Imperdível: “Uma Conversa com a Microsoft”

… ou como ser impiedosamente mastigado pelas rodas dentadas de uma burocracia “deslocalizada”. O relato é feito na primeira pessoa por Bjørn Stærk, autor de um excelente blog norueguês que vale bem a pena ir acompanhando. Aqui vai o link: A conversation with Microsoft.

Mea Culpa

No final do post RTP na Palestina: Os Erros de Paulo Dentinho, manifestei a minha surpresa ao ouvir Judite de Sousa dizer (por duas vezes) a palavra “rizorte” no Telejornal de sábado passado. Cheguei a escrever que esta era a primeira vez que ouvia uma expressão de “emigrantês” típico vinda de uma pessoa que nunca viveu fora de Portugal. Erro meu! A palavra “rizorte” – em tempos traduzida como “estância de férias” – aparentemente passou a fazer parte integrante do vocabulário corrente português: nos últimos dias voltei a ouvi-la na boca de mais dois jornalistas da RTP e mencionada pelo porta-voz do Partido Socialista, José Junqueiro – um catedrático, professor na Universidade de Aveiro (com um trabalho de doutoramento sobre a Didáctica das Línguas Clássicas), e deputado do PS –, a propósito das mini-férias de Morais Sarmento. Afinal a culpa parece ser inteiramente minha. Depois de 11 anos a viver fora de Portugal perdi o contacto com a evolução e apuramento da nossa língua. Cristalizei-me tristemente. The facts are overwhelming: “rizorte” existe e recomenda-se. Shame on me

שרון ואבו-מאזן: נמשיך לדבר


Sharon e Abu Mazen: Vamos Retomar o Diálogo” – é assim o título da notícia do diário israelita Maariv (disponível apenas em hebraico, a edição em inglês encerrou há três semanas por falta de verba…), descrevendo uma conversa ocorrida há poucas horas entre Sharon e o presidente-eleito da Autoridade Palestiniana. A notícia (assinada por dois jornalistas israelitas – um judeu e um árabe) conta que Ariel Sharon telefonou a Abu Mazen para o felicitar pela sua vitória nas eleições palestinianas de domingo e que ambos concordaram em reunir-se muito em breve. Pode ser desta… quero acreditar que sim.

שלום إلهة يريد
(A Paz… oxalá)

:: Adenda :: Entretanto, a notícia aparece já também na edição online em inglês do Haaretz. Segundo o jornal, o líder do Partido Trabalhista, Shimon Peres – agora vice-primeiro-ministro do novo governo de “salvação nacional” israelita (uma coligação do Likud com os Trabalhistas destinada a aliviar a pressão da extrema-direita) –, telefonou também a Abu Mazen: “Israel fará tudo o que puder para ajudar o povo palestiniano a estabelecer um governo democrático, para que possamos viver em paz, lado a lado, em duas democracias”, disse Shimon Peres.

:: A LER :: Uma análise extremamente bem feita por um dos “profetas” da coluna da esquerda aqui da Judiaria: David Butter, no já indispensável Alto Volta, que recentemente completou o primeiro ano de vida blogosférica. Parabéns!

Notas da Nova Modernidade

A meio de uma frase, escrevo “Aquilino Ribeiro” no processador de texto. O Microsoft Word 2003 reconhece ser um nome próprio e pespega-lhe uma “smart tag”. Opções: “Send Email / Schedule Meeting / Make Phone Call”. Aponto o cursor para o botão que diz “Cancel”. Acho melhor esperar pelo menos mais meio século e falar-lhe pessoalmente.

RTP na Palestina: Os Erros de Paulo Dentinho

Enviado especial da Radio e Televisão de Portugal (RTP) às eleições palestinianas, Paulo Dentinho tem a tendência de repetir os mesmos erros de forma sistemática. Em todas as suas reportagens que vi (as dos dois últimos dias e as do funeral de Arafat, em Novembro), o jornalista da RTP raramente – nunca de forma directa – se referiu aos soldados das Forças de Defesa de Israel (FDI) como “soldados israelitas”, optando invariavelmente por classificá-los como “soldados judaicos”. Dando de barato o erro gramatical da última expressão – o correcto aqui seria “soldados judeus” –, a ininterrupta insistência de Dentinho vai além do erro simples: é uma profunda deturpação recheada de segundos sentidos óbvios.
Antes de mais, convém esclarecer que as Forças Armadas de Israel não são compostas unicamente por judeus. Muitos dos seus soldados – e oficiais – pertencem às várias minorias étnicas e religiosas do país: são também muçulmanos, beduínos, druzos e cristãos, ou simplesmente emigrantes naturalizados chamados ao serviço militar (cidadão israelita, o meu sogro, por exemplo, fez a tropa, entre as décadas de 70 e 80, no mesmo batalhão com um soldado japonês não-judeu que simplesmente emigrara para Israel e se naturalizara). Uma simples busca no Google seria suficiente para corrigir esta deturpação, segundo a qual a expressão “soldado judaico” seria de alguma forma equivalente a “soldado israelita”. Aqui vão os links que provam não ser bem assim:

Haaretz News – Druze soldiers are pampered, their civilians hampered / דרוזים / Israel – The Druze “Sword Battalion” / The Druze in Israel / The Druze / The Bedouin in Israel / Five Bedouin Desert Reconnaissance Battalion Soldiers Killed / For Arab soldiers in Israeli army, fatal attack shows risks / FiftyCrows – Social Change Photography – Israel’s Bedouin

Se for involuntário, o erro repetido de Dentinho deveria ser corrigido prontamente, afinal ele é um jornalista de um canal estatal de televisão que garante primar pelo rigor. Se não for involuntário, as ilações a tirar são óbvias e este erro deve ser catalogado entre os muitos exemplos de jornalismo irresponsável que teima em não saber (ou não querer) distinguir “judeus” e “Israel”. É este tipo de jornalismo irresponsável, muitas vezes simplesmente desleixado e preguiçoso, admito, que vai ateando na Europa as chamas do antisemitismo.
No caso concreto do Telejornal de ontem à noite (sábado), em duas intervenções Paulo Dentinho usou as expressões “soldados judaicos” ou “exército judaico” cinco vezes no espaço de pouco mais de 1 minuto e meio (ver Arquivos da RTP, formato .rm), contra 4 ocorrências semelhantes no Telejornal de domingo. A significação correcta, “soldado israelita”, foi apenas mencionada uma vez, e aqui apenas na tradução directa de uma entrevista a Mahmud Chanti, um fotojornalista palestiniano.
Numa passagem da primeira reportagem, Dentinho chegou a falar do “ponto de vista judaico” (sic.), citando as palavras de um porta-voz do governo israelita, uma classificação que apenas faria sentido caso o responsável israelita tivesse falado sobre questões religiosas relativas ao judaísmo. De uma vez por todas: as palavras “judaico” e “israelita” não são sinónimos equivalentes e cambiáveis!
O erro pode ser comprovado num rápido teste: falando de “livros judaicos” nunca se poderia incluir, por exemplo, uma tradução hebraica ou yiddish da Metamorfose, de Kafka, isto apesar de Kafka ser judeu.
Para alguns, porém, tudo isto não passará de um preciosismo da minha parte. Poderá até parecer irrelevante. Mas só mesmo quem desconhece (ou recusa admitir) as fortes influências da linguística na formação de mentalidades e fenómenos sociológicos poderá pensar assim.
Já escrevi, aqui na Judiaria e noutros lados, sobre o corrente abuso, com sentido depreciativo, de palavras como cabala, judiar ou judiaria. Debati também a necessidade de extirpar o jornalismo irresponsável que vai moldando em Portugal as percepções do conflito israelo-palestiniano (ver Irresponsabilidades, O Diário Digital Errou e Vital Moreira Errou).
Mais uma vez, gostaria de reforçar a minha profunda convicção que um debate honesto sobre o conflito israelo-palestiniano – whatever that means – só pode acontecer quando tiver por base uma cobertura jornalística responsável. Por agora fico-me pela forma, mas pretendo escrever aqui brevemente sobre o conteúdo igualmente questionável dos trabalhos de Paulo Dentinho na Palestina.

:: ADENDA :: A única vez em que as palavras “judeu” e “Israel” são sinónimos perfeitos é quando estas são utilizadas num contexto de abordagem religiosa. Há mais de 3 milénios que os judeus são referidos religiosamente como “filhos de Israel” ou “Israelitas”. É comum também as comunidades judaicas (religiosas) espalhadas pelo mundo se intitularem “comunidades israelitas”. No entanto, parece-me necessário sublinhar uma vez mais que aqui o contexto é sempre religioso e nunca político.

PS – No mesmo Telejornal de sábado à noite referido acima, Judite de Sousa abriu com referências ao maremoto do sudoeste asiático, comentando imagens captadas “num ‘rizorte’ de luxo” (sic.). Uma referência óbvia à palavra inglesa “resort”, que em português se traduz habitualmente como “estância de férias”. Esta foi a primeira ocorrência que ouvi de “emigrantês” típico vinda de uma pessoa que nunca viveu fora de Portugal. Mais um risquinho para as contas dos que continuam a anotar os pontapés na língua que o “tsunami” arrastou.
[Para confirmar basta clicar aqui e esperar uns 45 segundos… Judite de Sousa repete a palavra
“rizorte” meio minuto depois.]

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Resposta de Paulo Dentinho (14/01/2005):

Tem razão, admito que as Forças De Defesa de Israel não são apenas constituídas por judeus e que há também árabes, beduínos, druzos e outros, mas trata-se de um exército destinado a salvaguardar a existência de um estado onde a maioria da população é judaica, condição essencial para a preservação desse estado, no futuro. Se assim não fosse, Israel teria procurado anexar a Cisjordânia, ou se quisermos, a Judeia, a Samaria e a Faixa de Gaza. Não o fez por inúmeras questões, sobretudo porque teria de conceder a nacionalidade israelita aos residentes nessas áreas e, nesse caso, a maioria judaica da população estaria comprometida num prazo não muito longínquo. As regras democráticas do estado de Israel levariam para o parlamento muitos mais deputados árabes. Em de “The Iron Wall”, por exemplo, um olhar sobre a história do conflito israelo-árabe, Avi Shlaim nos dá conta dessas preocupações na mente dos vencedores da guerra de 1967, da qual resultou a conquista daquelas terras à Jordânia e ao Egipto. O processo para anexar Jerusalém Oriental corrobora o que acabo de escrever, pois Israel viu-se na obrigação de conceder direito de cidadania a mais de cem mil residentes palestinianos. Convém ainda recordar que os principais motivos que estiveram na base do movimento sionista, há dois séculos, o antisemitismo e a condição de minoria nacional nos países da diáspora, se traduziu no desejo de uma pátria judaica, estado-nação onde os judeus fossem sempre maioritários em relação a outros povos residentes nesse mesmo território. Por fim, deixo-lhe a morada de um site judaico onde as Forças de Defesa de Israel são referidas como… exército judaico: Ahavat Israel.
Agradeço as suas observações, e não estou a ironizar. Gosto de aprender, sei reconheçer os meus erros. Felizmente não faço parte daqueles que acham que têm todo o saber do mundo, ou dos que, sem opinião, reproduzem permanentemente e de forma acrítica o pensamento alheio. Mas também é verdade que o seu comentário lançou suspeitas de parcialidade sobre o meu trabalho, o que eu lamento, pois procuro sempre dar várias perspectivas sobre a realidade existente naquela zona do mundo.

Cumprimentos.

Paulo Dentinho

Resposta a Paulo Dentinho (14/01/2005):

Caro Paulo,

Antes de mais, deixe-me agradecer-lhe com toda a sinceridade o facto de se ter dado a trabalho de responder às minhas críticas. Acredite que aprecio enormemente este seu gesto.
Os seus argumentos em relação à natureza judaica do estado de Israel estão absolutamente correctos. Não os contesto. Mas Paulo, não é isso que está aqui em causa. Não se trata de uma questão de demografia ou da defesa de demografias, mas tão só de alusões a um exército nacional (ou a um Estado) que, tal como acontece com todos os exércitos nacionais do mundo (e com todos os Estados), deve ser referido jornalisticamente pela sua nacionalidade e não pelas suas condicionantes demográficas, étnicas ou religiosas.
Definir o que significa ‘ser judeu’ ou ‘judaico’, em sentido lato, é uma tarefa deveras complicada porque, para além da religião, implica também conceitos de cultura, etnia e nacionalidade. A definição de ‘israelita’, por outro lado, é suficientemente simples: um israelita é um cidadão de Israel.
Honestamente, compreendo que possa existir uma tendência para confundir as duas expressões, apesar de considerar absolutamente necessário que se reconheçam as diferenças entre uma e outra coisa, especialmente quando é esse o objecto do nosso trabalho. Acredite que não é um simples preciosismo da minha parte.
Quando o Paulo, nas suas reportagens, fala em ‘exército judaico’ a carga da expressão vai além do simples sinónimo eventual de ‘exército israelita’ – ela transforma-se em “o exército dos judeus contra os palestinianos” o que de imediato arrasta um simbolismo no qual todos os judeus são acoplados às políticas de Israel e às acções do exército israelita, uma implicação que não existe normalmente quando se fala em termos estritos de nacionalidade e cidadania. A mesma leitura estaria implícita caso o Paulo alguma vez tivesse referido as autoridades palestinianas como ‘autoridades muçulmanas’ ou ‘islâmicas’.
Quando se fala em ‘exército judaico’ incorre-se ainda, mesmo que seja de forma inconsciente, numa “deslegitimização” do Estado de Israel, reduzindo o conflito a meros contornos étnicos, religiosos, ou se quiser, demográficos. Passa a ser mais um “choque de civilizações” onde é questionada, de forma quase subliminar, a legitimidade de Israel existir.
Desta forma, e mesmo sem o querer, o Paulo estará a contribuir também para propagar a visão segundo a qual todos os judeus incorrem em responsabilidades pelas políticas e acções do estado de Israel. Afinal, que outras razões senão a cobertura mediática levam uma criança judia de 13 ou 14 anos – que nunca sequer pôs os pés em Israel – a ser insultada e cuspida nas ruas de Paris e que lhe gritem aos ouvidos coisas como “judeus fora da Palestina”? Espero que compreenda aqui as minhas profundas reservas, não só enquanto judeu, mas também como forte opositor das políticas do Likud de Ariel Sharon – partido com o qual não tenho o menor ponto de contacto.
Honestamente, acredito que não terá sido esta a sua intenção. Mas Paulo, enquanto jornalistas, ambos sabemos que a leitura que é feita das nossas palavras nem sempre corresponde às nossas intenções primárias.
Em suma, a minha crítica tinha exclusivamente a ver com o contexto da sua utilização da expressão ‘soldados/exército judaico’ e as suas eventuais extrapolações. Não nos podemos alhear do facto do nosso trabalho contribuir sempre, quer queiramos quer não, para a formação de opiniões ou para a perpetuação de estereótipos. E as palavras que escolhemos são de uma importância extrema, especialmente em televisão e na cobertura de acontecimentos tão polarizadores quanto o conflito israelo-palestiniano.
Deixe-me dar mais um exemplo. Na sua reportagem transmitida no Telejornal de domingo, o Paulo referiu-se ainda a prisioneiros palestinianos detidos em “prisões judaicas”. Agora, peço-lhe que se distancie um pouco e analise esta expressão de uma forma fria desapaixonada. Que imagens se conjuram quando falamos em “prisões católicas” ou “prisões islâmicas”? Está a ver onde quero chegar?
Já agora, o site que me indica, onde as Forças de Defesa de Israel são referidos como exército judaico, intitulado “Ahavat Israel” (que literalmente quer dizer: “amor ao povo judeu”), é criado e mantido por uma organização religiosa ultraconservadora cujos critérios de objectividade serão por certo bem diferentes dos de um órgão de informação. O Paulo concordará comigo que será fácil, por exemplo, encontrar um site equivalente nos EUA onde o exército americano seja referido como “exército cristão” (estou a lembrar-me de uma crónica de Ann Coulter, uma colunista de extrema-direita, publicada logo após os atentados de 11 de Setembro de 2001). Mais uma vez, é tudo uma questão de contexto e enquadramento.
Podemos até eventualmente ter opiniões divergentes em relação ao conflito, mas creio que no fundo ambos desejamos que o seu resultado final seja uma paz duradoura, com dois estados – livres, democráticos, economicamente viáveis – a coexistirem lado a lado.

Com os melhores cumprimentos e um agradecimento sincero pela sua resposta,

Nuno Guerreiro

… Mas as Crianças, Senhor? *

O controverso papa Pio XII (na foto à esquerda), terá ordenado à Igreja Católica francesa que não devolvesse crianças judias aos seus pais ou a instituições judaicas caso estas tivessem sido baptizadas para ocultar a sua verdadeira identidade durante a ocupação nazi. A revelação é feita numa das últimas edições do diário italiano Corriere Della Sera, de Milão, num texto assinado pelo historiador Alberto Melloni, professor de história religiosa da Universidade de Bolonha e um dos maiores especialistas mundiais em história cristã.
Sob o título Pio XII a Roncalli: non restituite i bimbi ebrei (Pio XII a Roncalli: não se restituam as crianças hebreias), Melloni defende que Pio XII instruíra pessoalmente as instituições da Igreja em França a fazer tudo para negar a restituição de crianças judias confiadas à sua guarda.
O diário milanês publica ainda a carta na íntegra, datada de 20 de Outubro de 1946, enviada pelo Santo Ofício (actual Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé) ao núncio apostólico em Paris, que mais tarde se tornaria papa com o cognome de João XXIII. Aqui segue a tradução do documento:

“A respeito das crianças judias que, durante a ocupação alemã, foram entregues a famílias e instituições católicas e que agora são pedidas de volta pelas instituições judaicas, a Congregação do Santo Ofício tomou as decisões que a seguir se dão conta:

1) Evitar, na medida do possível, responder por escrito às autoridades judaicas, fazendo-o apenas oralmente.
2) Nos casos que seja necessário responder, bastará dizer que a Igreja terá de fazer as suas indagações para estudar casos particulares.
3) As crianças que foram baptizadas não poderão ser entregues às instituições [judaicas] que não possam assegurar a sua educação cristã.
4) Às crianças que não têm pais e que se encontram a cargo da Igreja, não é conveniente que sejam abandonadas pela Igreja ou entregues a pessoas que sobre elas não têm direitos, uma vez que não podem decidir por elas próprias. Isto é evidentemente para as crianças que não foram baptizadas
5) Se as crianças foram entregues à guarda da Igreja pelos seus pais e se os seus pais agora as reclamam, elas podem ser devolvidas, assumindo que as mesmas crianças não tenham recebido o baptismo

Note-se que esta decisão da Congregação do Santo Ofício foi aprovada pelo Santo Padre.”

[a tradução italiana do documento original pode ser lida aqui: I piccoli giudei, se battezzati, devono ricevere uneducazione cristiana]

Com a descoberta deste documento, torna-se bem mais complexa a defesa intransigente de Pio XII a que alguns católicos se vão dedicando com zelo. O papa, cujo pontificado atravessou uma era de genocídio desabrido, não só fechou os olhos como fez por perpetuar, desta forma absolutamente repugnante, séculos de crimes do catolicismo contra os judeus.
A um historiador é impossível não comparar esta recusa do Vaticano em entregar as crianças judias, sob o pretexto da necessidade de lhes dar uma educação cristã, com incidentes semelhantes ocorridos no passado. Na península Ibérica, séculos antes da formação política de Portugal, os reis visigóticos foram os primeiros a usar os mesmos métodos. Depois de várias leis antisemitas decretadas após a conversão ao catolicismo do rei Recaredo, em 586, o rei Sisebuto ordenou a conversão forçada de todos os judeus do seu reino. Para assegurar que os descendentes destes judeus convertidos seriam cristãos verdadeiros, ordenou que todas as crianças judias com menos de 12 anos fossem retiradas aos seus pais, confiando-as à guarda de famílias católicas. O sequestro de crianças judias como política de estado prosseguiria de forma intermitente até ao reinado de Roderico, o “último dos visigodos”. Mas a medida não surtiria os efeitos desejados, em parte por causa da afortunada desorganização que caracterizou os reinos visigóticos na península Ibérica. A prova disso foi dada com o elevado número de judeus existentes por altura da invasão árabe de 711.
No final do século XV, D. Manuel I repetiria o gesto, raptando mais de 2000 crianças judias portuguesas às suas famílias, enviando-as em seguida para “povoar e embranquecer a raça” (sic.) da ilha de São Tomé. O historiador britânico Cecil Roth conta a propósito: “Um grande número de crianças foi brutalmente retirada dos braços dos seus pais, levadas para povoar a insalubre ilha de São Tomé, onde a vasta maioria acabaria por morrer.” Um ano após a deportação, apenas 600 crianças sobreviviam. [Ver também The Jews of Africa – Sao Tome and Principe e Judaic Research in Balearic Islands and Sao Tome]
Também aqui a medida extrema acabaria por falhar e muitas das crianças raptadas continuaram a praticar a religião dos seus pais. Disto mesmo dão conta várias cartas assinadas por D. Pedro da Cunha Lobo, nomeado bispo de São Tomé em 1616. Um judeu português, Samuel Usque, escreveria sobre estas crianças na sua obra maior, “Consolação às Tribulações de Israel” (publicada em Ferrara em 1553).
A descoberta agora deste novo documento do pontificado de Pio XII, datado de 1946, trás à tona memórias de um passado que muitos querem fazer por esquecer. Mas dentro destas maquinações do Santo Oficio, tão ao jeito das suas obras do passado, reside uma suprema ironia: uma dessas crianças, Aaron Jean-Marie Lustiger, com a mãe morta em Auschwitz, e baptizado aos 14 anos, é agora um dos Príncipes da Igreja, arcebispo de Paris, apontado como um dos prováveis sucessores de João Paulo II na cadeira de São Pedro.
O cardeal Lustiger (na foto à direita) continua a considerar-se profundamente judeu — uma afinidade, afinal, que partilha com o messias cristão — chegando a afirmar: “Nasci judeu e assim continuo, mesmo que tal seja inaceitável para muitos. Para mim, a vocação de Israel é trazer a luz aos goyim **. Esta é a minha esperança e acredito que a cristandade é a forma de alcançar este propósito.”
As suas palavras tendem a ser habitualmente polémicas, tanto junto dos católicos como dos judeus. Mas à luz da Lei Judaica (Halakhá), Aaron Lustiger continua a ser um judeu, para todos os efeitos, apesar da sua apostasia.
Em relação às acusações normalmente proferidas contra Pio XII – colaboracionismo com a Alemanha nazi e indiferença perante o genocídio e sofrimento continuado de dezenas de milhões de pessoas na Europa – ver uma excelente recolha de documentação dos dois lados da discussão elaborada pela Jewish Virtual Library: Pope Pius XII Table of Contents

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* do poema “Balada da Neve“, de Augusto Gil
** a palavra hebraica goy,
גוי (ou goyim no plural), traduzida habitualmente como gentio quer dizer literalmente estrangeiro

A Tristeza II – Palavras Para Quê?

O diário palestiniano de língua árabe al-Quds al-Arabi, publicado em Londres, comentou a recusa do Sri Lanka em receber a delegação israelita de pessoal de emergência – médicos, enfermeiros, paramédicos e equipas de salvamento – (ver Triste… Muito Triste) – num inenarrável editorial intitulado “Uma Lição aos Árabes Dada pelo Sri Lanka”. Escreve o jornal na sua edição de hoje: “é um paradoxo que o governo do Sri Lanka insista em ser mais árabe do que os árabes, voltando as costas à normalização de relações com o Estado judaico.” O editorialista prossegue traçando uma comparação com a recente digressão pelo Golfo do presidente egípcio, Hosni Mubarak, a quem acusa de pressionar os estados árabes da região a estabelecer relações diplomáticas com Israel.
Ainda segundo o al-Quds al-Arabi, “enquanto o Sri Lanka recusa a ajuda humanitária israelita, o futuro presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, declarou ontem que o povo palestiniano deve abandonar a resistência armada, e que os palestinianos não podem derrotar Israel militarmente, defendendo o regresso às negociações porque esta seria a única forma de resgatar os seus direitos e um estado independente.”
No final, o diário palestiniano agradece ao “governo e ao povo do Sri Lanka”, afirmando que, ao recusar a ajuda de Israel, “fizeram lembrar a todos nós que existem países que possuem ainda os genes da dignidade e humanidade que os nossos governos árabes parecem ter esquecido, incluindo a maioria da nossa nova liderança palestiniana.”

(via United Press International, Review of Arab Press – os destaques são da minha exclusiva responsabilidade)

Presumo que qualquer tipo de comentário se afigura de todo desnecessário perante a eloquência desta prosa do al-Quds al-Arabi. Gostaria apenas de sugerir uma vez mais a leitura de um artigo escrito há um ano por Dennis Prager, comentando a recusa do Irão em aceitar ajuda humanitária israelita no seguimento do terremoto de Bam. O artigo de Dennis Prager intitula-se Iran Clarifies the Middle East. E explica muita coisa.


Entretanto, para os meus leitores que dominem o árabe e se queiram dar ao trabalho, o artigo original está aqui: al-Quds al-Arabi – درس للعرب من سيريلانكا (A versão pdf da primeira página do jornal pode ainda ser lida aqui, o editorial encontra-se a duas colunas na margem esquerda, no canto assinalado na imagem pelo círculo vermelho)

Triste… Muito Triste

Em momentos de tragédia e necessidade, habitualmente os países colocam de lado as divergências e congregam esforços para a ajuda humanitária. Israel, por exemplo, esteve entre os primeiros a oferecer auxílio aos países do sudoeste asiático afectados pelo terremoto e maremoto de segunda-feira.
Mas é também hábito que estas coisas nunca sejam assim tão simples. O Sri Lanka, provavelmente o país mais afectado, recusou a oferta do governo israelita (ver também BBC – Sri Lanka rejects Israel rescuers), que se disponibilizara para enviar uma equipa de 150 especialistas preparada para montar hospitais móveis, equipados com unidades de emergência, pediatria, radiologia e laboratórios. Convém acrescentar que – pela mais triste das razões que advêm da experiência própria – Israel possui os mais especializados técnicos de salvamento do mundo. Entre 90 a 100 cidadãos israelitas, na sua maioria turistas, continuam desaparecidos na região.
A situação é profundamente triste, mas nada disto é novidade. Há exactamente um ano, quando um terremoto de grande escala matou cerca de 20 mil pessoas em Bam, no Irão, grupos humanitários israelitas contaram-se entre os primeiros a oferecer ajuda. Mas o governo iraniano, abrindo os braços perante a gratidão do mundo, anunciou de imediato que estava pronto a receber ajuda humanitária de todos os países – mas que era melhor os seus cidadãos morrem nos escombros do que serem salvos por judeus.
Nada é mais triste do que ver o ódio sobrepor-se à necessidade. Uma vez mais.

::ADENDA I:: Numa completa inversão da verdade, o diário oficial do Vaticano, L’Osservatore Romano, criticou fortemente (!?!) Israel na sua edição de terça-feira (link para ficheiro .pdf), acusando o governo de Jerusalém de ter “recusado um pedido de ajuda humanitária efectuado pelo Sri Lanka” (ver também Catholic World News : L’Osservatore raps Israel for declining disaster relief). O jornal católico corrigiria o erro, mas sem nunca o admitir verdadeiramente, na sua edição de quarta-feira (ver L’Osservatore Romano 29-12-2004, formato .pdf).

::ADENDA II:: O blog American Amnesia coligiu uma interessante lista parcial dos montantes da ajuda de emergência doados por vários países. De notar especialmente o montante da ajuda francesa, uma quantia verdadeiramente insignificante quando comparada com as de economias equivalentes.

EUA – $15.000.000
Austrália – $10,000,000
Emirados Árabes Unidos – $2.000.000
Canadá – $1.000.000
Alemanha – €1,000,000
Kuwait – $1.000.000
Japão – $370.000
França – €100.000

[Ver também A Tristeza II – Palavras Para Quê?]

Vigília por Darfur

O primeiro genocídio do século XXI prossegue em Darfur, no Sudão, perante o continuado encolher de ombros da comunidade internacional. Mais de 70 mil pessoas foram assassinadas enquanto dois milhões foram forçadas a abandonar as suas aldeias e a ocupar “campos de refugiados” – verdadeiros campos de concentração guardados pelas mesmas milícias sanguinárias que sistematicamente massacram as populações locais, violam as mulheres e escravizam milhares de refugiados. As Nações Unidas continuam a recusar admitir que a situação que se vive em Darfur constitua genocídio.
Aos meus leitores de Nova Iorque, sugiro que no próximo dia 13 de Dezembro (segunda-feira) passem pela Fountain Plaza, no Washington Square Park, para participar numa vigília por Darfur, organizada conjuntamente pelo Darfur Rehabilitation Project, NYU Law Students for Human Rights, Yeshivat Chovevei Torah Rabbinical School e American Anti-Slavery Group.
Entretanto, quem estiver longe de Nova Iorque pode sempre ir visitando os extraordinários blogs Sudan: The Passion of the Present e Sudan Watch.

::Leituras:: Nunca Mais! :: Arquivos da Judiaria / Que Fazer com Este Genocídio? :: Arquivos da Judiaria / Darfur e o Mundo :: Arquivos da Judiaria / Cartaz Darfur :: Arquivos da Judiaria

Em Perspectiva

“Imaginemos que, em vez do “mundo árabe”, existia um “mundo judeu” no meio do qual tentava sobreviver um único estado árabe/muçulmano. Sim, imaginemos que existia uma região do planeta conhecida como “Mundo Judeu”. Centenas e centenas de milhões de judeus espalhados por diversos países de língua hebraica e religião judaica. Incrustado nesse “mundo judeu” há um país árabe. Não seria este país árabe acarinhado pela Comunidade Internacional? Não seria esse pequeno país árabe dotado de meios de defesa, recursos e financiamentos para a sua sobrevivência? Não teriam todos os progressistas do planeta um sem-número de razões para justificar e legitimar a continuidade e prosperidade desta única nação árabe do planeta? Se esta visão, posta nestes termos, parece razoável a todos, então não há justificativa para que a situação inversa não seja igualmente razoável.
De contrário trata-se de hipocrisia. Ou de algo bem pior…”

Miguel Fernandes, jornalista

(em email enviado à lista de discussão do excelente site judaico brasileiro Pletz)

Irresponsabilidades

1.) Ontem perdi o Telejornal da RTP1, que me chega aqui a Los Angeles ao meio-dia, via RTP Internacional. Depois de ler na blogosfera vários comentários à cobertura televisiva feita em Portugal à morte de Arafat, decidi ir aos arquivos de vídeo da RTP para ver a emissão de ontem à noite. Com a palavra Muqata atirada abundantemente a cada frase, a notícia dominou o programa. Numa das reportagens apresentadas falava-se da “reacção dos judeus”. As imagens mostravam um grupo de meia dúzia de ultra-ortodoxos – literalmente meia dúzia! – que cantavam e dançavam em Jerusalém.

Para a jornalista que narrava a peça, aqueles senhores, por si, representavam a reacção de todos os judeus à morte de Arafat. Em voz off, a jornalista insistia: “Jerusalém é assim uma cidade dividida. Do lado judeu, a festa. Na parte árabe, o luto.” Ao mesmo tempo, as imagens mostravam um dos ultra-ortodoxos a ser preso por dois polícias israelitas – mas a voz “off” passaria por cima da imagem sem a comentar ou explicar.
Em jornalismo chama-se a isto “folclore”, ou “colorido”. No mundo real tem outros nomes: distorção e irresponsabilidade. Habituados a fazer “reportagens de rua” pelos pretextos mais irrisórios, perguntando a passantes o que pensam sobre isto ou aquilo, os jornalistas da RTP foram incapazes de repetir a fórmula em Israel, limitando-se a regurgitar receitas estereotipadas que em nada representam o que verdadeiramente sente a esmagadora maioria do povo israelita. Com milhares de cafés em Jerusalém e Tel Aviv, a tarefa não seria nada complicada.
Imagine-se o que seria se uma equipa de televisão estrangeira que cobria a morte e o funeral de Francisco Sá Carneiro (este é o primeiro exemplo que me vem à cabeça), falando da reacção da oposição portuguesa, fizesse uma reportagem contendo apenas imagens dos “festejos” e dos foguetes que na altura se lançaram em algumas zonas do país.
O apontamento de reportagem da RTP sobre a “reacção dos judeus” equivaleria a entrevistar meia dúzia membros do “Partido Nacional Renovador” ou da FER para saber o que pensam os portugueses. Falo aqui do discurso dos extremos poder ser encarado como “consenso generalizado”. A percepção do conflito israelo-palestiniano continua assim, em Portugal, a ser enformada em amostras de jornalismo irresponsável.
Para saber realmente como estão a reagir os israelitas – e as opiniões de uma sociedade plural que não pode ser reduzida a um estereotipo extremado –, aqui vai uma sugestão: veja-se o noticiário de ontem da IBA, o canal estatal de televisão israelita. Aqui vão os links directos: IBA Channel 33 – English News Edition / IBA News (hebraico)

2.) A insistência das autoridades francesas em não divulgar as causas da morte de Yasser Arafat é uma atitude de perfeita irresponsabilidade. Ainda hoje, os assassinos do Hamas, e de outros grupos terroristas, continuaram a reiterar a sua “crença profunda” de que Arafat teria sido “envenenado pelos israelitas”, apesar da própria Autoridade Palestiniana ter já desmentido a acusação estapafúrdia. Ao impedir que se conheçam as verdadeiras causas da morte do líder palestiniano, pondo fim a especulações e teorias de conspiração, a França corre o risco de vir a ter sobre si o ónus da eclosão de um novo ciclo de atentados terroristas perfeitamente evitáveis. A manutenção do silêncio francês é diplomática e humanamente irresponsável.

Yasser Arafat (1929-2004) – O Princípio de uma Nova Era

“Quando cair o teu inimigo, não te alegres,
nem quando tropeçar se regozije o teu coração,
para que o Senhor não o veja, e o desgoste”

Provérbios, 24:17,18

Confesso que pouco tenho a dizer sobre a morte de Arafat. Não partilho da teoria segundo a qual todos os obituários se devem escrever em tons suaves e inócuos, afogados em elogios. A morte não apaga o que se fez em vida. Por isso não posso lamentar a sua morte. Lamento, isso sim, a situação caótica em que a sua liderança colocou o povo palestiniano.
Yasser Arafat foi um ditador corrupto que acumulou uma fortuna incomensurável; que pagava uma mesada de 150 mil euros mensais à sua mulher, em Paris, ao mesmo tempo que o seu povo continuava a viver na miséria, em Gaza e na Cisjordânia; que usava os fundos que desviou para comprar influências e manter o poder; que fingiu querer a paz para a rejeitar repetidamente cada vez que ela se aproximava.
Agora, o factor mais importante, a meu ver, é a esperança da morte de Arafat poder alterar a dinâmica de violência e abrir caminho para o estabelecimento de uma paz duradoura no Médio Oriente. Por um lado, a OLP tem agora uma oportunidade única de quebrar o ciclo de caciquismo e corrupção que marcaram a era Arafat. Por outro, Israel fica privada do alibi que a “irrelevância” de Arafat propiciava e será obrigada a agir rapidamente no caminho da paz. O governo israelita tem, agora mais do que nunca, a obrigação moral e o dever de apoiar a nova liderança da Autoridade Palestiniana e reconhecer nela uma legítima parceria na mesa de negociações, sob pena de ver emergir os assassinos do Hamas como “alternativa”. Para já, deverá negociar-se de imediato com a AP a transição de poder provocada pelo plano de retirada unilateral de Gaza.
Com o desaparecimento de Arafat, pessoalmente acredito que seria agora a vez de Ariel Sharon abandonar o governo israelita, de forma a permitir que o retomar das negociações de paz possa ser feito sem a presença de figuras polarizadoras.
Numa amostra do que pode, e deve, ser o jornalismo feito para a Internet, o New York Times tem disponível uma notável reportagem multimédia recente bastante aprofundada sobre as complexidades e desafios da sociedade palestiniana, um trabalho francamente bem feito a não perder, da autoria do jornalista James Bennet.

::A LER:: Jornal de Noticias – Arafat – artigo de Francisco José Viegas / Haaretz – Yasser Arafat, 1929-2004: Father of the Palestinian nation / Foreign Policy: Think Again: Yasir Arafat / Aljazeera: The Fight for Arafat’s Fortune Begins / Who will get Arafat’s millions? Wife is fighting Palestinian officials for assets, Arab TV reports / Suha’s Scream – Arafat’s wife cries conspiracy, and the international press follows the money / The Globe and Mail – Arafat’s wife refuses to go away quietly / Forbes Magazine: Auditing Arafat / The Advertiser: Wife’s battle for Arafat’s fortune [07nov04] / Haaretz – Peace Index / Arafat s leaving won t change things / Honest Reporting -Yassir Arafat: 1929-2004 / Yasser Arafat’s Dark Legacy / Yasser Arafat – Biography / Yasser Arafat – Wikipedia / Suha Arafat – Wikipedia / Arafat’s Pilfered Profits / Arab News – Arafat Aides Resume Talks With Israel, Fight Over His Fortune / Haaretz – After Arafat: A new Mideast? / O “senhor Sharafat”: dois homens teimosos e muitos mortos – artigo de Amos Oz – Arquivos da Judiaria / As Causas dos Atentados Suicidas – artigo de Alan Dershowitz – Arquivos da Judiaria.

Four More Years…

Por Nuno Guerreiro, nos EUA

Em 1992, do pódio da Convenção do Partido Republicano que nomeara George H. Bush para concorrer a um segundo mandato, Pat Buchanan, um antigo assessor de Richard Nixon e representante máximo da ala extremista dos republicanos, fez um discurso que ficaria para a história. Candidato derrotado às eleições primárias do partido, Buchanan afirmou que existia “uma guerra cultural em curso pela alma da América”. Segundo ele, o país tinha de ser resgatado às garras das elites de esquerda que, de Nova Iorque e Hollywood, controlavam e suplantavam os valores da “América profunda”.
Agora, 12 anos depois, as palavras de Buchanan ressoam com timbre profético. A estratégia da campanha de reeleição de George W. Bush foi traçada ao milímetro por Karl Rove – um ex-lobbista que nos anos 80, em Washington, teve na sua carteira de clientes nomes como Ferdinando Marcos e Jonas Savimbi. Rove acreditava que Bush só podia ganhar se a base ultraconservadora do partido – composta maioritariamente por cristãos evangélicos – fosse votar. E para isso era necessário motivá-los.
Ainda antes da campanha começar, Bush faria isso mesmo ao propor uma emenda constitucional para proibir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, sabendo de antemão que tal nunca passaria no Senado devido ao complexo processo de revisão constitucional. Mas não era uma emenda na Constituição que ele pretendia – Bush falava ao eleitorado ultraconservador. Mostrava-se como seu defensor. Como o defensor dos “valores morais tradicionais”.
Quem de fora comenta a América, geralmente fala em termos uniformes, diz “os americanos isto” e “os americanos aquilo”. Mas não podia ser mais errado colocar uma etiqueta única num país marcado pela diversidade.
Um olhar pelo novo mapa eleitoral americano mostra um país dividido em dois, uma clivagem entre os estados litorais e os do interior. Entre as megalópoles e a insolaridade.
Mais do que qualquer outro país, os Estados Unidos são feitos de assimetrias, onde os mundos hiper-tecnológicos de Nova Iorque ou Los Angeles coexistem com a falta de saneamento básico nas montanhas de Appalachia ou nos recantos perdidos de Montana. O país de Michael Moore, mas também de Newt Gingrich.
Os resultados eleitorais mostram um país dividido ao extremo: na geografia, nas emoções, nos valores e nos medos. John Kerry venceu em Nova Iorque, na Califórnia em New Jersey. George W. Bush ganhou no “Bible Belt”, nas Carolinas, na Geórgia, no Texas, em Montana.
Os resultados das eleições mostram que Karl Rove estava certo. George W. Bush é uma figura polarizadora. Os ódios que gera à esquerda levaram um grande número de novos eleitores às urnas. Os democratas acreditavam que esta afluência recorde seria suficiente para o derrotar. Mas a estratégia de Rove, ao apelar aos medos mais recônditos da “América profunda” – religiosa, conservadora e receosa de mudanças drásticas – não só anulou a pretensa vantagem do Partido Democrata como a suplantou em estados chave, como a Florida e o Ohio. As sondagens à boca das urnas provam-no: quando interrogados sobre a sua principal preocupação actual, a fatia maior do eleitorado respondeu serem os “valores morais”. Não o terrorismo, nem o Iraque, nem sequer a economia ou o desemprego. Os “valores morais”.
Nestas eleições, George W. Bush apresentou-se ao eleitorado como um “presidente de guerra”. A vitória nas urnas confirma-o. Mas esta não é a guerra no Iraque nem no Afeganistão; não é contra a al-Qaeda nem contra o terrorismo. É a tal “guerra cultural pela alma da América”. E vai durar mais quatro anos.

[Crónica publicada na edição de 5/11/2004 do Semanário Económico>

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:: ADENDA :: (05/11/2004) – Para uma visão contextualizada do mapa eleitoral americano, aconselho a passagem por dois excelentes posts do …Blogo Existo, de João Pinto e Castro: O cerco das cidades pelos campos e Bush country vs. Kerry country. Afinal a América não é tão vermelha quanto a pintam…

As Eleições Americanas Vistas do Meu Bairro *


Election Judges
Senhoras simpáticas fiscalizam uma mesa eleitoral.

Brian Fosterjuiz eleitoral na mesa do
Centro Comunitário de W. Hollywood.

Rita e Alexander – Octagenários, judeus russos, votam em Kerry.

Mesa de Voto – Conferem-se cadernos eleitorais.
Aqui fala-se Inglês, Russo, Yiddish e Hebraico.

Assembleia de Voto no
Centro Educacional Chabad-Lubavitch
Eleições americanas com cheiro a misticismo judaico.

A “Terceira Via”… em Santa Monica Boulevard

* West Hollywood, Los Angeles.

::Update (3/11/2004, 17h10):: Aqui em Los Angeles, John Kerry venceu com 1.670.341 votos (62,86%), contra 954.764 votos para Bush (35,93%). Em termos nacionais, segundo a CNN (ver CNN.com Election 2004), 76% dos judeus americanos votaram em Kerry. Bush quedou-se com 24% do “voto judaico”. Consolação pouca, é certo. (Acredito que isto responde à pergunta de Luís Nazaré…)

O Dia D

Por Nuno Guerreiro, em Los Angeles

Pouco passa das sete da manhã de 2 de Novembro, o dia de eleições nos Estados Unidos. As urnas abrem às 8:00h, mas à porta da pequena biblioteca de Plummer Park, em West Hollywood, onde se situa uma das milhentas mesas de voto da imensa cidade de Los Angeles, cerca de 50 pessoas esperam já a sua vez para votar. West Hollywood é um bairro heterogéneo, mas a sua população é maioritariamente judaica, com uma grande componente de emigrantes judeus russos chegados aos Estados Unidos na década de 80.
Entre aqueles que esperam, Vladimir Dovidov, um catedrático de física reformado, de 84 anos, vai lendo um livro de poesia para passar o tempo. Residente nos EUA desde 1987, Vladimir nunca perdeu a oportunidade e votar desde que assumiu a cidadania americana. “Muitos americanos não compreendem a importância de poder escolher. Durante a maior parte da minha vida nunca pude votar. Agora que posso aproveito sempre a oportunidade que me dão”, conta o emigrante ancião, acrescentando que desta vez votará em John Kerry. Por três razões, diz ele: “Porque não gosto de Bush, porque Putin gosta de Bush e porque, como judeu, acredito que a Israel precisa de um presidente americano que acredite na paz.”
Vladimir é um homem fascinante, com um sotaque cerrado e uma vitalidade muito maior do que a sua idade poderia fazer antever. Meia hora depois, o velho professor cumpriria o seu ritual democrático, juntando o seu voto ao de milhões de californianos apostados em conceder os 55 votos eleitorais do estado a John Kerry.

[Crónica publicada na edição de 3 de Novembro de 2004 do Diário Económico]

O Dia D…

A mais de 4 horas do encerramento das primeiras assembleias de voto, começo a ter acesso às primeiras “exit polls” – sondagens à boca das urnas, um privilégio de jornalista, pois – e tudo parece apontar para… uma vitória de John Kerry! O candidato democrata está à frente na Florida e em Ohio, dois dos “estados oscilantes” tidos como essenciais para a vitória nas presidenciais de hoje. Ainda é cedo para tirar conclusões definitivas, mas os dados estão lançados. Vou dar uma volta pela cidade e conto postar mais tarde algumas fotos de mesas de voto aqui de Los Angeles.

:: Adenda :: Os resultados das eleições podem ser seguidos aqui: C-SPAN: 2004 GENERAL ELECTION RESULTS e Yahoo! News – Elections
:: News Update :: (23h00 PST) Ao que tudo indica, as sondagens à boca das urnas voltaram a errar de forma estrondosa, repetindo os erros e o descalabro das presidenciais de 2000. Contrariando as previsões iniciais, Bush venceu na Florida. E Ohio pode ser a “Florida” de 2004… (ver New Woes Surface in Use of Estimates – WashingtonPost.com)

(no ícone à esquerda escreve-se Kerry, em hebraico)

Post Scriptum – Um dos meus blogs favoritos, o excelente Jumento, faz hoje um ano. Aqui vão os votos das maiores felicidades e desejos de longevidade para este blog fundamental.