
“Percebo agora que devo ter sido um mau filho. Ou se não fui exactamente mau fui uma desilusão, uma fonte de confusão e tristeza. Não fazia qualquer sentido para ele [meu pai] ter produzido um filho poeta. Nem ele percebia porque razão um jovem com dois diplomas da Universidade de Columbia tinha arranjado um emprego de marinheiro num petroleiro no Golfo do México e depois, também sem razão nenhuma, se escapara para Paris onde passou quatro anos a viver miseravelmente.
A mais frequente descrição que ele fazia de mim era que eu tinha “a cabeça nas nuvens”, ou que não tinha “os pés na terra”. De qualquer forma, para ele não devo ter parecido nada substancial, como se fosse uma espécie de vapor ou uma pessoa não totalmente deste mundo. Aos seus olhos, fazia-se parte do mundo trabalhando. Por definição trabalho era qualquer coisa com a qual se ganhava dinheiro. Se não se ganhasse dinheiro não era trabalho. Escrever, por isso, não era trabalho, especialmente a escrita de poesia. Na melhor das hipóteses era uma actividade de recreio, uma forma agradável de passar o tempo entre coisas que realmente tivessem importância. O meu pai pensava que eu estava a desperdiçar os meu dotes, que recusava crescer.
Mesmo assim, uma espécie de ligação persistiu entre nós. Não éramos chegados, mas mantivemos o contacto. Um telefonema por mês, talvez três ou quatro visitas por ano. Cada vez que um livro de poemas meu era publicado eu mandava-lhe diligentemente um exemplar, e ele telefonava sempre a agradecer. Sempre que escrevia um artigo para uma revista eu guardava um exemplar para lhe dar da próxima vez que o visse. The New York Review of Books não lhe dizia nada, mas as minhas peças na Commentary impressionaram-no. Ele sentia que se os judeus publicavam o que eu escrevia era porque eu deveria valer alguma coisa.”
Paul Auster, in “The Invention of Solitude” (p.61)
Paul Auster, poeta e escritor americano, judeu magnífico, está em Lisboa. O Leonel Vicente promete relatar as suas conversas com os leitores portugueses. A primeira parte já está aqui: Memória Virtual: Paul Auster na Culturgest
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