Barreira de Segurança II (Ainda o Caso de Ceuta)

No Causa Nossa, Vital Moreira contestou o meu post Barreira de Segurança I (Outros Muros), alegando “não haver comparação” possível entre a barreira de segurança israelita e os outros muros mencionados.
Escreve Vital Moreira: “A diferença essencial entre o muro israelita na Palestina e os outros muros que refere é que estes estão construídos na fronteira dos respectivos territórios, enquanto o muro israelita está construído na sua maior parte em território alheio(…)”
A razão que me levou a realçar o caso praticamente desconhecido do muro erigido em torno de Ceuta (Sebta, em árabe transliterado) tem precisamente a ver com isso. Ceuta e Melilla, apesar de toda a retórica espanhola, são vistas pelo governo de Marrocos como “territórios ocupados”. Se existe uma disputa – mesmo que Espanha recuse sequer colocar a hipótese de negociar a devolução das duas cidades –, o muro de Ceuta foi efectivamente construído em território alheio.
Vamos aos factos.
Quando há exactamente dois anos Espanha e Marrocos se envolveram em disputas territoriais em torno da ilha desabitada de Perejil, o primeiro-ministro marroquino, Abderrahmane Youssoufi, afirmou que Rabat pretendia “recuperar todas as suas regiões e acabar com a ocupação das cidades de Ceuta e Melilla e ilhas circundantes saqueadas. O actual estado de coisas não pode continuar por muito mais tempo”.
Historicamente, desde a independência de Marrocos, em 1956, que os marroquinos têm tentado negociar com Espanha o retorno dos dois enclaves. Como afirmou um dia o próprio rei Hassan: “Só um cego negaria a Marrocos direitos sobre Ceuta e Melilla; só um tolo obstinado o questionaria.”
O seu filho, o actual monarca de Marrocos, o rei Mohammed VI, reafirmou já por várias vezes as mesmas pretensões. Em 1999, pouco depois de ter ascendido ao trono, Mohammed VI recebeu o então presidente do governo espanhol, José Maria Aznar, numa sala do seu palácio onde numa das paredes pontificava um mapa de Marrocos com os dois enclaves claramente marcados como território marroquino.
Rabat sugeriu a criação de uma comissão bilateral para discutir o futuro de Ceuta e Melilla. Mas Espanha recusou prestar qualquer atenção às pretensões marroquinas.
A actual bandeira de Ceuta (representada na imagem que ilustra este post) relembra ainda um passado colonial distante em que a cidade desempenhou o papel de peão ibérico.
O Direito Internacional define disputa territorial como “divergência sobre a posse ou controlo de terra entre dois ou mais estados”. No caso de Ceuta e Melilla, segundo esta definição, parece ter ficado provado que existe uma inquestionável disputa territorial, o que torna o muro de oito metros de altura construído com fundos comunitários em redor de Ceuta legitimamente comparável ao muro israelita – pelo menos no que diz respeito à maneira como os seus críticos tentam enformar uma das vertentes do debate.
(Continua)

::A LER:: Ciudad Autónoma de Ceuta / Morocco claims Ceuta and Melilla / Guardian Unlimited Special reports Morocco draws new territories into Parsley row / Middle East Online – Zapatero calls for respect, dialogue with Morocco / CNN.com – Spain, Morocco strike island deal – July 20, 2002 / European Press Review – Morocco Has Chosen the Path of Confrontation, Says Spain’s El Mundo / Islam Online- Spain Increases Military Presence in Moroccan Enclaves / Telegraph News Morocco stands ground in island row.

Barreira de Segurança I (Outros Muros)

Sobre o muro de Israel, e as minhas posições pessoais sobre o tema, falarei num post seguinte. Por agora, penso ser importante dar a conhecer aos meus leitores outros “muros” – ou barreiras de separação – cuja existência tem passado largamente despercebida.
Vamos aos recortes.


O texto completo pode ser encontrado aqui, embora os números estejam já um pouco desactualizados. A barreira espanhola – ou o “muro de Ceuta” – tem agora oito metros de altura e custou 60 milhões de euros, com a sua construção a ser custeada parcialmente com fundos comunitários.
Mas esta não é única.


Esta notícia, datada de Janeiro passado e apenas disponível em telex, recebeu também pouca ou nenhuma cobertura por parte dos media europeus.
Para além de Espanha e do Kuwait, também a Índia, a Tailândia, o Botswana, o Uzbequistão e a Arábia Saudita possuem ou estão a construir barreiras de segurança nas suas linhas de fronteira.
Em relação à barreira espanhola em redor de Ceuta, o diário conservador israelita Maariv não resistiu à comparação: “Aparentemente, segundo o ponto de vista europeu, os aspectos éticos de uma barreira de separação resumem-se a uma mera questão de geografia”, escreve o colunista Gad Shimron. Apesar das minhas leituras do Maariv serem sempre feitas com algumas reservas, a equiparação aqui parece-me inevitável. Ceuta e Melilla são dois enclaves espanhóis em território marroquino. Desde a independência de Marrocos, em 1956, que estas duas cidades são encaradas por Rabat como “quasi-colonatos” estrangeiros no seu território nacional.
(continua)

Portugal Visto de fora I

“Os maiores defeitos da moderna prosa portuguesa são a sua vaga pomposidade e a incapacidade de usar duas palavras quando é possível usar dez – por exemplo, número transforma-se em designação numérica.”

in Studies in Portuguese Literature, Aubrey F. G. Bell, Oxford, 1914.

Legitimidades

Mais do que uma exigência, mais do que um slogan gritado numa qualquer manifestação, esta imagem (cortesia de Rui Tavares, do Barnabé) é publicada aqui com a convicção de que o Presidente da República irá optar pela única solução possível para a actual “crise” política: a dissolução do Parlamento e a convocação de eleições intercalares. Qualquer outra solução seria, no mínimo, desastrosa. Faço minhas as sábias palavras de Bruno Sena Martins, do Avatares de um Desejo, escritas num post intitulado “O simulacro da democracia: um possível estudo de caso”:

“A questão suscitada pela provável nomeação de Durão Barroso para presidente da Comissão Europeia coloca na reflexão política uma diferença muitas vezes pouco considerada: a diferença entre legalidade e legitimidade. Ou seja, se do ponto de vista legal a substituição do primeiro-ministro é concebível, do ponto de vista da legitimidade democrática ela seria algo de profundamente sinistro.”

Para acompanhar os comentários que sobre o assunto vão surgindo na blogolândia vale bem a pena juntar um novo blog ao lote de favoritos: CPeC – Crise Política em Curso, mais um serviço público da autoria do incansável Paulo Querido.

Distâncias II – Only in America

Para ver o Portugal-Inglaterra na televisão lá paguei mais 25 dólares (à medida que o Euro progride a empresa que me serve a TV por cabo, a Adelphia, vai aumentando os preços). A emissão é da BBC Sports e o jogo tem os comentários de Gary Lineker. Aos nervos do jogo junta-se a irritação provocada pelos comentários tendenciosos a favor dos ingleses – compreensíveis, é certo, mas irritantes nevertheless. Mesmo assim os nervos ganham. Fuma-se um maço inteiro de cigarros em duas horas. Mas as arrelias estão longe de se esgotar por aqui. O pior de tudo: a Adelphia decide cortar a emissão quando faltavam dois pénaltis para o fim do jogo. Pois é, o que Ricardo defendeu e o outro que ele marcou. O ecrã fica a negro no momento em que Vassell parte para a bola, deixando tudo em suspenso. Em qualquer outro país do mundo isto seria pretexto para motins. Mas não nos EUA.
A forma displicente como a Adelphia cortou a emissão dos dois últimos pénaltis fez-me recordar uma velha teoria geopolítica, onde se mistura a visão que a América tem do mundo com a incapacidade quase genética que os americanos têm de compreender o fenómeno planetário do futebol. Mas isso é conversa para outros campeonatos.

Ricardo

Distâncias

A 9133 quilómetros de distância, o jogo vê-se num canal pago – pay-per-view, a única forma de seguir o Euro 2004 por estas bandas… onde estará o “Futebol de Serviço Público” da RTP Internacional quando mais se precisa dele? Vinte dólares desembolsados para suar e sofrer. Mesmo longe, demasiado longe, é impossível escapar ao turbilhão que nos garante que o futuro – não só do país, mas também, talvez, a própria ordem do Universo – depende do resultado. O final, já todos sabem, foi feliz. Muito feliz. Não consigo resistir, visto a camisola da selecção nacional – comprada na eBay para o fatídico Verão de 2002 – e sigo para o supermercado. No Trader Joe’s de West Hollywood ninguém faz a mínima ideia de que se acabara de jogar em Lisboa o destino de uma fracção da humanidade. A camisola vermelha é apenas isso: uma camisola estranhamente vermelha.
Esta é uma das vantagens da distância. Basta olhar em redor para que tudo volte a ser colocado em perspectiva. After all it’s just a game. But a great game nevertheless.

Silêncio, em 899 caracteres

Professor Sousa FrancoÉ de longe que vou lendo as notícias da campanha eleitoral para as europeias. De muito longe. Uma lonjura que os mapas me garantem ser de 9133 quilómetros. Quem alguma vez viveu longe, sabe que existe uma tendência natural para romantizar as memórias que restam do país, de olhar para trás com óculos rosados postos na cara, de esquecer convenientemente as misérias de Portugal. Mas há sempre alturas em que a realidade nos dá um soco no estômago.
Foi assim com a notícia da morte do professor Sousa Franco e das circunstâncias que a rodearam. A ela juntam-se os insultos que marcaram a campanha e os elogios post mortem que agora jorram – manifestações típicas da cultura da irresponsabilidade que teima em dominar o quotidiano nacional. Ninguém assume nada. Ninguém se responsabiliza pelas suas palavras ou actos. Às vezes, o respeito devido a quem morre é melhor servido pelo silêncio.

ADENDA: Morte em Campanha: Um Exemplo Americano

Morto em Campanha: Senador Paul Wellstone, 1944-2002Dois anos depois de ter considerado a hipótese de se candidatar à presidência dos Estados Unidos, a 27 de Outubro de 2002, a menos de cinco dias das eleições legislativas americanas, o senador democrata Paul Wellstone morreu num acidente de avião que vitimou também Sheila, a sua mulher, e a sua filha Marcia. Filho de emigrantes judeus russos, Wellstone, um professor de Ciência Política, era um dos mais emblemáticos senadores da chamada “ala progressista” do Partido Democrata. Paul Wellstone era também um caso quase único na política americana – foi eleito directamente para o Senado, em 1991, pelo estado do Minnesota, sem nunca ter exercido qualquer cargo público. Nas eleições de 2002, a sua vitória eleitoral sobre o opositor republicano, Norm Coleman, era tida como certa.
O desaparecimento de Paul Wellstone, daquela forma trágica e a poucos dias das eleições, abalou fortemente as estruturas do Partido Democrata, que em 2002 contava reconquistar a maioria no Senado. A campanha eleitoral é suspensa.
Para substituir Wellstone, em cima da hora, o partido decide nomear o prestigiado veterano Walter Mondale – que exercera as funções de vice-presidente de Jimmy Carter –, ele próprio um ex-senador. Ao mesmo tempo, cometem um erro estratégico que viria a revelar-se irreversível.
Os democratas organizam um “comício de homenagem à memória” de Paul Wellstone, com figuras nacionais do partido, entre eles Bill e Hillary Clinton. Mas o comício transforma-se em mais do que um simples exercício de homenagem: os oradores fazem emocionados apelos ao voto no Partido Democrata em nome da memória de Paul Wellstone.
Na noite eleitoral, quando os resultados revelaram a vitória inesperada e surpreendente do republicano Norm Coleman, e a derrota de Walter Mondale, os analistas pegaram nas sondagens realizadas à boca das urnas pelo consórcio das agências noticiosas e cadeias de televisão americanas. A resposta não podia ser mais clara: o eleitorado sentira que os democratas tinham feito “chantagem emocional”. Com Wellstone fora do boletim de voto, os eleitores do estado do Minnesota acabaram por punir a estratégia dos democratas. E para isso bastara-lhes a percepção de que existira um “aproveitando” da morte de Paul Wellstone para retirar dividendos eleitorais.

O “senhor Sharafat”: dois homens teimosos e muitos mortos

Amos OzArad, Israel — No sábado à noite, uma bebé israelita de nove meses foi assassinada em Natania por um grupo de palestinianos armados. Poucos dias antes, uma outra criança, palestiniana, morreu vítima da explosão de uma bomba israelita. Civis inocentes morrem, assassinados nos dois campos, praticamente todos os dias. Morrem, não porque não existe uma forma de resolver a crise. Antes pelo contrário.
Cada israelita nas ruas sabe qual é a solução, da mesma forma que cada palestiniano também a conhece. Mesmo Ariel Sharon e Yasser Arafat sabem qual é a solução: paz entre dois estados, fundamentada sobre a partilha da terra com base na realidade demográfica e nas fronteiras de Israel pré-1967.
Durante um longo período de insónias, às vezes penso que gostava de acreditar em fantasmas. Dou voltas na cama e imagino que sou capaz de conjurar os fantasmas de todas as crianças mortas, israelitas e palestinianas, para assombrarem o senhor Sharon e o senhor Arafat. Imagino que sou capaz de juntar estes inocentes em volta das camas dos dois líderes; dois homens, ambos com mais de 70 anos, um prisioneiros do outro, um à mercê do outro. Cada um pronto para agir diariamente exactamente como prevê o adversário, a atirar mais combustível às chamas, a derramar ainda mais sangue.
Às vezes, nestas noites sem dormir eu vejo os dois homens condensados na personagem única de um Nero perverso, que se diverte brincando com o fogo, rindo selvaticamente enquanto abana as chamas. Durante estas noites problemáticas, acabo também por desejar o oposto – que Sharon e Arafat não sejam assombrados pelos fantasmas das crianças mortas, mas em vez disso sejam levados para dormir longe, durante semanas e meses, acordando apenas depois da assinatura de um tratado de paz.
A História jamais esquecerá as suas ofensas. As suas culpas. Porque a solução existe. Está aqui, visível e manifesta em frente de todos nós. Todos os israelitas e todos os palestinianos sabem que esta terra será dividida em duas nações soberanas, transformando-se em duas casas geminadas onde moram duas famílias. Mesmo aqueles que abominam este futuro já sabem, no fundo dos seus corações, que tudo isto é inevitável.
Suspeito que mesmo os dois irmãos siameses Sharon e Arafat – eu agora chamo-lhes “Senhor Sharafat” – sabem que será assim. Mas são sufocados pelo medo e a estagnação. Vivem dominados por um passado manchado de sangue. São reféns um do outro, tanto quanto a dinâmica histórica do conflito do Médio Oriente se tornou refém dos seus medos, da sua imobilidade.
Um dia, quando se alcançar um tratado de paz, e o embaixador palestiniano apresentar as suas credenciais ao presidente de Israel na secção ocidental de Jerusalém, enquanto o embaixador israelita as apresenta ao presidente palestiniano em Jerusalém oriental, seremos todos obrigados a rir da estupidez do nosso passado. Mas, mesmo por entre esse riso, seremos obrigados a responder por tanto sangue inocente derramado. As mães e os pais dos mortos não rirão connosco.”

Amos Oz, escritor israelita e activista pela paz. Artigo publicado no New York Times a 12 de Março de 2002.

NOTA – Sobre o último romance de Amos Oz publicado em Portugal, O Mesmo Mar (Edições Asa), José Mário Silva, do BdE – Blogue de Esquerda (II), escreve uma muito boa recensão na edição de hoje do Diário de Notícias, sob o título Cantata para cinco vozes perdidas e muitas sombras. Vale a pena ler. O romance e o que sobre ele escreveu José Mário Silva.

Paz – שלום

שלום

Sábado à noite, em Tel Aviv, cerca de 200 mil pessoas manifestaram-se em nome da paz, a favor da retirada dos territórios ocupados. Na mesma praça onde Yitzhak Rabin foi assassinado, em 1995. As últimas sondagens, mesmo as de jornais conservadores como o Maariv, mostram que 80% dos israelitas querem o fim da ocupação e o reatar das conversações de paz. Não se queimaram bandeiras. Não se pediu a morte de ninguém. Não se viram armas no ar. שלום. Simplesmente שלום.

שלוםשלום

שלוםשלום

שלום

A Ler: Maariv International – Over 150,000 call for Gaza withdrawal / NPR Audio: Israelis Call for Gaza Pullout at Peace March / Haaretz – Over 150,000 attend rally calling for Gaza withdrawal / Haaretz – `The majority’ is waking up / Jerusalem Post – Peres: We must not support gov’t that follows the Right / Haaretz – The left won t be held hostage by the Likud / Jerusalem Post – Katsav: Majority supports Gaza withdrawal / New York Times News Services – Israelis rally for pullout from Gaza / swisspolitics.org Israelis rally for Gaza pullout / Reuters News – Gaza Pullout Rally Draws Tens of Thousands in Israel CBS News Mass Israeli Rally For Gaza Exit / Maariv International – 79 percent of Israelis want to withdraw from Gaza / The Guardian – 100,000 tell Sharon to get out of Gaza / The New York Times > Opinion – Tyranny of the Minorities

Tortura, Humilhação e Ódio

Tortura, Humilhação e Morte

Há 10 anos, sentado no chão da mesquita de Regent’s Park, em Londres, assisti a várias reuniões de extremistas islâmicos, resultado de um trabalho que haveria de escrever para a Grande Reportagem. Depois de meses de aproximação e conversas, Farid Kassim, um dos líderes britânicos do Hizb ut-Tahrir – e homem-de-mão do sheikh Omar Bakri Muhammad, o auto-proclamado “porta-voz” de Osama bin Laden no Reino Unido –, confiara em mim o suficiente para me deixar entrar e fotografar “círculos de discussão”, uma espécie de reuniões fundamentalistas de recrutamento organizadas na mesquita pelo Hizb ut-Tahrir, logo a seguir às orações de sexta-feira.
Farid Kassim, com pouco mais de 30 anos na altura, falou comigo sentado numa cadeira de rodas pintada de um vermelho vivo. Os seus olhos azuis, claros, uma herança britânica por parte da mãe, eram intensos e provocavam em mim um inexplicável sentimento de desconforto.
“O Islão não é uma religião de paz. O Corão tem centenas de versículos que apelam à guerra e à vingança”, disse-me ele com um sorriso, acrescentando um chorrilho de frases que destilavam um ódio primário contra os judeus. Anos mais tarde, em Los Angeles, Haidar, um amigo sufi (صوف), havia de me mostrar o oposto – um Islão de paz e contemplação, de respeito pelo outro e pela vida. Pessoalmente, confio muito mais em Haidar do que em Farid Kassim. Mas é a visão deste último que prevalece nas notícias e nas imagens cruéis que me entram agora pela casa dentro.
Hoje, a 10 anos de distância, é impossível olhar para as tardes que passei na mesquita de Regent’s Park com Farid Kassim, e com o vespeiro de terroristas do Hizb ut-Tahrir, sem que me sinta invadido por um intenso sentimento de impotência e angústia.
Abu Musab al-Zarqawi – braço direito de Osama bin Laden no Iraque –, o alegado carrasco que degolou e decapitou Nick Berg, foi originalmente membro do Hizb ut-Tahrir na Jordânia. Khalid Sheikh Mohammed, o número dois da al-Qaeda, foi também membro do Hizb ut-Tahrir no Egipto, tal como Omar Ahmad Saeed Sheikh, o responsável pela morte do jornalista Daniel Pearl, há dois anos, no Paquistão.
Tal como Daniel Pearl, Nick Berg era judeu. Teria o seu judaísmo – provavelmente mais do que a cidadania americana – alguma coisa a ver com a morte brutal sofrida às mãos de al-Zarqawi? A semântica destes ódios parece fornecer uma resposta insofismável.
Muito se tem falado da divulgação de imagens chocantes e dos fins que estas servem. É certo que há diferenças.
As da prisão de Abu Ghraib, degradantes e nojentas, desencantadas pelo brilhante trabalho jornalístico de Seymour Hersh, provocam investigações e debates inquestionavelmente necessários no seio de uma sociedade que há muito se habituou a esmiuçar os seus lados negros. Uma sociedade onde há muito existem também consequências para os que transgridem.
As outras, da decapitação de Nick Berg, são divulgadas para promoção de ódio e vingança (tal como estas), por quem recusa assumir responsabilidades, para quem a culpa é sempre do “outro”, seja ele quem for. Estas imagens são agora recebidas por alguns com pitadas de “relativismo moral”. O mal justificado pelo mal. O “é horrível, mas…”. O argumento utilizado pelos terroristas é assimilado por um discurso que, de certa forma, o legitimiza. Abu Ghraib compensado pela cabeça decepada de Nick Berg erguida frente às câmaras. A lógica do abismo.

“Expressões e palavras a abandonar”

Foi com uma série de posts com este título, no seu brilhante Bomba Inteligente, que a Charlotte lançou um repto que pegou como fogo na pradaria pela blogolândia.
O desafio de limpar a língua corrente de detritos foi aceite, complementado e comentado nos blogs The World as We Know It, Azul Limão, à Deriva, My Moleskine, Ad Libitum, O Acidental, What do you represent, Mar Salgado, No Quinto dos Impérios, Homem a Dias, Contra a Corrente, Mood Swing e Miniscente.
Antes de prosseguir, convém aqui confessar que nunca me chocaram utilizações inventivas da língua de Luís de Camões, João Ubaldo Ribeiro e da mãe de John dos Passos. Choca-me muito mais o atavismo luso, que leva muitos a recusarem ler livros em excelentes edições brasileiras, só porque nelas se troca “acto” por “ato” e “facto” por “fato”. Já li críticos conceituados, de diários lisboetas de referência, a menosprezarem “brasileirismos” em livros… impressos no Brasil. Pois. Mas essa é matéria para outros posts – quem quiser ler mais sobre o tema, pode visitar o Aviz, onde Francisco José Viegas escreveu já extensamente sobre o assunto.
Regressando às palavras e expressões que a nossa Charlotte gostaria de ver abandonadas, tendo a concordar com a maioria delas. De todas as entradas sugeridas pelos bloguistas, foi a do Rodrigo Moita de Deus, no seu Segundo Sentido, que mais me deixou a pensar. Escreve ele:

“Oiço alguém falar. Eu queria, eu gostava, eu tenho, eu faço, eu aconteço eu, eu, eu, eu… e que tal abolir também o excessivo culto de personalidade?”

Concordo com o Rodrigo, não pela linguística estrita, mas pelo aspecto ético. A minha proposta de adenda para erradicação vocabular entra também por este caminho. Mas mais do que o auto-engrandecimento contido nestas expressões, proponho que se abandone o maior exemplo de lambe-botismo entranhado na alma lusitana: o “senhor(a) doutor(a) lançado de rajada a toda a gente que tenha completado um ano na universidade.
Este senhor doutor é um exemplo ainda vivo de provincianismo novecentista queiroziano, cultivado até à exaustão pelos meus camaradas dos media, para quem qualquer político é senhor doutor.
Na Europa não me lembro de equivalentes (talvez à excepção da Itália). No resto do mundo apenas existe o culto do título académico na América Latina, e mesmo assim no Brasil a culpa é toda nossa, por via da herança colonial. No México, na Bolívia e no Peru, por exemplo, os presidentes, senadores e deputados são tratados por “licenciados”, uma expressão igualmente pomposa, mas pelo menos mais verdadeira.
Aqui estou completamente de acordo com os anglo-saxónicos: doutor só o médico, e mesmo assim em moderação (apenas no consultório). Os americanos abrem também uma excepção para os teólogos. Na América, os reverendos pastores são também doutores. Mas os encómios honoríficos ficam-se por ai. Senhor e senhora chegam-lhes perfeitamente. E para nós, portugueses, deveriam chegar também.
Em contrapartida, Portugal é o único país onde “engenheiro” e “arquitecto” são títulos passíveis de utilização em conversas normais para apresentar alguém: “Este é o senhor engenheiro. Senhor engenheiro, apresento-lhe o senhor arquitecto.” Lindo.
Que se abandone o senhor doutor, o senhor engenheiro e o senhor arquitecto. Mas especialmente o senhor doutor. Digo eu.
Fica já aqui uma promessa: o primeiro que me chame senhor doutor – e o disser assim, sem ironia, mesmo depois do doutoramento –, parafraseando um escritor brasileiro de quem muito gosto, “cascudo nele”!

A Minha Revolução

A minha Revolução

Ele há coisas que uma criança tem sérias dificuldades em compreender. Uma delas é perceber que não convém muito cantar nos transportes públicos as cantigas revolucionárias que o avô lhe ensina. As crianças não percebem nada de ditaduras caducas. Pelo menos eu não percebia.
Em 25 de Abril de 1974 eu tinha quatro anos e um caso agudo de parotidite. O nome clínico faz a coisa parecer muito mais grave do que era na realidade – afinal o que eu tinha era só papeira. Não se guardam grandes memórias dessa idade, mas há coisas que recordo por entre algumas neblinas. Lembro-me de ter um mostrengo de um inchaço no pescoço, e da minha irmã não parar de gozar comigo. Lembro-me de ter acordado cedo e de ver o meu pai sentado na cama, debruçado sobre um pequeno rádio a pilhas. Lembro-me dele perguntar se alguém sabia do meu avô. Lembro-me dos meus pais me terem levado ao hospital, a Lisboa, e da janela de trás do Renault 10 ver por todo o lado soldados de armas na mão. Lembro-me do meu pai buzinar e acenar-lhes com dois dedos levantados em “V”. Lembro-me dos meus pais rirem muito um para o outro. Felizes.
Em minha casa, até àquele dia, “política” tinha sido uma palavra feia, que evocava memórias dolorosas aos meus pais e à minha avó. O culpado era o meu avô, que teimava em desafiar o regime, cismando em conhecer-lhe as cadeias e os interrogadores da PIDE. A política, fazia-a ele às escondidas, tal qual como em casa me ensinava cantigas que um miúdo de quatro anos provavelmente não deveria aprender – hinos revolucionários e canções que falavam de Liberdade. Coisas que eu não imaginava o que fossem, mas que o meu avô sonhava um dia poder viver.
Em minha casa, o 25 de Abril de 1974 foi, acima de tudo, a revolução do meu avô. António Emídio, um homem que sempre desprezou a mediocridade, viu derrocar um regime medíocre e bolorento. É verdade que só tinha quatro anos, mas mesmo sem perceber muito bem, nem como nem porquê, comecei naquele dia a olhar para o meu avô como quem olha para um herói de livros de quadradinhos. Faz hoje 30 anos que o vejo assim.

Revolução