
À medida que se envelhece, a vida faz questão de nos semear cadáveres pelo caminho. Nem sempre são os mais óbvios. Às vezes – na maior parte das vezes, talvez –, são “coisas”, ou simplesmente lugares que nos marcam, para o bem e para o mal. Coisas com alma, porque “morte” só faz verdadeiramente sentido quando ela se evapora.
No início desta semana morreu A Capital, o jornal onde estagiei. O fantasma deixa memórias. Cheguei ao jornalismo escrito “a sério” no final dos anos 80, na velha redacção do Bairro Alto, numa época em que o matraquear constante das máquinas de escrever ainda dominava o ritmo da vida dos jornalistas. Tenho guardada uma folha de lauda desses tempos, uma página timbrada com o logotipo d’ A Capital, marginada a 60 espaços, pronta a receber prosa de letra martelada a tinta que sujava os dedos e, às vezes, a própria consciência. Encontrei-a hoje, numa caixa cheia de papéis velhos que insisto em guardar sem saber muito bem porquê. Amarelada, velha de quase 20 anos, a folha de lauda d’ A Capital bem podia ser uma metáfora para um jornal que não conseguiu acompanhar os tempos – apesar de consecutivas mudanças e esforços vários.
A Capital nunca foi um “grande jornal”. Nunca foi uma referência no sentido que em tempos o foram o Diário de Lisboa, O Século ou A República, todos eles também desaparecidos. Podia nem ser um jornal influente, pelo menos no meu tempo, mas para um jornalista, um estágio n’ A Capital era o equivalente a uma pós-graduação nos bastidores do jornalismo. Era a “tarimba” no sentido mais completo da palavra e, durante décadas, A Capital formou gerações de jornalistas portugueses que hoje estão espalhados por uma miríade de publicações, do Diário de Notícias ao Público, passando pelo Expresso, pela Visão e pela Sábado, entre muitos outros.
A faceta de “jornal-escola” em que A Capital se convertera era uma espada de dois gumes: por um lado, por causa do violento ritmo de trabalho de um vespertino, aprendia-se a escrever depressa, a arrumar ideias e apontamentos antes de chegar à redacção, porque a prosa tinha de estar pronta num quarto de hora. Por outro, esse mesmo ritmo, aliado a condições de trabalho nem sempre favoráveis – longas horas de trabalho, falta de reconhecimento, baixos salários, etc. –, fazia com que os jornalistas debandassem à primeira oportunidade. Era um ciclo tornado vicioso que enchia a redacção de jornalistas estagiários inexperientes, que a A Capital formava para ver sair um ou dois anos depois.
É certo que muita coisa terá mudado desde 1992, altura em que sai d’ A Capital. De vespertino – talvez o último jornal europeu que ainda saía à tarde – passou a matutino, diluindo-se no meio de um mercado apinhado de títulos. As vendas foram caindo a pique, reflectindo mudanças bruscas que descaracterizavam o jornal e alienavam o seu público habitual sem se manterem o tempo suficiente para conquistar novos leitores.
Em Setembro do ano passado, Luís Osório e Rogério Rodrigues, dois excelentes jornalistas, assumiram a direcção do jornal e embarcaram na tarefa de o transformar radicalmente. Do incaracterístico produto populista que A Capital se tornara, quiseram fazer um jornal a sério. Honestamente, mesmo sem nunca ter visto o jornal impresso, acompanhando-o apenas pela Internet, acredito que o conseguiram. Agora, seis meses depois, A Capital morre de pé, inquestionavelmente melhor do que era antes, vítima de uma administração com vistas curtas – um mal bastante frequente na Imprensa portuguesa –, sem paciência para esperar que as mudanças conquistassem um novo mercado.
Pela parte que me toca, o fim d’ A Capital vem acentuar uma crescente desilusão pessoal para com o mundo do jornalismo português e, num sentido mais íntimo, com a própria profissão, um sentimento que vem fermentado há já algum tempo. Independentemente de tudo o resto, nas memórias dos anos em que lá trabalhei, fica a inevitável nostalgia; uma imensa saudade dos camaradas com quem partilhei a redacção. E o muito que com eles aprendi.
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