
Os Anagramas de Varsóvia (Um Mistério Cabalístico) é o título do último romance do escritor luso-americano Richard Zimler, lançado recentemente em Portugal. Richard Zimler apresenta-nos um policial bem urdido, com o Gueto de Varsóvia e a singularidade do Holocausto como pano de fundo. Extraordinariamente bem escrita, a narrativa é habilmente desenrolada na primeira pessoa, de uma forma que por vezes chega a fazer lembrar Isaac Bashevis Singer, tanto na fluidez da escrita como na mestria com que são moldadas as suas personagens centrais — Erik, Izzy, Stefa e Adam.
Por tudo isto, Os Anagramas de Varsóvia deve marcar uma presença obrigatória no topo de qualquer lista de presentes…
A Rua da Judiaria publica hoje um excerto do romance, mais concretamente o prefácio, onde a história é introduzida e situada.
A publicação deste excerto no blog deve-se à extraordinária generosidade de Richard Zimler, que acedeu ao convite sem hesitar. Para ele, os meus mais sinceros agradecimentos.
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Os Anagramas de Varsóvia
Prefácio
Desde miúdo que trago um mapa de Varsóvia nas solas dos pés, por isso consegui fazer o caminho quase todo até casa sem qualquer engano ou esforço.
Foi então que vi o alto muro de tijolo à volta da nossa ilha. O coração deu-me um salto no peito, e uma esperança impossível dispersou-me os pensamentos – embora soubesse que a Stefa e o Adam não estariam em casa para me dar as boas-vindas.
Um guarda alemão gordo, de pé, mastigava uma batata fumegante junto ao portão da Rua Swieojerska. Assim que me esgueirei lá para dentro, vi um jovem com um boné de tweed enterrado pela testa abaixo passar por mim a correr. O saco de farinha que levava ao ombro pingava pontos e traços de líquido sobre o seu casaco código Morse escrito com sangue de galinha, calculei.
Homens e mulheres vagueavam pesadamente pelas ruas geladas, esmagando a camada de gelo que as cobria com os sapatos gastos, as mãos enfiadas bem fundo pelos bolsos dos casacos abaixo e nuvens de vapor a fugir-lhes da boca.
Na minha inquietação, quase tropecei num velho que morrera gelado à porta de uma pequena mercearia. Vestia apenas uma camisola interior toda suja, e tinha os joelhos nus e terrivelmente inchados encolhidos contra o peito, numa tentativa de se proteger. Os lábios cobertos de crostas de sangue eram de um cinzento-azulado, mas tinha os olhos debruados a um fio vermelho, o que me deu a impressão de que o último dos seus sentidos a deixar este mundo fora a visão. No átrio de entrada do prédio da Stefa, o papel de parede de cor verde-azeitona descolara-se do estuque e caía às tiras, revelando manchas aveludadas de bolor negro. O apartamento estava gelado; e não havia uma migalha de comida à vista.
Espalhados pela sala, viam-se cuecas, meias e camisas. De homem. Tive a sensação de que a Bina e a mãe já lá não estavam há muito tempo. O sofá, a mesa de jantar e o piano da Stefa tinham desaparecido – talvez vendidos, ou despedaçados para fazer lume. Gravadas na porta do seu quarto estavam as marcas que ela e eu tínhamos feito para marcar a altura do Adam todos os meses. Aproximei devagarinho a ponta dos dedos da marca mais alta, de 15 de Fevereiro de 1941, mas perdi a coragem mesmo no último segundo – não quis arriscar-me a tocar em tudo o que podia ter sido.
Quem quer que fosse que agora dormia no quarto da minha sobrinha, gostava de ler; a minha tradução para polaco de A Midsummer Night’s Dream estava aberta ao contrário no chão, junto à cabeceira da cama. Junto ao livro havia uma caneca de folha, agora vazia, que fora enchida com água do gueto; ao evaporar-se, deixara ficar o depósito amarelado de que eu tão bem me lembrava.
A busca pelo apartamento reavivou a consciência do meu objectivo ali, e tive a esperança de que o mundo voltasse a tocar-me agora, mas quando tentei abrir a porta do guarda-vestidos da Stefa, os meus dedos penetraram na madeira escura como se se enterrassem num barro denso e frio.
Como seria ter nove anos de idade e estar encurralado na nossa ilha esquecida? Uma pista: o Adam costumava acordar sobressaltado durante as nossas primeiras semanas juntos, catapultado dos seus terrores nocturnos, e inclinar-se por cima de mim para agarrar no copo de água que eu sempre deixava sobre a mesa-de-cabeceira. Eu acordava com os movimentos dele e levava-lhe o copo à boca, mas ao princípio não gostava de que ele me perturbasse o sono. Só ao fim de quase um mês juntos é que comecei a adorar senti-lo a remexer-se, e ouvi-lo a dar goles seguidos, sem respirar, e depois, quando voltava a deitar-se, a forma como puxava o meu braço para o enroscar à sua volta. O suave sobe-e-desce do seu peito magro recordava-me tudo aquilo que ainda tinha para agradecer à vida.
Deitado na cama com o meu sobrinho-neto, costumava obrigar-me a permanecer acordado, porque não me parecia justo que um acto tão simples como inspirar pudessemanter o rapazinho no nosso mundo, e precisava de o observar cuidadosamente, de pôr a minha mão em concha sobre aquela cabecita loura e transmitir-lhe assim a minha protecção. Queria que o acto de permanecer vivo dependesse de um processo muito mais complexo. Para ele, e para mim também. Porque, então, morrer seria muito mais difícil para ambos.Quase todos os meus livros tinham desaparecido das prateleiras que eu próprio fizera – queimados para aquecer a casa, sem dúvida. Mas A Interpretação dos Sonhos, de Freud, e alguns dos meus outros textos de psiquiatria ainda lá estavam. Quem quer que fosse que lá estivesse a viver agora, descobrira provavelmente que a maior parte deles eram primeiras edições, e talvez valessem um bom preço fora do gueto.
O meu olhar pousou sobre o tratado médico alemão no qual enfiara dois matzos de emergência, mas não fiz qualquer tentativa para os recuperar; embora a fome ainda me esfaqueasse as entranhas, já não precisava daquele tipo de sustento.
Ávido pelo consolo de um horizonte longínquo, subi pelas escadas do prédio até ao telhado, e passei cuidadosamente para a plataforma de madeira que os Tarnowski – os nossos vizinhos – tinham construído para observar as estrelas. À minha volta, a cidade erguia-se em espirais, torreões e cúpulas de contos de fadas – uma fantasia de criança transformada em realidade. Dei uma volta completa sobre mim próprio, e senti a ternura invadir-me. Será possível acariciar uma cidade? Ser o rio Vístula, e poder abraçar Varsóvia, deve ser por vezes uma recompensa que ele dá a si próprio.
E, contudo, o bairro da Stefa parecia mais tristonho do que nas minhas recordações – os prédios ainda mais afundados num pântano de degradação, ruína e sujidade, apesar de todos os nossos arames e colas.
Um grito rouco cortou o ar, espantando os meus devaneios. Do outro lado da rua, debruçado de uma janela do quarto andar, um homem de cara chupada e sobretudo esfarrapado acenava-me freneticamente. Tinha as têmporas encovadas, e a barba por fazer punha-lhe uma sombra branca no rosto.
— Ei! – gritou-me. – Você aí, olhe que cai e parte o pescoço!
Vi um reflexo de mim mesmo naqueles ombros encolhidos, naquele olhar de pânico. Ergui a mão, fazendo-lhe sinal que esperasse no sítio onde estava, desci atabalhoadamente do telhado e pelas escadas abaixo, e atravessei a rua, patinhando na lama.
Lá em cima, no seu apartamento, o homem percebeu logo que eu não era como ele. Abriu muito os olhos congestionados de vermelho, espantado, e deu um passo atrás.
— Olá – disse, cauteloso.
— Então…então consegue mesmo ver-me? – gaguejei.
O rosto dele descontraiu-se.
— Perfeitamente. Embora os seus contornos…– Rodou a mão no ar, depois inclinou a cabeça, como quem avalia qualquer coisa. – Não estão lá muito bem, um pouco indefinidos.
— E não tem medo de mim? – perguntei.
— Ná, já tive outras visões. E além disso, você fala iídiche. Porque
é que um ibbur judeu me havia de fazer mal?
— Um ibbur?
— Um ser como você, que regressou da terra que fica atrás da berma do mundo.
Tinha uma maneira poética de falar, o que me agradou. Sorri de alívio; ele conseguia mesmo ver-me e ouvir-me. E senti-me menos preocupado por saber que havia um nome para aquilo que eu era.
— Chamo-me Heniek Corben – disse-me ele.
— Erik Benjamin Cohen – respondi, apresentando-me como fazia quando era miúdo e andava na escola.
— É de Varsóvia? – perguntou.
— Sou, cresci perto do centro da cidade, na Rua Bednarska.
Franzindo os lábios numa expressão cómica, assobiou baixinho.
— Belo bairro! – comentou entusiasmado, mas quando a boca se lhe rasgou num sorriso, vi que era uma ruína de dentes podres.
Interpretando a minha careta como sinal de dor física, Heniek sentou-se.
— Sente-se, sente-se, Reb Yid – disse-me em tom preocupado puxando de um banco, para eu me sentar à mesa da cozinha.
Aquele formalismo parecia um pouco absurdo depois de tudo o que nós, judeus, tínhamos sofrido.
— Por favor, chame-me Erik – pedi-lhe.
Sentei-me em câmara lenta, com receio de não encontrar um assento sólido, mas a madeira do seu banco acolheu generosamente o meu traseiro escanzelado — prova de que já estava a apanhar o jeito a esta vida nova.
Heniek olhou-me de alto a baixo, e a sua expressão tornou-se mais séria.
— O que foi? – perguntei.
— Esbateu-se por um momento. Acho que talvez…– Terminando a frase abruptamente, ergueu a mão nodosa e disforme por sobre a minha cabeça e abençoou-me em hebraico. — Com um pouco de sorte, isto há-de resolver o assunto — disse-me com ar jovial.
Apercebendo-me de que era provavelmente religioso, comentei:
— Não tenho visto qualquer indício de Deus, nem nada que se pareça com um anjo ou um demónio. Nem fantasmas, nem seres necrófagos, nem vampiros…nada. — Não queria que ele me achasse capaz de responder a qualquer das suas perguntas metafísicas.
Fez um gesto com a mão, como quem não quer saber disso.
— Então, o que posso oferecer-lhe? Que tal um chá de urtiga?
— Obrigado, mas descobri que já não preciso de beber nada.
— Importa-se que faça um para mim?
— Por favor.
Enquanto ele fervia a água, fiz-lhe perguntas sobre o que acontecera desde que eu saíra de Varsóvia em Março passado.
Com um suspiro, respondeu:
— Ech, basicamente, a mesma velha desgraça. O grande entusiasmo foi durante o Verão, os russos bombardearam-nos. Infelizmente, aqueles pilotos idiotas não acertaram na sede da Gestapo, mas ouvi dizer que a Praça do Teatro ficou reduzida a escombros. – Baixou a voz e inclinou-se para mim. – Mas há uma boa notícia, os Americanos entraram na guerra. Os Japoneses bombardearam-nos há uma semana, segundo a BBC, tenho um amigo que tem um rádio clandestino.
— Porque está a sussurrar?
Apontou para o céu.
— Não quero parecer optimista, Deus ainda nos pode pregar mais umas partidas, se achar que estou a ser arrogante.
Dantes, o espírito supersticioso de Heniek teria provocado em mim um comentário sarcástico, mas era óbvio que, com a morte, me tinha tornado mais paciente.
— Então e onde é que trabalha? – perguntei.
— Numa fábrica de sabão clandestina.
— E hoje está de folga?
— Não, hoje é o Shabbat.
— Em que dia estamos?
— 16 de Dezembro de 1941.
Tinham decorrido sete dias desde que eu saíra do campo de trabalho de Lublin, onde estivera como prisioneiro, mas pelas minhas contas só tinha levado cinco dias a chegar a casa, por isso perdera quarenta e oito horas algures pelo caminho. Talvez o tempo passasse de modo diferente para os da minha laia.
Heniek disse-me que, antes de se mudar para o gueto, era impressor. A mulher e a filha tinham morrido de tuberculose havia um ano.
— Eu até era capaz de aguentar a solidão – disse ele, baixando o olhar para esconder a sua perturbação –, mas o resto é…é mesmo demasiado.
Eu sabia da minha própria experiência que o resto significava culpa, e também emoções mais subtis e confusas, para as quais não tínhamos um nome adequado.
Deixou cair as folhas de urtiga no jarro de cerâmica branca que lhe servia de bule. Depois, erguendo os olhos com um vigor renovado, perguntou pela minha família, e eu disse-lhe que a minha filha Liesel estava em Esmirna.
— Andava a trabalhar numas escavações arqueológicas quando rebentou
a guerra, por isso ficou por lá.
— Já foi visitá-la?
— Não, tinha de vir aqui primeiro. Mas ela está em segurança. A menos que…– pus-me em pé de um salto, aflito. – A Turquia não entrou na guerra, pois não?
— Não, não, ainda é território neutro. Não se preocupe.
Despejou água a ferver sobre as folhas de urtiga num círculo lento e perfeito, e aquela precisão encantou-me. Voltei a sentar-me.
— Desculpe a minha curiosidade, Erik, mas porque voltou para nós? — perguntou.
— Não sei bem. Mas qualquer resposta que lhe desse não faria muito sentido, a menos que lhe contasse o que me aconteceu no gueto; acima de tudo, teria de lhe falar do meu sobrinho.
— E então, o que o impede? Podemos passar o dia inteiro juntos, se quiser.
Surgiu-lhe um brilho maroto nos olhos. Apesar do desgosto e da solidão, Heniek parecia ansioso por uma nova aventura.
— Conto-lhe daqui a pouco – respondi. – O facto de ter conseguido falar consigo…deixou-me enervado.
Heniek fez que sim com a cabeça, compreensivo. Depois de beber o seu chá, sugeriu que fôssemos dar um passeio. Levou um saco de ruibarbo branco para a irmã, que partilhava com mais seis inquilinos um apartamento de duas assoalhadas perto da Grande Sinagoga, e a seguir fomos os dois ouvir o Noel Anbaum a cantar à porta do Teatro Nowy Azazel. O seu acordeão fez-me dançar diante dos olhos um enxame de borboletas rubras e douradas – uma sensação estranha e magnífica, mas a que me tenho vindo a acostumar ultimamente; os meus sentidos fluem agora muitas vezes juntos, como as tintas de um vitral a transbordar dos seus contornos. Será que, no fim, acabarão por se fundir completamente? Irei cair dentro de uma paisagem demasiado rica de som, vista e toque, e sentir-me incapaz de fazer às cegas o caminho de regresso a mim próprio? Talvez seja dessa maneira que a morte irá finalmente apoderar-se de mim.Heniek, enquanto ouço o zumbido paciente do candeeiro de petróleo pousado entre nós, e observo a dança trémula da sua chama azul, a gratidão que me invade abraça-me, como fez o Adam quando lhe disse que havíamos de visitar Nova Iorque juntos. E o contentamento que sinto por ter conseguido falar consigo segreda-me ao ouvido: apesar de todas as tentativas dos Alemães para refazer o mundo, as leis naturais continuam a existir.
Por isso, tenho de lhe contar a minha história pela ordem certa, senão ainda vou sentir-me tão perdido quanto o Hansel e a Gretel.
E, ao contrário dessas crianças cristãs, não tenho migalhas de pão para marcar o meu caminho de regresso a casa. Porque não tenho casa. Foi isso que me ensinou o regresso à cidade em que nasci.Primeiro vamos falar de como o Adam desapareceu, e voltou para nós sob forma diferente. E depois, vou contar-lhe como a Stefa me fez acreditar em milagres.
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