Barros Basto

um artigo de Inácio Steinhardt *

“Tudo se ilumina para aquele que busca a Luz”

Não é uma máxima judaica, nem sequer cristã.
É um versículo do “SHAHAR”, o livro básico da doutrina “Oryam”, uma nova religião, que nasceu na cidade do Porto, na década de 1910.
Foi seu fundador e Mestre, um jovem cadete do Exército Português, chamado Arthur Carlos de BARROS BASTO.
Foi ele também o autor do “SHAHAR”, e de mais quatro livros sobre a doutrina do “Oryam”, parte dos quais escritos durante a sua estadia na Flandres, onde, já tenente, comandou um batalhão do Corpo Expedicionário Português, na Primeira Grande Guerra Mundial.
Arthur tinha a obsessão do Fogo e da Luz. Já em pequeno brincava com fósforos, imaginando-se a realizar sacrifícios de uma suposta religião pagã.
A chama eterna e a luz eram um tema constante do ritual do “Oryam”, cujo templo, em lugar improvisado para o efeito, tinha o nome simbólico de Mayan (fonte).
Como se vê, todos estes termos e muitos mais presentes na literatura do “Oryam”, tinham origem hebraica. O próprio nome “Or-Yam”, significa “A Luz do Ocidente”. “Yam” é o mar, e o lado do mar, em relação à Terra de Israel, é o ocidente. Portanto uma luz nascida não no oriente, mas no ocidente.
Uma consulta à imprensa da época, com muitas notícias e entrevistas sobre os actos do culto “Oryam”, faz pensar que, naquela época, o Mestre Barros Basto tinha angariado muitos adeptos. E um estudo da sua doutrina revela uma ideia religiosa sã e muito humana.
No entanto, Barros Basto ficou na história como o “Apóstolo dos Marranos”, denominação que lhe atribuiu o historiador Cecil Roth, no opúsculo em que descreveu os primórdios da sua “Obra do Resgate”.
E está certo: Barros Basto foi um verdadeiro apóstolo dos Marranos, aos quais dedicou a sua vida e padeceu por eles, morrendo na desgraça, quando todos à sua volta estavam convencidos de que a sua Obra tinha sido vencida pelos duros golpes infligidos pelos seus inimigos, de fora e de dentro.
Mas Barros Basto era um homem de fé inabalável. “Adonai li velo irá” (Tenho Deus comigo, por isso não temerei”). Foi sepultado, segundo o seu desejo, com a sua farda de valoroso capitão, e suas medalhas e condecorações obtidas numa brilhante carreira de militar, na implantação da República em 1910, e nas batalhas da Flandres.
“Se lá no assento etéreo onde subiu, memória desta vida se consente”, Barros Basto terá com certeza a prova de que, cá em baixo, a sua Obra não terminou com a sua morte.
Foi apóstolo dos Marranos, mas ele próprio não era um Marrano. Não tenhamos receio de usar esta palavra, que há muito que deixou de ser o termo pejorativo, que foi na sua origem, para se tornar, pelo esforço de Barros Basto, num distintivo de que se podem orgulhar os que a ele têm jus.
Barros Basto não era um Marrano, porque esse termo designa o judeu forçado a converter-se ao cristianismo, cuja família continuou a praticar a religião dos seus pais, em segredo, consciente do perigo de morte em que incorria.
Barros Basto era descendente desses judeus convertidos pela força – revelou-lhe muito em segredo, seu avô, na biblioteca da casa em Amarante, quando ele tinha apenas 8 anos. Era um segredo que, em cada geração, só um membro da família Barros Basto guardava. E o avô, antes de morrer, escolheu Arthur, e não o pai deste, para depositário desse segredo.
A família não guardava qualquer preceito judaico, e, pelo contrário, sua extremosa Mãe era católica muito praticante, que o levava à Igreja, e tinha grande desgosto pela aversão que a criança demonstrava, sem saber porquê, aos círios e às procissões.
Da existência de judeus em Portugal só soube em 1904, quando leu num jornal que havia sido inaugurada uma sinagoga em Lisboa.
Foi nessa sinagoga que ele tentou ser admitido, quando, anos mais tarde, o exército o mandou frequentar um curso na Escola Politécnica, em Lisboa.
Mas os dirigentes da sinagoga dissuadiram-no. Não só porque o judaísmo é adverso a aceitar prosélitos, como porque os judeus de Lisboa se sentiam ainda apenas “tolerados” e temiam ser acusados de missionarismo.
O jovem oficial português não foi às cegas para o judaísmo. Pelos seus próprios meios, como autodidacta, ele estudou profundamente e comparou as principais religiões: além do Judaísmo, o Cristianismo, o Islão, e as doutrinas teosóficas de Madame Blavatsky e de Steiner.
Vendo baldados todos os seus esforços para ser aceite pelos judeus, aos quais, segundo a revelação de seu avô, ele pertencia, Barros Basto entendeu que, para ser um homem digno não era necessário ser admitido na sinagoga.
Foi então que criou o “Oryam”, com elementos do judaísmo e da teosofia, que falavam à sua forma de pensar.
O “Oryam” terminou quando dois factos importantes o fizeram compreender que ser judeu era um estigma a que o mundo exterior o não deixaria escapar.
O primeiro, foi a noiva, que ele havia escolhido, e com quem tencionava casar, que lhe revelou que a família dela nunca a deixaria casar com um judeu.
O segundo foi um evento na Universidade de Coimbra em honra dos heróicos oficiais portugueses das batalhas da Flandres. Um orador salientou o facto de Barros Basto e um membro da nobreza, que também combatera com ele, deviam ser aparentados. O outro levantou-se indignado, para afirmar peremptoriamente que na família dele não havia judeus.
Arthur não hesitou mais. Foi a Tanger, apresentou-se perante um tribunal rabínico, prestou todas as provas de conhecimentos de judaísmo, com que procuram dificultar-lhe a conversão e garantiu-lhes que dali não sairia sem um certificado de conversão.
“Tudo se ilumina para aquele que busca a luz” – ou, por outras palavras nada resiste à vontade firme do Homem. “Querer é poder”.
De regresso a Lisboa, apresentou-se na sinagoga como judeu orgulhoso do seu certificado, ali casou com uma judia, e voltou com ela para o Porto.
Aí reuniu os 17 judeus russos, polacos e alemães, que viviam na cidade, que não tinham sinagoga e só pelas festas vinham a Lisboa. Com eles fundou a Comunidade Israelita do Porto, e alugou um andar para servir de sinagoga, onde logo a seguir celebrou o primeiro casamento de um casal russo.
São insondáveis os desígnios da Providência.
Até essa altura Barros Basto não sabia a missão que lhe estava destinada. Ele nunca tinha ouvido falar em Marranos. Os Marranos, que viviam no Porto, na sua maioria provenientes das aldeias de Trás-os-Montes, é que ouviram falar na sinagoga que abrira na cidade. E tal como ele se apresentara na sinagoga de Lisboa, eles começaram a apresentar-se na sinagoga “Mekor Haim” (Fonte da Vida) na Rua do Poço das Patas.
Foi assim que nasceu a “Obra do Resgate”.
Muito se poderia ainda escrever sobre a obra deste herói do judaísmo.
Mas o pano não chega para mais roupa.
“Tudo se ilumina para aquele que busca a Luz” – foi o lema que continuou da desaparecida religião oryamita para o cabeçalho do jornal que Barros Bastou publicou na sua comunidade judaica, e cujo nome, “Halapid”, O Facho, continua a lembrar a sua paixão pelo Fogo e pela Luz, que existem dentro de cada um de nós.


A Sinagoga Mekor Haim, no Porto, fotografada por Carlos Romão

* Este texto de Inácio Steinhardt, escrito propositadamente e em exclusivo para a Rua da Judiaria, revela uma faceta praticamente desconhecida do Capitão Barros Bastos. Biógrafo de Barros Basto, Inácio Steinhardt é co-autor, com Elvira Azevedo Mea, do livro Ben-Rosh: Biografia do Capitão Barros Basto, o apóstolo dos marranos, publicado em 1997 com chancela das Edições Afrontamento.

License

This work is published under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 2.5 License.