Yosef Caro: um rabino português no exílio

Dentro de poucos dias, segundo o calendário hebraico, comemora-se o 430° aniversário da morte do rabino quinhentista Yosef Caro (1488–1575), considerado o maior codificador da Lei Judaica. O rabino Yosef ben Ephraim Caro (יוסף בן אפריים קארו), muitas vezes erroneamente identificado como espanhol, nasceu em Portugal em 1488, mas ainda criança foi obrigado a emigrar com a sua família para a Turquia na sequência do Decreto de Expulsão dos Judeus assinado por D. Manuel I em 1497 e das consequentes perseguições inquisitorais. Já adulto, Yosef Caro passaria ainda pela Bulgária e pela Grécia, fixando-se finalmente em Safed, a cidade dos cabalistas, na Galileia, onde faleceria, a 24 de Março de 1575 (13 de Nissan do ano de 5335 no calendário hebraico).
Em Istambul conheceu e ficou amigo de Diogo Pires, um secretário da corte portuguesa, “cristão-novo”, que regressara ao judaísmo adoptando o nome de Salomão Molko (שלמה מולכו). Após o retorno ao judaísmo, Diogo Pires tornou-se um rabino místico com inegáveis poderes de oratória que influenciaria os escritos de sábios cabalistas como os rabinos Isaac Luria e o seu sucessor Hayim Vital. O contacto com Diogo Pires – que acabaria por morrer nas fogueiras da Inquisição em Mantua, em 1532 – teve um profundo impacto na obra de Yosef Caro, que nos últimos anos da sua vida se dedicaria exclusivamente a escrever tratados cabalísticos, entre os quais se destaca o diário místico “Maggid Mesharim” (Pregação de Retidão), publicado em Veneza após a sua morte.
Filho de um eminente talmudista, Yosef Caro começou a estudar as escrituras sagradas judaicas ainda criança, desenvolvendo conceitos interpretativos revolucionários. Através da análise metódica das discussões talmúdicas – no Talmude, os rabinos dissecam até à exaustão cada palavra ou frase da Mishná, em busca do seu sentido primordial – Yosef Caro escreve “Shulhan Arukh” (“Mesa Posta”), aquela que ainda hoje é considerada a obra codificadora de referência da Lei Religiosa judaica, a Halakhá (הלכה).
Durante a sua vida Yosef Caro publicou ainda: “Bet Yosef” (Casa de Yosef), em quatro partes (I, II) Veneza, 1550-1551; (III, IV) Sabbionetta, 1553-59; “Shulhan Aruk” (Mesa Posta), em quarto partes, Veneza, 1565; “Kesef Mishneh”, Veneza, 1574-75. Após a sua morte foram ainda publicados: “Bedek ha-Bayit” (Reparar a Casa), suplementos e correcções a “Bet Yosef,” Salónica, 1605; “Kelale ha-Talmud” (Metodologia do Talmude), Salónica, 1598; “Abkat Rokel” (Pó do Mercador), responsa, Salónica, 1597 e 1791; “Maggid Mesharim” (Pregação de Retidão), Veneza, 1654; “Derashot”, Salonica, 1799, na colecção “Oz Tzaddikim” (O Poder dos Justos). O rabino Yosef Caro deixou ainda um vasto lote de comentários da Mishná, bem como outros comentários a escritos de Rashi e Nahmanides ao Pentateuco.

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