Judeus Portugueses em Eretz Israel no século XVI
O relato de Frei Pantaleão D’Aveiro (1563)


(…) Passamos ali um pedaço da noite em conversação, até serem horas de nos recolher, como avisamos o Turco, que ao dia seguinte havíamos de ter mui pequena jornada. Em amanhecendo vieram dois Judeus Portugueses visitar a Turca por parte dos Judeus, que moravam em Safed, uma povoação grande, que estava dali a pouco mais de légua, a qual em o Livro de Tobias se chama Sapheth: e trouxeram-lhe duas cargas de cevada, e quatro carneiros muito grandes e gordos, como os há naquela terra: e em pago da visita, e serviço, tomaram aos pobres as cavalgaduras, e porque se queixavam, ameaçavam-nos com pancadas. Começaram-se os pobres Judeus de lamentar, culpando um ao outro, vendo-se tão agravados, e lastimados, dizendo um ao outro, se vós não fôreis, eu não viera, o outro pelo contrário dizia, vós tendes a culpa: e com este agastamento, como homens magoados soltaram muitas palavras desconcertadas contra os Turcos e Mouros, em língua Portuguesa, chamando-lhes perros e cães e semelhantes nomes. Vendo eu que eram Portugueses, cheguei-me a eles, compadecendo-me da sua miséria, e trabalho, e disse-lhes, que olhassem como falavam, porque não faltaria quem os entendesse, como a mim me acontecera com um negrinho: deram-me os agradecimentos do bom conselho, e folgaram de eu os entender para desabafarem, e pediram-me novas de Portugal, porque a natureza não se pode negar. Disseram-nos, que em Safed moravam mais de quatrocentos judeus, a maior parte deles nascidos em Portugal, rogando-me muito que quisesse lá dar uma chegada, porque era muito perto, e não me havia de pesar. Dei-lhe os agradecimentos da sua boa vontade, prometendo-lhes de ir, se o tempo me desse lugar. (…)
(…) Chegamos a Safed, aonde os Judeus nos fizeram uma grande festa, e me levaram à sua Sinagoga, que tinham mui bem concertada, e depois nos recreamos comprando a bom preço o vinho, que me pareceu necessário, nos partimos a Nazareth, que está dali a menos de uma légua. (…)
(…) Despedidos daquele lugar, nos tornámos a Safed, aonde chegámos em se pondo o sol, e por ser tarde, e irmos cansados, e nos importunaram muito os Judeus, que nos ficássemos, dizendo, que bastaria irmos um pouco de madrugada, se temíamos, que se iria a Turca, ficámos ali aquela noite, e nos agasalharam muito bem em casa de um Judeu meu natural, que sendo moços andámos ambos na escola de outro Judeu, que lá naquelas partes morreu, segundo meu hóspede me afirmou, honrou-se muito o Judeu de eu aceitar sua pousada, e tratou-me nela com muitos mimos e muita cortesia. Vieram aquela noite ter connosco muitos Judeus, dos quais alguns começaram logo a altercar, e porfiar comigo cousas da sua Lei cansada, e sobre nossa bendita, que este é o seu comum costume, mas eu como já algumas vezes me tinha achado com Judeus em semelhantes porfias, e sabia mui bem, que nenhum deles pretende saber a verdade, atalhei-lhe com lhe dizer, que tinha necessidade de me agasalharem, e recrearem, e não de me cansarem com porfias e contendas sem proveito, pois nenhum deles tinha propósito de se fazer Cristão, se o eu vencesse, porque tinha para mim serem todos Judeus de opinião, sem quererem admitir razão, ainda que a palavra para eles foi um pouco dura, deram-me muito louvor, e disseram, que ainda não tinham negado o ser Português, pois falava tão claro, e não me respondiam, pois desejavam mais me servir, que me agravar. Vieram-me também naquela noite agasalhar duas Judias minhas naturais, que com lágrimas me fizeram a festa, lamentando-se, e dizendo, que seus pecados as haviam tirado de Portugal, não para a terra de Promissão, como elas cuidavam, mas para a terra de desesperação, como com seus olhos viam, e com suas misérias experimentavam. Muito ante manhã nos partimos de Safed, e nos tornámos aos nossos, que à ponte de Jacob nos estavam esperando (…)”
in Itinerario da Terra Sancta, e suas particularidades, escrito por Frei Pantaleão D’Aveiro, impresso na casa de Simão Lopes, 1593
Capítulos LXXXIII e LXXXIV, págs. 452 a 457

A cidade de Safed (Tzfat), na Galileia. Foto de Richard Nowitz
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