No Causa Nossa, Vital Moreira contestou o meu post Barreira de Segurança I (Outros Muros), alegando “não haver comparação” possível entre a barreira de segurança israelita e os outros muros mencionados.
Escreve Vital Moreira: “A diferença essencial entre o muro israelita na Palestina e os outros muros que refere é que estes estão construídos na fronteira dos respectivos territórios, enquanto o muro israelita está construído na sua maior parte em território alheio(…)”
A razão que me levou a realçar o caso praticamente desconhecido do muro erigido em torno de Ceuta (Sebta, em árabe transliterado) tem precisamente a ver com isso. Ceuta e Melilla, apesar de toda a retórica espanhola, são vistas pelo governo de Marrocos como “territórios ocupados”. Se existe uma disputa – mesmo que Espanha recuse sequer colocar a hipótese de negociar a devolução das duas cidades –, o muro de Ceuta foi efectivamente construído em território alheio.
Vamos aos factos.
Quando há exactamente dois anos Espanha e Marrocos se envolveram em disputas territoriais em torno da ilha desabitada de Perejil, o primeiro-ministro marroquino, Abderrahmane Youssoufi, afirmou que Rabat pretendia “recuperar todas as suas regiões e acabar com a ocupação das cidades de Ceuta e Melilla e ilhas circundantes saqueadas. O actual estado de coisas não pode continuar por muito mais tempo”.
Historicamente, desde a independência de Marrocos, em 1956, que os marroquinos têm tentado negociar com Espanha o retorno dos dois enclaves. Como afirmou um dia o próprio rei Hassan: “Só um cego negaria a Marrocos direitos sobre Ceuta e Melilla; só um tolo obstinado o questionaria.”
O seu filho, o actual monarca de Marrocos, o rei Mohammed VI, reafirmou já por várias vezes as mesmas pretensões. Em 1999, pouco depois de ter ascendido ao trono, Mohammed VI recebeu o então presidente do governo espanhol, José Maria Aznar, numa sala do seu palácio onde numa das paredes pontificava um mapa de Marrocos com os dois enclaves claramente marcados como território marroquino.
Rabat sugeriu a criação de uma comissão bilateral para discutir o futuro de Ceuta e Melilla. Mas Espanha recusou prestar qualquer atenção às pretensões marroquinas.
A actual bandeira de Ceuta (representada na imagem que ilustra este post) relembra ainda um passado colonial distante em que a cidade desempenhou o papel de peão ibérico.
O Direito Internacional define disputa territorial como “divergência sobre a posse ou controlo de terra entre dois ou mais estados”. No caso de Ceuta e Melilla, segundo esta definição, parece ter ficado provado que existe uma inquestionável disputa territorial, o que torna o muro de oito metros de altura construído com fundos comunitários em redor de Ceuta legitimamente comparável ao muro israelita – pelo menos no que diz respeito à maneira como os seus críticos tentam enformar uma das vertentes do debate.
(Continua)

::A LER:: Ciudad Autónoma de Ceuta / Morocco claims Ceuta and Melilla / Guardian Unlimited Special reports Morocco draws new territories into Parsley row / Middle East Online – Zapatero calls for respect, dialogue with Morocco / CNN.com – Spain, Morocco strike island deal – July 20, 2002 / European Press Review – Morocco Has Chosen the Path of Confrontation, Says Spain’s El Mundo / Islam Online- Spain Increases Military Presence in Moroccan Enclaves / Telegraph News Morocco stands ground in island row.







É de longe que vou lendo as notícias da campanha eleitoral para as europeias. De muito longe. Uma lonjura que os mapas me garantem ser de 9133 quilómetros. Quem alguma vez viveu longe, sabe que existe uma tendência natural para romantizar as memórias que restam do país, de olhar para trás com óculos rosados postos na cara, de esquecer convenientemente as misérias de Portugal. Mas há sempre alturas em que a realidade nos dá um soco no estômago.
Dois anos depois de ter considerado a hipótese de se candidatar à presidência dos Estados Unidos, a 27 de Outubro de 2002, a menos de cinco dias das eleições legislativas americanas, o senador democrata Paul Wellstone morreu num acidente de avião que vitimou também Sheila, a sua mulher, e a sua filha Marcia. Filho de emigrantes judeus russos, Wellstone, um professor de Ciência Política, era um dos mais emblemáticos senadores da chamada “ala progressista” do Partido Democrata. Paul Wellstone era também um caso quase único na política americana – foi eleito directamente para o Senado, em 1991, pelo estado do Minnesota, sem nunca ter exercido qualquer cargo público. Nas eleições de 2002, a sua vitória eleitoral sobre o opositor republicano, Norm Coleman, era tida como certa.
“Arad, Israel — No sábado à noite, uma bebé israelita de nove meses foi assassinada em Natania por um grupo de palestinianos armados. Poucos dias antes, uma outra criança, palestiniana, morreu vítima da explosão de uma bomba israelita. Civis inocentes morrem, assassinados nos dois campos, praticamente todos os dias. Morrem, não porque não existe uma forma de resolver a crise. Antes pelo contrário.




