Albert Einstein (1879-1955)

Uma mundivisão judaica, no sentido filosófico, no meu entender não existe. O Judaísmo, penso eu, refere-se quase exclusivamente a uma postura moral perante a vida. O Judaísmo parece-me ser mais a essência da atitude perante a vida que reside no povo judeu do que a lei contida na Torá e interpretada no Talmude. Torá e Talmude são para mim apenas os testemunhos mais importantes da vigência da atitude perante a vida em tempos idos. A essência da ideologia de vida dos judeus parece-me ser esta: A afirmação da vida de todas as criaturas. A vida do indivíduo só tem sentido no serviço de embelezamento e enobrecimento da vida em todos os seres vivos. A vida é sagrada, isto é o valor máximo do qual dependem todas as outras avaliações. A santificação da vida supra-individual traz consigo a adoração de tudo o que é espiritual, um traço especialmente característico da tradição judaica. (…)

Existirá uma mundivisão judaica?
Por Albert Einstein


Uma mundivisão judaica, no sentido filosófico, no meu entender não existe. O Judaísmo, penso eu, refere-se quase exclusivamente a uma postura moral perante a vida.
O Judaísmo parece-me ser mais a essência da atitude perante a vida que reside no povo judeu do que a lei contida na Torá e interpretada no Talmude. Torá e Talmude são para mim apenas os testemunhos mais importantes da vigência da atitude perante a vida em tempos idos.
A essência da ideologia de vida dos judeus parece-me ser esta: A afirmação da vida de todas as criaturas. A vida do indivíduo só tem sentido no serviço de embelezamento e enobrecimento da vida em todos os seres vivos.
A vida é sagrada, isto é o valor máximo do qual dependem todas as outras avaliações. A santificação da vida supra-individual traz consigo a adoração de tudo o que é espiritual, um traço especialmente característico da tradição judaica.
O judaísmo não é uma fé. O Deus judeu é uma negação da superstição, um resultado imaginário da sua negação. É também uma tentativa de basear uma lei moral no temor, uma tentativa lamentável. Mas parece-me que a forte tradição moral no povo judeu se soltou largamente deste temor. Também é manifesto que “servir Deus” foi equiparado a “servir o outro”. Para isso lutaram incansavelmente os melhores do povo judeu, especialmente os profetas.
Assim o Judaísmo não é, principalmente, uma religião transcendente, tendo só a ver com a nossa vida experienciada e por assim dizer palpável, e com nenhuma outra coisa. Parece-me por isso duvidoso que possa ser chamado uma “religião” no sentido corrente do termo, ainda porque não é exigido aos judeus nenhuma “fé”, só a santificação da vida no sentido supra-pessoal.
Mas encontra-se ainda algo mais na tradição judaica, que se revela esplendorosamente em alguns salmos, uma espécie de alegria embriagada e um espanto sobre a beleza e incompreensível sublimidade deste mundo, da qual o homem somente consegue alcançar uma fraca noção. É o sentimento de onde também a verdadeira investigação obtém a suas forças, mas que igualmente parece exprimir-se no canto dos pássaros. Isto parece-me ser o conteúdo mais sublime da ideia de Deus.
Será isto característico para o Judaísmo? Vive ele também sob outro nome? De forma pura não vive em nenhum lado, também não no Judaísmo, onde muito culto da letra obscurece a pura doutrina. Mas vejo mesmo assim no Judaísmo uma das suas realizações mais vitais e puras. Isto vale especialmente para o princípio da santificação da vida.
É notável que na oração da santificação do Shabbat também os animais são expressamente incluídos, tanta é a força e a exigência do ideal da solidariedade para com todo o ser vivo. Ainda mais, exprime-se a exigência da solidariedade de todos os homens, e não é um acaso que as doutrinas socialistas tiveram maioritariamente a sua origem em judeus.
O quanto da consciência da santidade da vida está viva no povo judeu, exemplifica-se muito bem numa pequena frase, que Walther Rathenau* uma vez me mencionou em conversa: “Se um judeu diz que vai à caça por prazer, está a mentir.” Não se pode exprimir de forma mais simples a consciência da santidade e solidariedade com a vida.

Albert Einstein (1879-1955), físico, judeu alemão.

Artigo de opinião escrito por Einstein a 3 de Agosto de 1932, traduzido do original alemão por Lutz Brückelmann (a quem agradeço a paciência e imensa gentileza com que atendeu o meu pedido).
O original pode ser visto aqui: página 1 e página 2.
* Sobre Walther Rathenau ver: Walther Rathenau – Wikipedia


Albert Einstein com David Ben Gurion, primeiro-ministro de Israel, em Princeton, 1948.

Ontem, 14 de Março de 2005, passaram 126 anos sobre o nascimento de Albert Einstein, um dos mais notáveis personagens da história humana. Com a tradução deste texto, mostra-se aqui uma das faces menos conhecidas de Einstein – o seu judaísmo muito particular.
Militantemente laico durante a maior parte da sua vida – tal como a esmagadora maioria dos judeus alemães da época –, o cientista sentiu sempre, contudo, uma profunda ligação cultural e emocional ao judaísmo. Nos últimos anos, no entanto, rejeitaria o ateísmo transformando-se em “judeu agnóstico”, admitindo a existência de um Criador que “não joga aos dados com o Universo”.
Sobre o seu judaísmo, Einstein escreveria ainda anos mais tarde: “A busca do conhecimento pelo conhecimento, um quase fanático amor à justiça e o desejo de independência pessoal – estas são as características da tradição judaica que me fazem agradecer às estrelas o facto de eu lhe pertencer.”
Apesar da sua manifesta oposição a qualquer forma de nacionalismo, Albert Einstein participou activamente no movimento sionista e defendeu abertamente a criação de um estado judaico na Palestina, “uma pátria nacional e cultural para o povo judeu onde os direitos dos árabes sejam também respeitados”. Em defesa da criação de Israel, Einstein chegou a depor, em 1946, perante o Comité Anglo-Americano de inquérito sobre a Palestina e quando, dois anos depois, a independência de Israel foi declarada, o cientista saudou-a como a “concretização de um sonho ancestral”.
Desde muito cedo, décadas antes da formação política de Israel, Einstein participou na recolha de fundos para a criação da Universidade Hebraica de Jerusalém e foi também um dos propulsores da fundação de uma universidade judaica americana, a Brandeis University. Em testamento, Albert Einstein legou todo o seu espólio, bem como os direitos autorais sobre a sua obra e a sua imagem, à Universidade Hebraica de Jerusalém.
Em 1952, três anos antes da sua morte, Albert Einstein foi convidado pelo primeiro-ministro israelita David Ben Gurion a candidatar-se à presidência de Israel. Doente e frágil, Einstein sentiu-se obrigado a rejeitar o convite numa carta onde manifestava sentir-se “extremamente honrado e comovido” com o desafio de Ben Gurion.
Durante todo o ano de 2005, assinalando a passagem do centenário do annus mirabilis de Albert Einstein, durante o qual, com apenas 26 anos, publicou três artigos que mudariam radicalmente o pensamento científico, a comunidade cientifica mundial celebra o Ano Internacional da Física (ver World Year of Physics 2005 e Sociedade Portuguesa de Física).


Albert Einstein em viagem com os líderes sionistas Meachim Usishkin, Chaim Weizman, futuro primeiro presidente de Israel, e Theodor Herzl, o “pai do sionismo”.

::A LER:: אלברט איינשטיין – ויקיפדיה / Albert Einstein Archives Online / Jewish Virtual Library – Albert Einstein / Albert Einstein – Wikipedia (Inglês) / Albert Einstein – Wikipédia (português) / Albert Einstein – Wikipedia (Alemão) / Albert Einstein – Biography (Nobel.com) / Einstein – Image and Impact. AIP History Center exhibit. / Ben Gurion University – Einstein planting a tree in the young town of Migdal in Israel / Medalhas portuguesas comemorativas do centenário de Einstein / Albert Einstein Licensing

::A OUVIR:: Einstein fala sobre o destino dos judeus da Europa, a equivalência energia-massa e armas nucleares e a paz

::A VER:: Albert Einstein em Princeton, fala sobre a Universidade Hebraica de Jerusalém: Vídeo (formato mpg)


Einstein toca violino numa sinagoga de Berlim (1930)

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