Ladies and Gentlemen…Mr. Leonard Cohen


“Ladies and Gentlemen…Mr. Leonard Cohen” é um documentário “ïnformal” sobre o poeta, produzido em 1965 sob a chancela do Canada National Film Board. Uma verdadeira preciosidade. Narrado ao estilo da época, nele se descobre, entre outras coisas, que Leonard Cohen também fazia comédia na melhor tradição de stand up. Imperdível.
(via Jewlicious)

Os assassinos da Memória

Um depoimento de Elie Wiesel


Elie Wiesel fotografado por William Coupon.


(…) Devo dizer desde já que não sinto qualquer ódio pelo acusado. Nunca o conheci; os nossos caminhos nunca se cruzaram. Mas conheci assassinos que, como ele, com ele, escolheram ser inimigos do meu povo e da humanidade. Posso ter conhecido algumas das suas vítimas. Eu assemelho-me a eles, da mesma forma que eles se assemelhavam a mim. Dentro do reino de maldição criado pelo acusado e pelos seus camaradas, todos os prisioneiros judeus, todos os judeus, tinham o mesmo rosto, os mesmos olhos; todos partilhavam o mesmo destino. Às vezes dava a impressão que o mesmo judeu era morto pelo inimigo seis milhões de vezes.
Não, em mim não há ódio: nunca houve ódio. Não é de ódio que se trata aqui – mas de justiça. E de memória. Tentamos fazer justiça à nossa memória.
Aqui vai uma memória: a da Primavera de 1944. Poucos dias antes das festividades pentecostais judaicas – Shavuot. Eu tinha 15 anos. Uma criança profundamente religiosa, eu era movido por sonhos messiânicos e orações. Longe de Jerusalém, eu vivia por Jerusalém e Jerusalém vivia em mim.
Apesar do regime fascista, os judeus da Hungria não tinham sofrido ainda muito. Os meus pais tinham uma loja, as minhas três irmãs iam à escola, o Shabbat envolvia-nos em paz… a guerra? Essa estava à beira do fim. Os Aliados estavam prestes a desembarcar. O Exército Vermelho estava a 20 ou 30 quilómetros. Mas foi então…
Os alemães invadiram a Hungria a 19 de Março de 1944. A partir dai os acontecimento evoluíram a um passo tão rápido que não nos deixou respirar. Uma sucessão de decretos antisemitas foram passados: a proibição de viajar, a confiscação de bens, a obrigatoriedade de usar a estrela amarela, os guetos, as deportações.
Nós olhávamos impotentes à medida que o nosso mundo encolhia sistematicamente. Para os judeus, o país foi limitado a uma cidade, a cidade a um bairro, o bairro a uma rua, a rua a um quarto, o quarto a um vagão selado que de noite atravessava os campos polacos.
Tal como as 44 crianças judias de Izieu (deportadas para Auschwitz em 1944), os adolescentes judeus da minha terra chegaram tarde à estação de Auschwitz. O que era isto? Perguntámo-nos. Ninguém sabia. O nome não evocava em nós qualquer memória. Pouco depois da meia noite o combóio começou a mover-se. Uma mulher no nosso vagão gritou, “vejo fogo, vejo fogo!” Fizeram-na calar. Lembro-me do silêncio no vagão. Lembro-me do resto. As vedações de arame farpado até ao infinito. Os gritos dos prisioneiros cujo dever era dar-nos as “boas-vindas”, os tiros disparados pelas SS, o ladrar dos seus cães. E sobre nós, sobre o próprio planeta, chamas imensas erguiam-se para o céu como se o consumissem.
Desde essa noite, quando olho para o céu vejo-o frequentemente em chamas… mas nessa noite não podia olhar para o céu por muito tempo. Estava ocupado a agarrar-me à minha família. Ouviu-se uma ordem: “Alinhem-se por famílias.” Eram bom, pensei eu, vamos ficar juntos. Passados uns minutos: “Homens para a direita, mulheres para a esquerda.” Choviam pancadas de todos os lados. Não fui capaz de me despedir da minha mãe. Nem da minha avó. Nem de beijar a minha irmã mais nova. Com as minhas duas irmãs mais velhas ela afastava-se, arrastada pela desvairada maré negra…
Esta foi uma separação que cortou a minha família ao meio. Raramente falo dela, quase nunca. Não consigo pensar na minha mãe ou na minha irmã pequena. Com os meus olhos, ainda as procuro. Irei sempre procurá-las. No entanto, eu sei… Eu sei tudo. Não, tudo não… não se pode saber tudo. Podia imaginá-lo, mas não o quero fazer. É preciso saber parar… O meu olhar estanca à entrada das câmaras de gás. Mesmo em pensamento, eu recuso violar a privacidade das vítimas no momento da morte.
O que vi chega-me. Numa pequena floresta algures em Birkenau eu vi crianças serem atiradas vivas para as chamas pelas SS. Às vezes maldigo a capacidade de ver. Devia ter-me deixado sem nunca voltar. Eu devia ter ficado com aqueles pequenos corpos carbonizados… Desde essa noite, eu passei a sentir um profundo e imenso amor pelas crianças e pelos idosos. Cada idoso faz-me lembrar o meu avô, a minha avó, cada criança recorda-me a minha pequena irmã, a irmã das crianças judias mortas de Izieu…
Noite após noite, continuei a interrogar-me – o que significa tudo isto? Qual é o sentido desta indústria assassina? Funcionava perfeitamente. Os assassinos matavam, as vítimas morriam, os fogos ardiam e um povo inteiro ansioso por eternidade transformava-se em cinzas, aniquilado por uma nação que, até então, era considerada a mais instruída, a mais culta do mundo. Diplomados pelas melhores universidades, amantes de música e pintura, médicos, advogados e filósofos participaram na Solução Final e tornaram-se cúmplices da morte. Académicos e engenheiros inventaram métodos mais eficientes para exterminar massas em tempo recorde… Como foi isto possível?
Não sei a resposta. Na sua extensão, no seu aspecto ontológico e nas suas ambições escatológicas, esta tragédia desafia e excede todas as respostas. Se alguém reclamar ter uma resposta, essa só pode ser falsa. Tanto luto, tanta agonia, tantas mortes de um lado e uma simples resposta do outro? Não se pode perceber Auschwitz nem com Deus nem sem Deus. Não se pode perceber nos termos dos homens ou dos céus. Porque havia tanto ódio para com crianças e velhos judeus? Para quê esta crueldade contra um povo cuja memória de sofrimento é a mais antiga do mundo?
(…) Sim, um mundo maldito onde se falava outra linguagem, onde uma nova religião era proclamada: uma religião de crueldade, dominada pela desumanidade; uma sociedade que evoluíra do outro lado da sociedade, do outro lado da vida, do outro lado da morte talvez; um mundo onde um pequeno pedaço de pão valia todos os ideais, onde um adolescente uniformizado tinha poder absoluto sobre milhares de prisioneiros, onde seres humanos pareciam pertencer a outra espécie, tremendo perante a morte, que tinha todos os atributos de Deus…
Como judeu, é impossível para mim não sublinhar o sofrimento do meu povo durante o seu tormento. Peço que não vejam nisto qualquer tentativa de negar ou minimizar o sofrimento das populações dos países ocupados ou a tortura sofrida pelos nossos camaradas, os nossos amigos cristãos ou ateus a quem o inimigo comum puniu com uma brutalidade imperdoável. Como se fossem nossos irmãos? Eles são nossos irmãos.
É impossível para mim, como judeu, deixar de sublinhar que, pela primeira vez, um povo inteiro – do maior ao mais pequeno, do mais rico ao mais pobre – foi condenado à aniquilação. Para o extirpar, para o extrair da história, para o matar na memória matando toda a memória dele: era este o plano do inimigo.
Marcado, isolado, humilhado, espancado, esfomeado, torturado, o judeu foi entregue ao carrasco, não por ter defendido uma qualquer opinião, não por possuir riquezas e tesouros, não por ter adoptado um certo comportamento proibido. O judeu foi condenado à morte simplesmente porque nasceu judeu, porque carregava com ele a memória judaica.
Declarado ser menos que um homem, e por isso sem merecer compaixão ou pena, o judeu nascera apenas para morrer – tal como o assassino nascera apenas para matar. Consequentemente, o assassino não tinha qualquer sentimento de culpa. Um investigador americano colocou a questão nestes termos: o assassino não perdera o sentido de moralidade, mas sim o sentido de realidade.
(…) Auschwitz e Treblinka, Maidanek e Ponar, Belzec e Mathausen, e tantos, tantos outros nomes: o apocalipse estava por todo o lado. Por todo o lado, procissões mudas caminhavam para valas cheias de cadáveres. Poucas lágrimas, muito poucos choravam. Pela sua aparência, resignadas, as vítimas pareciam deixar este mundo sem remorsos. Era como se estes homens e mulheres optassem por não viver numa sociedade desfigurada, desnaturada pelo ódio e pela violência.
Depois da guerra, o sobrevivente tentou contar aquilo, prestar testemunho… mas quem conseguia encontrar palavras para descrever o indiscritível?
O silêncio contemplativo dos velhos que sabiam, das crianças que tinham medo de saber… o horror das mães que enlouqueciam, a aterradora lucidez de gente louca num mundo de delírio… o canto grave do rabino recitando o Kaddish, o murmúrio dos seus seguidores caminhando atrás dele para o fim, para os céus… a criança que despia o irmão pequeno… dizendo-lhe para não ter medo da morte… talvez lhe dissesse para não ter medo dos mortos…
E na cidade, na grande cidade de Kiev, a mãe e os seus dois filhos frente a soldados alemães que riem… tiram-lhe uma das crianças a matam-na à vista da mãe… depois matam a segunda… ela quer morrer; os assassinos deixam-na viva, mas habitada pela morte… depois ela pega nos dois pequenos corpos, abraça-os e chora… como se pode descrever esta mãe? Como pode alguém descrever o seu sofrimento? Nesta tragédia há algo que dói para além da dor – e eu não sei o que é.
Sei que temos que falar. Não sei como. Por este crime ser absoluto, toda a linguagem é imperfeita. É por isso que há no sobrevivente um sentimento de impotência. Era mais fácil para ele imaginar-se livre em Auschwitz do que é imaginar-se em Auschwitz sendo livre. É esse o problema: quem não passou por este acontecimento nunca será capaz de o perceber. Mesmo assim, o sobrevivente tem consciência do seu dever de prestar testemunho. De contar o que viveu. De protestar cada vez que qualquer “revisionista” moralmente perverso ouse negar a morte dos que morreram. E a verdade da memória transmitida pelos sobreviventes.
(…) Pode morrer-se mais do que uma vez? Sim, pode-se. O sobrevivente morre cada vez que se junta, nos seus pensamentos, à procissão nocturna que na realidade nunca deixou. Como pode ele distanciar-se sem os trair? Durante muito tempo ele falou com eles, tal como eu falo com a minha mãe e a minha irmã: vejo-as afastar-se sob o céu em chamas… peço-lhes que me perdoem por não as ter seguido…
É pelos mortos, mas também pelos sobreviventes e pelas crianças deles – e pelas vossas – que este julgamento é importante: ele pesará no futuro. Em nome da Justiça? Em nome da memória. Justiça sem memória é uma justiça incompleta, falsa e injusta. Esquecer seria a injustiça absoluta da mesma forma que Auschwitz foi o crime absoluto. Esquecer seria o triunfo final do inimigo.
Na verdade, o inimigo mata duas vezes – da segunda vez tenta obliterar os vestígios dos seus crimes. Foi por isso que ele empurrou o seu plano atroz e aterrador aos limites da linguagem, e para além dela: “mesmo que sobrevivas, mesmo que contes, ninguém acreditará em ti”, disse um oficial das SS a um jovem judeu algures na Galicia.
Este julgamento contradisse já esse assassino. As testemunhas falaram; as suas verdades entraram na consciência da humanidade. Graças a eles, as crianças judias de Izieu jamais serão esquecidas.
Como guardiões das sepulturas invisíveis, sepulturas de cinzas encrostadas num céu eterno de nevoeiro e chamas, temos de lhes permanecer fiéis. Temos de tentar. Recusar falar, quando se esperam palavras, seria admitir o triunfo último do desespero.
(…) Graças a este julgamento, os sobreviventes têm uma justificação para a sua sobrevivência. O seu testemunho conta, as suas memórias fazem parte da memória colectiva. Claro, nada pode trazer os mortos de volta. Mas por causa deste encontro, por causa das suas palavras, o acusado não será capaz de matar de novo os mortos. Tivesse ele sucesso a culpa não seria dele, mas nossa.
Tendo lugar sob o signo da justiça, este julgamento tem também de honrar a memória.

Elie Wiesel, Prémio Nobel da Paz, sobrevivente dos campos de extermínio de Auschwitz e Buchenwald. Testemunho prestado no Julgamento de Klaus Barbie, em Lyon, a 2 de Junho de 1987. Retirado e traduzido do livro From the Kingdom of Memory, Summit Books, New York, 1990.

Julius Lester

Dezembro de 1982
No Inverno de 1974, estava eu num retiro no mosteiro dos Trapistas de Spencer, em Massachusetts, quando um monge me disse: “Quando souberes o nome pelo qual Deus te conhece, saberás quem és.”
Procurei esse nome com a paixão de quem busca a Amada Eterna. Chamei a mim próprio Pai, Escritor, Professor, mas Deus não respondeu.
Agora sei o nome pelo qual Deus me chama. Sou Yaakov Daniel ben Avraham v’Sarah.
Tornei-me aquele que sou. Sou aquele que sempre fui. Já não me deixo enganar pela cara negra que me olha do outro lado do espelho.
Sou um judeu.

Retratos – Judeus na Primeira Pessoa


Dezembro de 1982
No Inverno de 1974, estava eu num retiro no mosteiro dos Trapistas de Spencer, em Massachusetts, quando um monge me disse: “Quando souberes o nome pelo qual Deus te conhece, saberás quem és.”
Procurei esse nome com a paixão de quem busca a Amada Eterna. Chamei a mim próprio Pai, Escritor, Professor, mas Deus não respondeu.
Agora sei o nome pelo qual Deus me chama. Sou Yaakov Daniel ben Avraham v’Sarah.
Tornei-me aquele que sou. Sou aquele que sempre fui. Já não me deixo enganar pela cara negra que me olha do outro lado do espelho.
Sou um judeu.

Julius Lester
, escritor premiado, fotógrafo, catedrático, activista pelos direitos civis da comunidade negra americana. Extraido do livro autobiográfico Lovesong: Becoming A Jew, 1988.

::A LER:: Beth El Synagogue Lay Religious Leader – Julius Lester / University of Massachusetts :: Judaic & Near Eastern Studies – Julius Lester / Downhomebooks.Com Julius Lester interview / BCCB-True Blue Julius Lester / Scholastic.com – Julius Lester’s Biography / Children’s Literature: Julius Lester

Albert Einstein (1879-1955)

Uma mundivisão judaica, no sentido filosófico, no meu entender não existe. O Judaísmo, penso eu, refere-se quase exclusivamente a uma postura moral perante a vida. O Judaísmo parece-me ser mais a essência da atitude perante a vida que reside no povo judeu do que a lei contida na Torá e interpretada no Talmude. Torá e Talmude são para mim apenas os testemunhos mais importantes da vigência da atitude perante a vida em tempos idos. A essência da ideologia de vida dos judeus parece-me ser esta: A afirmação da vida de todas as criaturas. A vida do indivíduo só tem sentido no serviço de embelezamento e enobrecimento da vida em todos os seres vivos. A vida é sagrada, isto é o valor máximo do qual dependem todas as outras avaliações. A santificação da vida supra-individual traz consigo a adoração de tudo o que é espiritual, um traço especialmente característico da tradição judaica. (…)

Existirá uma mundivisão judaica?
Por Albert Einstein


Uma mundivisão judaica, no sentido filosófico, no meu entender não existe. O Judaísmo, penso eu, refere-se quase exclusivamente a uma postura moral perante a vida.
O Judaísmo parece-me ser mais a essência da atitude perante a vida que reside no povo judeu do que a lei contida na Torá e interpretada no Talmude. Torá e Talmude são para mim apenas os testemunhos mais importantes da vigência da atitude perante a vida em tempos idos.
A essência da ideologia de vida dos judeus parece-me ser esta: A afirmação da vida de todas as criaturas. A vida do indivíduo só tem sentido no serviço de embelezamento e enobrecimento da vida em todos os seres vivos.
A vida é sagrada, isto é o valor máximo do qual dependem todas as outras avaliações. A santificação da vida supra-individual traz consigo a adoração de tudo o que é espiritual, um traço especialmente característico da tradição judaica.
O judaísmo não é uma fé. O Deus judeu é uma negação da superstição, um resultado imaginário da sua negação. É também uma tentativa de basear uma lei moral no temor, uma tentativa lamentável. Mas parece-me que a forte tradição moral no povo judeu se soltou largamente deste temor. Também é manifesto que “servir Deus” foi equiparado a “servir o outro”. Para isso lutaram incansavelmente os melhores do povo judeu, especialmente os profetas.
Assim o Judaísmo não é, principalmente, uma religião transcendente, tendo só a ver com a nossa vida experienciada e por assim dizer palpável, e com nenhuma outra coisa. Parece-me por isso duvidoso que possa ser chamado uma “religião” no sentido corrente do termo, ainda porque não é exigido aos judeus nenhuma “fé”, só a santificação da vida no sentido supra-pessoal.
Mas encontra-se ainda algo mais na tradição judaica, que se revela esplendorosamente em alguns salmos, uma espécie de alegria embriagada e um espanto sobre a beleza e incompreensível sublimidade deste mundo, da qual o homem somente consegue alcançar uma fraca noção. É o sentimento de onde também a verdadeira investigação obtém a suas forças, mas que igualmente parece exprimir-se no canto dos pássaros. Isto parece-me ser o conteúdo mais sublime da ideia de Deus.
Será isto característico para o Judaísmo? Vive ele também sob outro nome? De forma pura não vive em nenhum lado, também não no Judaísmo, onde muito culto da letra obscurece a pura doutrina. Mas vejo mesmo assim no Judaísmo uma das suas realizações mais vitais e puras. Isto vale especialmente para o princípio da santificação da vida.
É notável que na oração da santificação do Shabbat também os animais são expressamente incluídos, tanta é a força e a exigência do ideal da solidariedade para com todo o ser vivo. Ainda mais, exprime-se a exigência da solidariedade de todos os homens, e não é um acaso que as doutrinas socialistas tiveram maioritariamente a sua origem em judeus.
O quanto da consciência da santidade da vida está viva no povo judeu, exemplifica-se muito bem numa pequena frase, que Walther Rathenau* uma vez me mencionou em conversa: “Se um judeu diz que vai à caça por prazer, está a mentir.” Não se pode exprimir de forma mais simples a consciência da santidade e solidariedade com a vida.

Albert Einstein (1879-1955), físico, judeu alemão.

Artigo de opinião escrito por Einstein a 3 de Agosto de 1932, traduzido do original alemão por Lutz Brückelmann (a quem agradeço a paciência e imensa gentileza com que atendeu o meu pedido).
O original pode ser visto aqui: página 1 e página 2.
* Sobre Walther Rathenau ver: Walther Rathenau – Wikipedia


Albert Einstein com David Ben Gurion, primeiro-ministro de Israel, em Princeton, 1948.

Ontem, 14 de Março de 2005, passaram 126 anos sobre o nascimento de Albert Einstein, um dos mais notáveis personagens da história humana. Com a tradução deste texto, mostra-se aqui uma das faces menos conhecidas de Einstein – o seu judaísmo muito particular.
Militantemente laico durante a maior parte da sua vida – tal como a esmagadora maioria dos judeus alemães da época –, o cientista sentiu sempre, contudo, uma profunda ligação cultural e emocional ao judaísmo. Nos últimos anos, no entanto, rejeitaria o ateísmo transformando-se em “judeu agnóstico”, admitindo a existência de um Criador que “não joga aos dados com o Universo”.
Sobre o seu judaísmo, Einstein escreveria ainda anos mais tarde: “A busca do conhecimento pelo conhecimento, um quase fanático amor à justiça e o desejo de independência pessoal – estas são as características da tradição judaica que me fazem agradecer às estrelas o facto de eu lhe pertencer.”
Apesar da sua manifesta oposição a qualquer forma de nacionalismo, Albert Einstein participou activamente no movimento sionista e defendeu abertamente a criação de um estado judaico na Palestina, “uma pátria nacional e cultural para o povo judeu onde os direitos dos árabes sejam também respeitados”. Em defesa da criação de Israel, Einstein chegou a depor, em 1946, perante o Comité Anglo-Americano de inquérito sobre a Palestina e quando, dois anos depois, a independência de Israel foi declarada, o cientista saudou-a como a “concretização de um sonho ancestral”.
Desde muito cedo, décadas antes da formação política de Israel, Einstein participou na recolha de fundos para a criação da Universidade Hebraica de Jerusalém e foi também um dos propulsores da fundação de uma universidade judaica americana, a Brandeis University. Em testamento, Albert Einstein legou todo o seu espólio, bem como os direitos autorais sobre a sua obra e a sua imagem, à Universidade Hebraica de Jerusalém.
Em 1952, três anos antes da sua morte, Albert Einstein foi convidado pelo primeiro-ministro israelita David Ben Gurion a candidatar-se à presidência de Israel. Doente e frágil, Einstein sentiu-se obrigado a rejeitar o convite numa carta onde manifestava sentir-se “extremamente honrado e comovido” com o desafio de Ben Gurion.
Durante todo o ano de 2005, assinalando a passagem do centenário do annus mirabilis de Albert Einstein, durante o qual, com apenas 26 anos, publicou três artigos que mudariam radicalmente o pensamento científico, a comunidade cientifica mundial celebra o Ano Internacional da Física (ver World Year of Physics 2005 e Sociedade Portuguesa de Física).


Albert Einstein em viagem com os líderes sionistas Meachim Usishkin, Chaim Weizman, futuro primeiro presidente de Israel, e Theodor Herzl, o “pai do sionismo”.

::A LER:: אלברט איינשטיין – ויקיפדיה / Albert Einstein Archives Online / Jewish Virtual Library – Albert Einstein / Albert Einstein – Wikipedia (Inglês) / Albert Einstein – Wikipédia (português) / Albert Einstein – Wikipedia (Alemão) / Albert Einstein – Biography (Nobel.com) / Einstein – Image and Impact. AIP History Center exhibit. / Ben Gurion University – Einstein planting a tree in the young town of Migdal in Israel / Medalhas portuguesas comemorativas do centenário de Einstein / Albert Einstein Licensing

::A OUVIR:: Einstein fala sobre o destino dos judeus da Europa, a equivalência energia-massa e armas nucleares e a paz

::A VER:: Albert Einstein em Princeton, fala sobre a Universidade Hebraica de Jerusalém: Vídeo (formato mpg)


Einstein toca violino numa sinagoga de Berlim (1930)

David Grossman

Retratos VI – Judeus na Primeira Pessoa



Para mim, ser judeu é ser um estranho.
Um estranho em relação a situações humanas em que se forma um colectivo de qualquer espécie, composto por muitos que falam (ou urram) com uma voz única; um estranho com uma leve suspeita sobre o que torna aquele colectivo possível; com a solidão que toma conta do indivíduo na presença de um colectivo daqueles, mesmo que ele não queira – ou seja incapaz – de fazer parte dele; com o sentido de singularidade que acompanha aquela solidão; com aquela marca (não inteiramente compreensível) de orgulho que acompanha estes sentimentos, afligido incessantemente pelo facto dessa singularidade colocar uma barreira invisível, mas real, entre ele e os outros; com o constante cepticismo que repousa dentro desses sentimentos, porque frequentemente parece que estes sentimentos não são mais do que uma crosta formada sobre a ferida da solidão, da trágica distinção dos Judeus – e quem sabe se foi imposta desde o início aos judeus pelos outros ou se os judeus a escolheram e refinaram – transformou “O Judeu” num símbolo quase universal do estrangeiro absoluto; com a dor do facto desta atitude ter transformado o Judeu e a sua História, aos olhos da humanidade, numa história maior do que a própria vida, e logo em algo que não é parte da própria vida, algo despegado do curso da natureza e da História experimentado por outras nações.
A isto tenho de juntar o profundo e instintivo sentimento de identificação familiar que sinto em relação aos judeus de todas as gerações. Partilho os seus destinos, as suas formas de pensar, a sua cultura, a sua linguagem e o seu humor. Mas talvez, aquilo com que realmente me identifico, mais do que qualquer outra coisa, é precisamente com esse sentido de solidão, ferida e perseguição, esse sentimento de ser estrangeiro neste mundo, sempre angustiado pela delicadeza da existência.
Mas sempre que sinto isto ao identificar-me desta forma como judeu, passo a fazer parte deste colectivo particular, o colectivo judaico, dou um passo atrás, e tenho sérias (e muito judaicas) dúvidas acerca de lhe pertencer.

David Grossman, jornalista e escritor israelita. Retirado do livro “I Am Jewish: Personal Reflections Inspired by the Last Words of Daniel Pearl”, 2004.

::A LER:: David Grossman (bio-biblio) / Books & Writers – David Grossman (bio) / PBS – NOW. Bill Moyers Interviews David Grossman / Público Online “Israel é um milagre e estamos a desperdiçá-lo” / Fora do Mundo: O ÚNICO SÍTIO DA TERRA, Pedro Mexia / Guardian Where death is a way of life, David Grossman / Israel Culture & Arts.

::A OUVIR:: TSF: Pessoal… e Transmissível – David Grossman , uma excelente entrevista conduzida por Carlos Vaz Marques / NPR – David Grossman on Israel in Crisis (formato RealAudio)

Leonard Nimoy

Retratos V – Judeus na Primeira Pessoa


Desde criança que me recordo de uma benção específica praticada regularmente na nossa sinagoga. Os dedos de cada mão eram separados para recriar o shin [ש], a letra hebraica que representa Shad-ai, um dos nomes divinos. Quando criámos a série Star Trek precisávamos desesperadamente de uma saudação única para o meu personagem. Lembrei-me daquele gesto ancestral e propus que o usássemos. O resto, como se costuma dizer, faz parte da história.
Porque me lembrei daquele gesto? Os actores tentam incutir algo de pessoal nos papéis que encarnam. Provavelmente, então, foi a convergência das minhas existências: espiritual e profissional. Provavelmente, posso chamar àquela saudação o meu shalom vulcano, a minha saudação de paz, a minha ânsia pela benção da paz: a busca ancestral do povo judeu, o meu povo.

Leonard Nimoy, actor, escritor e fotógrafo. Testemunho publicado na revista de domingo do New York Times, a 22 de Dezembro de 1996.

O Judaísmo do Dr. Spock
A benção judaica popularizada por Leonard Nimoy (o Dr. Spock) em Star Trek chama-se Birkat ha-Cohanim (Benção Sacerdotal), constituída por três versículos da Torá (Bamidbar [Números] 6:24-26), recitada de forma cadenciada pelos cohanim (descendentes directos de Aarão, irmão de Moisés, habitualmente reconhecíveis pelo sobrenome – Cohen, Kohen, Konn, Kahn, Kane, Coen, Sacerdote, Kaplan, Papp etc.):

O Senhor te abençoe e guarde. O Senhor faça resplandecer a sua presença sobre ti, e tenha misericórdia de ti. O Senhor sobre ti levante a sua providência, e te dê a paz.

יְבָרֶכְךָ יְהוָה, וְיִשְׁמְרֶךָ
יָאֵר יְהוָה פָּנָיו אֵלֶיךָ, וִיחֻנֶּךָּ
יִשָּׂא יְהוָה פָּנָיו אֵלֶיךָ, וְיָשֵׂם לְךָ שָׁלוֹם

Na Diáspora, a benção é administrada nos dias santos, à excepção do Purim e Hanuká. Em Israel, é recitada diariamente. O gesto sacerdotal, que para além da letra shin (ש) representa cabalisticamente as três colunas sefiróticas da Árvore da Vida, é tradicionalmente inscrito também nas pedras tumulares dos cohanim.

Spock e a benção dos Cohanim Pedra tumular da campa de um cohen

Campa de um Cohen

::A LER::
Leonard Nimoy: Leonard Nimoy Photography / Leonard Nimoy Gallery: Photos / Leonard Nimoy: Internet Movie Database / Spock Sings: The Ballad of Bilbo Baggins (vídeo) / The Leonard Nimoy Album Page / Fascinating – the Leonard Nimoy fanlisting / Leonard Nimoy: His Fabulous Music and Poetry / I Am Spock / Spaced Out – The Very Best of William Shatner & Leonard Nimoy / Shekhina (livro de fotografia)

A genética e os Cohanim: Science News – The Priests’ Chromosomes – DNA Analysis Supports the Biblical Story of the Jewish Priesthood / Tracing the Cohanim / Jewish Genes / Jewish Priests / Revista Morashá – O DNA dos Cohen

Bernard-Henry Lévy

Retratos IV – Judeus na Primeira Pessoa

Bernard-Henry Lévy

Sou judeu por parte da minha mãe e do meu pai. Sou judeu por parte de Lévinas, Buber, Rosenzweig. Sou judeu porque ser judeu significa amar mais a lei do que a terra e a letra tanto quanto o espírito.
Sou judeu em resultado de uma desconfiança, que sempre senti, em relação a estados extáticos e extremos de paixão religiosa.
Sou judeu em resultado da minha rejeição de todas as formas de magia ou mistério: “Cautela”, gritou Lévinas, autor de Difficíle Liberté, Essais sur le Judaïsm, “com todos os falsos profetas que dizem que o homem está ‘mais perto dos deuses quando deixa de pertencer a si próprio’! Em guarda, judeus, contra o esquecimento de que o judaísmo é a única religião no mundo que prega a recusa das forças obscuras – a religião do desencanto, do santo e não do sagrado!” É assim que sou judeu.
Sou judeu porque sou antinaturalista e antimaterialista – sou judeu, por outras palavras, porque me sinto em casa no Livro e entre os homens, mais do que na obscura floresta de símbolos e até na vida.
Sou um judeu do galout (exílio, diáspora); sou um judeu que, há anos e anos, reflecte nesta questão do galout; não propriamente na reabilitação do galout; não, falando correctamente, na metafísica do galout; e, ainda menos, na distância em relação a Israel, que amo do fundo do coração, um amor incondicional; mas a meditação num exílio essencial, sem redenção nem retorno, que para mim parece constituir o que significa ser judeu, tanto no galout como em Israel; o contrário do exílio de Ulisses; a correlação e parte do fascínio, judaico também, com o reino dos céus; não é Judeu o nome, igualmente, do filho de Abraão (o Hebreu) e de Jacob (o Israelita)? Não é a filosofia judaica, indissociavelmente, a filosofia dos reis e dos profetas, de Israel e a da voz que, através de Jeremias, implora ao “resto de Israel” para “fortificar as suas posições no exílio”?
Sou judeu porque não sou um platónico; judeu por causa do que chamarei, para ser sucinto, anti-platonismo coextensivo ao pensamento judaico; uma ética mais do que um ponto de vista; uma relação com os outros homens tanto quanto com Deus ou, mais exactamente, a Deus, sim, mas porque, e somente porque, me traz mais perto do meu semelhante.
Sou judeu como Lévinas quando ele discute a amizade com Buber. Nessa discussão, que é digna, pelos seus termos, da famosa disputa em que Proust, sobre o mesmo tema, acaba por atirar os sapatos à cara de Emmanuel Berl, Lévinas expressa a sua desconfiança das noções buberianas de diálogo e reciprocidade. Sou judeu, sim, na forma como Lévinas declara ser estranha e irrelevante a ideia de uma amizade puramente espiritual, ou “desnervada”, que pode apenas cair em “formalismo”. Ele conclui com estas formulações magníficas, que são parte do meu judaísmo: o Outro necessita mais de “solicitude” do que de “amizade”, porque “vestir os que estão nus e alimentar os que têm fome é o real e concreto acesso ao Outro, mais autêntico do que amizade etérea.”
Sou um judeu que não é realmente um humanista (a palavra perde o sentido para um leitor, mesmo o menos versado, do Maharal de Praga ou do Gaon de Vilna), mas sou consciente de um judaísmo que me faz responsável pelos outros, o seu guardador – um judaísmo que se define, assim, como uma ética e define esta ética como aquela que é estabelecida quando eu resolvo fazer de mim não o igual mas o refém do meu semelhante e que vejo, sobre o meu “eu”, um “Ele” que me domina das sagradas alturas.
Sou um judeu que não é obviamente político (como pode um estudante de Lévinas esquecer o seu Politique Aprés?) mas aberto, por outro lado, ao mundo e a fazer do messianismo a responsabilidade básica do homem, de cada homem, no trabalho de redenção.
Sou um judeu universalista.
Sou um judeu que não se resigna a deixar ao cristianismo o monopólio do universalismo. O “povo escolhido”, tanto para mim como para Lévinas e Albert Cohen, não é um privilégio, mas uma missão. O papel do povo judeu, tanto para mim como para Rosenzweig, é abrir, a todos os povos, as invisíveis e sagradas portas que iluminam a estrela da redenção. É este, aos meus olhos, o significado do mandamento de Deuteronómio: “Não abominarás o idumeu, pois é teu irmão; não abominarás o egípcio”; e também na história de Jonas, a quem Deus diz: “Levanta-te, vai à grande cidade de Ninive e clama”, mesmo quando Ninive é, como ele sabe, o inimigo de Israel, a capital da Assíria, o próprio reino do mal.
Sou um judeu tal como Walter Benjamin quando Benjamin fala da sua “solicitude para com os vencidos e famintos” – sou judeu no sentido de Poésie et Revolution e de Teses Sobre o Conceito da História mostrando que “cada segundo é a porta estreita através da qual pode passar o messias.”
Sou um judeu que acredita, como Benjamin e, de certa forma, Scholem, que o messianismo judaico é a “encarnação de uma história secreta e invisível” que “se contrapõe à história dos fortes e dos poderosos”, que é como quem diz a “história visível” – toda a minha vida acreditei neste judaísmo, e isto é o que tenho praticado.
Fui judeu, por outras palavras, no meu Réflexions sur la Guerre, le Mal e la Fin de l’Histoire. Fui judeu no Burundi, em Angola, e na Bósnia muçulmana. Fui judeu entre os nubios a caminho de serem exterminados no sul do Sudão.
Fui judeu cada vez que, nas mais desoladas zonas do mundo, no coração das suas mais esquecidas guerras, eu aprendi a instrução judaica segundo a qual a mais séria prova da existência de Deus é a existência de rostos – e o sinal do eclipse de Deus é o seu apagamento programado.
Sou judeu porque acredito num Deus que por outra definição é “Não Matarás”.
Sou judeu quando tentei, ao longo de um ano, traçar os passos de Daniel Pearl, e sou judeu quando, à minha maneira, modesta e secular, sim, mas à minha maneira, tento contribuir para a santificação do seu nome.

Bernard-Henry Lévy, filósofo, escritor, jornalista e ensaísta francês. Retirado do livro “I Am Jewish: Personal Reflections Inspired by the Last Words of Daniel Pearl”, 2004.

Gershom Sizomu

Retratos III – Judeus na Primeira Pessoa

 Gershom Sizomu

Sou o líder espiritual dos judeus do Uganda (Abayudaya), em África. Somos poucos em número, mas somos uma comunidade judaica forte, espiritual e profundamente religiosa. Somos mais de 600.
Nascido em 1969, tenho 34 anos. Com a minha mulher, Tzipoprah, viajei até Los Angeles, na Califórnia, onde estudo no Colégio Rabínico da University of Judaism. Estamos muito longe da nossa terra.
Quando tinha apenas dois anos, Iddi Amin Dada, lendário pela sua crueldade e corrupção, tomou o poder e a presidência do Uganda pela força das armas. Entre 1971 e 1979, quando finalmente o seu regime foi derrubado, Amin tornou ilegal a nossa observância religiosa e proibiu que nos declarássemos judeus. Deu-nos três alternativas: a conversão ao islão ou ao cristianismo, abjurar por completo ao judaísmo ou a morte.
Enquanto muitos do nosso povo sucumbiram à primeira alternativa convertendo-se, a minha família e outras continuaram a celebrar o Shabbat e outros mitzvot em segredo. Na maior parte das vezes, celebrávamos os serviços religiosos nos quartos, onde podíamos adorar o nosso Deus de forma sussurrada.
Em 1989, aos 20 anos de idade, foi preso conjuntamente com outros três judeus. Fomos apanhados quando mobilizávamos a nossa juventude para aprender a tradição judaica e a língua hebraica, e quando reconstruíamos a nossa sinagoga, destruída durante o regime de Iddi Amin. Sofremos às mãos dos líderes muçulmanos e cristãos locais, que não estavam interessados na existência de uma comunidade judaica.
Para se ser judeu no Uganda é necessário suportar intimidação, opressão e insultos. Debatemo-nos com restrições no acesso a serviços sociais administrados por muçulmanos e cristãos. Mas o Uganda não é um desafio só nosso.
Eu não pareço judeu aos olhos dos outros, mesmo da comunidade judaica internacional, e muitas vezes me perguntam, “como se tornou judeu?” e “quem o converteu?”
Apesar de ter enfrentado situações que colocaram a minha vida em risco durante os meus 34 anos enquanto judeu no Uganda, sou também apenas mais um membro de um povo especial – os judeus – que tem resistido durante muitos séculos de ódio e opressão e continuam a dizer shalom ao mundo.”

Gershom Sizomu, judeu do Uganda, actualmente a estudar na Ziegler School of Rabbinic Studies da University of Judaism, em Los Angeles. Testemunho retirado do livro I Am Jewish: Personal Reflections Inspired by the Last Words of Daniel Pearl, 2004.

[A comunidade Abayudaya, de judeus do Uganda, foi fundada em 1919 por Semei Kakungulu. Um tribunal rabínico (beit din), composto por rabinos conservadores, efectuou a “conversão em massa” dos membros da comunidade Abayudaya em Fevereiro de 2002, “legalizando” a situação dos judeus do Uganda aos olhos da comunidade judaica internacional.]

A visitar: A History of the Abuyudaya Jews of Uganda / Kulanu: The genesis of the Abayudaya Community / Kulanu: Visiting the Ugandan Miracle / The Jews of Africa – The Abayudaya of Uganda / Abayudaya: Music from the Jewish People of Uganda / Abayudaya: les juifs noirs de l’Ouganda / Economist.com | Uganda’s Jews / Jewish Post of New York Online – The Jews of Uganda / The Jewish Journal Of Greater Los Angeles – Out of Africa, Into the Valley / Moving Heaven And Earth (documentário).


Fotos de Richard Sobol.

Daniel Blaufuks

Retratos II – Judeus na Primeira Pessoa


Sinto, sem dúvida [a influência do judaísmo]. Sobretudo o facto de os meus avós terem sido perseguidos e de terem sido forçados ao exílio. Acho que isso atravessa a maior parte das coisas que faço. O meu trabalho é feito sobretudo através de errâncias e viagens, de uma constante procura e isso vem do Judaísmo. Nunca me esqueço de uma ideia que o meu avô me passou quanto à definição de Judaísmo. Ele disse-me que as crianças judias, quando fazem uma pergunta, recebem sempre uma resposta. Acho que o judaísmo passa muito por aí, pela educação e não tanto pela religião; por uma educação comum.

Daniel Blaufuks, judeu português, nascido em Lisboa (1963). Fragmento de uma entrevista com Diana Ettner. (Via Comunidade Judaica de Lisboa)

Jacques Derrida

Retratos I – Judeus na Primeira Pessoa:

Jacques Derrida, 1997


Bon, alors on commence par l’affectif : j’étais un enfant, un petit élève très malheureux, c’est-à-dire que je souffrais beaucoup à l’école… Il faut dire que c’était en Algérie. Je suis entré en maternelle en 34-35 et très vite, c’était la guerre. Une école où les problèmes raciaux étaient déjà très sensibles : il y avait beaucoup de brutalités entre les élèves déjà, des bagarres entre les petits arabes et les petits français… donc une expérience de violence. Je me sentais enfant très exposé qui avait plutôt envie de rentrer chez lui et se protéger contre un univers qui paraissait extrêmement violent. J’étais à l’école primaire ce qu’on appelle un très bon élève, avec un rapport très apeuré devant la machine et dans le milieu des élèves que je sentais comme extrêmement violents. Et très vite, ça s’associe en moi, dans ma mémoire, à la guerre. Le régime vichyste était très marqué en Algérie ; il n’y avait pas d’allemands mais le pétainisme était très pesant, très sensible. Le souvenir des lettres qu’on devait envoyer au maréchal Pétain, et l’antisémitisme… Je suis juif. Et la violence prenait la forme non seulement des bagarres entre élèves, des propos antisémites, mais aussi de ceci : le pétainisme partout, les photos du maréchal partout… Une anecdote est restée gravée dans mon esprit : j’étais le premier de la classe. Cela accordait quelques privilèges. Tous les matins, il y avait une levée du drapeau avec le Maréchal, nous voilà ! Et je me suis aperçu un jour que, bien que premier, parce que juif, on ne me faisait pas lever le drapeau ! Alors que c’était les premiers de la classe qui devaient hisser le drapeau. Et d’un coup, je comprends… sans comprendre ! pourquoi on ne me laissait pas lever le drapeau… Donc bon élève… mais écriture impossible. J’avais une graphie illisible, et qui l’est restée depuis, toujours. Et déjà à ce moment-là, il y avait cette image que je sentais que je donnais de moi à ces bons maîtres : garçon doué mais dont l’écriture est impossible. J’avais un instituteur qui était déjà un ancien prisonnier de guerre libéré, ce devait donc être en 40, et qui était en même temps le chef des scouts de la petite ville de banlieue d’Alger où j’habitais. J’étais louveteau ; il pratiquait le scoutisme dans la classe et la classe était divisée en trois équipes : les hirondelles, les fourmis et les abeilles, et ça, c’était des équipes de scouts ! Avec des compétitions, les notes, dans cette atmosphère, cette idéologie pétainiste, ces équipes structuraient la classe ! Et moi j’étais, en tant que bon élève, le chef des abeilles. Et j’ai très mal supporté, pour les mêmes raisons de difficultés à me socialiser, mon expérience scoute. Je suis resté six mois scout et j’ai été très malheureux ; j’ai donc abandonné. Cet univers me paraissait très oppressif et j’y sentais l’idéologie pétainiste, l’antisémitisme. Je me souviens, pour en revenir à mon écriture, que ce même instituteur, pendant les récréations, me disait : ” Toi, tu remontes dans la classe me refaire ton exercice “, qui était trop mal écrit.

Conversation avec Jacques Derrida, Bernard Defrance