Hanuká: Dez Livros para Oito Dias

Numa altura em que se fazem e consultam listas de presentes, a Rua da Judiaria sugere aqui uma lista de dez livros, para tornar as festas verdadeiramente felizes. Tal como em todas as listas, muitos ficaram de fora — especialmente porque, devido ao carácter específico do blog, o crivo regeu-se por três critérios fundamentais: os livros desta lista teriam de publicados em 2009, escritos por autores judeus ou ser, eles próprios, sobre temas judaicos. Vamos então à lista. A ordem é puramente arbitrária.

O Mar em Casablanca, Francisco José Viegas
O novo romance de Francisco José Viegas, vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da APE, 2005, com a obra Longe de Manaus.
O que une um cadáver encontrado nos bosques que rodeiam o belo Palace do Vidago e um homicídio no cenário deslumbrante do Douro? O que une ambos os crimes às recordações tumultuosas dos acontecimentos de Maio de 1977 em Angola? Jaime Ramos, o detective dos anteriores romances de Francisco José Viegas, regressa para uma nova investigação onde reencontra a sua própria biografia, as recordações do seu passado na guerra colonial – e uma personagem que o persegue como uma sombra, um português repartido por todos os continentes e cuja identidade se mistura com o da memória portuguesa do último século.
História de uma melancolia e de uma perdição, O Mar em Casablanca retoma o modelo das histórias policiais para nos inquietar com uma das personagens mais emblemáticas do romance português de hoje.

Breve História dos Judeus em Portugal, Jorge Martins
Já se publicaram algumas histórias dos judeus portugueses, todas elas de acentuado cariz académico, mas faltava uma obra de conjunto, actualizada e acessível ao grande público, destinada, particularmente, aos professores e aos estudantes, complementando ou suprindo as omissões dos nossos programas escolares. Sem escamotear o facto de que os estudos académicos são, por vezes, de difícil acesso aos leitores não especializados, sabemos que há apetência natural pelo conhecimento. Por outro lado, os estudantes, particularmente os universitários, necessitam de abordagens iniciáticas para se envolverem nas temáticas historiográficas. É este o objectivo de Breve História dos Judeus em Portugal, que vem demonstrar, a todos os leitores, que os judeus portugueses têm uma história para contar que faz parte da própria História de Portugal.
(Sobre a Breve História dos Judeus em Portugal irei publicar em breve uma recensão, dando-lhe o destaque que esta obra merece.)

Os Anagramas de Varsóvia, Richard Zimler
Um romance policial arrepiante e soberbamente escrito passado no gueto judaico de Varsóvia. Narrado por um homem que por todas as razões devia estar morto e que pode estar a mentir sobre a sua identidade… No Outono de 1940, os nazis encerraram quatrocentos mil judeus numa pequena área da capital da Polónia, criando uma ilha urbana cortada do mundo exterior. Erik Cohen, um velho psiquiatra, é forçado a mudar-se para um minúsculo apartamento com a sobrinha e o seu adorado sobrinho-neto de nove anos, Adam.
Num dia de frio cortante, Adam desaparece. Na manhã seguinte, o seu corpo é descoberto na vedação de arame farpado que rodeia o gueto. Uma das pernas do rapaz foi cortada e um pequeno pedaço de cordel deixado na sua boca. Por que razão terá o cadáver sido profanado? Erik luta contra a sua raiva avassaladora e o seu desespero jurando descobrir o assassino do sobrinho para vingar a sua morte. Um amigo de infância, Izzy, cuja coragem e sentido de humor impedem Erik de perder a confiança, junta-se-lhe nessa busca perigosa e desesperada. Em breve outro cadáver aparece – desta vez o de uma rapariga, a quem foi cortada uma das mãos. As provas começam a apontar para um traidor judeu que atrai crianças para a morte. Neste thriller histórico profundamente comovente e sombrio, Erik e Izzy levam o leitor até aos recantos mais proibidos de Varsóvia e aos mais heróicos recantos do coração humano. (Ler excerto aqui: Richard Zimler: Os Anagramas de Varsóvia @ Rua da Judiaria)

Rashi, Elie Wiesel
Para muitos, o rabino Shlomo Yitzhaki (mais conhecido pelo acrónimo “Rashi”) é conhecido pelos seus clássicos comentários ao Talmude. Outros encontraram-no pela primeira vez como o patriarca da popular série de romances históricos Rashi’s Daughters, escritos por Maggie Anton. Mas, no entanto, talvez a melhor apresentação é a que lhe faz o memorialista e Prémio Nobel Elie Wiesel, que em criança ouvira dos seus pais a garantia de que ele era descendente directo do ilustre e venerado estudioso medieval. “Rashi”, a curta biografia que Wiesel agora publica na colecção Jewish Encounters (Schocken), é uma oportunidade para observar a gloriosa vida interior da análise bíblica e da discussão que têm sustentado o povo judeu durante as alturas mais difíceis e para compreender como o judaísmo é definido tanto pelo Talmude como pela Torá, e tanto pelo debate sobre as escrituras como pelas próprias escrituras.

Collected Stories , Isaac Bashevis Singer
Para os leitores anglófonos, os romances e as colecções de Isaac Bashevis Singer não são difíceis de encontrar, mas a melhor forma de conhecer este grande mestre contador de histórias — ou para fazer recordar a magia que Singer é capaz de traduzir para a escrita — é a compacta mas elegante colecção de três volumes da Library of America, Isaac Bashevis Singer: Collected Stories. Galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1978, Isaac Bashevis Singer consegue ser um iídichista, um modernista, um mágico-realista, um cronista e um contador de histórias escabrosas, mas toda a sua prosa brilha com irónica sagacidade e cintila com a certeza clara de uma história bem contada. “O romance de Deus tem suspense”, escreveu Singer uma vez na revista Esquire — tal e qual as histórias ricas e vibrantes do próprio Isaac Bashevis Singer.

Anne Frank: The Book, The Life, The Afterlife, Francine Prose
Dos seis milhões de judeus assassinados no Holocausto o único rosto que conhecemos intimamente pertence a Anne Frank. Mas este é apenas o ponto de partida de Anne Frank: The Book, The Life, The Afterlife escrito pela romancista e ensaísta Francine Prose, um soberbo trabalho de história, biografia e crítica. Francine Prose tem algo de novo e importante a dizer acerca da jovem rapariga cujo diário foi simultaneamente celebrado e explorado, usado e abusado, e a autora rejeita a noção habitual de Anne Frank como “espevitada mensageira adolescente de paz e amor”. Em vez disso, Francine Prose aborda de forma corajosa a identidade judaica de Anne Frank, a sua sexualidade, as posições políticas da sua família e as suas ambições literárias — tudo distorcido, quando não meramente ignorado por todos os que têm usado e abusado do diário para seu proveito próprio. Acima de tudo, Francine Prose permite que olhemos para Anne Frank não apenas como uma vítima de um crime contra a humanidade, mas também como uma jovem escritora com um grande talento.

A Literary Bible, David Rosenberg
Esta não é uma Bíblia qualquer. Na verdade, mais do que uma tradução é um re-imaginar daquilo que o autor chama “o âmago da Bíblia Hebraica”. A linguagem arcaica é omitida, mas a poesia e a prosa que constituem o pulsar da Bíblia recebem uma nova e refrescante leitura. Rosenberg, que escreveu com Harold Bloom o best-seller The Book of J, está apostado em convencer o leitor que a Bíblia é uma obra “subtil e irónica”, escrita por autores de carne e osso que experimentaram os mesmos impulsos que nós sentimos. Assim, por exemplo, quando serve de intermediário ao autor de Eclesiastes, David Rosenberg apresenta-o como um ambicioso escritor (“set to work/in the grand style/building an oeuvre/ten books in five years,”) que acaba por se aperceber que a ambição não é tudo (“we can take in anything/and we are still empty/on the short of the life/our blood flows to”). De uma forma audaciosa, David Rosenberg reformula o livro angular da civilização ocidental numa obra onde o leitor moderno se revê de uma forma inesperada.

The Book of Genesis Illustrated, R. Crumb
Este livro oferece não só o texto completo e integral do primeiro livro da Bíblia, mas também ilustrações de seios nus, nudez a granel e actos vários de violência. “Supervisão adulta recomendada a menores”, é o aviso prévio transmitido pelo rótulo desenhado na capa. Por outras palavras, o livro é absolutamente fiel ao que realmente se pode encontrar nas Escrituras Sagradas. E precisamente por essa razão vai chocar e surpreender muitos leitores desprevenidos. Mas é também um astuto trabalho de exegese visual do célebre artista dos anos 60 que deu ao mundo o Senhor Natural e o Gato Fritz. Um livro inesperado e fascinante.

The Enemy I Knew: German Jews in the Allied Military in World War II, Steven Karras
Até Elie Wiesel, o Prémio Nobel sobrevivente de Auschwitz e Buchenwald, se debateu com a pergunta: Porque não lutaram os judeus contra a barbárie nazi? Finalmente, em virtude das circunstâncias — mesmo hoje, quem acreditaria no que estava a acontecer? —, Elie Wiesel concluiu que a questão não era porque não tinham os judeus combatido, mas sim como tantos o tinham conseguido fazer. “Torturados, espancados e famintos, onde encontraram eles a força — espiritual e física — para resistir?” Na verdade, mas de 10 mil judeus alemães — 34 por cento do total de refugiados com idades entre os 18 e os 40 anos — combateu nos exércitos aliados na Segunda Guerra Mundial. Em The Enemy I Knew: German Jews in the Allied Military in World War II, Steven Karras conta as memórias destes soldados judeus, refugiados da Alemanha e da Áustria que enfrentaram os seus opressores nazis juntando-se às forças aliadas para combater o regime que subjugava os países onde tinham nascido.
Ao longo de 27 entrevistas, Karras dá a conhecer histórias como a de Fritz Weinschenk, um judeu alemão que fugira da Europa em 1933, para voltar a 6 de Junho de 1944 — pela Praia de Omaha, durante a invasão da Normandia.

The Case for God , Karen Armstrong
O ultimo livro da mais famosa historiadora das religiões da actualidade é uma abrangente história da ideia de Deus que refuta best-sellers recém-publicados por famosos ateístas como Christopher Hitchens e Richard Dawkins. Sobre o livro escreveu recentemente Jonathan Kirsch: “Não há ninguém mais qualificado do que Karen Armstrong para entrar no aceso debate público entre crentes e descrentes sobre a existência de Deus. O seu último livro, ansiosamente antecipado e recebido, traz consigo as qualidades que ela imprime a todos os seus trabalhos — The Case for God é lúcido, erudito, provocador e esclarecedor. Na verdade, Armstrong consegue uma vez mais o que ela faz de melhor ao iluminar com uma luz clara os mais profundos mistérios da imaginação religiosa.”

::BONUS:: Duas excelentes entrevistas, conduzidas por Carlos Vaz Marques, a Francisco José Viegas e Richard Zimler, dois judeus magníficos. Para ouvir com muita atenção. Aqui:

Francisco José Viegas conversa sobre O Mar em Casablanca

Richard Zimler conversa sobre Os Anagramas de Varsóvia

License

This work is published under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 2.5 License.

One thought on “Hanuká: Dez Livros para Oito Dias”

Comments are closed.