A civilização que imaginou Auschwitz

Estudar o nazismo não é a mesma coisa que estudar outro período histórico qualquer. Sem compreendermos este fenómeno nunca poderemos compreender o que foi o século XX. Mais: temos de saber que foi no mesmo país em que nasceu Bach que se imaginou Auschwitz, e que enquanto matavam judeus nos campos ouviam as suas composições para piano e faziam-no em nome da cultura alemã. Auschwitz foi construído em nome da civilização e contra uma suposta barbárie. Os nazis estavam convencidos de que eles é que eram os bons, os “decentes”. Himmler sempre utilizou essa linguagem, pois pedia aos seus homens para aguentarem esse trabalho “tão duro” que era o do assassínio em massa e, ao mesmo tempo, não se deixarem contaminar e manterem a sua “decência”. Auschwitz não foi um acidente, não foi apenas um excesso do nazismo, Auschwitz interroga-nos sobre o carácter da cultura e da modernidade. Auschwitz obriga-nos a pensar que temos de estar sempre conscientes de que a nossa capacidade para mudar o mundo e o poderio que nos dão as tecnologias têm de ser sempre balizados por referências morais muito fortes que evitem que a técnica sem moral conduza ao utilitarismo. Em Auschwitz escondem-se, condensam-se, todas as contradições das nossas sociedades modernas. Até a ideia de progresso, pois um médico como Mengele não se via como um criminoso, mas como alguém que procurava fazer avançar a ciência, que queria perceber as raízes biológicas dos comportamentos humanos e o fazia pelo método experimental.”

Ferran Gallego, historiador e autor do livro ‘Os Homens do Fuhrer: A Elite do Nacional-Socialismo 1919-1945‘ (Esfera dos Livros), em entrevista ao Ípsilon, edição de 12 de Fevereiro de 2010. (Citado por um voo cego a nada, via Mário Pires.)

Tarantino, o Vingador

“Os filmes sobre o Holocausto mostram sempre os judeus enquanto vítimas”, diz ele, francamente exasperado pela falta de imaginação de Hollywood. “Já todos vimos essa história. Eu quero ver algo diferente. Vamos lá ver alemães que tremem de medo de judeus.”

— Quintin Tarantino, sobre o seu novo filme, Inglourious Basterds. Jeffrey Goldberg fala com ele e escreve sobre o filme num artigo imperdível da Atlantic Monthly, aqui: Hollywood’s Jewish Avenger

Isaac D’Israeli: Jews in Portugal

Recordo o meu espanto ao ler de passagem os Anais da Real Academia de Lisboa, dos dias de hoje, e encontrar porções consideráveis ocupadas sobre os temas da erudição judaica e de escritores judeus, da primeira época da monarquia portuguesa até ao século XVII. Nenhuma outra Academia nacional regista este conhecimento recôndito e este grande deleite em seus autores judeus. O filosófico físico da embaixada elucidou-me; assegurou-me ele que a afeição pela religião de seus pais era excessiva, e que muitas personalidades públicas, na agonia das suas consciências religiosas, tinham frequentemente escapado para as sinagogas de Inglaterra ou da Holanda. Era este sentimento que, não obstante os seus Autos da Fé, o próprio governo não podia mais disfarçar. Tenho agora à minha frente vários decretos, o último deles datado de 1773. Aqui é formalmente abolida a odiosa distinção entre Cristãos Novos e Cristãos Velhos — que há tanto atormentava os portugueses meio judaizados. Até permite aos filhos de Moisés celebrarem as suas festas; proíbe a compulsão ao baptismo, liberta-os de todos os impostos até aqui aplicados aos judeus e faz honrosa menção, por nome, de certos oficiais do Estado que eram judeus, que tinham até sido primeiros-ministros e tesoureiros; declara finalmente que “o sangue dos hebreus é o sangue dos nossos apóstolos, dos nossos diáconos, dos nossos presbíteros e dos nossos bispos.” Tudo isto pode ser confirmado por uma recente observação casual de Madame Junot, a Condessa de Abrantes. Escreve ela: “A Nação Portuguesa, apesar de três partes judia, é obstinadamente reticente em admitir entre si qualquer pessoa que não traga boas provas da pureza do seu sangue.”

Isaac D’Israeli (1766 —1848), Genius of Judaism, pág. 242-5

Grandes Citações VII

Nunca respondo a provocações idiotas. O meu pai sempre me disse: ‘nunca te atires à lama a lutar com um porco – primeiro, porque te sujas; segundo, porque é disso que o porco gosta.’

Walter Winchell (1897-1972 ), judeu, jornalista americano.
in “Notes of a New York Columnist”, Daily Mail, 31 de Maio de 1948.

A benção

O rabino Mekhel, o pregador de Zlotschov, disse um dia aos seus filhos: “Uma das grandes bênçãos da minha vida foi nunca ter necessitado de nada que já não possuísse.”

Rabino Yehiel Mekhel, conhecido como o pregador (maguid) de Zlotschov (Ucrânia, século XVIII)
in Die Erzählungen der Chassidim (As Lendas dos Hassidim), Martin Buber, 1949.

Grandes Citações VI


Se as estatísticas estiverem certas, os judeus constituem apenas um por cento da raça humana. Isto sugere uma ténue e nebulosa baforada de pó cósmico perdida na resplandecência da Via Láctea. Na verdade, mal se devia ouvir falar do Judeu; mas ele faz-se ouvir, e sempre se fez ouvir. As suas contribuições para as listas mundiais de grandes nomes da literatura, ciência, arte, música, finanças, medicina e saber recôndito estão também fora das proporções dos seus fracos números. Ele tem combatido, em todas as épocas, uma batalha admirável neste mundo; e fê-lo com as mãos atadas atrás das costas. Ele podia ser disto vaidoso e ser perdoado por isso. Os egípcios, os babilónios e os persas ascenderam, encheram o planeta com som e esplendor, depois desvaneceram em coisa de sonhos e partiram; seguiram-se os gregos e romanos, fazendo vasto ruído, e foram-se; outros povos brotaram e por momentos ergueram alto a sua tocha mas ela havia de extinguir-se; agora sentam-se no crepúsculo ou desapareceram. O Judeu viu-os a todos, venceu-os a todos, e é agora o que sempre foi, sem exibir decadência, nem enfermidades da idade, nem fraqueza das suas partes, nem abrandar das energias ou entorpecimento da sua mente vigorosa e alerta. Todas as coisas são mortais menos o Judeu; todas as outras forças morrem, mas ele fica. Qual será o segredo da sua imortalidade?”

Mark Twain (1835-1910), Harpers’s Magazine, 1899.

Sabedoria Antiga I


Le Serment des Horaces” [pormenor] (1784), Jacques-Louis David


Não faças chorar uma mulher, pois Deus conta todas as suas lágrimas. A mulher fez-se da costela do homem, não dos pés para ser espezinhada, nem da cabeça para ser superior, mas sim do lado para ser igual, (…) debaixo do braço para ser protegida e perto do coração para ser amada.”

Talmude (tratado Kiddushin), Eretz Israel, século I EC*

*Era Comum

Grandes Citações V


Negros e judeus estão intimamente ligados uns aos outros por uma história comum de perseguições. Se alguém, além de um negro, alguma vez cantar blues do fundo da alma, será obrigatoriamente um judeu. Os nossos dois povos sabem bem o que é ser o capacho de alguém.”

Ray Charles (1930-2004)

Grandes Citações IV


Alguns de nós, judeus de Esquerda, sentimo-nos impedidos de abraçar de forma mais completa a causa palestiniana em virtude dos inegáveis contornos antisemitas dos discursos e escritos pró-palestinianos.”

Pierre Goldman, Libération, 31 de Outubro de 1978.

Judeu francês, jornalista e activista de esquerda (extrema-esquerda, dirão alguns), Goldman foi assassinado por brigadas terroristas de extrema-direita a 20 de Setembro de 1979, meses depois de ter sido ilibado num processo judicial kafkiano que inicialmente o condenara a prisão perpétua. Os seus assassinos nunca foram julgados. (Ver Pierre Goldman : Le dossier.)

Grandes citações

Quando me falaram em casamento homossexual disse logo que era contra. Mas depois mudei de opinião quando me explicaram que, afinal, não seria obrigatório e que eu podia continuar casado com a minha mulher.”

Jon Stewart (Jonathan Stuart Leibowitz), comediante, apresentador do The Daily Show. Judeu norte-americano.

Grandes citações

Se eu estiver certo, os alemães dirão que sou alemão, e os franceses dirão que sou filho da humanidade. Mas se eu estiver errado, para os franceses serei um alemão; e para os alemães não passarei de um judeu.”

Albert Einstein, sobre a Teoria da Relatividade

Freud

 Sigmund Freud (6/5/1856 - 23/9/1939)


Os judeus continuaram a interessar-se pelos assuntos espirituais enquanto os infortúnios políticos da sua nação os ensinaram a valorizar devidamente o único bem que lhes restou: a sua literatura, as suas crónicas escritas. Logo após a destruição do Templo de Jerusalém, consumada por Tito, o rabino Johanan ben Zaccai solicitou autorização para abrir a primeira escola para o estudo da Torá. Desde então, o povo desagregado manteve-se unido graças à Sagrada Escritura e aos esforços espirituais que esta suscitou.”

Sigmund (Solomon) Freud (6/5/1856 – 23/9/1939), judeu nascido em Freyberg, na Áustria. in Moisés e a Religião Monoteísta, Guimarães Editores, Lisboa 1990 [uma má edição, por sinal, virtualmente assassinada por uma tradução intrometida e desconhecedora da história judaica]

O aniversário de Freud é recordado por Francisco José Viegas, no Aviz, e por Filipe Nunes Vicente, no Mar Salgado – este também um blog aniversariante. Parabéns aos navegantes.