“Que tipo de pessoa és tu?”, ouvi-os perguntar.
Sou uma pessoa com uma complexa canalização da alma,
Sofisticados instrumentos de sentir e um sistema
De memória controlada nos finais do século XX.
Mas com um velho corpo de tempos antigos
E um Deus ainda mais velho que o meu corpo.
Sou uma pessoa para a superfície da terra.
Lugares baixos, cavernas e poços
Assustam-me. Cumes de montanha
E prédio altos apavoram-me.
Não sou como um garfo espetado,
Nem como uma faca de cortar, nem como uma colher presa.
Não sou plano nem astuto
Como uma espátula vinda de baixo.
Na melhor das hipóteses sou um pesado e desajeitado pilão
Amassando bem e mal juntos
Para um pouco de gosto
Para um pouco de aroma.
Setas não me encaminham. Conduzo
Os meus negócios cuidadosa e serenamente
Como um longo testamento que começou a ser escrito
no momento em que nasci.
Agora estou de pé ao lado da estrada
Fatigado, encostado a um parquímetro.
Posso aqui estar sem pagar, de graça.
Não sou um carro, sou uma pessoa,
Um homem-deus, um deus-homem
Que tem os dias contados. Aleluia.
Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.
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