500 Anos: O massacre de Lisboa IV

Testemunhos


A Matança de Portugal. Ano 5266 1. Não bastou have-los trazido com tanta sem razão e injustiça à sua fé afastando-os da Lei com que nasceram, mas ainda assim não os deixavam viver quietamente, denostando-os, injuriando-os, abatendo-os, e tratando-os com baixeza e desprezo, e isto não o levaram em paciência, e lhes levantavam aleives e falsos testemunhos para os destruir e arrancar do mundo, pregando os pregadores nos púlpitos, e dizendo os senhores em lugares públicos, e os cidadãos e vilãos nas praças, que qualquer fome, peste ou terremoto que vinha à terra era por não serem bons cristãos: e que secretamente judaizavam; Assim que alcançando alguns intrínsecos amigos a vontade do povo quanto inclinada estava em seu dano, acharam aparelho para meterem em efeito seus maus ânimos, entre os quais ouve dois frades dominicanos que saíram pela cidade de Lisboa com crucifixos às costas amotinando o povo e clamando que viessem todos em sua companhia vingar a morte do seu deus, e com muitos perversos ociosos e briguenta gente que a eles se recolheram, com lanças e espadas nuas em suas mãos arremetendo contra o fraco e desprovido povo dos mal baptizados e novos cristãos mataram quatro mil almas deles, roubando e viando todas aquelas crueldades que em um saque de uma cidade se fazem, atassalhando os homens arremessando as criaturas às paredes e desmembrando-as, desflorando as mulheres e corrompendo as virgens, e sobre isto tirando-lhes a vida. Houve muitas que prenhes as lançaram das janelas sobre as pontas das lanças que já embaixo as estavam esperando, e ali atalhavam o caminho às inocentes criaturas antes que arribassem ao mundo onde o céu piedoso as mandava: entre elas se achou uma que esforçando a muita ira e sua honra a um frade que a queria forçar matou com uma faca que o mesmo frade trazia. Se este assim terrível mal durara daquele ímpeto acabavam todos os novos cristãos que na cidade de Lisboa habitavam, mas provendo a misericórdia divina, com as justiças da terra acudiram, e trás isso el rei que com grande diligência veio a socorro da vila de Abrantes onde então se achava cessou aquela matança tenebrosa.”

Samuel Usque (1492-?), in Consolação às Tribulações de Israel. Historiador e escritor, judeu nascido em Lisboa, Usque era primo do pintor e tipógrafo lisboeta Abraão Usque. Fruto das perseguições de que foram vítimas em Portugal, ambos emigraram com as famílias para Ferrara, em Itália, onde Samuel publica “Consolação…”, em 1533, dedicando-o a Dona Gracia Mendes, a Senhora (a obra seria mais tarde reeditada em Amsterdão, por volta de 1600). Samuel Usque acaba por emigrar definitivamente para Safed, na Galileia, onde vem a morrer em data incerta.


Samuel Usque, Consolação às Tribulações de Israel, Ferrara, Itália, 07/09/1553

1 O ano dado por Samuel Usque, 5266, refere-se ao calendário hebraico – 1506 da Era Comum.

ADENDA: Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

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