela Folkways Records, de Nova Iorque.


Meu Alentejo Querido, pelo Grupo Coral e Etnográfico “Os Ceifeiros de Pias”, editado em 2001 no CD Vozes do Sul.

::PARA LER E VER:: Smithsonian Folkways Recordings – Music of the Spanish and Portuguese Synagogue / Fundação Alentejo Terra Mãe / Raizes Musicais – Memória para os Cantares Tradicionais / YouTube – Cantares Alentejanos – Grupo Coral dos Mineiros de Aljustrel (vídeo)

Os nossos fantasmas em Salónica

A Chave em Salónica

Abarbanel, Farias ou Pinedo
atirados de Espanha por ímpia
perseguição, conservam todavia
a chave de uma casa de Toledo.

Livres agora da esperança e do medo,
olham a chave ao declinar do dia;
no bronze há outroras, distância,
cansado brilho e sofrimento quedo.

Hoje que sua porta é poeira, o instrumento
é cifra da diáspora e do vento,
como essa outra chave do santuário

que alguém lançou ao azul quando o romano
com fogo temerário acometeu,
e que no céu uma mão recebeu.

Jorge Luís Borges,
in El Otro, El Mismo, 1964

Este belo poema de Borges – que se considerava a si próprio um descendente de judeus portugueses fugidos da Inquisição –, vem a propósito de um interessante post no Abrupto sobre Salónica e sobre os fantasmas de uma cidade que, durante séculos, serviu de refúgio e morada a uma florescente comunidade de judeus portugueses e espanhóis que acabaria por ser aniquilada quase na totalidade pelos nazis entre 1941 e 1944. Hoje, dos sefarditas de Salónica pouco ou nada resta. Aconselho vivamente a leitura do texto de José Pacheco Pereira: Nunca é tarde para aprender: “Las mocicas de agora / todas vistem de tango”.
Leiam o que por lá se escreve e, depois, regressem à Judiaria para ouvir uma melodia cantada em Salónica, nessa língua mesclada de português e castelhano que os judeus ibéricos levaram para os lados do Levante. Chama-se “Morenica”, cantada por Savina Yannatou, do álbum “Primavera en Salonico”.
Escutem.


Savina YannatouMorenica
in Primavera en Salonico

Judaísmo Pop

Madonna Isaac
Ofra HazaIm nin’alu

::PARA OUVIR::
Madonna Isaac

Ofra HazaIm nin’alu

Im nin’alu é um dos muitos poemas religiosos judaicos (piyyutim) escritos no século XVII por Shalom Shabazi, um tecelão poeta natural do Yémen. O poema serve de base para Isaac, uma canção do último álbum de Madonna, Confessions on a Dance Floor, lançado em Novembro do ano passado e que, só na primeira semana, vendeu mais de quatro milhões de cópias.
O mesmo piyyut fora já gravado numa outra versão, lançada em 1985, pela voz da cantora israelita Ofra Haza, ela própria descendente de judeus yemanitas.

Se as Portas Cerrarem (Im nin’alu)

Se as portas dos generosos se cerrarem
As portas das Alturas nunca se trancam.
O Criador reina supremo sobre querubins
No seu espírito, todos serão elevados.

Shalom Shabazi (1619-1689), poeta, judeu yemanita.

Neighborhood Bully

Bob Dylan Neighborhood Bully

Escrita por Bob Dylan pouco depois do bombardeamento do reactor nuclear iraquiano de Osirak, em 1981, Neighborhood Bully é um manifesto irónico no qual a guerra das últimas semanas instila uma actualidade incontornável. Vale a pena ouvir Bob Dylan, o sionista. Com atenção.

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Bob Dylan Neighborhood Bully

Neighborhood Bully
Bob Dylan

Well, the neighborhood bully, he’s just one man,
His enemies say he’s on their land.
They got him outnumbered about a million to one,
He got no place to escape to, no place to run.
He’s the neighborhood bully.

The neighborhood bully just lives to survive,
He’s criticized and condemned for being alive.
He’s not supposed to fight back, he’s supposed to have thick skin,
He’s supposed to lay down and die when his door is kicked in.
He’s the neighborhood bully.

The neighborhood bully been driven out of every land,
He’s wandered the earth an exiled man.
Seen his family scattered, his people hounded and torn,
He’s always on trial for just being born.
He’s the neighborhood bully.

Well, he knocked out a lynch mob, he was criticized,
Old women condemned him, said he should apologize.
Then he destroyed a bomb factory, nobody was glad.
The bombs were meant for him.
He was supposed to feel bad.
He’s the neighborhood bully.

Well, the chances are against it and the odds are slim
That he’ll live by the rules that the world makes for him,
‘Cause there’s a noose at his neck and a gun at his back
And a license to kill him is given out to every maniac.
He’s the neighborhood bully.

He got no allies to really speak of.
What he gets he must pay for, he don’t get it out of love.
He buys obsolete weapons and he won’t be denied
But no one sends flesh and blood to fight by his side.
He’s the neighborhood bully.

Well, he’s surrounded by pacifists who all want peace,
They pray for it nightly that the bloodshed must cease.
Now, they wouldn’t hurt a fly.
To hurt one they would weep.
They lay and they wait for this bully to fall asleep.
He’s the neighborhood bully.

Every empire that’s enslaved him is gone,
Egypt and Rome, even the great Babylon.
He’s made a garden of paradise in the desert sand,
In bed with nobody, under no one’s command.
He’s the neighborhood bully.

Now his holiest books have been trampled upon,
No contract he signed was worth what it was written on.
He took the crumbs of the world and he turned it into wealth,
Took sickness and disease and he turned it into health.
He’s the neighborhood bully.

What’s anybody indebted to him for?
Nothin’, they say.
He just likes to cause war.
Pride and prejudice and superstition indeed,
They wait for this bully like a dog waits to feed.
He’s the neighborhood bully.

What has he done to wear so many scars?
Does he change the course of rivers?
Does he pollute the moon and stars?
Neighborhood bully, standing on the hill,
Running out the clock, time standing still,
Neighborhood bully.

In Bob Dylan: Infidels, 1983