
A 7 de Julho de 2005, o Blitz regressou a Londres. É difícil acordar com notícias destas. Acordar com o telefone a tocar de madrugada, ouvindo uma voz, lá do outro lado do mundo, a contar coisas terríveis. Acordar para uma manhã que se anuncia negra. Mais difícil ainda é escrever sobre sentimentos desconexos, amalgamados sob a forma de um intenso nó no estômago. Já morei em Londres. Londres foi a minha cidade. Os lugares que hoje são notícia fizeram parte do meu quotidiano. Pisei aquele chão e respirei o mesmo ar que agora exala os odores pútridos de um terror sem explicação nem sentido. Mas o pior ainda é suspeitar que possa mesmo ter olhado os assassinos nos olhos – já aqui dei conta da minha experiência pessoal com os fundamentalistas islâmicos em Londres, enquanto preparava um trabalho para a Grande Reportagem (ver Tortura, Humilhação e Ódio). Com a impotência da distância, penso nos meus amigos que lá moram: a Ana e o Chaim, o James, o Eitan, o Oliver, o Tom e a Şebnem… Espero que estejam bem.
No ano passado, Paulo Moura, jornalista do Público, entrevistou Omar Bakri Mohammed, um sheik que se autoproclamava “líder do Londonistão” e “Teórico da Al-Qaeda na Europa”. Na entrevista, publicada a 18 de Abril de 2004, Omar Bakri falava da “inevitabilidade” de grandes atentados terroristas em Londres e dos grupos que os preparavam. Como é fácil ser profeta quando se controla os cordelinhos que precipitam o Apocalipse.
Aqui ficam, reveladores, alguns excertos dessa entrevista (PÚBLICA Domingo, 18 de Abril de 2004) :
“O terror é a linguagem do século XXI”

PÚBLICA: Acha que vai ocorrer algum grande atentado em Londres?
Omar Bakri Mohammed: É inevitável. Porque estão a ser preparados vários, por vários grupos.(…)
P. Há muitos desses grupos “free-lance” na Europa?
R. Cada vez mais. O que é perigoso, porque nem todos têm a preparação teórica adequada. Aqui em Londres há um grupo muito bem organizado, que se auto-intitula Al-Qaeda-Europa. Divulgam, pela internet e email, muito material de propaganda e têm um apelo muito grande sobre os jovens muçulmanos. Sei que estão prestes a lançar uma grande operação.(…)
P. Como sabemos que um atentado é realmente da Al-Qaeda?
R. É fácil. Em primeiro lugar são sempre operações em grande escala. O texto divino é claro quanto à necessidade de provocar “o máximo dano possível”. O operacional tem portanto de certificar-se de que mata o maior número de pessoas que pode matar. Se não o fizer, espera-o o fogo do Inferno. Em segundo lugar, a Al-Qaeda deixa sempre uma impressão digital: uma pista, como um carro com um Corão ou uma cassete, para ser encontrado pela Polícia. Terceiro, os ataques são feitos em dois ou três lugares ao mesmo tempo. Finalmente, a linguagem. Nos comunicados, basta ler uma frase para se reconhecer o seu rigor teórico: não há nenhum sinal de nacionalismo, não se dizem árabes, nem palestinianos, apenas muçulmanos. Falam sempre do martírio, da morte.(…)
P. Mas o que pode justificar matar deliberadamente milhares de civis inocentes?
R. Nós não fazemos a distinção entre civis e não civis, inocentes e não inocentes. Apenas entre muçulmanos e descrentes. E a vida de um descrente não tem qualquer valor. Não tem santidade.
P. Mas havia muçulmanos entre as vítimas.
R. Isso está previsto. Segundo o Islão, os muçulmanos que morrerem num ataque serão aceites imediatamente no paraíso como mártires. Quanto aos outros, o problema é deles. Deus mandou-lhes mensagens, os muçulmanos levaram-lhes mensagens, eles não acreditaram. Deus disse: “Quando os descrentes estão vivos, guia-os, persuade-os, faz o teu melhor. Mas quando morrem, não tenhas pena deles, nem que seja o teu pai ou mãe, porque o fogo do Inferno é o único lugar para eles”.(…)
P. O Corão diz isso?
R. Sim. As pessoas não percebem, porque a televisão e os jornais só entrevistam os seculares. Não falam com quem sabe. Os seculares dizem que “o Islão é a religião do amor”. É verdade. Mas o Islão também é a religião da guerra. Da paz, mas também do terrorismo. Maomé disse: “eu sou o profeta da misericórdia”. Mas também disse: “Eu sou o profeta do massacre”. A palavra “terrorismo” não é nova entre os muçulmanos. Maomé disse mais: “Eu sou o profeta que ri quando mata o seu inimigo”. Não é portanto apenas uma questão de matar. É rir quando se está a matar.
P. Isso quer dizer que o terrorismo é natural e legítimo?
R. Só é legítimo o terrorismo divino.(…)
P. O que pretende a Al-Qaeda?
R. O terror. Estão empenhados numa jihad defensiva, contra os que atacaram o Islão. E a longo prazo querem restabelecer o estado islâmico, o califado. E converter o mundo inteiro.(…)
P. Os EUA podem negociar com a Al-Qaeda?
R. A Al-Qaeda é por natureza uma entidade invisível, não é um Estado, por isso não pode dialogar com um Estado. O seu projecto é derrubar os governos corruptos dos países muçulmanos, substitui-los por governos islâmicos e reconstituir o califado. Nessa altura, como Estado, poderão negociar com os EUA, de igual para igual. Primeiro, tentarão um pacto de segurança com eles. Dirão: nós fornecemos o petróleo e viveremos em paz, mas na condição de podermos divulgar livremente o Islão no Ocidente. Se os americanos não permitirem isto, então o califado terá de lhes declarar guerra.(…)
::A LER:: BBC NEWS – Front Page (com actualizações frequentes) / The Command Post – Global War On Terror / CNN – Minute-by-minute account – Jul 7, 2005 / Guardian Unlimited | Special reports | Terror blasts rock London / Guardian Unlimited | Special reports | London explosions ‘mirror Madrid bombings’ / Times Online – London hit by multiple terror blasts at rush hour / Times Online – London: a new and bloody chapter for al-Qaeda? / Times Online – London blast: survivors’ tales / Militant cleric says attack on London ‘inevitable’ (notícia agregada de agencies internacionais baseada na entrevista de Omar Bakri à Pública em Abril de 2004) / BBC NEWS – Cleric warns of ‘UK terror threat’ (14 de Agosto de 2002) / BBC NEWS – Dozens attend radical Muslim rally (25 de Agosto de 2002) / BBC NEWS – Waiting for the fatwa (15 de Agosto de 2002) / BBC News – UK ‘terror target’ claim dismissed (7 de Janeiro de 2002) / Telegraph – Cleric supports targeting children (5 de Setembro de 2004) / As Causas dos Atentados Suicidas (um artigo de Alan Dershowitz, 6 de Agosto de 2004).
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