A solidão do meu vizinho Vladimir


“Casal sob a Huppá” (1930), Aurel Richter, pintor judeu de origem húngara.

Vladimir praticamente não fala inglês. Professor de Física na extinta União Soviética, reformado e emigrado sob o sol de Los Angeles, o meu vizinho da frente é um velho judeu simpático que sorri sempre que nos cruzamos no corredor. “Pesach… when?” Perguntou-me ele esta tarde, querendo saber o dia da Páscoa judaica. “Saturday”, disse-lhe eu. “You… Seder… with your son?”, perguntei tentando perceber se ele ia passar a Páscoa com o filho. Vladimir abanou a cabeça negativamente, explicando a seguir, num misto de russo, inglês e yiddish que o filho estava fora de Los Angeles.
Pesach… gefilte fish…”, ao pronunciar estas palavras – evocando a memória de um prato de peixe recheado tradicional da páscoa dos judeus da Europa oriental – o seu sorriso esvai-se. Vladimir volta a cara abanando a cabeça. Olha para mim e pede desculpa. Os seus olhos estão agora vermelhos, jorrando lágrimas. É a primeira Páscoa que Vladimir passa sem a mulher, falecida há duas semanas vítima de um cancro irreversível. Vladimir é um homem profundamente só. Desde que os conhecera, via-os vezes sem conta passear até ao parque ao cair da tarde. Ele empurrando a cadeira de rodas dela, conversando e rindo como se namorassem.
Vê-lo assim provocou em mim um sentimento de tristeza e profunda impotência. Que se pode dizer a um homem quando ele perde o amor da sua vida? Como se consola alguém que tem um vazio imenso dentro de si e dentro da sua própria vida? Os dias de festa – e a lembrança do que esses dias foram no passado – só aumentam mais a dor, como sal numa ferida aberta. A Páscoa é para os judeus o que o Natal é para os cristãos –um dia para passar em família, celebrando com um imenso jantar.
Come to our house for Seder”, convidei eu. “but… me… no English…”, respondeu Vladimir. Tentei sossegá-lo, dizendo que a minha sogra vai lá estar e que ela fala yiddish. Por breves instantes, o sorriso voltou-lhe. Ficou combinado. O meu velho vizinho acenou com a cabeça, abriu a porta de casa e olhando para mim apontou para o retrato da mulher, pendurado por cima do sofá, logo à entrada. É o retrato de uma mulher jovem e bela, provavelmente tal como ela era há 55 anos, quando se casaram. Uma mulher de quem ele sente agora uma falta impossível de exprimir no curto vocabulário da língua que temos em comum. Vladimir vira-se para a foto e depois para mim. Abana a cabeça com os olhos humedecidos e raiados de um vermelho vivo. “Sorry… sorry… shalom”, despede-se ele pedindo desculpa.
Fechei a porta. Tentando imaginar a inimaginável solidão de Vladimir, fiquei irremediavelmente contagiado pelas suas lágrimas.

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