
“Não são as vitórias da União mas sim as da Liberdade que devemos celebrar, meus amigos. O que é união quando existe degradação humana? Quem ousaria afixar novamente o selo à amarra que consignou milhões ao cativeiro? Não eu, o escravo alforriado de Mizraim [Egipto]. Nem vós, cujo lema é progresso e civilização.” Escrito nas páginas do Philadelphia Inquirer, a 25 de Novembro de 1864, ainda em plena guerra civil americana, este parágrafo em defesa do fim da escravatura definia a essência da visão humanista do seu autor: Sabato Morais, rabino da Sinagoga Portuguesa Mikveh Israel, de Filadélfia, nos Estados Unidos.
Um dos mais influentes rabinos da história do judaísmo americano, Sabato Morais era descendente de judeus “marranos” portugueses forçados ao exílio para escapar à Inquisição. Nascido em Livorno, Itália, na segunda década do século XIX, Sabato era filho de Samuel Morais – um comerciante de parcos meios –, que desde cedo incutiu nos filhos o gosto pela leitura, pelas línguas e pela política. Sabato Morais cresceu a falar e a ler português em casa e italiano, latim e hebraico na escola.
Samuel Morais era um fervoroso militante do movimento republicano e foi preso por diversas vezes por causa das suas opiniões políticas, o que obrigou Sabato, o seu filho mais velho, a contribuir desde muito novo para o sustento da família, dando aulas de hebraico e ensinando outras crianças da sua idade a ler os livros de orações na sinagoga. O expediente que servia para ajudar a renda familiar acabaria por marcar o seu futuro: em 1845, com apenas 22 anos, é ordenado rabino, depois vários anos de treino sob a alçada dos rabis Abraham Baruch Piperno, Abraham Curiat, Isaac Alvarenga e Angiolo Funaro.
Pouco depois da ordenação Sabato Morais opta por abandonar a Itália, viajando até Londres, onde se candidata ao cargo de rabino assistente da Sinagoga Portuguesa Bevis Marks, a maior e mais antiga congregação sefardita britânica. Depois de falhar inicialmente os seus intentos, em parte devido à sua pouca fluência na língua inglesa, Sabato regressaria a Londres um ano depois, em 1846, para ensinar hebraico na Escola dos Órfãos Portugueses, uma instituição ligada à mesma sinagoga. Em Londres, Sabato Morais conhece e torna-se amigo de Sir Moses Montefiore e de Giuseppe Mazzini, o líder republicano italiano (e membro da Carbonária) inspirador de Garibaldi. Partilhando os ideais republicanos do pai, e também a militância maçónica, segundo alguns historiadores, Sabato Morais, terá mesmo emprestado o seu passaporte a Mazzini para ele poder regressar a Itália sem ser preso.
Em 1851, após alguma hesitação, Sabato Morais parte de Londres em direcção aos Estados Unidos para se tornar rabino da Sinagoga Portuguesa Mikveh Israel, de Filadélfia, na época uma das mais influentes congregações do judaísmo americano.

Nos EUA, este descendente de judeus portugueses encontraria um terreno fértil para a luta pelos seus ideais políticos e humanistas. Desde logo junta a sua voz ao coro de intelectuais abolicionistas, exigindo o fim da escravatura. Remando contra a corrente de outros líderes religiosos do seu tempo, Sabato Morais envolveu-se directamente na batalha política em defesa da firme separação entre a religião e o Estado. Enquanto vice-presidente da Alliance Israelite Universelle, teve também um papel activo na resposta à perseguição de judeus em Marrocos, na Roménia e na Rússia e escreveu artigos inflamados contra os célebres raptos de Edgardo Mortara e Joseph Coen, duas crianças judias italianas retiradas aos seus pais e baptizadas à força com o consentimento do Vaticano.
Em paralelo, Sabato Morais prosseguiu uma invejável carreira académica, leccionando no Maimonides College e University of Pennsylvania. O seu nome ficaria também intimamente ligado ao Jewish Theological Seminary, que Sabato Morais fundou com Henry Pereira Mendes, na altura rabino da Shearith Israel, a Sinagoga Portuguesa de Nova Iorque (a mais antiga sinagoga da América do Norte, fundada em 1654).
Ao contrário da abolição da escravatura, outra causa apadrinhada por Sabato Morais não teve tanto sucesso: a abolição da pena de morte nos Estados Unidos. Sobre isto transcreve o Philadelphia Inquirer de 8 de Dezembro de 1865:

“(…)Mas uma outra lição deverá o mundo receber das nossas mãos; tal como proclamou o antigo sábio hebreu, um tribunal que condena um homem à morte, nem que seja uma vez em setenta anos, merece a nossa reprovação.(…) A civilização apela-vos, como um povo livre, a apagar este vestígio de épocas bárbaras, e a humanidade ecoa esse chamamento. Mais do que a exibição dos colossais poderes, mais do que as proezas dos exércitos, o reconhecimento imortal será adquirido quando à abolição da escravatura se juntar o fim da pena capital.”
Sabato Morais morreu a 12 de Novembro de 1897, aos 74 anos. O seu funeral levou às ruas de Filadélfia dezenas de milhares de pessoas e os jornais da época classificaram-no como “o maior que a cidade alguma vez viu”. Por ocasião da sua morte, o Yudishe Gazeten, o primeiro jornal em língua Yiddish dos EUA, publicou um obituário assinado pelo jornalista e escritor Kasriel Sarasohn, classificando Sabato Morais como “der grester fun ale ortodoksishe rabonim in Amerike . . . on sofek” (“ o maior de todos os rabinos ortodoxos da América… sem nenhuma dúvida”) e o New York Times escreveu na mesma altura: “O doutor Sabato Morais foi o mais eminente rabino deste país e os seus discursos foram sempre um factor de poder e vigor em discussões de vasta importância e interesse para milhões de pessoas; um pensador, escritor e orador destemido, incisivo e profundo.”
No livro United States Jewry 1776-1985, o historiador Jacob Rader Marcus descreve Sabato Morais como “um homem imensamente culto e idealista que deixou uma marca profunda na história tanto do judaísmo americano como da própria América”.

::A LER:: University of Pennsylvania Library Collections – Sabato Morais Ledger / Congregation Mikveh Israel / The Story of Mikveh Israel Cemetery / Mikveh Israel: Philadelphia, PA (postal) / Mikveh Israel / Jewish Theological Seminary
License
This work is published under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 2.5 License.
One thought on “O rabino abolicionista”
Comments are closed.