
O saque de Jerusalém pelos soldados romanos (ano 70), Arco de Tito, Roma.
Aos 33 anos de idade, Yeshua ben Yosef, um pregador da Galileia, cumpriu um ritual que mantinha desde criança – uma tradição, aliás, seguida à risca pela sua família e pela maioria dos habitantes do reino – e deslocou-se a Jerusalém para celebrar a Páscoa, o festival que coincidia com a chegada da Primavera. Se as contas do calendário gregoriano estivessem correctas, na noite de 3 de Abril do ano 34, uma sexta-feira (dia 14 do mês de Nisan do ano 3793 do calendário hebraico), acompanhado por 12 outros judeus seus seguidores, Yeshua participou no que provavelmente terá sido uma refeição ritual – o Seder –, comemorando a libertação do seu povo da escravidão no Egipto. Dias depois, acusado de ser um agitador, o pregador seria morto por ordem do governador romano da Judeia. Esbatidos pelas poeiras da história, alguns destes detalhes foram sendo gradualmente esquecidos. A posteridade recorda apenas Yeshua. O mundo haveria de conhecer este judeu da Galileia através da corruptela grega da tradução do seu nome: Ιησούς – Jesus.
Celebrada pelos cristãos para assinalar a morte de Jesus, a Páscoa cristã – a principal festividade do calendário litúrgico católico –, foi instituída por decisão do Concílio de Niceia, convocado pelo imperador Constantino, no ano 325, quase três séculos após a crucificação. O nome em si vem do grego pascha, que por sua vez é uma adaptação do termo hebraico para as festividades judaicas que assinalam a libertação do cativeiro do Egipto: pessach.
Apesar da Páscoa cristã não ter hoje nada a ver com a sua ancestral judaica, a oração de proclamação “de glória e ressurreição” contida no hino pascal católico Exsultet orbis gaudiis faz a ligação às raízes judaicas do cristianismo ao evocar nos seus versos “a libertação do povo de Israel da escravidão”. Curiosamente, a Páscoa é a única festividade cristã cuja data não é fixa – uma característica que partilha com algumas festas religiosas do judaísmo –, ocorrendo no primeiro domingo após “a primeira lua nova eclesiástica depois do equinócio de 21 de Março”. Assim, dependendo dos anos, a data da Páscoa cai entre 22 de Março e 25 de Abril.
Os próprios símbolos que nas missas católicas pretendem recordar a última refeição de Jesus e o chamado sacrifício pascal – o pão e o vinho – são retirados directamente do Seder da Páscoa judaica. Ainda hoje, numa tradição que dura há milénios, os judeus celebram a sua Páscoa cumprindo mandamentos estritos que ordenam que se beba vinho e coma pão ázimo em memória da libertação dos israelitas, liderados por Moisés, da escravidão no Egipto (ver vinho e matzá). Estes dois elementos profundamente judaicos estão na origem da utilização da hóstia e do vinho nas missas católicas, introduzidos nos primeiros séculos, quando ainda todos os seguidores de Jesus eram judeus e o cristianismo era apenas uma denominação sectária do judaísmo.
O relato cristão da história pascal é bem conhecido de todos, no entanto, as narrativas tradicionais da Paixão de Cristo e da Páscoa cristã – descritas pelos evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João – são hoje postos em causa por historiadores e académicos, que descrevem os textos sagrados cristãos primariamente como doutrinários e não históricos, contendo entre si inúmeras contradições e inconsistências. Mesmo assim, eles são muitas vezes a única fonte directa de informação. Na verdade, os evangelhos, canonizados como parte integrante da Bíblia cristã no século IV, seriam escritos apenas no século II, cerca de 100 anos decorridos sobre a morte de Jesus – numa altura em que o cristianismo primitivo se debatia com intensas discussões doutrinárias e uma vontade crescente de emancipação em relação ao judaísmo.
Confrontando os escritos da tradição cristã com outras fontes da época, os historiadores rejeitam hoje de forma consensual alguns dos factos narrados nos primeiros livros do Novo Testamento em relação à morte do messias cristão. Um deles, por exemplo, é a libertação de Barrabás em vez de Jesus, a pedido da multidão (descrito em Mateus 27:15 a 21).
Autor do livro The Homeric Epics and the Gospel of Mark, o historiador americano Dennis R. MacDonald, um especialista no Novo Testamento, defende que, para além dos evangelhos, não existe qualquer prova histórica para o alegado costume romano de libertar um prisioneiro a pedido dos judeus. Para mais, acrescenta MacDonald, esta prática seria “simplesmente absurda”, uma vez que os romanos nunca libertariam alguém, por exemplo, acusado de matar soldados seus, como acontece com Barrabás. O historiador argumenta que, um século após os acontecimentos, os evangelistas teriam “criado” o alegado costume como forma de estabelecer termos comparativos entre o Bem (representado por Jesus) e o Mal (Barrabás), demonstrando de forma alegórica a tendência do povo para escolher o mal.
O emblemático “lavar de mãos” de Pilatos em relação a Jesus, na opinião dos historiadores, é também bastante improvável. “As realidades do poder de Roma, bem como o próprio temperamento de Pilatos, fazem com que a teoria da culpa dos judeus pela morte de Jesus seja completamente implausível em termos históricos”, escreve o padre e historiador americano Bruce Chilton no livro Rabbi Jesus – An Intimate Biography, um aprofundado trabalho sobre o Jesus Histórico integrado nas suas raízes judaicas.
Por tudo isto, os relatos evangélicos da relutância de Pilatos em condenar Jesus são lidos pelos historiadores como uma tentativa dos cristãos primitivos de tornar a narrativa da Paixão o menos censurável possível aos olhos dos romanos, no seio dos quais se pretendiam integrar – assumindo-se ao mesmo tempo como uma ruptura com a sinagoga judaica, da qual se queriam agora afastar definitivamente.
Historiadores judeus da época, como Flavius Josephus e Philo de Alexandria, descreveram de forma extensa e detalhada a brutalidade do governador romano da Judeia. Philo chamou-lhe “inflexível, casmurro e cruel”, acusando Pilatos de “incomensuráveis actos de crueldade contra os judeus”, incluindo execuções de prisioneiros sem julgamento. A crucificação, aliás, era uma pena romana aplicada exclusivamente àqueles que não eram cidadãos romanos e aos autores de crimes de insubordinação política. Jesus é crucificado por alegadamente se intitular “o rei dos judeus” – o que Pilatos terá recebido como um insulto à incontestável autoridade romana sobre a província.
Curiosamente, a carreira de Pilatos acabaria em desgraça precisamente por causa da sua brutalidade: no ano 36 é chamado a Roma e demitido pelo imperador Tibério, depois de ter ordenado o massacre de uma multidão de mais de quatro mil seguidores de um profeta samaritano.
Como testemunho histórico da sua violência, só no ano em que Yeshua ben Yosef – Jesus – foi morto (34 da Era Comum), pelo menos 3 mil judeus foram igualmente crucificados em redor de Jerusalém. Durante a ocupação romana da Judeia, recorrendo a relatos da época, os historiadores estimam que os romanos terão ao todo crucificado mais de 250 mil judeus.
[::NOTA:: Este post é uma versão integral e “interactiva” de um trabalho deste vosso escriba publicado na edição desta semana da revista FOCUS, cumprindo a promessa feita aqui.]
License
This work is published under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 2.5 License.