Um conto de Isaac Bashevis Singer (Biography)
(tradução minha, inédita)
Parte IV (ver Parte I; Parte II e Parte III)
De três em três meses um carteiro especial que só entregava vales de correio trazia ao Dr. Fischelson oitenta rublos. Desde o início de Julho que ele esperava a sua verba trimestral, mas os dias foram passando sem que lhe aparecesse o homem alto com bigode louro e botões reluzentes, fazendo com que ele ficasse cada vez mais ansioso. Já praticamente não lhe sobrava um vintém sequer. Quem sabe – possivelmente a comunidade de Berlim rescindira o seu subsídio;
talvez o Dr. Hildesheimer tivesse morrido, Deus queira que não; os correios podem ter cometido um erro. Que todos os acontecimentos tinham a sua causa sabia o Dr. Fischelson. Tudo estava determinado, tudo era necessário, e um homem racional não tinha o direito de se preocupar. Mesmo assim, as preocupações invadiam-lhe o cérebro, zumbindo à sua volta como moscas. Na pior das hipóteses, pensou ele, poderia suicidar-se, mas depois recordou-se que Spinoza não aprovava o suicídio e comparava a loucos aqueles que acabavam com as suas próprias vidas.
Um dia, quando o Dr. Fischelson foi à loja comprar um caderno, ouviu gente a falar da guerra. Algures na Sérvia, um príncipe austríaco tinha sido morto a tiro e a Áustria enviara um ultimato aos sérvios. O dono da loja, um homem novo com barba amarelada e amarelados olhos manhosos, anunciou “então lá vamos ter uma guerrinha”, aconselhando o Dr. Fischelson a armazenar comida porque no futuro era provável que houvesse racionamento.
Tudo aconteceu tão depressa. O Dr. Fischelson ainda não tinha decidido se valia a pena gastar quatro centavos num jornal, quando começaram a aparecer por toda a cidade cartazes a anunciar a mobilização. Viam-se homens a caminhar na rua com pequenas placas metálicas redondas na lapela, sinal de que tinham sido incorporados no exército. Eram seguidos pelas suas mulheres chorosas. Numa segunda-feira, o Dr. Fischelson desceu à rua para comprar comida com o dinheiro que lhe restava mas encontrou as lojas fechadas. Os donos e as suas mulheres estavam na rua, a explicar aos fregueses que era impossível obter mercadorias. Mas alguns fregueses especiais eram chamados à parte e conduzidos ao interior da loja pela porta das traseiras. Na rua tudo era confusão. Viam-se polícias montados a cavalo com espadas desembainhadas. Uma grande multidão juntara-se em volta da taberna onde, a mando do Czar, barris de whisky eram despejados na sarjeta.
O Dr. Fischelson foi até ao seu café do costume. Talvez ali encontrasse algum conhecido que o pudesse aconselhar. Mas não encontrou ninguém conhecido. Decidiu, então, visitar o rabino da sinagoga onde ele em tempos dirigira a biblioteca, mas o secretário informou-o que o rabino fora com a família para as termas. O Dr. Fischelson tinha mais amigos na cidade, mas não conseguiu encontrar ninguém em casa. Doíam-lhe os pés de tanto andar; começou a ver manchas pretas e verdes à frente dos olhos e quase desfaleceu. Parou e esperou que as tonturas passassem. Alguns transeuntes empurraram-no. Uma aluna de liceu com olhos negros tentou dar-lhe uma moeda. Apesar da guerra estar ainda no início, soldados marchavam com farda de batalha – estavam já cobertos de poeira e queimados do sol. Tinham cantis amarrados à cintura e envergavam cinturões de balas sobre o peito. As baionetas das suas espingardas cintilavam com um brilho esverdeado e frio. Cantavam com vozes enlutadas. Com os soldados vinham canhões, cada um puxado por oito cavalos; respirando por entre as palas dos freios um terror sombrio. O Dr. Fischelson sentiu náuseas. Doía-lhe o estômago; os seus intestinos pareciam querer voltar-se do avesso. Suores frios cobriam-lhe o rosto.
“Estou a morrer,” pensou ele. “É o meu fim.” Mesmo assim conseguiu arrastar-se até casa, deitando-se na cama de ferro, onde ficou a ofegar e a gemer. Deve ter adormecido, porque subitamente imaginou que estava na sua terra natal, Tishvitz. Tinha uma dor de garganta e a sua mãe preparava uma meia cheia de sal quente para lhe colocar em volta do pescoço. Conseguia ouvir vozes pela casa; falavam sobre uma vela e como um sapo lhe tinha mordido. Ele queria ir para a rua mas não o deixavam porque estava a passar uma procissão católica. Homens com longas vestimentas, segurando nas mãos machados de dois gumes, entoavam uma melodia em latim ao mesmo tempo que salpicavam água benta. Cruzes reluziam; imagens sagradas eram agitadas nos ares. O ar cheirava a incenso e a cadáveres. Subitamente o céus tornou-se rubro e o mundo inteiro começou a arder. Os sinos repicavam; as pessoas corriam loucamente de um lado para o outro. Bandos de pássaros esvoaçavam ao alto, guinchando. O Dr. Fischelson acordou sobressaltado. O seu corpo cobrira-se de suor e a sua garganta estava agora realmente dorida. Tentou meditar acerca daquele sonho extraordinário, para encontrar a sua ligação racional ao que lhe estava a acontecer e para compreender a sua sub specie eternitatis, mas nada fazia sentido. “Ah, o cérebro é um receptáculo de absurdo,” pensou o Dr. Fischelson. “A terra pertence aos loucos.”
Cerrou as pálpebras outra vez; outra vez se deixou dormir; e outra vez mais sonhou.
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