Perder um líder: uma perspectiva israelita


(…) E de repente tudo mudou. A mudança podia ouvir-se no tom de voz dos jornalistas, podia ver-se nos seus rostos, podia ler-se nos jornais em hebraico e nas suas actualizações na Internet. Algo estava errado. Muito errado. E ainda se pode ver, esta manhã, nos rostos de estranhos quando se caminha nas ruas.
Quer ele viva ou morra, nós estamos já de luto. Todos nós – os que sempre gostaram de Sharon, aqueles que nunca gostaram dele e o vasto número de israelitas que em tempos o vilipendiaram, mas que nos últimos anos olharam com espanto à medida que ele personificava a palavra “líder”.
Sim, ele tinha defeitos, sim, houve escândalos, ele estava longe de ser perfeito. Mas era um líder. Nós tínhamos um líder. E não temos mais.
Estes são ecos dos sentimentos que tivemos há dez anos, quando perdemos Yitzhak Rabin. É claro, desta vez não se trata de um assassinato, de violência interna, da mesma intensa perplexidade, ou do mesmo sentido de tragédia nacional.
Mas algo muito semelhante está a acontecer a nível emocional, do sentimento de estar num buraco de insegurança que resulta do facto do país não ter ninguém à frente neste momento. E nós não sabemos quem será o próximo líder verdadeiro. Se quisermos ser freudianos, pode dizer-se que estamos a perder uma figura paterna.
De esquerda ou de direita, mesmo se acreditarmos que homens como Yitzhak Rabin ou Ariel Sharon foram maravilhosos – ou se acharmos que eles estiveram completamente errados, completamente enganados, foram demasiado violentos ou completamente corruptos, nunca se pode duvidar nem por um minuto que a sua principal prioridade foi a segurança e o bem-estar do Estado de Israel e dos seus cidadãos. Cada sucesso e cada erro seu vinha da sua determinação de ver o país sobreviver, prosperar e ter sucesso. Com figuras destas como primeiro-ministro, nós sentíamos que havia alguém a olhar por nós. E quando eles subitamente desaparecem, pela mão de um assassino ou pela mão caprichosa do destino, ficamos devastados, profundamente inseguros e preocupados com o futuro.
E por isso nos preocupamos, vemos e esperamos, incapazes de deixar passar uma hora sem ver televisão, sem ouvir rádio ou ir à Internet.
Ele ainda está vivo; é uma boa notícia. Mas isso não altera o facto de, na maneira em que precisamos de Ariel Sharon, nós já o perdemos. Aqueles que acreditam em milagres rezam agora por um. Aqueles que não acreditam em milagres gostariam agora de acreditar.”

Um texto da jornalista israelita Allison Kaplan Sommer, autora do blog An Unsealed Room.

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