A guerra II

Jogar o jogo do Hamas

Editorial do New York Times


Com o círculo de violência no Médio Oriente a expandir-se de forma alarmante, é importante que fique claro não só quem são os responsáveis pela recente erupção, mas quem também tem mais a ganhar com a sua escalada continuada.
Ambas as questões têm a mesma resposta: o Hamas e o Hezbollah. E Israel precisa de ter cuidado para que as suas respostas militares, moral e legalmente justificadas, não acabem por fazer avançar a agenda política que o Hamas e o Hezbollah tinham em mente quando executaram os raptos dos soldados israelitas que detonaram os combates.
A Autoridade Palestiniana, que o Hamas controla, e o governo libanês, no qual o Hezbollah tem uma participação minoritária, falharam de forma inescusável na prevenção destes incidentes. O Irão, que arma e financia o Hezbollah, e a Síria, que dá guarida à ala mais violenta do Hamas, também partilham responsabilidades.
Israel tem profundas justificações para tratar estes dois incidentes como inaceitáveis actos de guerra. Mas precisa adaptar os seus métodos de resposta às situações que agora enfrenta. O objectivo é enfraquecer e isolar o Hamas e o Hezbollah e, ao mesmo tempo, negar-lhes a oportunidade de congregarem um apoio árabe mais amplo.
Com este fim em vista, Israel tem de direccionar os seus objectivos militares aos líderes e aos guerrilheiros destes dois grupos, e fazer mais para minimizar os danos aos civis circunstantes.
A razão é esta: os caciques militares do Hamas e do Hezbollah sabem perfeitamente que as suas milícias primitivamente armadas com mísseis de alcance limitado não se podem comparar com as forças armadas israelitas. Quando desencadeiam acções de provocação, como os recentes raptos de soldados israelitas ou bombardeamento de cidades em Israel, eles não esperam ganhar nenhum tipo de vitória militar tradicional.
O que eles esperam de forma mais realista é que a inevitável devastadora resposta militar israelita lhes dê a oportunidade de radicalizar a política árabe e assim pressionar líderes árabes moderados a distanciarem-se de Israel e a apoiar a causa terrorista. Esta é a táctica que grupos palestinianos seculares como a Fatah iniciaram há décadas, e que grupos fundamentalistas islâmicos como o Hamas e o Hezbollah utilizam agora com os mesmos fins.
Esta dinâmica perversa está outra vez em jogo depois dos ataques de Israel em Gaza e no Líbano. A maioria dos árabes não culpa o Hamas e o Hezbollah por provocar estas respostas israelitas. Culpabilizam Israel por as executar.
Esta reacção não é justa. Mas é desta forma que as coisas funcionam, e os instigadores do Hamas e do Hezbollah e os seus aliados em Damasco e Teerão sabem como usar esta técnica para seu proveito a longo prazo. Os líderes políticos e militares israelitas precisam de perceber isso mesmo e não se deixarem enredar no jogo dos instigadores.”

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