Por Raquel de Jesus, ex-residente de Tel Aviv
(ver 60 anos de Israel na Rua da Judiaria)
Quase três anos depois, ainda leio nas caras das pessoas um misto de desilusão e de incredulidade quando lhes conto como foi que passei meio ano em Israel.
Quem é que vai para um país cujas manchetes diárias reduzem vítimas a estatísticas? Que tipo de mulher deixa a 2045 quilómetros a família e os amigos, sem saber nada de uma língua e cultura, sem partilhar a emoção de viver algo que lhe é prometido pelos antepassados desde o berço?
Só quem se apaixona aceita uma tal irracionalidade. Conheci-o pela Internet, um regressado ao que nunca conheceu, enxotado em pequeno com a mãe da antiga URSS na promessa da aliyah, de um outro clima, de outro nome e oportunidades.
Meti-me num avião com uma mala e um bilhete de ida. No balcão de check-in explicaram-me que, não possuindo a nacionalidade, tinha de ter um bilhete de regresso. No questionário que preenchi a bordo para entregar na alfândega perguntavam-me pela religião. Tive medo de que implicassem comigo por deixar o espaço em branco (é que durante a escala em Amesterdão fizeram-me um interrogatório bastante exaustivo por ousar levar um corta-unhas na mala de mão – isto quando as refeições da El-Al foram depois servidas com facas de serrilha em inox…) e puxei do meu inofensivo baptismo católico. Este episódio prenunciava o meu lugar em Israel: uma turista bem acolhida, todavia uma shiksa com prazo de validade.
No primeiro mês da minha estadia fiquei em Bnei Brak, orgulhoso bastião da ortodoxia judaica nas aforas de Telavive. De bicicleta fui vendo como respirava a cidade insomne, cidadela do pecado para os jerosolimitas. À tardinha regressava à Jabotinski com as pernas nuas e um sorriso bronzeado, ante a condescendência dos «pinguins», calão com que se alude aos judeus ortodoxos que insistiam em ferver debaixo de pesadas casacas de fazenda e chapéus pretos à torreira dos 30ºC de Junho. Uma silenciosa lição de tolerância de costumes num país que há 60 anos é fustigado por vizinhos que a não têm.
No segundo mês, mudámo-nos para um rés-do-chão da Rehov Hamakabi, parco em luz e em espaço, onde a malograda roqueira Inbal Perlmutter, dizia-se, tinha chegado a viver. Estava no centro de tudo. Ao contrário do que pensavam em Portugal, as mulheres não andavam veladas e, se adormecessem num banco de jardim, não corriam perigo; consumia-se a cultura pop norte-americana, mas comia-se comida árabe; as mini-saias eram mínimas e coexistiam com as perucas das judias casadas com os «pinguins»; os elevadores dos hospitais e edifícios públicos paravam em todos os andares no Shabat para não obrigarem os observantes a trabalhar (e sim, carregar num botão é fazer trabalhar); as mulheres tinham nomes de flores e os dos homens eram hinos a Deus e à Sua virtude. Estava numa cidade mediterrânica borbulhante, onde gente de todos os países se cruza pelos calçadões e se ri com os desmandos autoritários dos salva-vidas do alto das suas palafitas.
Nunca aprendi mais hebraico além das saudações, do calão (que parece girar em torno da sexualidade e da guerra) e do básico para pedir uma refeição. As Ulpan tinham horários que acabavam onde a liberdade das minhas viagens pelo Chipre e por Sinai começavam. Contudo, aprendi o alefbet com os toldos das lojas e a sinalética das ruas, e cheguei a traduzir o meu nome na caixa do correio, para gáudio de todos os que leram o meu sobrenome e horror do meu senhorio, que chegou a propor que o mudasse. Foi assim que se tornou no meu némesis da guerrilha doméstica, embora secretamente me tenha deixado com a ideia de me tornar numa Raquel Cohen, como n’Os Maias.
Tinha-me tornado, por assim dizer, uma filha da terra.
É que o israelita está constantemente a reivindicar. Desde que entrei no táxi em Ben Gurion que senti que se estava sempre a discutir, a negociar, a insultar. Na verdade, apenas se debatia o percurso, mas aos meus ouvidos europeus o tom soava beligerante, malcriado, a língua explodia em detonações surdas que vinham morrer na garganta arranhada. Ao constante ralhar lá me habituei – sobretudo porque reclamar finalmente tinha efeitos, servia de algo; no nosso Portugal da eterna lamúria de taberna, o queixume nunca chega aos ouvidos do corregedor. Já a falta de respeito pelas filas nunca consegui aceitar.
Era na altura em que se deu a cedência da Faixa de Gaza à Autoridade Palestiniana e as varandas estavam pejadas com fitinhas cor de laranja ou azuis, consoante se era a favor ou contra. Num país em que tudo se disputa e conquista com muito sangue e ainda mais saliva, criavam-se grupos que brincavam com esta maneira de ser e estar – estou a lembrar-me do protesto anti-passiflora, contra a banalização do maracujá em produtos de higiene e beleza, ou das guerras com bisnagas na Kikar Rabin.
É o país em que cada primeiro-ministro é acusado de corrupção, mais ano menos ano (foi sem surpresa que li que Olmert também já está indiciado), mas se vivem as eleições com fervor místico; em que depois do 12º ano se vai para o exército, mas podemos estar numa discoteca de Eilat, verdadeira Algarve do Mar Vermelho, a dançar de kalashnikov às costas; em que toda a gente tem uma crítica a apontar ao governo, ao povo, aos costumes, mas ninguém imagina a hipótese de ir morrer a outro país.
No tempo todo que lá vivi, enganava-me constantemente a escrever «Israel». Isreal soava a pergunta. E ainda hoje me pergunto quando voltarei a beber uma limonana na Hof Yerushalayim ao entardecer, a partilhar húmus com os emigrantes iemenitas do HaCarmel ou a comer uma fatia de pizza na minha esquina com a Hamelech George. O meu estômago não me perdoou o regresso e os abraços que ainda devo pedem-me para voltar.
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