“if it bleeds it leads”
ou o jornalismo “por arrastamento”

No princípio de 1995 as primeiras páginas da Imprensa e as aberturas dos jornais televisivos davam conta de um país à beira de um ataque de nervos. A acreditar nos media, uma intensa onda de criminalidade varria o país de norte a sul, criando um sentimento de insegurança nunca antes experimentado em Portugal. Na revista onde na altura trabalhava foi criada uma “task force” de oito jornalistas – um grupo para o qual fui chamado – com a missão de investigar o fenómeno e, no curto espaço de menos de uma semana, escrever um “dossier aprofundado” sobre a insegurança em Portugal. Dividido o trabalho, coube-me falar com alguns especialistas académicos – leia-se sociólogos –, para tentar perceber que tipo de leitura se podia fazer do fenómeno, e escrever uma peça ilustrativa, de “folclore”, sobre uma noite de sexta-feira passada numa das mais “movimentadas” esquadras de polícia da grande Lisboa.
A análise dos sociólogos com quem falei na altura coincidia com os números oficiais da criminalidade: não existia um aumento de criminalidade, garantiam, mas apenas um aumento da percepção da criminalidade existente. Isto, explicado em poucas palavras, quer apenas dizer que uma notícia de crime na TV propaga o sentimento de insegurança a uma vasta audiência – ou melhor, segundo a análise sociológica: ao fazer eco de um incidente isolado sem qualquer preocupação de enquadramento, uma notícia de crime faz com que o espectador/leitor se identifique com a vítima e, mesmo que esteja a mais de 500 quilómetros do local onde ocorreu o crime, multiplica a sua própria percepção da criminalidade, distorcendo muitas vezes a realidade que o circunda. Esta leitura nem sempre pode ser tomada de um modo literal, uma vez que depende de inúmeros factores, que vão da qualidade do trabalho jornalístico à realidade crua das estatísticas criminais. Mas naquela época, há 10 anos, não podia ser mais exacta, uma vez que os números oficiais chegavam a apontar para um decréscimo da criminalidade.
Convém abrir aqui um parêntesis para abordar brevemente a própria instabilidade destas estatísticas oficiais, uma vez que elas se referem apenas a queixas apresentadas junto das polícias (PSP, Judiciária e GNR) que, de uma forma ou outra, estão elas próprias dependentes de factores diversos, como a “visibilidade” de certos crimes, ou mesmo os custos emocionais que determinada queixa acarreta. Um exemplo concreto: após a abertura e consequente mediatização do Processo Casa Pia, o número de queixas contra pedófilos aumentou exponencialmente, não porque Portugal subitamente se transformara num país de violadores de crianças, mas simplesmente porque o processo em si sensibilizara a sociedade, lançando um holofote intenso para numa área onde as queixas-crime tinham ficado durante décadas muito aquém de traduzir um retrato fiel da realidade social. Outro exemplo é dado pelos casos de violação, onde alterações significativas no Código Penal modernizaram a padronização e enquadramento legal do crime, retirando à mulher violada o estigma que uma legislação quasi-medieval lhe conferira durante séculos. Nestes dois casos, tal como em muitos outros, um crescimento súbito nas estatísticas oficiais do crime não reflecte necessariamente um aumento da prática do crime em si, mas pode simplesmente ser o resultado prático da sua maior visibilidade social.
Regressando a 1995 e à reportagem de fundo sobre a tal “onda de criminalidade”. A menos de dois dias do fecho da edição, passei uma noite numa esquadra da periferia de Lisboa – aquela que supostamente seria a “Hill Street” da capital –, de sexta-feira para sábado, procurando estórias que supostamente ilustrassem a premissa maior do trabalho. Depois de oito horas a deambular por bairros degradados em carros-patrulha, com polícias afáveis dispostos a mostrar a dureza da zona (“isto tem dias”, diziam eles, fazendo questão de acrescentar que “mesmo assim não é tão mau como o pintam”), regressei à redacção com um bloco de apontamentos recheado de nada. Ou melhor, de nada do que se queria para a reportagem em causa. E foi isso que escrevi. O meu texto acabou por não ser publicado, porque simplesmente não se encaixava no fluxo que desde início se pretendera imprimir ao trabalho. A ideia central da reportagem, afinal, não era uma tentativa de perceber se existia ou não uma “onda de criminalidade”. A ideia tinha sido simplesmente a de transpor para as páginas da revista uma versão escrita do que debitavam as televisões. Era o “jornalismo por arrastamento” no seu melhor. E teve direito a capa, na edição 102, de 2 de Março de 1995.
Mesmo assim, gostava de acrescentar que a redacção desta revista foi a mais profissional, competente e democrática em que trabalhei ao longo dos meus 16 anos de jornalismo.
Obviamente, escrevo isto no seguimento de várias leituras sobre o agora célebre “arrastão” de Carcavelos e da forma como uma cobertura mediática desastrosa moldou a percepção dos acontecimentos – um tema dissecado de forma bastante lúcida no blog O Céu Sobre Lisboa, com uma série de posts que merecem uma leitura atenta: aqui, aqui, aqui, aqui e aqui (a ler ainda este post de Miguel Vale de Almeida).
Foi através d’O Céu Sobre Lisboa que cheguei ao documentário de Diana Andriga Era uma vez um Arrastão (que parece estar temporariamente off-line).
Por último, queria apenas notar a ironia suprema que transpira do nome de família de um dos organizadores da manifestação xenófoba e racista “pós-arrastão” realizada em Lisboa. Entre os gritos de “Portugal aos portugueses”, Mário Machado evocava “a expulsão dos mouros e dos espanhóis” como exemplo a seguir “para os pretos”. Esqueceu-se dos judeus. Sem o saber, o senhor Mário Machado (um assassino condenado e cadastrado) regurgitava alguns dos mesmos argumentos primários usados há cinco séculos pelos antisemitas para expulsar os judeus portugueses – ou melhor, para os obrigar a uma conversão ao catolicismo imposta sob pena de morte. No vocabulário racista e antisemita, o estrangeiro é, acima de tudo, definido pela diferença – na cor da pele, na religião, nos costumes. No caso dos judeus portugueses, que se fixaram pela primeira vez no espaço geográfico de Portugal há mais de 2500 anos, nem as inúmeras gerações nascidas no país, ainda antes da formação da nacionalidade, garantiam que não deixassem de ser vistos como estrangeiros. E foi assim que, há pouco mais de 500 anos, a família ancestral do senhor Mário Machado foi forçada a esconder o seu judaísmo sob um catolicismo de fachada que lhe mereceria a alcunha de “marranos”. Inconsciente da sua própria história familiar, Mário Machado é hoje um neo-nazi encartado, um racista e antisemita que cospe na sepultura dos seus próprios antepassados. (Ver ainda Jewish Encyclopedia – Machado Portuguese Jewish Family Name e Uriah (Machado) Levy – O judeu português que salvou Monticello).

Monticello, mansão de Thomas Jefferson, terceiro presidente dos Estados Unidos: inscrição no túmulo de Raquel Machado (1769-1839), sepultada em Monticello, explicando a ligação das famílias judaicas Levy e Machado à propriedade. O original ampliado pode ser visto aqui, acompanhado por uma explicação.
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