
Não vejo hoje, nas cores do céu, esse azul que,
por vezes, se encontra nos horizontes de setembro. E
se a manhã nasceu enevoada, obrigando cada um a
olhar para dentro de si, é porque também o espírito
sente a opressão obscura do infinito. Com efeito,
o que ultrapassa os limites do conhecimento
pode obrigar-nos a não ver as cores mais puras;
e uma análise atenta da matéria leva-nos ao coração
da sombra, como se estivesse aí o segredo
do ser. Porém, há sempre alguma coisa que
nos lembra que as nuvens podem passar; e que,
para lá das impressões de hoje, o sol irá
voltar ao centro do universo. Então, mesmo que
se trate de uma ilusão de óptica, e que para lá
de nós outras galáxias nos afastem do sonho
da eternidade, ao menos por um instante
teremos saboreado um gosto divino.
Nuno Júdice (poema inédito)
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