Outras Guerras

Grozny, na Chechnya, cidade virtualmente arrasada pelos bombardeamentos russos
Desde o colapso do processo de paz de Oslo e do desencadear da intifada de Al-Aqsa, em Setembro de 2000 que o conflito israelo-palestiniano tem gerado opiniões gradualmente mais hostis em relação a Israel. Muitas das criticas centram-se no facto de Israel ser um país desenvolvido, relativamente forte, que usa o seu poderio militar para manter uma ocupação sobre um largo segmento da população palestiniana, politicamente e economicamente desfavorecida. À medida que a violência se torna cada vez mais brutal de ambos os lados, com as assimetrias entre israelitas e palestinianos, registou-se uma degradação gradual tanto do apoio a Israel na Europa como da própria imagem de Israel no mundo.
Sob este prisma, as críticas a Israel são moralmente justificáveis, perfeitamente aceitáveis e legítimas. No entanto, há sérias razões para duvidar que a oposição a Israel se deva exclusivamente às políticas do seu governo face aos palestinianos. A atenção que se volta sobre Israel contrasta de forma gritante com a indiferença passada e presente face a atrocidades cometidas por outros países. A oposição da opinião pública europeia face a Israel deve ser contrastada com o seu silêncio perante continuadas violações dos direitos humanos numa escala significativamente mais elevada praticados, por exemplo, pelas campanhas militares de Slobodan Milosevic no Kosovo e antes na Bósnia. O massacre de mais de seis mil muçulmanos bósnios em Srebrenica, apesar de ter chocado alguns, não motivou manifestações de massas nem levou à “demonização” da Sérvia nem apelos ao boicote de universidades sérvias. Milosevic sentou-se no banco dos réus em Haia, acusado de crimes de guerra, ao mesmo tempo que a opinião pública europeia, e especialmente a esquerda, permaneceu maioritariamente indiferente.
Outro exemplo pode ser encontrado no brutal esmagamento da revolta dos separatistas muçulmanos na Chechnya por parte da Rússia, que apenas ocasionalmente tem sido mencionada por grupos de defesa dos Direitos Humanos. A Imprensa europeia dedica um espaço mínimo à Chechnya e a opinião pública dá também mostras de pouco interesse.
Tanto no caso dos Balcãs como no da Chechnya, o nível da violência e as graves violações dos Direitos Humanos têm sido muito maiores do que aquelas geradas pelo conflito israelo-palestiniano. Mas há mais exemplos.
Entre 1999 e 2005 a guerra na Chechnya provocou a morte de 250 mil civis e 50 mil soldados russos. Das vítimas civis, segundo as estimativas de organizações humanitárias, 40% eram crianças. Em Darfur, no Sudão, milícias árabes apoiadas pelo governo, conhecidas como Janjaweed, massacraram mais de 400 mil pessoas em acções de limpeza étnica e genocídio desde Fevereiro de 2003.
Então porquê só Israel e não também a Rússia, a Sérvia, o Sudão ou mesmo a China, a Índia e o Paquistão?
Excerto do meu ensaio Novo Antisemitismo? As Novas Faces do Mais Antigo Ódio do Mundo, publicado na Rua da Judiaria a 8 de Março de 2004.
::A LER:: Kontratempos: O anti-semitismo depois do anti-semitismo (um excelente texto de Tiago Barbosa Ribeiro) / O Jansenista: O anti-semitismo e a direita / Blasfémias: A Permanente Encenação / Água Lisa: As Costas LArgas do Anti-Sionismo (João Tunes)
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