Cabala – as Morfologias de um Velho Ódio

“Os seres humanos esparramam ao vento, premeditada ou inadvertidamente, abundantes palavras em incontáveis combinações, porém são muito poucos os que sabem que aspectos tinham essas palavras em seus dias de grandeza. Algumas chegaram ao mundo depois de uma grande e difícil viagem através das gerações; outras brilharam como relâmpagos e iluminaram repentina e momentaneamente o mundo inteiro, algumas passaram várias transmutações, deixando atrás de si sua estrela e aroma, outras mais serviram de vasilhas para complexos mecanismos de pensamentos profundos e sentimentos exaltados em maravilhosas permutas.”

In “Lo Revelado y lo Encubierto en la Lenguaje”, Haim Nahman Bialik (1873 – 1934), poeta israelita de origem russa.

Confesso que já há algum tempo que estava para escrever este post. Talvez mesmo desde o princípio deste blog. Depois de muito adiar (já lá vai quase um ano que comecei aqui a escrever), não consegui resistir ao desafio lançado por José Teixeira, no seu Ma-Schamba. Sou obrigado a admitir que sempre me perturbou a utilização que na política portuguesa – e no jornalismo, já agora – se faz da palavra cabala. Se à primeira vista este abuso do termo revela, por si só, algumas das piores características da “alma colectiva” portuguesa – entre elas a aparente incapacidade de assumir responsabilidades e a eterna maquinação de conspirações –, uma análise mais aprofundada escava algo bem mais triste.
A palavra cabala é um dos vocábulos da língua portuguesa onde a linguística e a filologia se intersectam com o fanatismo histórico e a intolerância. E com o antisemitismo institucional que durante séculos vigorou em Portugal graças à Inquisição.
Bem distanciada da definição que lhe é dada pelo português corrente, na sua raiz cabala é uma palavra hebraica (קבלה – pronunciada cabalá), habitualmente transliterada também como kabbalah, que significa literalmente “tradição recebida” e, na prática, traduz o conceito místico no judaísmo.

É impossível traçar as origens da cabala com precisão histórica – “monstros sagrados” das religiões comparadas, como Mircea Eliade e Gershom Scholem nunca chegaram a acordo –, mas o seu primeiro marco definitivo é o Livro da Formação (ספר יצירה), uma composição mística com pouco mais de 32 páginas atribuída pela tradição judaica ao patriarca Abraão e alegadamente redigida há mais de 3700 anos. Há cerca de dois mil anos, ainda durante o período mishnaico do judaísmo, o rabino Shimon bar Yohai viria a compor o Livro do Esplendor (ספר הזהר), um tratado de 20 volumes de interpretação da Torá (תורה), escrito em aramaico, que acabaria por se assumir como a obra central da cabala.
Peço desculpa a José Teixeira por transgredir por completo as suas exigências de um post “resumido e fácil”, mas definir a cabala em poucas linhas é uma tarefa absolutamente impossível. Como escreveu Gershom Scholem: “A Cabala não é um sistema único com princípios básicos que possam ser explicados de uma forma simples e directa, mas é antes composta por uma multiplicidade de metodologias diversas, amplamente separadas umas das outras e por vezes completamente contraditórias.” (On the Kabbalah and Its Symbolism, Keter House, Jerusalém, 1965).
Agora, para perceber a metamorfose da palavra no vocabulário português – de definição de um sistema religioso/espiritual do judaísmo até ao actual sinónimo de conspiração, intriga e trama usado na política e no futebol – é necessário mergulhar no universo histórico do Portugal quinhentista.
A Inquisição Portuguesa é decretada oficialmente pelo papa Clemente VII em 1531, iniciando um regime de terror e obscurantismo que viria a subjugar o país até ser finalmente abolida, em 22 de Abril de 1821 (ver A Inquisição e o Declínio do Império Português – Arquivos da Judiaria). Os judeus portugueses seriam os seus alvos primários, a esmagadora maioria dos quais convertidos à força ao catolicismo no seguimento do decreto de expulsão assinado pelo rei Manuel I a 5 de Dezembro de 1496.
Já de si, mesmo nos círculos judaicos tradicionais, a cabala era algo envolto numa aura de mistério, da qual muitos ouviam falar mas poucos sabiam exactamente o que significava. Até ao início do século XX, a esmagadora maioria dos rabinos defendia que o estudo da cabala podia apenas ser desenvolvido por homens casados, versados no Talmude e na Torá, e só depois de completarem 40 anos de idade. No Portugal quinhentista, onde o judaísmo era praticado em segredo e sob o espectro permanente das fogueiras da Inquisição, o secretisimo era ainda mais exacerbado.
Este período da história portuguesa é marcado por um antisemitismo religioso sem paralelo. Para tentar perceber o que isto poderia significar, Jean-Paul Sartre escreveu em Réflexions sur la Question Juive: “O que pesava sobre ele [Judeu] originalmente era a acusação de ser o assassino de Cristo. Alguma vez parámos para ponderar a intolerável situação de homens condenados a viver numa sociedade que adora o Deus que eles são acusados de matar? Originalmente, o Judeu era então um assassino ou o filho de um assassino – o que aos olhos de uma sociedade com um conceito pré-lógico de responsabilidade acaba inevitavelmente por ser a mesma coisa.”
Vistos como párias sociais, os judeus são alvo de uma campanha de vilificação sem tréguas. Palavras como “judeu”, “judiaria” e “judiar” passam a ser usadas em sentido pejorativo, como insulto ou sinónimo de crueldade – quando os judeus eram, eles sim, as vítimas das prisões, torturas e fogueiras inquisitoriais. O mesmo aconteceu com a palavra cabala. Associada à mística judaica, misteriosa aos olhos dos não-iniciados, cabala passa igualmente a partir daí a ter uma conotação negativa, ela própria associada ao secretismo e à conspiração, num sentido lato e sinistro.
Marca visível de um fanatismo e de uma intolerância históricas inegáveis, a versão deturpada destas palavras entrou na linguagem corrente por via da propaganda inquisitorial. E permaneceu através dos séculos.
Agora, 183 anos depois do fim da Inquisição, a palavra cabala jorra das bocas de ministros e dirigentes desportivos, transformada num tributo inconsciente e póstumo à obra daquela que foi a mais nefasta instituição da história portuguesa. Não é preciso um doutoramento em linguística ou semiótica para compreender a importância do vocabulário na moldagem das mentalidades. Basta ler George Orwell ou Aldous Huxley.

A não perder…

…a entrevista do escritor israelita Amos Oz à revista de domingo do diário espanhol El Mundo: “Palestinos e israelíes están dispuestos a crear dos estados. Lo que ocurre es que Sharon y Arafat son unos cobardes”. A reler também o artigo assinado por Oz há dois anos no New York Times, intitulado O “senhor Sharafat”: dois homens teimosos e muitos mortos.

“A Circulação da Informação” …ou a Arte das Manipulações

As forças armadas israelitas (FDI) reconheceram ontem que erraram ao acusar a ONU de auxiliar grupos terroristas por alegadamente transportar lança-rockets nas suas ambulâncias (ver notícia completa no Ha’aretz). Um avião não-pilotado, vulgo drone, captara há semanas imagens aéreas de um homem a carregar um longo objecto tubular para dentro de uma ambulância da ONU. O formato e as dimensões do objecto levantaram suspeitas e as FDI apressaram-se a acusar a ONU. Agora, ficou provado que o tal “objecto suspeito” não passava de uma simples maca. O blog Not a Fish posta uma foto retirada do diário Yediot Aharonot (ידיעות אחרונות), na qual um funcionário das Nações Unidas demonstra como as autoridades militares israelitas foram induzidas em erro pela aparência de uma maca dobrada.
No Terras do Nunca, João Morgado Fernandes, com a sua ironia habitual, escreve um post intitulado “a circulação da informação” que merece ser lido com atenção. Digo isto porque o João não é um blogger qualquer. É um jornalista com responsabilidades na secção Internacional de um dos diários portugueses “de referência”.
No seu post, João Morgado Fernandes ridiculariza as acusações e receios israelitas (entretanto já desmentidos), esquecendo que nem tudo é a preto e branco no conflito israelo-palestiniano. A verdade é que a utilização de ambulâncias das Nações Unidas por membros armados do Hamas não é novidade e foi já documentada por diversas vezes.
A foto de cima, que ilustra este post, é retirada de imagens recolhidas nos territórios ocupados por um repórter da agência Reuters a 11 de Maio passado, mostrando um grupo de palestinianos armados a fugir numa ambulância da ONU. Curiosamente, ou talvez não, a notícia na altura não chegou à Europa e o próprio responsável máximo da UNRWA (United Nations Relief and Works Agency for Palestine Refugees in the Near East) chegou a reconhecer que era “perfeitamente natural” que a agência da ONU empregasse militantes do Hamas, uma organização terrorista responsável pela morte de centenas de civis. O vídeo da Reuters pode ser visto na íntegra clicando aqui (formato Windows Media).
Como é fácil comprovar, as acusações israelitas das últimas semanas em relação à UNRWA, apesar de se provarem agora infundadas, não apareciam de geração espontânea e eram fundamentadas na experiência de um passado bem recente.
A “circulação da informação”, como lhe chama o João, tem tendência a funcionar em sentido inverso. Basta recordar a forma absolutamente irresponsável como alguma imprensa europeia cobriu o célebre “massacre” de Jenin. O “massacre” nunca existiu, mas dele ficou o mito, atirado desde então como argumento em debates sucessivos sobre o Médio Oriente. Alguns jornais mais responsáveis, como o Guardian, deram-se ao trabalho de tentar perceber a origem do erro e dos preconceitos. Para que se aprenda com o passado, é um texto velho de dois anos que vale bem a pena ler: Guardian.co.uk – How Jenin battle became a “massacre”.

EUA: Judeus e as Presidenciais

Contrariando muito do que se tem escrito na Europa sobre o assunto, uma sondagem recente, efectuada pelo American Jewish Committee, mostra que 69% dos judeus dos Estados Unidos vão votar em John Kerry, contra apenas 24% que declaram a sua preferência por George W. Bush.
Na prática, a incessante campanha encetada pelo Partido Republicano para captar o chamado “voto judaico” valeu-lhe apenas uma subida de cinco pontos percentuais em relação às presidenciais de 2000 [ver também um interessante post sobre divisões étnicas/religiosas e as eleições americanas na Grande Loja].
Em relação às opções de voto, esta sondagem não traz grandes novidades, uma vez que historicamente a esmagadora maioria dos judeus americanos vota à esquerda – Al Gore obteve 79% do “voto judaico” em 2000 e Bill Clinton alcançou 80% em 1992 e 78% em 1996.
Os aspectos mais reveladores da sondagem prendem-se com as atitudes dos judeus em relação a temas sociais que actualmente dividem a sociedade americana, e que traçam uma linha de fronteira inexpugnável entre George W. Bush e John Kerry. Um desses temas é o casamento entre pessoas do mesmo sexo – oposto pelos republicanos e usado por Bush há alguns meses para assegurar o apoio das bases da chamada “direita religiosa”. Três em cada quatro judeus inquiridos é contra a proposta de Bush de criar uma emenda constitucional destinada a proibir o casamento gay. Mais de metade dos inquiridos mostra-se favorável à possibilidade de casais gay poderem vir a usufruir dos mesmos benefícios legais que os restantes cidadãos.
Apesar de constituirem apenas 2% da população dos Estados Unidos, os judeus têm uma presença considerável em alguns dos estados chave que podem decidir as presidenciais de 2 de Novembro, como a Florida e New Jersey.
De notar ainda que é por causa das questões sociais – onde a postura de Bush se cola à extrema-direita religiosa da Coligação Cristã –, a par da irresponsabilidade fiscal patente no défice recorde de 436, 9 mil milhões de dólares, que o actual presidente está a perder terreno junto da “ala libertária/liberal” do Partido Republicano. Basta ler com atenção o que vão escrevendo alguns ícones da direita blogosférica americana, como Andrew Sullivan ou Josh Chafetz (OxBlog). Hoje, especialmente depois dos debates, estão ambos à beira de declarar publicamente que irão votar em John Kerry.

A IURD e os Símbolos Judaicos

A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) é provavelmente uma das mais controversas organizações religiosas da actualidade. Fortemente implantada no Brasil e em Portugal, a IURD tem sido criticada por igrejas cristãs tradicionais não só pelas suas pouco ortodoxas opções teológicas, mas principalmente pela maneira como explora as inseguranças dos seus crentes para obter receitas financeiras.
Há muito que a IURD faz uso de “amuletos” vários, como pequenos frascos com “água do rio Jordão”, que vende aos fiéis alegando que estes possuem poderes de “protecção” e “cura”. Agora, a “igreja” fundada pelo ex-funcionário da lotaria federal brasileira Edir Macedo Bezerra resolveu transformar em amuleto seu um dos símbolos máximos do judaísmo: a mezuzá.
Tradicionalmente, a mezuzá é colocada nas ombreiras das portas das casas onde moram judeus como símbolo do cumprimento da Lei de Moisés. Por si só, a mezuzá é uma pequena caixa – que pode ser de madeira, pedra, metal ou plástico – contendo um pergaminho manuscrito com a oração Shemá Israel, a declaração de fé do judaísmo.
No Brasil, a Igreja Universal começou agora a vender mezuzot (apenas as “caixas”, sem pergaminho) aos seus fiéis para “protecção do lar”. Esta manobra de marketing religioso tem irritado vários rabinos, que acusam a “igreja” de apropriação indevida de símbolos religiosos alheios com nítidos objectivos de lucro.
A Igreja Universal do Reino de Deus é uma organização sincrética fortemente inspirada na chamada “teologia da prosperidade” e “confissão positiva”, uma corrente pós-evangélica popularizada nos Estados Unidos por “tele-evangelistas” como Benny Hinn ou Jimmy Swagger, e em Portugal por Jorge Tadeu da Igreja Maná. Segundo alguns teólogos, é neste sincretismo, onde se misturam crenças diversas com superstições populares fortemente enraizadas, que reside o segredo do sucesso da Igreja Universal: em vez de impor novas regras aos crentes, a IURD cria as suas normas em torno das crenças dos seus fiéis.
A utilização de símbolos judaicos pela IURD no Brasil pode estar relacionada com a crescente popularidade das chamadas “igrejas messiânicas” – instituições religiosas cristãs que proclamam um retorno aos rituais judaicos como forma de contextualizar o messias cristão nas suas raízes judaicas (ver :: Rua da Judiaria :: Jesus, o Judeu ).
O apego dos judeus ao simbolismo da mezuzá ficou bem patente, por exemplo, depois da conversão forçada dos judeus portugueses, em 1497. Forçados a esconder qualquer sinal exterior de judaísmo, os cripto-judeus ocultavam a mezuzá dentro de estátuas de santos católicos. Ao entrar em casa, estes “cristãos-novos” beijavam a mezuzá – agora escondida dentro dos santos – cumprindo um duplo propósito: manter a antiga tradição judaica de beijar mezuzá e mostrar aos vizinhos cristãos-velhos a “devoção” aos santos católicos.

Aborto: Uma Perspectiva Judaica

“Por motivos diferentes, muitas mulheres optam por interromper a gravidez, abortando o feto que têm em seu ventre. Há certas ocasiões em que as razões que as levam a esta decisão são de carácter económico, porque o casal, ou a pessoa, considera que não tem os meios necessários para manter a criança que iria nascer, tomando em conta as exigentes necessidades que a nossa sociedade impõe aos seus membros. Outras pessoas optam pelo aborto porque consideram que emocionalmente não podem enfrentar todas as implicações que significa trazer um ser humano a este mundo. Certas sociedades modernas estimulam o controlo da natalidade por considerarem que não podem solucionar os problemas que um aumento de população representa. Um dos métodos de controlo é o aborto.
Toda a mulher deve poder decidir por si própria o que deseja fazer com o seu corpo. O Talmude afirma: “Úbar yérej imó”, que significa que o feto faz parte do corpo da mulher e por isso carece de individualidade própria. Por exemplo, no caso da conversão de uma mulher grávida ao judaísmo, a conversão é igualmente válida para o bebé quando nasce.
O Talmude considera também o facto do feto poder ameaçar a vida da mãe. Em tal eventualidade, interrompemos a gravidez para salvar a vida da mãe. Rambam [rabino Moshe ben Maimon, conhecido como Maimonides (1135-1204)] menciona que o feto pode ser considerado como rodef (perseguidor) nos casos em que ponha em perigo a vida da mãe. Segundo outras apreciações [outros comentadores e talmudistas] se conclui que não se pode qualificar o feto de rodef por este carecer de vontade própria e não ter a faculdade de poder escolher livremente a sua conduta.
Agora, podemos afirmar que o feto é uma criatura à parte e independente da sua mãe? Ou talvez considerar o feto, antes do seu nascimento, como uma espécie de órgão adicional da mãe. O Talmude ensina que se lhe proporciona uma alma ao embrião no momento da concepção. É claro que, segundo o Talmude, o feto possui individualidade e, por isso, é um ser aparte da mãe, e não pode ser considerado como um outro órgão da mesma forma. O Talmude refere-se ao embrião durante os primeiros quarenta dias de gestação como mayá beamá, que quer dizer “simplesmente água’. Podemos deduzir que até este momento não se considera o embrião como um ser humano em todo o sentido. Mas tão pouco se implica que deixemos de apreciar que estamos frente a uma vida humana em potência.
O factor determinante é sem dúvida a saúde e o bem estar da mãe.
Nos casos em que o feto tem deficiências genéticas a nossa tradição desaconselha o aborto porque não existe a certeza da falha que se aprecia não pode ser corrigida no futuro. E que diferença terá para nós o conceito de vida de um ser que tem deficiências com um que não tem?
Teremos sempre em conta os efeitos negativos que um bebé nestas circunstâncias pode trazer para à mãe, se a mãe afirma e decide que não quer dar à luz um filho com sérias deficiências mentais ou físicas e isso será motivo para o seu desespero, aqui se pode pensar na possibilidade de fazer um aborto, pois a nossa responsabilidade primária tem a ver com a saúde e o bem estar do ser humano integro, que neste caso é a mãe.”

In “Reflexões Sobre o Aborto” (1991), Luz – Textos e Depoimentos (Âncora, 2001), uma recolha de escritos de Abraão Assor, rabino da comunidade judaica de Lisboa de 1941 a 1993.

Em termos gerais, tal como escreveu o saudoso rabino Abraão Assor neste texto que transcrevemos, a Halacha (Lei Judaica) não só permite o aborto, como em algumas circunstância exige a interrupção da gravidez. Acima de tudo, norteada pelo princípio da responsabilização individual – um princípio central do judaísmo –, a tradição judaica coloca a decisão na esfera familiar e, por vezes, comunitária.
Historicamente, nos países onde a interrupção voluntária da gravidez se tem assumido como tema político de clivagem – especialmente nos EUA –, as comunidades judaicas têm manifestado uma oposição unânime à restrição do aborto por via legislativa. Os três principais ramos do judaísmo moderno (ortodoxo, conservador e reformado) defendem que a discussão do aborto pertence apenas e exclusivamente às mulheres e famílias afectadas, e não deve ser motivo de regulamentação legislativa ou demagogia política.
Mesmo assim, nos últimos anos, surgiram algumas correntes anti-aborto no seio de movimentos judaicos ultra-ortodoxos, influenciados em grande medida pela forma como o tema tem elevado a importância política de movimentos idênticos na direita cristã. A pressão de alguns partidos religiosos ultra-ortodoxos em Israel, por exemplo, fez com que as dificuldades económicas deixassem de constar da lista de razões legalmente reconhecidas para que uma mulher podesse recorrer ao sistema nacional de saúde para abortar. Ainda assim, em Israel a interrupção voluntária da gravidez continua a ser legal – gratuita ou com custos moderados –, com algumas restrições consideradas “meramente formais” (ver Abortion in Israel: Terms of Termination).

Vozes do Conflito I: Erro e Queda de Arafat

“Quando os Palestinianos se mostram empenhados no processo de paz, um dos seus maiores aliados é a opinião pública israelita. Desfazer esta preciosa aliança foi um dos maiores erros de Arafat.”

Dennis Ross, negociador americano do processo de paz israelo-palestiniano entre 1988 e 2001 e autor do recente livro “The Missing Peace: The Inside Story of the Fight for Middle East Peace”.

A discussão em torno do conflito israelo-palestiniano, para quem está longe do seu epicentro – em Portugal ou no Brasil, como a maioria dos meus leitores, por exemplo –, é muitas vezes enformada por noções preconcebidas e reacções pavlovianas distanciadas. Essa distância, que não é só geográfica, é adensada por coberturas noticiosas que reflectem muitas vezes esses mesmos preconceitos, eternizando um ciclo irreflectido. De fora tendem a ficar as vozes dos que vivem o conflito no seu dia-a-dia. E, com frequência, essas vozes não escutadas são israelitas.
Por isso mesmo, e movido também em parte pela inesperada popularidade deste blog, vou tentar trazer periodicamente à Rua da Judiaria algumas dessas vozes. A primeira é Imshin, o pseudónimo da autora de um blog israelita, reflectido e bem escrito, chamado Not a Fish (provincially speaking). No post que aqui se transcreve, Imshin traduz um sentimento de frustração e impotência que é comum aos israelitas que acreditaram em Oslo e pressionaram o governo no caminho da paz com manifestações de rua constantes. Os que então se manifestaram nas ruas de Tel Aviv sentem-se hoje traídos. Traídos, acima de tudo, por Arafat. Traídos por terem um dia acreditado que o líder da Autoridade Palestiniana estaria de facto interessado em assinar a paz com o seu punho. Os analistas políticos israelitas colocam sob os ombros de Yasser Arafat o ónus do descalabro eleitoral da Esquerda israelita – aqueles que foram os seus parceiros de diálogo.

Orgulho e Preconceito
por Imshin, em Israel

Vi hoje, num canal de satélite de Israel, Casamento Fictício (נישואים פיקטיביים), um filme israelita feito nos anos 80. Somos uma “sociedade racista”, e por isso mesmo vemos regularmente nos nossos canais de televisão filmes israelitas que contam as histórias do sofrimento palestiniano, especialmente em canais subsidiados pelo estado. O filme transportou-me a uma época em que, pelo menos para mim, nós estávamos do lado errado; quando os palestinianos eram parte integrante das nossas vidas quotidianas e nós os tratávamos mal.
A situação, tal como é descrita no filme, e os sentimentos de culpa de muitos judeus israelitas, incluindo eu própria, levou-nos às ruas em massa, exigindo mudança. A pressão pública, aliada à segunda intifada (a primeira intifada, na minha opinião, ocorreu entre 1936 e 1939, contra o Mandato Britânico, o actual conflito, esse, não é intifada, é guerra) resultou nos Acordos de Paz de Oslo, e na cedência de uma larga porção dos territórios a uma administração sob Arafat, no caminho para a independência e a criação do estado palestiniano (“sociedade racista”, lembram-se?).
Ao ver o filme pude recordar os sentimentos e identificar-me com a mensagem. Pude também perceber a diferença na actual situação dos palestinianos. Eles tiveram uma maravilhosa oportunidade para construir uma vida melhor e pura e simplesmente desperdiçaram-na. Pegaram na nossa boa vontade a atiraram-na às nossas caras, “seus idiotas”.
Hoje eles já não fazem parte das nossas vidas da forma como antes o fizeram. Terroristas sanguinários, de um tipo nunca antes visto, filhos bastardos dos mesmos Acordos de Oslo que supostamente deveriam ter resolvido o problema, forçam-nos a ignorar a maioria dos palestinianos. Outros ocupam agora os empregos que em tempos lhes pertenceram. Não podem já meter-se nos seus Peugeot 404 (o último carro construído para durar uma vida inteira) e ir de Han Younis a Rishon Letzion. Na vida real, os filhos dos trabalhadores de Gaza do filme Casamento Fictício provavelmente nunca viram os novos arranha-céus de Tel Aviv.
Mesmo a prosperidade que os palestinianos viveram durante os anos de Oslo, quando israelitas afluíam em peso à Cisjordânia para comprar tudo, desde mobílias a tratamentos dentários, há muito que se perdeu e ficou esquecida. Desapareceu do dia para a noite, quando decidiram renegar as promessas de abandonar o caminho da violência, atacando Israel no Verão de 2000 na esperança de extorquir assim dividendos mais proveitosos.
Mas eles, estes filhos de Oslo e do terrorismo, possuem algo que os seus pais nunca tiveram. Eles já não são invisíveis. Podem ser vistos como “o inimigo”, mas isso mesmo é um sinal de respeito, não é? E pelo que lhes falta, por razões óbvias, ódio é bem melhor do que escárnio, ou pior, do que indiferença.
E pensado nisto, sou capaz de perceber porque razão os palestinianos preferem a Direita à Esquerda israelita, não importa o que possam dizer frente às câmaras ou aos pálidos europeus idiotas de sandálias Birkenstock que frequentam Jenin e Ramallah. Porque a Direita israelita os encara como adversários, enquanto a Esquerda os vê como miskenim (pobres coitados).
A Esquerda Israelita é motivada por um sentimento de culpa e por pena, e não há nada mais degradante do que ser alvo de pena. Eu também preferiria ser odiada ou temida.

Traduzido e adaptado de um post homónimo de Imshin, autora do blog israelita Not a Fish (provincially speaking).

:: NOTA :: Apesar de pessoalmente não concordar com tudo o que Imshin escreve neste post, acredito que o testemunho é representativo e vale por si próprio. Mais leituras:ima edição da revista de fim-de-semana do New York Times, o jornalista James Bennet, assina um excelente trabalho de capa, intitulado Sharon’s Wars. Numa amostra do que pode, e deve, ser o jornalismo feito para a Internet, o New York Times tem ainda disponível uma notável reportagem multimédia bastante aprofundada sobre as complexidades e desafios da sociedade palestiniana, um trabalho francamente bem feito a não perder, igualmente da autoria de James Bennet.

As Causas dos Atentados Suicidas

Um artigo de Alan Dershowitz

Com os atentados suicidas a aumentarem no Iraque, na Arábia Saudita, e em Israel, um número crescente de pessoas acredita agora que esta é uma táctica resultante do desespero. Segundo estes, existe uma ligação directa entre opressão, a ocupação, a pobreza e a humilhação, por um lado, e a disposição para cometer atentados suicidas em nome de uma causa comum, por outro. Segundo este raciocínio, a solução óbvia para o problema passa por resolver a sua causa de raiz – a opressão.
Mas esta premissa é falsa: esta relação histórica ou de facto não existe. Os atentados suicidas são uma táctica escolhida por elitistas abastados, privilegiados, com educação superior, porque esta se tem provado eficaz.
Alguns dos bombistas suicidas desafiam mesmo o estereotipo das vítimas empobrecidas da ocupação, levados a medidas desesperadas pela opressão americana ou israelita. Lembrem-se dos autores dos atentados de 11 de Setembro, alguns deles estudantes universitários e nenhum deles oprimido pelos Estados Unidos. O seu líder era um multimilionário saudita chamado Osama bin Laden.
Bin Laden tornou-se um herói para muitos membros da classe “média-alta” saudita, que agora se oferecem como shahids (“mártires”) no Iraque, em Israel, e noutras partes do mundo.
Majid al-Enizi, um estudante saudita que sonhava ser técnico de informática, recentemente alterou os seus planos de carreira para se tornar um mártir; viajou para o Iraque, onde acabou por morrer. O seu irmão Abdullah congratulou-se com a decisão: “Recebemos telefonemas de pessoas que nos felicitam, chorando de alegria e inveja. Há muitos jovens que desejam ir para o Iraque, mas não conseguem lá chegar. Graças a Deus que ele conseguiu.”
Estes meninos ricos glorificam uma cultura do suicídio, mesmo em lugares distantes. Tuffull al-Oqbi, estudante na prestigiada King Saud University, conta que jovens estão agora a usar t-shirts estampadas com a fotografia de bin Laden da forma como a minha geração usou camisolas com Che Guevara. Segundo notícias recentes, jovens mulheres oriundas de famílias abastadas usam t-shirts com bin Laden debaixo das suas abayas para demonstrar o seu apoio aos apelos de resistência contra os Estados Unidos.
Que razão leva estes jovens, rapazes e raparigas, privilegiados economicamente e com formação superior a apoiarem esta cultura da morte, enquanto povos empobrecidos e oprimidos como os tibetanos continuam a celebrar a vida apesar de ocupados pela China há mais de meio século?
Porque razão outros povos oprimidos ao longo da história nunca recorreram a atentados suicidas e ao terrorismo? A resposta reside nas diferenças existentes entre as elites de liderança dos diversos grupos e causas. Os líderes da causa radical islâmica, em especial os wahabitas, advogam e incitam o terrorismo suicida, enquanto os líderes de outras causas defendem outros métodos.
Basta recordar Mahatma Gandhi e Martin Luther King, líderes de povos verdadeiramente oprimidos que sempre defenderam meios não-violentos de resistência. São os líderes quem escolhe os atentados e envia os suicidas. Nenhum bombista suicida decide cometer um atentado por iniciativa própria.
Os suicidas aceitam a morte porque são incitados num frenesim de ódio por imams que pregam “morte aos infiéis”. O Sheikh Muhammad Sayed Tantawi, professor de Estudos Islâmicos da prestigiada Universidade Al-Azhar, do Cairo (uma cidade que não está “sob ocupação”), declarou que as “operações de martírio” – ou seja os atentados suicidas – são a mais elevada forma de jihad e por isso um mandamento islâmico.
Mesmo “modelos moderados”, como a mulher de Yasser Arafat, que mora numa mansão milionária em Paris, disse que se tivesse um filho queria que ele se tornasse um bombista suicida, porque não existe honra maior do que ser um mártir.
Crianças e jovens, alguns com 12 ou 13 anos, são incitados e seduzidos a colocarem coletes com bombas no corpo por estas elites dirigentes, mais velhas e melhor instruídas. Às crianças prometem-se virgens no céu, elogios e dinheiro para as suas famílias, e posters que os celebram como se fossem estrelas de rock. É uma combinação irresistível para alguns, e a culpa assenta unicamente nos elitistas que os exploram, que os usam, e que eventualmente os matam.
Não existe qualquer tipo de provas que apoie a existência de uma relação directa entre ocupação e atentados suicidas. Na realidade, qualquer ocupação torna mais difícil a tarefa de orquestrar esses ataques. Não digo isto para defender a ocupação, mas unicamente para separar os argumentos daqueles que afirmam que é a ocupação, e a subsequente repressão, que causa os atentados suicidas.
Na verdade, se Israel terminasse a ocupação de Gaza e da Margem Ocidental (como eu há muito tenho defendido), é provável que os actos de terrorismo aumentassem, à medida que os comandantes terroristas alcançam mais liberdade para planear e executar acções terroristas. O mesmo poderá ser verdade no caso do Iraque, caso os Estados Unidos retirassem intempestivamente.
Chegou a altura de fazer frente às reais causas de raiz dos atentados suicidas: o incitamento elitista por parte de certos líderes religiosos e políticos, que estão a criar uma cultura da morte e exploram ensinamentos ambíguos de uma importante religião.
Abu Hamza recentemente exortou uma larga multidão em Londres a “abraçar a morte”. Jovens islâmicos estão enamorados pela morte, defendem alguns influentes imams; mas são estes lideres quem está a “arranjar casamentos” entre as crianças e os coletes com bombas.
Talvez agora, que os bombistas suicidas atacam a Arábia Saudita, líderes islâmicos responsáveis perceberão que é o seu povo quem acaba por ser a maior vítima desta cultura da morte tacitamente imposta.

Alan Dershowitz, professor de Direito da Universidade de Harvard e autor do livro Why Terrorism Works: Understanding the Threat, Responding to the Challenge. Este artigo foi publicado recentemente no Guardian e na última edição impressa do semanário Jerusalem Post.

NOTA: Ao contrário do que à primeira vista possa parecer, especialmente aos olhos dos que lerem este artigo à luz de noções estereotipadas, Alan Dershowitz não é “neoconservador”, apoiante de Bush ou de Sharon. Tido como um dos mais conceituados constitucionalistas americanos, Dershowitz é membro da “ala esquerda” do Partido Democrata e foi apoiante activo da candidatura de Al Gore em 2000. Durante os últimos anos tem sido um opositor incondicional das políticas de restrição dos direitos cívicos impostas por George W. Bush nos EUA, nomeadamente através do Patriot Act. Sobre este tema, aconselho a leitura do artigo Assault on Liberty: Military Justice Is to Justice as Military Music Is to Music, publicado por Alan Dershowitz no semanário nova-iorquino Village Voice.

“It’s the Stupid, Stupid!” *

“Our enemies are innovative and resourceful, and so are we. They never stop thinking about new ways to harm our country and our people, and neither do we.”

George W. Bush, Washington, 5 de Agosto de 2004.

Tradução apressada: “Os nossos inimigos são inovadores e cheios de expedientes, e nós também. Eles não se cansam de conceber novas formas para prejudicar o nosso país e o nosso povo, e nós também não.”

*Variante irónica do célebre slogan de Bill Clinton em 1992, “It’s the economy, stupid”, cada vez mais popular em autocolantes colados nos pára-choques dos carros com que me cruzo aqui em Los Angeles.

Que Fazer com Este Genocídio?

Estrelas Mortas
Estrelas amortecem nos céus,
aqui na terra morre gente.
O destino dá luz a uns,
e a outros trevas.

Rios unem-se a rios
e juntos vazam no mar.
Mas vidas humanas
extinguem-se em solidão,
sofrimento e amarga tristeza.

Quando uma estrela tomba nos céus,
o seu caminho é resplandecente.
Mas vidas humanas apagam-se
na penumbra da noite.

Peretz Hirshbein (1880-1948), poeta e dramaturgo, judeu russo.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou hoje uma versão diluída de uma resolução que dá 30 dias ao Sudão para agir contra as milícias Janjuweed . O texto final (que pode ser lido na íntegra aqui: U.N. Security Council resolution on Sudan) não fala de genocídio e mesmo a branda ameaça de sanções foi retirada para não ferir susceptibilidades. Tudo em nome de um “consenso” que acaba por tornar-se praticamente inócuo. Mais uma vez, a ONU parece demonstrar a sua incapacidade de agir quando devia – quando estão em jogo centenas de milhar de vidas humanas, gente que morre diariamente, hora a hora. Regressam os tristes fantasmas de um passado recente, feito de hesitações, compromissos e pura e simples indiferença.
Num brilhante texto recentemente postado no Aviz, Francisco José Viegas comentava a forma amorfa como a “comunidade internacional” tende a agir em situações similares: “No caso do Sudão, tal como no do Ruanda (e como, será no Zimbabwe, quando a «linha da frente» deixar de apoiar o nazi de Harare) só dez anos depois, ou mais, a ONU revelará a «real dimensão da tragédia», num dos seus relatórios contemporizadores, antes de aceitar que a Síria, Cuba, a Líbia ou talvez o Paquistão presidam à comissão de direitos humanos como moeda de troca. A «real dimensão da tragédia» está ali, em dois milhões de mortos contados no ano passado.
Mais recentemente, num post absolutamente indispensável, o Francisco acrescentava: “A UE salvará a honra, chorará convenientemente, a imprensa lamentará, e a ONU poderá ajudar a enterrar os mortos. A raiva que nos dá.
Reagir à posteriori parece ser uma prerrogativa da ONU. E o remorso tardio parece ser o seu sentimento de eleição.
A 6 de Maio de 1998, em Kigali, a capital do Ruanda, o Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan reconheceu inacção do mundo perante o genocídio que em 100 dias vitimou 800 mil pessoas: “[…]O mundo deve arrepender-se profundamente perante este fracasso. A tragédia do Ruanda era a tragédia do mundo. Todos nós que nos preocupamos com o Ruanda, todos nós que testemunhámos o sofrimento, desejamos ardentemente ter podido prevenir o genocídio. Olhando agora para trás, vemos sinais que na altura não reconhecemos. Agora sabemos que os nosso actos não foram nem de perto suficientes para salvar o Ruanda de si mesmo, não foram suficientes para honrar os ideais pelos quais as Nações Unidas existem. Não negaremos que, na hora em que mais precisavam, o mundo ignorou o povo do Ruanda […]” (o texto completo pode ser lido aqui: We Will Not Deny That, in Their Greatest Hour of Need, The World Failed the People of Rwanda).
Bill Clinton, então Presidente dos Estados Unidos, foi também a Kigali pedir desculpas: “[…]A comunidade internacional, juntamente com as nações de África, tem de reconhecer a sua parte de responsabilidade pela tragédia. Não agimos de forma suficientemente rápida assim que as matanças começaram. Não devíamos ter permitido que os campos de refugiados se tornassem abrigos para os assassinos. Não chamamos imediatamente estes crimes pelo seu nome verdadeiro: genocídio. Não podemos mudar o passado. Mas podemos e devemos fazer tudo o que esteja ao nosso alcance para vos ajudar a construir um futuro sem medo e cheio de esperança[…]” (texto completo: Clinton Presidential Center: “Speech by President to Genocide Survivors”).
Confrontados agora em Darfur com a repetição de um triste, e vergonhoso, ciclo da história recente, qual é o nosso papel – nós, cidadãos anónimos de um planeta cada vez mais interdependente?
Num email que enviei esta semana a centenas de bloggers, apelei à publicação de posts sobre a catástrofe humanitária e o genocídio que decorre no Sudão. A resposta superou, pela positiva, todas as minhas expectativas, traduzindo a existência de um sentimento comum que ultrapassa (na maior parte dos casos, com algumas notórias excepções, é certo) as habituais fronteiras de divisão política e mesmo geográfica. Nesse email, escrevi: “Pode ser muito pouco, pode até ser verdade que individualmente todos os nossos esforços possam valer quase nada. Mas o preço do silêncio é demasiado elevado quando temos diante de nós um meio de comunicação com um potencial tão elevado.
O progressivo aumentar de visibilidade da situação em Darfur junto da opinião pública é um primeiro passo que considero fundamental. Mas é preciso mais.
Recebi várias sugestões acerca do que poderíamos fazer agora com esta nova consciência colectiva.
Marco Oliveira, do excelente Povo de Bahá, propõe o envio de emails em massa. Primeiro aos nossos amigos. Depois aos responsáveis políticos. Este princípio não é novo e tem vindo a ser utilizado há mais de 40 anos pela Amnistia Internacional – curiosamente a Amnistia Internacional nasceu, em 1961, como consequência de uma notícia lida num jornal britânico pelo advogado Peter Benenson. A notícia falava de dois estudantes portugueses detidos em Lisboa depois de terem brindado à Liberdade.
Aqui vai a proposta de texto apresentada pelo Marco Oliveira:

A maioria de vocês talvez se recorde que quando se deram os massacres em Timor os nosso emails entupiram o servidor da Casa Branca, contribuindo de alguma forma para resolver essa crise. Neste momento há outra crise ainda mais grave e para a qual podemos contribuir.
Está a acontecer um genocídio no Sudão. As milícias Janjuweed, apoiadas pelo governo sudanês, têm bombardeado e massacrado as populações negras do Darfur. Destruíram colheitas e envenenaram poços. Agora impedem o fornecimento de ajuda humanitária.
Cerca de 130 países (incluindo Brasil e Portugal) assinaram uma Convenção Internacional em que se comprometem a agir para impedir actos de genocídio em qualquer parte do mundo. Por este motivo hesitam agora em usar a palavra “genocídio” neste caso.
Cerca de 1000 pessoas morrem todos os dias no Dafur; o número total de mortos poderá atingir 1 milhão. O tempo é o nosso pior inimigo. Dentro de alguns meses a doença e a morte terão feito o seu trabalho. Temos de agir agora.
Apenas uma intervenção internacional para proteger civis e assegurar a distribuição da ajuda humanitária poderá salvar o povo do Dafur. Por este motivo, e à semelhança do que se fez no caso de Timor, sugiro que se envie o seguinte email aos nosso políticos instando-os a tomar posição.
Por este motivo, sugiro que enviemos aos nossos dirigentes políticos o seguinte email:

Venho por este meio apelar a Vossa Excelência para que encoraje todos os governos europeus e as Nações Unidas a intervir imediatamente no Darfur (Sudão) com o objectivo de proteger os civis e garantir a distribuição de ajuda humanitária naquela província.
Neste planeta somos um só povo, e a vida de cada ser humano tem o mesmo valor. O extermínio em massa de seres humanos é um crime contra a Humanidade. A Comunidade Internacional tem a responsabilidade de proteger os direitos fundamentais de todas as pessoas. Quando um governo massacra parte da sua população, então a Comunidade Internacional tem o dever e a obrigação de intervir.
Durante muito tempo, permitiu-se que estes crimes ficassem impunes. Há cerca de 10 anos não houve uma acção atempada para impedir o genocídio no Ruanda. Agora, no Dafur, ainda estamos a tempo de impedir uma tragédia maior. Mas a acção tem de ser imediata.

Agradeço desde já as suas acções e iniciativas sobre este assunto.

(Para quem preferir uma versão menos uniforme, ou em inglês, um guia para redacção de cartas aos políticos pode ser encontrado aqui – Letter writing guide – Amnesty International)
Alguns contactos para onde este email pode ser copiado e enviado:

Portugal
Correio Electrónico para o Presidente da República / Governo / Assembleia da República: Contactos dos Deputados

União Europeia
Gabinete da Presidência da Comissão Europeia – Romano Prodi/José Manuel (Durão) Barroso / Contacto da Presidência Holandesa / High Representative for the Common Foreign and Security Policy (CFSP) Javier Solana – (assistentes/ porta-voz: Luís Amorim e Cristina Gallach) / EUROPA – ECHO – Contact us (Gabinete de Ajuda Humanitária) / Group of Policy Advisers – Foreign Policy / Comissão Europeia – Representação em Portugal / EUROPA – Europe Direct

Brasil
Presidência da República (escrever ao cuidado do Presidente) / Governo / Fale com o Governo / Ministério das Relações Exteriores, Divisão da África – II / Ministério das Relações Exteriores, Divisão da África – I

Angola
Ministério das Relações Exteriores (escrever ao cuidado de Sua Ex.a João Bernardo de Miranda) / Presidência da República de Moçambique, Gabinete de Imprensa / Ministro da Comunicação Social (escrever ao cuidado de Sua Ex.a Pedro Hendrick Vaal Neto)

Cabo Verde
Gabinete de Imprensa do Primeiro Ministro

Timor Leste
Gabinete do Presidente / Gabinete do Primeiro-Ministro / Ministério dos Negócios Estrangeiros

A LER: The New York Review of Books: Disaster in Darfur / Zackary Sholem Berger – “The UN and Darfur” / Darfur conflict – Wikipedia / Ambassador Danforth: Statement on the Situation in Sudan, July 30, 2004 / Sudan: The Passion of the Present: Sudan rejects UN resolution / Sudan: The Passion of the Present: The closed society of Sudan breeds terrorism as well as genocide.

“Mas nunca esqueçam (…), podemos então dizer ao povo do mundo inteiro, quer estejam em África, na Europa Central, ou em qualquer outra parte do mundo, se alguém perseguir civis inocentes e os tentar matar por causa da sua raça, da sua etnia ou da sua religião, e se estiver ao nosso alcance, nós iremos em sua defesa.”

Discurso de William J. Clinton, Presidente dos Estados Unidos da América, às tropas da KFOR, Macedónia, 22 de Junho de 1999 (texto completo; Remarks by the President to KFOR Troops in Macedonia)

Ainda o Genocídio em Darfur

“– Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… […]”

Estilo, Herberto Helder.

Estou completamente imerso em trabalho, por causa da Convenção do Partido Democrata, mas não queria deixar de agradecer a resposta da blogosfera ao meu apelo. Num email com múltiplos destinatários, pedi posts sobre Darfur. Eles apareceram às centenas. Agora, é necessário pensar no passo seguinte. Já me chegaram várias sugestões através do Correio da Judiaria. Que venham mais.

Nunca Mais!

Em 1915, Henry Morgenthau, embaixador dos Estados Unidos em Constantinopla, respondeu às deportações e massacres da minoria arménia turca apelando a Washington para que condenasse oficialmente a Turquia e pressionasse a Alemanha, então aliada aos turcos. Morgenthau desafiou ainda as tradições diplomáticas protestando em nome pessoal contra as atrocidades, denunciando o regime turco e recolhendo fundos para ajuda humanitária às vítimas. A ele juntou-se o ex-presidente americano Theodore Roosevelt, que foi mesmo mais longe, apelando à Administração de Woodrow Wilson para entrar na Primeira Guerra Mundial e por cobro aos massacres pela força. Mas os Estados Unidos apegaram-se à sua neutralidade e insistiram que as questões internas da Turquia não lhe diziam respeito. Cerca de um milhão de arménios foram assassinados ou morreram de doença ou fome durante o genocídio.
Raphael Lemkin, um judeu polaco especialista em Direito Internacional, avisou o mundo das intenções de Hitler na década de 1930, mas foi ridicularizado. Depois de encontrar refúgio nos Estados Unidos em 1941, não conseguiu encontrar apoio para medidas diplomáticas que protegessem os judeus em perigo.
Sem se deixar desencorajar, Lemkin inventou a palavra “genocídio” e assegurou a aprovação do primeiro tratado sobre direitos humanos das Nações Unidas, dedicado a banir o novo crime. Tristemente, ele viveria para ver a convenção sobre o genocídio ser recusada pelo Senado dos EUA. William Proxmire, um quixotesco senador americano do estado do Wisconsin, assumiu a causa de Raphael Lemkin e efectuou 3211 discursos no plenário do Senado apelando à ratificação do tratado da ONU. Após 19 anos de monólogos diários, Proxmire conseguiu que o Senado aceitasse aprovar a convenção sobre o genocídio, mas a ratificação americana continha tantas cautelas que a sua força era praticamente nula
.”
Retirado do prefácio do livro “A Problem From Hell – America and the Age of Genocide”, de Samantha Power.

Ao anunciar a solução final aos seus oficiais, assegurando que no futuro ninguém se recordaria dos judeus, Hitler terá dito: “Quem se lembra hoje do que aconteceu aos arménios?”.
A memória colectiva tende a ser demasiado curta em alturas cruciais. Já depois da ONU ter reconhecido oficialmente o genocídio como crime contra a Humanidade, o mundo voltou a repetir o colectivo encolher de ombros face ao Camboja – onde os Khmer Vermelhos de Pol Pot mataram mais de dois milhões de pessoas em dois anos –, a Timor Leste, à Bósnia e ao Ruanda. Agora, a História volta a repetir-se em África com a tragédia de Darfur.
Sobre Darfur, Samantha Power escreveu no início de Junho: “Cerca de 30 mil pessoas foram já assassinadas, e perto de milhão e meio foram vítimas de limpeza étnica, afastados das suas aldeias e terras de cultivo. Centenas de milhar foram encurraladas em campos de concentração, patrulhados por milícias janjaweed, apoiadas pelo governo, que violam mulheres e matam os homens que tentam sair em busca de comida para as suas famílias. Outros vagueiam pela região sem alimentos nem água. Entretanto, Khartoum tem bloqueado e manipulado a ajuda alimentar internacional.”
A crise humanitária de Darfur – o genocídio e a limpeza étnica que vitima a sua população negra– tem sido amplamente documentada (ver Darfur Humanitarian Emergency – Satellite Images), mas a reacção lenta e parcimoniosa da comunidade internacional parece provar uma vez mais o absoluto fracasso das suas instituições – especialmente daquelas criadas para evitar situações assim.
Ironicamente, os Estados Unidos foram o primeiro país a reagir aos acontecimentos, tentando por em marcha as pesadas roldanas da burocracia diplomática da ONU. Mas é claro, depois do fiasco do Iraque, das armas de destruição maciça que nunca existiram, do unilateralismo de Bush, da arrogância de Rumsfeld, ninguém lhes deu ouvidos. Só agora se começa a acordar.
Na semana passada, na campanha presidencial americana, John Kerry não mediu palavras em relação aos eventos de Darfur: “Esta Administração tem de se deixar de ambiguidades. Estas atrocidades apoiadas pelo governo sudanês têm de ser classificadas pela sua designação correcta – genocídio. O governo do Sudão e o povo de Darfur têm de perceber que os Estados Unidos estão prontos a agir, em harmonia com os nossos aliados e a ONU.”
No que diz respeito à opinião pública, a maior crise humanitária da actualidade continua ignorada. Na blogosfera portuguesa, Francisco José Viegas, no Aviz, e Bruno Sena Martins, no Avatares de um Desejo têm rompido o silêncio, chamando a atenção para a catástrofe com posts bem reflectidos. Mas é preciso mais.
Há poucos meses, em casa dos meus sogros, a família debruçou-se em redor de uma pilha de álbuns, daqueles com fotos amarelecidas de gente com roupas e penteados de outros tempos. Eram avós, tios, tias, primos e primas. A maioria sorria invariavelmente para a câmara, com expressões agora suspensas no tempo. Os sorrisos destes rostos do passado mostravam a despreocupação natural de quem tira um retrato de família, inconsciente dos horrores que se aproximam. Judeus polacos, a esmagadora maioria da família dos meus sogros – os que não tinham já escapado para Israel – morreu no Shoá, em lugares com timbre macabro: Auschwitz, Bergen-Belsen, Buchenwald e Dachau. Vítimas no maior acto de genocídio da História humana, deles apenas restam os fantasmas guardados naqueles álbuns de família. E a memória dos que ficaram. Porque a História, não se devia repetir. Nunca mais!

A LER: Samantha Power: Break Through to Darfur: Combine leverage, internationalism and aid to stop the killing in Sudan / Human Rights Watch – Sudan: Darfur Destroyed / Latest News From Sudan At Sudan.Net / Mathaba News Service – Sudan’s Ravines of Death / The Jewish Journal Of Greater Los Angeles – Ethnic Cleansing in Sudan Is Still Genocide / Jewish Coalition for Disaster Relief – Sudan Relief / UJA-Federation of New York: Sudan Becoming a Jewish Issue (JTA) / The Jewish Journal Of Greater Los Angeles – U.N. Failing in Conflict-Resolution Role / Mathaba News Service – Sudan Government Genocide Exposed / allAfrica.com: Sudan [press release]: UK Holocaust Centre Halts For Darfur / In Sudan, Death and Denial (washingtonpost.com) / The New York Times > Opinion > Op-Ed Columnist: Magboula’s Brush With Genocide / Activist sees plight of Sudanese refugees / World turns attention to Darfur / Darfur starvation will be televised … eventually / Muslim killing Muslim in Sudan / A conspiracy of silence on Darfur … in Beirut / Poynter Online – Sudan: The Untold Story / Estupro é arma de guerra no Sudão / A Problem from Hell: America and the Age of Genocide. A OUVIR: On The Media: Samantha Power on Darfur (formato RealAudio). Aconselho também uma visita diária ao blog Sudan: The Passion of the Present.

Barreira de Segurança III (O Outro Lado do Muro)

A oposição europeia à construção da barreira de segurança israelita – vulgo “Muro da Cisjordânia” – tem sido, na sua esmagadora maioria, conduzida de forma pueril. A contestação é, em regra, formulada em torno de uma simplista “aversão a muros”. Acredito na necessidade da construção da barreira por ser uma solução defensiva contra os atentados terroristas, com a vantagem acrescida de acelerar a retirada da presença militar israelita dos territórios ocupados. A minha discordância pessoal resume-se ao traçado escolhido pelo gabinete de Ariel Sharon. Que se conteste o traçado, que se exija a sua construção nas fronteiras pré-1967, mas uma contestação circunscrita a uma qualquer “murofobia”, neste caso particular, é perfeitamente irrelevante. Pessoalmente, ao discordar do traçado actual, discordo também que a barreira, tal como ela actualmente se apresenta, possa vir a ser usada como demarcação permanente ou como linha de fronteira. Mas até a própria Direita israelita reconhece isto mesmo. Num artigo de opinião publicado na semana passada no New York Times (ver The New York Times – Opinion: Why Israel Needs a Fence), Benjamin Netanyahu escreveu:

“(…) A fence can always be moved. Recently, Israel removed 12 miles of the fence to ease Palestinian daily life.”

E aqui as instituições israelitas têm funcionado – o Supremo Tribunal de Israel, por exemplo, decretou recentemente que o traçado do muro em diversos pontos (inclusive em Jerusalém) era ilegal, ordenando que futuros traçados tenham em conta primariamente aspectos humanitários e de qualidade de vida da população palestiniana.
É preciso também esclarecer que a barreira de segurança não é uma invenção da Direita e de Sharon. A sua construção é apoiada de forma quase generalizada também por partidos à esquerda dos trabalhistas (העבודה), como por exemplo o Meretz (מרצ) – ligado ao movimento pacifista Paz Agora (ver Peace Now Positions – In Favor of a Fence on the Green Line – Against Sharon’s Fence) – e por personalidades emblemáticas da Esquerda israelita, como Yossi Belin, um dos arquitectos da iniciativa de paz de Genebra. A grande diferença de opinião entre a Esquerda e a Direita israelitas não tem a ver com a construção ou não do muro, mas sim com o seu traçado. Na minha opinião é aqui que a contestação internacional devia ser centrada – e de uma forma construtiva.
Uma das mais potentes armas de propaganda que Ariel Sharon possui em termos domésticos é uma versão do nosso bem conhecido “orgulhosamente sós”. Uma espécie de “ninguém quer saber de nós, ninguém se importa que nos matem” – um discurso que justifica medidas que de outra forma seriam injustificáveis. E decisões como a do Tribunal Internacional ou moções como a de ontem adoptada pela Assembleia Geral da ONU servem apenas para reforçar essa percepção de isolamento (basta ler a reacção no Maariv International).
Esta lógica de oposição, o “contra o muro pelo muro”, é absolutamente contraproducente. Acima de tudo, é prejudicial para os palestinianos, porque legitima a narrativa da Direita israelita, a da lógica “securitária” centrada unicamente no terrorismo, o que lhes permite minimizar o sofrimento palestiniano. Neste quadro, é o terrorismo palestiniano que se torna central do ponto de vista israelita, não os territórios, os desalojados, os postos de controlo, o desemprego.
A barreira de segurança demonstrou já possuir a capacidade de bloquear a livre circulação de terroristas. E se os israelitas não estão sob o estado de choque de atentados constantes nas ruas, nos autocarros e nos cafés, ser-lhes-à impossível ignorar por muito mais tempo as terríveis condições em que os palestinianos são obrigados a viver sob a ocupação militar. Uma imensa manifestação em Tel Aviv realizada em Maio passado, que juntou 200 mil israelitas em nome da paz, prova esta tese.
Mais uma vez no caso do conflito israelo-palestiniano, as percepções da opinião pública europeia são novamente guiadas maioritariamente por um jornalismo irresponsável e preguiçoso. A imagem do “muro” (aqui insisto nas aspas), é dada por inúmeras fotografias de uma imensa barreira de betão, isto apesar da “imensa barreira de betão” constituir apenas uma ínfima parcela da barreira de segurança – a maior parte da qual é constituída por uma cerca simplificada, com portões que permitem a circulação em ambas as direcções. Apesar de tudo, prevalece a imagem do muro de betão, construído apenas em zonas urbanas.


As duas faces do “Muro da Cisjordânia”. Apenas uma prevalece nos media europeus.

Quando acima referi que, em vez de pontificar com medidas não vinculativas e condenações de circunstância de cariz marcadamente político, que acabam por fortalecer o complexo isolacionista de Sharon, a comunidade internacional deveria agir “de forma construtiva”, queria com isto dizer que se deviam apresentar contrapropostas concretas. A ONU, ou mesmo a União Europeia, poderia, por exemplo, propor custear parcialmente a construção da barreira de segurança israelita ao longo de um traçado internacionalmente acordado, que poderia muito bem ser o grosso da fronteira pré-1967 (ver Six-Day War – Wikipedia), com algumas alterações demográficas que não colidissem com as pretensões territoriais palestinianas.
Outra medida construtiva seria congregar países vizinhos com responsabilidades históricas, como a Jordânia e o Egipto, em programas de assistência às populações de Gaza e da Margem Ocidental – tanto no campo da segurança como da educação e saúde.
Muitos têm comparado a barreira de segurança de Israel ao Muro de Berlim. Mas o contraste não podia ser maior. Em Berlim, o muro foi construído em 1961 como barreira repressiva, para restringir os movimentos dos cidadãos da parte oriental da cidade e impedir saídas e deserções. Em Israel, a barreira é agora construída para servir de defesa à infiltração de terroristas – e não para impedir saídas, como refere o meu amigo José no seu Guia dos Perplexos.
Podem continuar a chamar-lhe muro, mas acredito que uma comparação mais ajustada pode ser encontrada com um recuo na história. Muralha – e não muro – será a palavra mais adequada. Muralha, tal como a Grande Muralha da China. E tal como a Muralha de Jericó, poderá também um dia ser derrubada. Não por armas nem pelo som estridente do shofar, mas simplesmente quando sararem as feridas e as memórias se diluirem. Mas, para já, a separação pode muito bem ser a única solução viável para a existência de dois estados livres, independentes e seguros.
Como escreveu David Makovsky, director do Project on the Middle East Peace Process (ver A Defensible Fence: Fighting Terror and Enabling a Two-State Solution), do Washington Institute for Near East Policy: “Israelitas e palestinianos terão de se sentar à mesa das negociações para resolver os seus problemas. Uma vez que essas negociações são improváveis por enquanto, todavia, uma barreira bem construída poderá servir como medida temporária. Dados os traumas que ambos os povos têm sofrido, especialmente nos últimos três anos, separar agora israelitas e palestinianos é a única forma de os aproximar no futuro”.

::A LER:: Haaretz – Israel News – The separation fence / PESC-IL-PeaceNow / שלום עכשיו / Peace Now / שיר לשלום – A Song for Peace / Meretz – Wikipedia / Yachad – Wikipedia / Geneva Accord – Wikipedia / Israel Security Fence – Ministry of Defense / Seattle Post-Intelligencer – Arab bomb victim backs West Bank barrier / A Defensible Fence: Fighting Terror and Enabling a Two-State Solution.