Mazel Tov Francisco!


A vida escondida. Há gente surpreendente, não damos nada por ela e um dia surpreendem-nos, viveram em lugares estranhos, caçaram leões, perderam-se a voltar para casa e nunca mais voltaram, conseguiram ler Saramago ou ganharam um prémio de literatura. Há sempre uma surpresa à nossa espera.”

Longe de Manaus, palavras de Jaime Ramos escritas por Francisco José Viegas (pág. 201)

Dos jornais: “O Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores 2005 foi ontem atribuído ao livro “Longe de Manaus”, de Francisco José Viegas. Trata-se de um dos mais importantes prémios literários portugueses.” Confesso que esta foi a melhor notícia que li nos últimos tempos. Não é todos os dias que um amigo (por quem sempre “dei muito”, ao contrário da citação…) ganha um prémio. Não é todos os dias que um amigo ganha um prémio literário. O maior prémio da literatura portuguesa. Parabéns Francisco!


Tive um namorado que era da direção do Círculo de Cultura Judaica e que começou me ensinando hebraico em iluminuras portuguesas, letra a letra, ele em tronco nu (tinha uma tatuagem, eu lembro), numa cama de um hotel eu de calcinha e camiseta, pronunciando os erres com agá aspirado à mistura, lendo da direita para a esquerda, e então ele ia para junto da janela, São Paulo ao fundo, recortado como numa fotografia de Nova Iorque, e então ele recitava, recitava em hebraico e traduzia. Vestia camisas de flanela e era bom de cama, me levava a restaurantes para comer camarão e frutos do mar, que lhe estavam proibidos, e eu gostava disso. Ele pecava comigo e eu era toda pecado. Mas depois acabou, não me lembro o mês do ano, lembro só que acabou. Ele me dizia que eu tinha o perfume do mel. Era mentira. Devia ser. Perfume de mel é enjoativo. Eu não sou enjoativa, eu sei. A gente se prometeu que nunca terminaria por telefone, pelo menos isso. A gente se promete sempre isso, a gente vê sempre isso nos filmes e diz isso em quartos de hotéis e mesmo na véspera das despedidas. Mas ele telefonou num primeiro domingo cancelando o encontro. Depois telefonou noutros dias cancelando outros encontros. Foda. Vida é foda mesmo. Homens não assim tão interessantes. Não são assim tão inteligentes. Meu nome é Daniela. Sou uma garota urbana, trinta e dois anos, e acho que homens maravilhosos só existem mesmo na literatura, onde não há desperdício de amor. Mas se desperdiça bastante, na vida real. Muito, bastante, de mais.”

Longe de Manaus, Francisco José Viegas (págs. 334 e 335)

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