
(…) Ainda assim, foi impossível conter o anjo de sonhos que, noite após noite, continua a aterrar os resgatados, foi impossível silenciar a persistente voz da consciência, que exige explicação para o mal diabólico e para os corações apáticos. Essas perguntas “Porquê, meu Deus, porquê? Porquê nós? Porquê eles? Porquê agora? Porquê desta maneira?” são deixadas em suspenso entre o céu e a terra, pairando sobre todos os actos humanos. E não há resposta.
O tempo dirá o que aprendemos; só o tempo poderá revelar se ouvimos verdadeiramente a voz do sangue dos massacrados gritando das entranhas da terra.
Não uses luto por tempo demais, mas não te afundes na apatia
do esquecimento. Não permitas que voltem dias de
trevas; chora, mas limpa as lágrimas.
Não absolvas nem desculpes,
não tentes compreender.
Aprende a viver sem
respostas.
Através do nosso sangue, vive!
מגילה השואה (Megillat Hashoah – “O Pergaminho do Shoá”, Assembleia Rabínica, Jerusalém, 2004), excerto de um poema da liturgia em memória das vítimas do Holocausto.
Laima Torchinova tem nove anos e gosta de desenhar. Mas em vez das habituais casas feitas de um quadrado com telhado em triângulo, desenhadas por outras crianças da sua idade, Laima faz retratos de homens de rosto tapado e armas nas mãos. Depois de muitos retoques, quando fica satisfeita com o resultado final, Laima rasga o desenho, acende um fósforo e queima-o. É um ritual que repete diariamente há quase um ano. Não é necessário ser psiquiatra para ler no gesto de Laima um exorcismo de fantasmas demasiado reais. Os olhos de Laima viram coisas terríveis.
Há exactamente um ano, começava o que havia de tornar-se um pesadelo inimaginável para os 33 mil habitantes da pequena cidade russa de Beslan – uma localidade sensivelmente do tamanho de Castelo Branco. Durante três dias, um grupo de 32 terroristas chechenos barricou-se numa escola primária, fazendo mais de mil reféns, na sua esmagadora maioria crianças que celebravam com familiares e professores o regresso às aulas. Após um cerco que durou três dias, entre o impasse e o desespero, 344 pessoas perderam a vida – 172 delas crianças com menos de 10 anos.
Laima sobreviveu às explosões e aos tiros. Mas o preço emocional que pagou é incalculável. “Desenho terroristas e queimo-os pelas crianças que morreram na escola. Quero vingar-me deles por terem morto as crianças”, disse ela à disse ela à BBC. “Porque eles? Porquê desta maneira?” – as interrogações do poema litúrgico judaico ressoam nos escombros de Beslan. Também aqui, sem que venham respostas. Porque a irracionalidade do terror não pode nunca ser explicada.

:: A LER:: Heavy hearts as Beslan anniversary draws near / BBC – Beslan boy recalls hostage horror / BBC School siege: Eyewitness accounts / Significant Terrorist Incidents 1961-2003: A Brief Chronology / Beslan – Wikipedia / Beslan school hostage crisis – Wikipedia / Трагедия в Беслане | 1 сентября 2004 г / Трагедия в Беслане | 1 сентября 2004 г (versão em inglês) / Hope for Beslan / BBC How the siege unfolded / Telegraph – ‘Innocent religion is now a message of hate’
:: A VER:: BBC – Children who survived the siege tell of their ordeal / “Georg is very lucky to have survived” / Beslan school attack… Photos (AVISO: este último site contém imagens de extrema violência.)
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