
Vale Judeu, Algarve. Foto de Tiago Farrajota.
Category: Pintura & Fotografia
Anjos — יום השואה , יום הזיכרון לשואה ולגבורה

por caminhos impensáveis
anjos e anjos e anjos
eram pegadas, legiões, bandos,
autómatos caminheiros, peregrinos
sem bordão, que as promessas
vivas navegavam entre os corpos
e as incertezas, pisavam a lama
tijolos de adobe, inconsistente
desespero do sangue dos braços
caídos, sem forças para erguer
clamores, lamentos inauditos,
inaudíveis fronteiras de aço,
gritos de nevoeiro rasgado,
urgência de um clarão
para lá do abandono. porquê
… as eternas diferenças
intemporais?! anjos
Poema de João S Martins, aguarela de Fernando Silva (inéditos).
Hoje, 21 de Abril de 2009, assinala-se o Yom HaShoá, o Dia da Memória do Holocausto. A cada passo, o presente recorda-nos a necessidade premente de nos tornarmos — cada um de nós — guardiões da Memória. Porque essa Memória é a voz de milhões de vozes. É a nós que nos cabe garantir que não foram caladas em vão.
Um muito obrigado ao João Martins e ao Fernando Silva pela generosidade dos seus talentos.
Uma homenagem no último dia de Páscoa

Este quadro, da autoria de Francisco Duarte Azevedo, apresentado aqui em estreia absoluta, intitula-se The Day After the Auto-da-Fé, uma homenagem do pintor aos mortos do massacre de Lisboa, de Abril de 1506. Com uma beleza de calma aparente e toda uma carga de violência subentendida, o quadro pode também ler-se como uma metáfora à vida daqueles que tiveram de viver sob um terror constante.
Obrigados a converter-se ao catolicismo sob pena de morte e sem outra opção possível, os judeus portugueses continuaram a ser judeus, não só no segredo das suas casas, mas também aos olhos dos vizinhos cristãos-velhos que, com intolerância, nunca lhes haveriam de fazer esquecer a sua diferença. Com o correr dos séculos, as tradições judaicas familiares de muitos diluíram-se nas poeiras da história. Outros preservaram esboços de liturgias ancestrais sem se aperceberem dos significados. Outros ainda, numa tradição oral passada de pais para filhos, de avós para netos, cinco séculos depois, sabem que são judeus — um facto teimoso que continua a deitar por terra as teorias daqueles que acreditavam que o judaísmo tinha sido expulso de Portugal. A estes, convencionou-se chamar-lhes marranos — uma palavra que para uns é insulto, mas para outros motivo de intenso orgulho.
Zog Maran (Diz-me Marrano)
(uma canção para a Páscoa Judaica)Diz-me Marrano, meu irmão,
onde pões a mesa para o Seder?
— Numa caverna escura e funda,
a minha Páscoa irei fazer.Diz-me Marrano, onde vais
buscar os brancos matzos?
— Na caverna, com a ajuda de Deus,
a minha mulher os lá amassa.Diz-me Marrano, como consegues
encontrar uma Hagadá?
Na caverna, entre as fendas,
há muito que escondi os livros lá.Diz-me Marrano, como te
defenderás quando te ouvirem cantar?
— Se me vierem prender, com uma
canção nos lábios irei morrer.Avrom Reisen
.::PARA OUVIR::.
Zog Maran, Vocolot, poema de Avrom Reisen música de Shmuel Bugatch.
“Marrano” é a designação tradicional dada aos judeus forçados a converterem-se ao catolicismo na península Ibérica, sob pena de morte e confiscação de bens, nos séculos XV e XVI. Durante séculos a expressão foi considerada depreciativa por se julgar que derivava de “porco” em castelhano, na verdade, ela é obtida pela contracção das palavras hebraicas márre (מר — amargo/amargurado) e anúze (אונס — forçado / violado) – refere-se também aos seus descendentes, muitos dos quais optam agora pelo processo de conversão para “regressar” à sua tradição ancestral. Em hebraico, os marranos são conhecidos simplesmente como “anussim” (אנוסים). Para diferenciar a palavra da sua homófona depreciativa, e evitar assim qualquer tipo de comparações, o capitão Barros Basto insistia que ela deveria ser escrita com apenas um “r”.
Kaddish

“Adeus”, auto-retrato de Chaim Goldberg (1917-2004) com sua mãe.
Fotos da Judiaria

“Deus de Israel”, uma velha traineira encalhada em Viana do Castelo, fotografada por Luis Novaes Tito, que fez questão de a dar como presente pelo quarto aniversário da Rua da Judiaria. Muito obrigado Luís.
Barca

Das navegações à distancia
que empreendemos de costa a costa
sob motivos e circunstancia
de exorcismos e alguma esperança
de fugirmos ao pedaço circunscrito
do legado ou povoado
onde parimos nossos filhos,
ficou essa paisagem do mar
em fim de terra, da tarde em fim de mar
e da terra cruzada por esses ambos elementos
mais a saudade tremelicando nos dedos
dos que partidos se foram
definitivamente
somente com a ideia de voltar
quando do cabo do mundo
trouxessem a mágica fórmula
de enriquecer para nos serões
com nossa prole recordarmos
gestas, historietas, lendas e canções
de anónimos heróis,
sábios poetas e cavaleiros andantes
despidos de andrajos dourados
e apenas fardados de suas palavras
exigindo às tábuas da lei
a única porção de chão
onde depositar seu corpo
com vistas para o vasto oriente
de um promontório extremo.
Como uma barca “roja” atracada
em fim de tarde.
Francisco Duarte Azevedo
Newport, Jersey City, 5 de Outubro de 2007
Depois de alguma insistência, o Francisco deixou que eu publicasse aqui este seu belíssimo poema – um poema de Diáspora – feito a partir do quadro, também de sua autoria, que aqui o ilustra. Já agora, aconselho uma passagem pela galeria online onde o Francisco tem expostos alguns dos seus quadros. É só seguir o link: aqui.
Um pintor “português” morto em Auschwitz

Considerado um dos mais representativos retratistas holandeses dos finais do século XIX e da primeira metade do século XX, Baruch Lopes Leão de Laguna nasceu em Amsterdão, a 16 de Fevereiro de 1864, no seio de uma família sefardita portuguesa.
A sua vida começa tal como haveria de acabar – marcada pelos mesmos tons de tragédia. Aos dez anos perdeu os pais – Salomão Lopes de Leão Laguna e Sara Kroese – dando entrada no orfanato da comunidade de judeus portugueses de Amsterdão. Apoiado pelos professores da comunidade, ganhou o gosto pela pintura, estudando primeiro na Escola Quellinus e depois na Academia Nacional de Belas Artes da Holanda.
Para sobreviver, Leão Laguna trabalhou para o pintor Jacob Meijer de Haan – primeiro na pastelaria da família, no bairro judeu de Amsterdão, e posteriormente no atelier, como seu assistente.
Aos poucos, a pintura de Leão de Laguna foi ganhando fama e reconhecimento suficientes para lhe permitirem dedicar-se por completo à sua paixão. Em 1885 faz a sua primeira exposição na Associação Arti et Amicitiae, uma mostra bastante bem recebida pela crítica e pelos colegas. Por essa altura Baruch Lopes de Leão Laguna casa com Rose Asscher, filha de um lapidador de diamantes.
Durante os primeiros anos da ocupação nazi, Leão Laguna refugiou-se na região de Laren, no norte da Holanda. Terá sido nessa altura que pintou o auto-retrato que figura em cima. Auxiliado por uma família que o esconde numa quinta remota, Leão Laguna fica-lhes imensamente grato, oferecendo-lhes vários dos seus quadros (entre os quais este auto-retrato).
Eventualmente, Baruch Lopes de Leão Laguna é capturado pelos nazis e levado para o campo de extermínio de Auschwitz, onde é assassinado a 19 de Novembro de 1943, com 79 anos de idade.
Ilustração: Auto-retrato, Leão Laguna, óleo sobre tela, cerca de 1940, 82 x 54 cm
::PARA VER:: Baruch Lopes de Leao Laguna on Artnet / De Valk Lexicon kunstenaars Laren-Blaricum: Laguna / Baruch Leao Laguna – Ask Art / Kunsthandlung Nitsche / Joods Historisch Museum | Museumcollectie: Laguna…
Um pintor português em Nova Iorque

O Barco, Francisco Duarte Azevedo, 2005.

Quando acabo um quadro seguro ao seu lado um qualquer objecto feito por Deus – uma pedra, uma flor, o ramo de uma árvore ou a minha mão – como se fora um teste final. Se o quadro se aguentar ao lado de algo que o homem não pode produzir, o quadro é autêntico. Se houver um choque entre os dois, a arte é má.”
Marc Chagal, pintor, judeu russo naturalizado francês, em entrevista ao Saturday Evening Post, de Nova Iorque, a 2 de Dezembro de 1962.
Não é todos os dias que um pintor português expõe o seu trabalho em Nova Iorque. Não é também todos os dias que sinto orgulho em poder chamar amigo a alguém cujo talento admiro profundamente. Esta bela citação de Chagal é pretexto perfeito para convidar os meus leitores de Nova Iorque – e arredores –a conhecerem a pintura de Francisco Duarte Azevedo, actualmente em exposição a escassos três quarteirões de Times Square. Diplomata de carreira, cônsul geral de Portugal em Newark, poeta e escritor, Francisco Duarte Azevedo tem na pintura o veículo perfeito. Para o seu indiscutível talento e para a sua imensa generosidade.
Francisco expõe em conjunto com a fotógrafa nova-iorquina Dorothy Krakauer, que mostra um conjunto de excelentes fotografias do sul de Espanha. “The painter constructs, the photographer discloses”, escreveu Susan Sontag.
A exposição tem lugar no restaurante Pomaire, (o único restaurante chileno de Nova Iorque), 371 W 46th St, entre as avenidas 8 e 9, no coração da Broadway. Vejam os belos quadros de Francisco Duarte Azevedo, as fotos de Dorothy Krakauer e, já agora, aproveitem para provar a sopa – o caldillo de congrio chileno é também uma obra de arte.
Hanuká VIII (חג חנוכה שמח)
8a Noite

Lighting the Hanukkah Menorah, Akiva Kenny Segan, 1973
Para ouvir:
Hanuká VI (חג חנוכה שמח)
6a Noite

Representantes do governo marroquino (muçulmanos) assistem ao serviço de Hanuká na sinagoga de Bet El, em Casablanca, em sinal de respeito para com a minoria judaica do país. Fotografia de Alex Levac, 1994.
Para ouvir:
Hanuká V (חג חנוכה שמח)
5a Noite

Hanukah Menorah with Pictoglyphs (detalhe), Akiva Kenny Segan, 2004.
Para ouvir:
Hanuká IV (חג חנוכה שמח)
Hanuká III (חג חנוכה שמח)
3a Noite

Sobrevivente do Holocausto acende as velas de Hanucá no Centro de Estudos Hebraicos da Comunidade Judaica de Praga, 1999. Foto de Ben Eden.
Para ouvir:
Hanuká II (חג חנוכה שמח)
2a Noite

Menorah, Iris Gill.
Para ouvir:
Para ver:
Adam Sandler: The Hannukah Song (vídeo)
::A LER:: Hanucá – Wikipédia (artigo em português) / Judeus em Terras de Algodres: Hanukkah ou Chanuka / History of Hanukkah – History Channel / Hanukkah – Chabad.org / Judaism 101: Chanukkah
Nathan Altman

Retrato de Anna Akhmatova, 1914, por Nathan Altman, judeu russo.
Post descaradamente roubado ao Nuno Ramos de Almeida, no novíssimo Aspirina B.
