Saudades

O Francisco escreveu hoje uma frase notável: “Vamos desaparecendo, aos poucos.” A aparente simplicidade destas quatro palavras esconde nas entrelinhas um abismo estratificado de emoções. Foi pelo blog do Francisco, e com esta frase, que fiquei a saber esta madrugada da morte do Cáceres. A minha primeira reacção foi de profundo choque. Mais do que um director, mais do que um chefe, o Cáceres era um amigo – é a ele que devo grande parte da minha carreira, desde que, em 1990, me foi buscar para trabalhar n’O Jornal.
A distância tem o condão de funcionar muitas vezes como uma lupa de emoções, ampliando o bom e o mau – geralmente o mau –, multiplicando a angústia da ausência, aguçando os sentidos. Já não via o Cáceres há mais de seis anos. Mas quando li as notícias que contavam a sua morte foi como se ainda ouvisse a sua inimitável voz ao meu lado, galgando tempo e espaço. A morte dos amigos traz-nos lágrimas e funciona como um espelho onde vemos invariavelmente reflectida a inevitabilidade do nosso próprio fim. Quando desaparecem os amigos, desaparecemos também nós. Aos poucos.
Cáceres, camarada, vou ter saudades tuas.


Carlos Cáceres Monteiro (Lisboa, 9 de Agosto de 1948 – Lisboa, 03 de Janeiro de 2006)

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