Petição para reabilitar capitão judeu aceite no Parlamento

Boas notícias que chegam de Lisboa:

Porto, 13 dez (Lusa) – A petição pela reabilitação póstuma do capitão judeu Barros Basto, afastado do exército em 1937, foi hoje admitida pela comissão parlamentar com a consonância de todos os partidos políticos.
O deputado João Rebelo, do CDS, ficou nomeado como relator tendo agora um prazo de três semanas para apresentar um relatório, a ser posteriormente votado em comissão, e propor as próximas ações.

A petição “tem como fundamento a violação grave de direitos humanos e a afetação intolerável do núcleo duro dos direitos fundamentais materialmente protegidos pela Constituição da República Portuguesa, pelo que se requer a intervenção da Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias”, começa por dizer o documento que chegou à Assembleia da República a 31 de outubro pela mão da neta do capitão.
O relator terá agora de consultar o processo de 1937, para confirmar que de facto foi proferida a sentença que condenou Barros Basto, e pedir um parecer à Comissão Parlamentar dos direitos, liberdades e garantias.

Sem querer adiantar mais pormenores, João Rebelo garantiu apenas que irá “marcar uma reunião com os peticionários”: a neta do capitão e o seu advogado.

Ao longo dos anos, Barros Basto tem sido comparado por historiadores ao general francês de origem judaica Alfred Dreyfus que em 1894 foi condenado, inocentemente, por alta traição.

A história remonta a 1937 quando o Conselho Superior de Disciplina do Exército decidiu pela “separação do serviço” do capitão Arthur Carlos Barros Basto por considerar que não possuía “capacidade moral para prestígio da sua função e decoro da sua farda”.

Em causa estava a realização de operações de circuncisão a alunos do Instituto Teológico Israelitas do Porto, que havia fundado, e a saudação com um beijo dos mesmos alunos, à maneira dos judeus sefarditas de Marrocos.

Nascido em 1887, Barros Basto, ou Ben-Rosh, apenas se converteu [retornou] ao judaísmo em 1920 por influência do avô e depois de regressar da I Guerra Mundial, lançando-se depois numa campanha para resgatar outros judeus marranos como ele (descendentes de judeus portugueses e espanhóis que foram obrigados a se converterem ao cristianismo pela imposição da Inquisição).

Parlamento discute reabilitação de Barros Basto

Capitão Barros Basto

A Assembleia da República Portuguesa vai discutir o caso do capitão Barros Basto hoje, terça-feira, dia 13 de Dezembro de 2011. Quase 75 anos após ter sido afastado da instituição militar que servira com distinção, no culminar de um processo kafkiano movido por um antissemitismo institucional que valeria equiparação ao tristemente célebre caso Dreyfus, o capitão poderá ser ainda hoje finalmente reabilitado a título póstumo (Artur Barros Basto faleceu em 1951).
O processo de reabilitação tem contado com o apoio de políticos de todos os quadrantes e também de personalidades ligadas à cultura. Na semana passada, o escritor luso-americano Richard Zimler escreveu sobre o processo no blogue britânico Harry’s Place, num post intitulado Remembering Artur Barros Basto. Uma entrevista de Richard Zimler à RTP, onde o escritor também fala do caso do capital Barros Basto, pode ser vista aqui:

::A LER & OUVIR:: Petição para reabilitar capitão judeu debatida no Parlamento / CM: Parlamento discute caso Barros Basto / TSF: A jornalista Alexandra Nunes conversou com a neta do capitão Barros Basto / Barros Basto: Escritor Richard Zimler lança apelo internacional pela reabilitação do capitão / É tempo de reabilitar o Dreyfus de Portugal / A cobardia dos costumes brandos: ainda a ditadura / Capitão Barros Basto / Daniela Ruah apela a mobilização por Barros Basto

Daniela Ruah apela a mobilização por Barros Basto

Daniela Ruah

A petição online da organização internacional Shavei Israel que apela à celeridade no processo de reabilitação do capitão Barros Basto ultrapassou as mil assinaturas, depois da actriz Daniela Ruah se ter identificado como sobrinha bisneta do capitão e de ter apelado à participação dos seus fãs.

“Só faltam algumas centenas de assinaturas. Este homem foi meu tio bisavô e acredito que esta petição é importante”, assim escreveu a actriz na sua conta no Twitter .

A petição online (Rehabilitate the late Jewish war hero Capt. Arthur Barros Basto) foi lançada a 14 de Novembro pela Shavei Israel (uma organização internacional sediada em Israel) pedindo celeridade no processo de reabilitação do capitão Barros Basto, vítima de antissemitismo institucional no seio das Forças Armadas Portuguesas, em 1937.

.::A LER::. Reportagem do Público sobre o caso do Capitão Barros Basto (PDF)/ O Dreyfus português (Um excelente artigo de Marinho Pinto, bastonário da Ordem dos Advogados).

Reabilitação do capitão Barros Basto III

Capitão Barros Basto

O processo para a reabilitação do capitão Barros Basto, que recentemente chegou oficialmente à Assembleia da República, encontra-se cada vez mais próximo de fazer justiça à memória de uma das maiores figuras (senão mesmo a maior) do judaísmo português do século XX.
O Correio da Manhã dá conta dos últimos desenvolvimentos:

Reintegração
Negrão declara urgência no caso de judeu
Fernando Negrão, presidente da Comissão parlamentar de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, declarou urgente o caso da reabilitação do militar judeu Barros Basto, que foi alvo de segregação político-religiosa no ano de 1937. A petição, feita pela neta e patrocinada pelo advogado Rui Silva Leal, lembra que o oficial tinha sido «sancionado por ser judeu e praticante da religião judaica». Disse o Exército que Barros Basto não possuía «capacidade moral».

Click here for a version in English: Continue reading “Reabilitação do capitão Barros Basto III”

Marinho Pinto exige reabilitação de militar judeu

foto de Miguel Pereira

Texto de Óscar Queirós

O bastonário da Ordem dos Advogados exigiu em Trancoso a reabilitação de Barros Basto, um oficial que em 1937 foi “separado” do exército português por ser judeu. Sem salário e sem direito a assistência social, o militar vítima do antissemitismo da instituição militar, acabaria por morrer na miséria em 1961.
“Esta sentença é uma ignomínia a que a Assembleia da Republica deve pôr cobro. Todos nos devemos sentir sefarditas, judeus, até que seja feita justiça ao capitão Barros Bastos”, afirmou Marinho Pinto a propósito da decisão de 1937 do exército português, até hoje nunca revogada, de o afastar da instituição militar, “sem direito algum, nem sequer a um processo justo”. Estas declarações do bastonário da Ordem dos Advogados foram feitas durante a sua intervenção, como convidado, no Convento dos Frades, em Trancoso, no âmbito do II Festival Internacional da Memória Sefardita que decorreu entre 18 e 21 de Setembro em Belmonte, Guarda e Trancoso. Marinho Pinto, que fez questão de frisar ser agnóstico mas defensor acérrimo da liberdade de culto, “explicou” o facto de “74 anos depois da infame decisão”, o capitão Barros Bastos ainda não ter sido reabilitado: “porque a Inquisição subsiste ainda em Portugal”.
O bastonário, conterrâneo do capitão que o Exercito considerou “imoral” – ambos nasceram em Amarante -, manifestou a sua “inteira disponibilidade, como bastonário dos advogados e como cidadão” para “lutar que justiça lhe seja feita”. Este caso “é uma vergonha para Portugal”, um país que, onde, “ainda hoje”, disse Marinho Pinto, “nem todas as religiões têm os mesmos direitos e as mesmas garantias”.

photo by Miguel Pereira

Marinho Pinto demands the rehabilitation of Jewish military officer

By Óscar Queirós

The President of the Portuguese Bar Association demanded the rehabilitation of Captain Artur Barros Basto, a Jewish military officer who in 1937 was “separated” from the Portuguese army for being Jewish. As a result the military officer, victim of antisemitism in the military, lost his pay as well as his right to social assistance, eventually dying in poverty in 1961.
“This ruling is a disgrace the Parliament needs to correct. All of us should feel as Sephardim, as Jews, until justice is done to Captain Barros Basto” Marino Pinto said, commenting the 1937 decision from the Portuguese Army which until the present day has never been corrected or overturned, a decision “without any rights whatsoever or even with a fair trial”. These statements by the President of the Portuguese Bar Association were made recently during his speech at the Convent of the Friars, in Trancoso, Portugal, at the II International Festival of the Sephardic Memory, held last September in Belmonte, Guarda and Trancoso, in Portugal. Marinho Pinto, who was keen to stress that while he is an agnostic he is a staunch supporter of religious freedom, “explained” the fact that “after 74 years after the infamous decision,” Captain Barros Basto has not yet been rehabilitated, “because the Inquisition still exists Portugal.” The President, born in the same town as Captain Barros Basto – Amarante – said that the Army considered the captain “immoral”, and expressed his “full availability, as the President of the Bar Association and as a citizen” to “fight until justice is done.” This case “is shameful for Portugal,” a country where even today, Marino Pinto said, “not all religions have the same rights, or the same guarantees”.

::A LER:: A Noite de Shabbat, ou a Arqueologia das Pequenas Felicidades / Barros Basto – um artigo de Inácio Steinhardt

Um crime inqualificável


Udi Fogel, (37 anos), Ruth Fogel (36 anos), e os seus filhos Yoav (10 anos), Elad (4 anos) e Hadas (3 meses), foram assassinados sexta-feira à noite, enquanto dormiam. O crime foi cometido por um terrorista palestiniano das “Brigadas de Al-Aqsa” (ver Al Aqsa Brigades claims responsibility for West Bank killing).
A brutalidade deste massacre deixa-me perplexo. Um leitor desatento poderá interrogar-se como será possível que alguém possa alguma vez considerar sequer a possibilidade de degolar uma pessoa, quanto mais uma família inteira; quanto mais uma criança de dez anos, e outra de quatro e ainda uma bebé de três meses. Mas um observador atento lê a descrição do massacre num site palestiniano (“traduzido” para português via Google) e compreende que a linguagem efusiva e as felicitações ao autor do crime apenas são possíveis numa sociedade que desumaniza “o outro”, que justifica e incita qualquer acto de terror contra qualquer israelita (bebés de três meses incluídos).
Quem lê este blogue sabe onde me situo e saberá, por certo, que sempre defendi e defenderei a necessidade da paz. Mas, honestamente, como se pode falar de paz com alguém que olha uma bebé de três meses nos olhos para depois a degolar?
Alguns virão lembrar que a Autoridade Palestiniana condenou o massacre. E que o Hamas negou qualquer envolvimento. Mas é a passividade (para não dizer pior) dos primeiros e o acicate constante dos últimos que mantém em lume brando o ódio extremo e a cultura de morte que permitem que uma família de cinco pessoas seja degolada enquanto dorme. E não me venham dizer que ser colono ou deixar de ser colono pode constituir uma justificação qualquer que atenue a gravidade do crime. Porque quem assim pensar estará muito próximo do nível de quem o perpetrou.

Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto


Hoje, quando se assinala o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, e quando passam exactamente 65 anos sobre a libertação do campo de extermínio de Auschwitz, optei por publicar aqui uma carta do embaixador de Portugal em Berlim durante o início da Segunda Guerra Mundial. Como enviado extraordinário e ministro plenipotenciário na capital alemã entre 1933 e 1940, Veiga Simões observou de perto, por um lado, a subida de Hitler ao poder e, por outro, a consequente degradação das condições de vida da população judaica alemã. Nos círculos diplomáticos da capital do Reich, Veiga Simões era conhecido como um “anti-ariano” revoltado pela forma brutal como os nazis tratavam os judeus. Alem de testemunhar a desumanidade nazi face aos judeus, nesta carta o embaixador pede que seja concedida a nacionalidade portuguesa a dois judeus que desempenham as funções de cônsules de Portugal em Frankfurt e Nuremberga, Gustav Mayer-Alberti e Eduard Lindenthal, respectivamente. O texto mostra-nos uma faceta da diplomacia portuguesa desta época que é ainda muito pouco conhecida fora dos círculos académicos portugueses.

Confidencial.

Berlim, 14 de Setembro de 1938

Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros,

Excelência

Os recentes diplomas publicados por este Governo no prosseguimento da sua incansável perseguição aos judeus, contêm disposições que lhes vêm criar uma situação que para a grande maioria será completamente insustentável. Não se lhe encontra, por mais que se procure, uma solução para a simples manutenção diária dos milhares de israelitas que ainda se encontram neste país. Aos médicos passa a ser proibido exercer clínica, mesmo livre, e foram-lhes já denunciados todos os contratos de arrendamento dos seus consultórios para o fim do corrente mês. Aos comerciantes, a arianização progressiva de todos os ramos comerciais, mesmo os retalhistas, vai-os despojando de todos os seus haveres e coarctando-lhes toda a possibilidade de actividade. Eram estas as duas classes que, entre os judeus, ainda até agora iam podendo suportar, embora mal, a situação que lhes haviam deixado. Até isso vai acabar e, como medida final e vexatória, acaba de ser imposto a todos os judeus que não tenham já um nome constante duma lista oficialmente publicada – e que segundo corre foi elaborada com o propósito de abranger o menor número – acrescentar ao seu próprio nome e usar em todos os actos da sua vida social e particular, a partir do dia 1 de Janeiro próximo, e sob penas severíssimas de prisão e multa, o nome “Israel” ou “Sara” conforme o sexo.

O conjunto destas medidas vem atingir alguns cônsules de Portugal neste país que não posso precisar quais sejam na totalidade – talvez uns quatro – mas de que desejo destacar dois que me parecem os únicos inteiramente merecedores da atenção do Governo Português: os cônsules em Francoforte e Nuremberga, Srs. Gustav Mayer-Alberti e Eduard Lindenthal. Trata-se de dois velhos funcionários consulares – o primeiro tem 83 anos e é Cônsul de Portugal há 42 e o segundo é-o há mais de 20 anos – que têm sempre demonstrado pelo serviço e pelo nosso País uma dedicação perfeita, prestando por vezes a esta Legação serviços altamente importantes quer em matéria informativa quer noutras de que os haja encarregado, a par duma perfeita execução das suas funções propriamente consulares.

Ambos eles vão ser atingidos pelas últimas disposições legais do Reich sobre judeus e a situação em que vão encontrar-se virá a ser dentro em muitos poucos meses, totalmente insustentável. E chega-me agora, particularmente mas de fonte diplomática, a informação de que brevemente o Governo do Reich vai solicitar de todos os Governos a substituição dos seus cônsules de raça judaica.

Estas circunstâncias parecem-me oferecer a oportunidade para o Governo Português olhar humanamente para esses dois velhos servidores e estender-lhe a sua protecção, pela única forma por que pode prestar-lha: concedendo-lhes a nacionalidade portuguesa. Ambos residiram bastante tempo em Portugal, creio que mais do que o necessário para aquisição do direito de naturalização, ambos falam correctamente a nossa língua e de ambos o Estado tem recebido os mais valiosos serviços que podiam prestar-lhe dentro da sua esfera de acção.

Estas considerações de justiça humana levam-me a fazer a V. Exa. a proposta concreta de concessão da nacionalidade portuguesa aos dois funcionários mencionados, com dispensa de quaisquer formalidades não essenciais. E constando-me que por razões relacionadas com a guerra em Espanha e durante a sua duração está suspensa a concessão de patentes de nacionalidade, devo esclarecer V. Exa. que, no caso sujeito, uma demora de alguns meses inutilizará por completo uma eventual resolução favorável, pois em muito curto prazo a nova legislação alemã terá atingido os dois cônsules com todos os seus efeitos.

Se V. Exa. se dignar concordar com esta proposta, posso assegurar-lhe que terá praticado um acto de nobre humanidade, digno de um Estado que não esquece nem abandona os seus velhos e leais servidores, e que é ao mesmo tempo a única recompensa que pode ser atribuída aos dois Cônsules, inteiramente dignos dela a todos os títulos.

A Bem da Nação
Veiga Simões

A carta, sabe-se hoje, foi arquivada sem segundas considerações ou ponderações — um destino frequente dado às comunicações no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Na verdade, e além das simpatias políticas, o Estado Novo tinha uma política oficial de “não interferência” nas questões da Guerra que se estendia ao auxilio humanitário a refugiados. “Portugal não tem razões de ordem política ou rácica que o levem a ocupar-se deste problema que nos seus territórios não existe, mas nos quais por isso mesmo, não está disposto a fazê-lo nascer”, escrevia-se num ofício do Ministério dos Negócios Estrangeiros datado de 1939. O “judeu estrangeiro” foi declarado “moral e politicamente indesejável” pela então Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), procurando ao máximo restringir a entrada destes em Portugal. Ainda assim, alguns refugiados judeus conseguiram socorre-se de Portugal como plataforma para escapar à Europa, maioritariamente para os EUA, para o Brasil ou para a Argentina. (Sobre eles aconselho o filme notável de Daniel Blaufuks, Under Strange Skies / Sob Céus Estranhos) Ainda assim, e com o desincentivo oficioso do Governo português, um número muito reduzido fixou-se em Portugal.
Numa entrevista recente publicada na Ipsilon e conduzida por José Manuel Fernandes, o historiador alemão Carsten L. Wilke afirma: “Portugal, quando Hitler já estava no poder, teria podido salvar milhares de judeus descendentes dos que tinham partido séculos antes, mas Salazar nada fez e as comunidades que existiam em Bordéus, em Amesterdão ou em Salónica, por exemplo, foram completamente destruídas.”
O caso dos judeus de ascendência portuguesa, citado por Wilke, é paradigmático. Em vez de optar pela simples tarefa de facilitar o processo de naturalização de judeus holandeses, franceses e alemães cujos nomes de família (Nunes, Costa, Ricardo, Mesquita, Leão de Laguna, Lopes Cardoso, etc.) deixavam muito poucas dúvidas quanto à sua origem ancestral, o regime decidiu virar-lhes as costas e dificultar-lhes até a simples tarefa de obter um visto de trânsito, selando o seu destino nos campos de extermínio nazis. A 23 de Abril de 1940, por exemplo, os cônsules portugueses na Holanda eram avisados para que, quando lhes fossem solicitados vistos de entrada em Portugal, averiguassem escrupulosamente se os requerentes eram judeus, sendo que “nenhum visto em passaportes judeus poderia ser concedido sem autorização do MNE”, que respondia assim à exigência da PVDE de “evitar a entrada em Portugal de indivíduos dessa qualidade”. É sobre este pano de fundo que sobressaem os nomes de diplomatas portugueses como Aristides de Sousa Mendes, Carlos Sampaio Garrido e Alberto Teixeira Branquinho, cujos gestos de coragem conseguiram resgatar a vergonhosa cumplicidade imobilista e a cobardia que nortearam os destinos diplomáticos de Portugal durante o Holocausto.


António de Oliveira Salazar: o ditador sentado à secretária, onde pontifica uma foto autografada de Mussolini, o aliado principal de Hitler. Foto de Bernard Hoffman (Life Magazine, EUA).


Crianças da mocidade portuguesa fazem a saudação nazi. Foto de Bernard Hoffman (Life Magazine, EUA).

A carta do embaixador Veiga Simões acima reproduzida encontra-se no livro Correspondência de um Diplomata do 3º Reich, organizado por Lina Madeira, e é transcrita integralmente também em Breve História dos Judeus em Portugal, de Jorge Martins — um pequeno volume que se assume como uma introdução fundamental para quem queira compreender o papel dos judeus portugueses na construção da nossa História.

Shoah

Em Memória das Vítimas do Holocausto

Tarantino, o Vingador

“Os filmes sobre o Holocausto mostram sempre os judeus enquanto vítimas”, diz ele, francamente exasperado pela falta de imaginação de Hollywood. “Já todos vimos essa história. Eu quero ver algo diferente. Vamos lá ver alemães que tremem de medo de judeus.”

— Quintin Tarantino, sobre o seu novo filme, Inglourious Basterds. Jeffrey Goldberg fala com ele e escreve sobre o filme num artigo imperdível da Atlantic Monthly, aqui: Hollywood’s Jewish Avenger

Anjos — יום השואה , יום הזיכרון לשואה ולגבורה

por caminhos impensáveis
anjos e anjos e anjos

eram pegadas, legiões, bandos,
autómatos caminheiros, peregrinos
sem bordão, que as promessas
vivas navegavam entre os corpos
e as incertezas, pisavam a lama
tijolos de adobe, inconsistente
desespero do sangue dos braços
caídos, sem forças para erguer
clamores, lamentos inauditos,
inaudíveis fronteiras de aço,
gritos de nevoeiro rasgado,
urgência de um clarão
para lá do abandono. porquê

… as eternas diferenças
intemporais?! anjos

Poema de João S Martins, aguarela de Fernando Silva (inéditos).

Hoje, 21 de Abril de 2009, assinala-se o Yom HaShoá, o Dia da Memória do Holocausto. A cada passo, o presente recorda-nos a necessidade premente de nos tornarmos — cada um de nós — guardiões da Memória. Porque essa Memória é a voz de milhões de vozes. É a nós que nos cabe garantir que não foram caladas em vão.
Um muito obrigado ao João Martins e ao Fernando Silva pela generosidade dos seus talentos.

À minha mãe

Procuro,
folheio livros e livros,
em busca de um poema,
de um parágrafo, de uma frase,
que me falasse de ti
sem que eu tivesse que procurar-te
nas minhas entranhas.
Celan, Heine e Ginsberg não te conheceram,
e nem nos seus mais tristes versos
contam a falta que me fazes.
Mas as palavras dos outros são sempre
mais fáceis. Mais distantes.
Procurei,
em livros e livros,
um poema, um parágrafo, uma frase,
que me resguardasse da mágoa,
como janela de vidro protegendo o rosto
da chuva.
Mas nada do que leio
chega para contar o que sinto.
I miss you
Perco-te. Perdi-te.
Mais do que saudade, que a saudade,
a dor verdadeira está na eternidade
da tua ausência. I miss you
Perco-te. Perdi-te.
Nada que eu faça — nem que galgue quilómetros,
nem que nade o Atlântico — fará com que
me beijes novamente a testa,
que me chames outra vez filhote.

Fecho os livros. Não há poemas
que me possam abrigar a ferida em chaga
que faz hoje dois anos se me abriu na alma.
Com o rosto molhado de lágrimas, desvio
o olhar para a janela. Fixando as luzes da cidade
sob o fundo negro do céu e do rio, vejo o teu rosto
como se estivesses ao meu lado.
Instintivamente levo as mãos aos olhos,
para os secar.
Não quero que me vejas chorar.

N.G.J.
New York, 26 de Novembro de 2008.

5 anos de Judiaria

A Rua da Judiaria (ou simplesmente רחוב הרובע היהודי, em hebraico) fez cinco anos. No dia 27 de Outubro. Apesar de o fazer com duas semanas de atraso, não queria deixar de agradecer a todos os que por aqui vão passando, superando todas as minhas expectativas: ao fim destes cinco anos, a Rua da Judiaria já vai com 2.136.195 leitores (no momento em que escrevo e segundo o Sitemeter).
Um muito genuíno e sentido obrigado a todos, com a promessa de actualizações mais frequentes num futuro muito próximo.
!תודה רבה חברים

ADENDA: Um muito obrigado especial para todos os que felicitaram, em blogs e por email, o aniversário da Rua da Judiaria.

Miriam Makeba (1932 — 2008)

Morreu a Mãe África, Miriam Makeba, cujo nome completo tinha o tamanho do seu talento: Zenzile Makeba Qgwashu Nguvama Yiketheli Nxgowa Bantana Balomzi Xa Ufun Ubajabulisa Upaphekeli Mbiza Yotshwala Sithi Xa Saku Qgiba Ukutja Sithathe Izitsha Sizi Khabe Singama Lawu Singama Qgwashu Singama Nqamla Nqgithi.

.::PARA OUVIR::.

Erev Shel Shoshanim (“Noite das Rosas”), Miriam Makeba canta em hebraico.

שנה טובה‎ — Feliz Ano Novo


Shaná Tová Umetuká (votos atrasados…) a todos os meus leitores (com um abraço especial a todos aqueles que me foram escrevendo ao estranhar a ausência de actualizações aqui no blog). Que o ano judaico de 5769 vos traga a realização de todos os vossos desejos positivos — e que sejam inscritos no Livro da Vida para um ano doce e bom!

A origem do conceito de “licença de parto”

Num período de dois anos, entre 1913 e 1915, a América seguiu atentamente uma dura batalha judicial que haveria de mudar radicalmente a forma como as mulheres eram encaradas nos locais de trabalho.
Uma professora de Nova Iorque fora despedida a 22 de Abril de 1913 por estar grávida, com as autoridades escolares a defenderem o despedimento com base em “negligência do dever com o propósito de dar à luz”.
Numa atitude rara para a época, a professora não aceitou a decisão dos seus superiores e levou o caso para tribunal. Dois anos depois, o processo acabaria por instituir as bases de um direito que alastraria por todo o globo: a licença de parto. Esta professora, pioneira na luta pelos direitos laborais das mulheres chamava-se Bridget Peixotto e era membro da comunidade de judeus nova-iorquinos de ascendência portuguesa.
Bridget casara a 12 de Fevereiro de 1912 com Francis Raphael Maduro Peixotto, um corretor de seguros — que, nascido em 1860, era 20 anos mais velho que ela. Quando casou, Bridget Peixotto trabalhava já há 18 anos no sistema de ensino primário nova-iorquino, tendo passado com distinção os exames de promoção aos escalões mais elevados do magistério primário.
No ano lectivo de 1912/1913, Bridget e Francis Maduro Peixoto moravam no número 41 de St. Nichols Terrace, em Manhattan, ela era professora principal da Escola Pública 14, em Thongs Neck, Bronx, auferindo um salário anual de 2400 dólares (o que daria hoje qualquer coisa como 4500 dólares mensais ajustados pela inflação).
Em Fevereiro de 1913, Bridget Peixotto adoece gravemente enquanto estava grávida e notifica de imediato as autoridades escolares, tal como obrigava a lei. Na altura, no entanto, as professoras não podiam continuar na profissão depois de darem à luz, uma vez que a sociedade não via com bons olhos que uma mulher casada, e mãe de filhos, trabalhasse fora de casa.
Bridget Peixotto acabou por ser suspensa e seguidamente despedida — enquanto estava ainda no hospital depois de ter sido mãe de Helen Esther Peixotto — por “negligência do dever com o propósito de dar à luz”.
Não se dando por vencida, Bridget Peixotto desafia a acusação e a própria ideia de que uma mulher não poderia continuar a ensinar depois de ser mãe. Citada na página 7 da edição de 29 de Maio de 1913 do New York Times, ela afirma:

Contestarei o caso até ao fim. O Conselho Educativo, ao permitir que mulheres casadas ensinem ao mesmo tempo que as proíbe de cumprirem uma função fundamental do casamento, está a agir de forma ilegal. É absolutamente imoral e não será apoiado por nenhum tribunal. Em nenhum lado se pode proclamar a maternidade como uma negligência do dever. É permitido às mulheres casadas ensinarem nas escolas públicas, mas negasse-lhes tempo para que tenham filhos.

Em primeira instância, a verdade é que o Conselho Educativo manteve a decisão, votando 27 contra 5 em favor do despedimento de Bridget Peixotto. É então que ela avança para os tribunais. Depois de ver o processo arrastar-se infinitamente, com várias decisões judiciais em seu favor, por ordem do Supremo Tribunal, em 1914 Bridget Peixotto faz uma exposição ao Comissário Estadual para a Educação, John Huston Finley, que anos mais tarde seria director do New York Times. Em resposta, Finley dá-lhe razão e escreve: “A Senhora Peixotto foi acusada de negligência do dever, mas não foi declarada culpada de negligência — foi sim declarada culpada de ter dado à luz.”
Finalmente, em Janeiro de 1915, numa decisão histórica, John Finley dá ordens para que Bridget Peixotto seja reabilitada nas suas funções prévias com salário pago por completo. Três anos depois, em 1918, ela tornar-se directora da escola, mantendo-se no magistério primário em Nova Iorque até se reformar, em 1948, quando atingiu a idade limite de 70 anos.
Bridget Peixotto faleceu a 10 de Abril de 1972, em Nova Iorque, aos 92 anos de idade, deixando um legado invejável. No obituário que lhe dedicou dois dias após o seu falecimento, o New York Times afirmava que ela era “responsável pela institucionalização da licença de parto por todo o país” e pelo mundo: “O seu caso permitiu que largos milhares de mulheres pudessem tirar uma licença para dar à luz. A decisão motivou também alterações no sistema do sector privado, fazendo com que hoje seja perfeitamente normal que uma mulher possa manter o emprego quando fica grávida.”

Referências a Bridget Peixotto e ao seu caso: The Public Papers of Margaret Sanger / Her Works Praise Her: A History of Jewish Women in America from Colonial Times to the Present / JSTOR: The Elementary School Journal: Vol. 25, No. 9 (May, 1925), pp. 692-695 / Everybody’s Paid But the Teacher … / DISMISSAL OF TEACHER BECAUSE OF PREGNANCY

Bibliografia: New York Times, 29 de Maio de 1913, pág.7; NYT 11de Junho de 1913; NYT 23 Junho de 1913; NYT 26 Julho de 1913; NYT 11 de Janeiro de 1914; NYT 2 de Novembro de 1914; NYT 15 de Dezembro de 1914; NYT 12 de Janeiro de 1915; NYT 12 de Abril de 1972.
The Grandees of New Jersey (2006), Dr. Neil Rosenstein