O Spinoza da Rua do Mercado (VII)

Um conto de Isaac Bashevis Singer (Biography)
(tradução minha, inédita)

Parte VII (conclusão)
(ver Parte I; Parte II; Parte III; Parte IV; Parte V e Parte VI)

No dia em que Dobbe Preta foi ao escritório do rabino e anunciou que ia casar com o Dr. Fischelson, a mulher do rabino pensou que ela tinha enlouquecido de vez. Mas a notícia tinha já chegado ao alfaiate Leizer, espalhando-se pela padaria e pelas outras lojas. Havia os que pensavam que a “solteirona” estava cheia de sorte; o doutor, diziam eles, tinha muito dinheiro. Mas outros garantiam que o velho degenerado lhe havia de pegar sífilis. Apesar do Dr. Fischelson ter insistido numa cerimónia de casamento pequena e simples, uma multidão de convidados compareceu no gabinete do rabino. Os aprendizes do padeiro, que habitualmente andavam pelas ruas descalços, em cuecas e com sacos de papel na cabeça, vestiam agora fatos claros, chapéus de palha, sapatos amarelos, gravatas berrantes e tinham trazido com eles grandes bolos e panelas cheias de bolachas. Tinham mesmo conseguido encontrar uma garrafa de vodka, apesar das bebidas alcoólicas terem sido proibidas em tempo de guerra. No momento em que os noivos entraram no gabinete do rabino os murmúrios da multidão encheram também a sala. As mulheres não queriam acreditar nos seus olhos. A mulher que viam agora diante delas não podia ser a mesma que elas conheciam. Dobbe usava um chapéu de abas largas amplamente adornado com cerejas, uvas e ameixas; o vestido que ela envergava era de seda branca e tinha uma cauda; nos pés tinha sapatos de salto alto, dourados, e do seu fino pescoço pendia um colar de pérolas de imitação. Mas isto não era tudo: os seus dedos reluziam com anéis e pedras brilhantes. O seu rosto estava coberto por um véu. Ela parecia quase uma daquelas noivas ricas que se casam nos salões de Viena. Os aprendizes de padeiro assobiavam e riam. O Dr. Fischelson trazia o seu casaco preto e os sapatos de verniz. Ele quase não conseguia andar, apoiando-se em Dobbe. Quando ele viu a multidão que o esperava dentro do gabinete do rabino, assustou-se e ainda tentou dar uns passos atrás, mas o antigo patrão de Dobbe saltou-lhe ao caminho e disse: “Vá lá noivo. Não se acanhe. Agora isto é tudo família.”
A cerimónia prosseguiu de acordo com a lei. O rabino, que vestia uma velha gabardina de cetim, escreveu o contrato de casamento e depois fez com que os noivos tocassem no seu lenço como sinal de acordo; o rabino limpou então a ponta da sua caneta ao quipá. Alguns moços de recados chamados da rua para fazer quorum seguravam agora, durante a cerimónia, o toldo matrimonial. O Dr. Fischelson envergou uma veste branca, para simbolizar o dia da sua morte, e Dobbe andou à sua volta sete vezes, tal como requeria a tradição. A luz das velas entrançadas chamejava as paredes. As sombras ondulavam. Deitando vinho num cálice, o rabino cantou as bênçãos com uma triste melodia. Dobbe chorou. As outras mulheres seguravam os seus lenços rendados e faziam caretas. Quando os rapazes da padaria começaram a cochichar piadas entre eles, o rabino levantou o dedo em riste à altura dos lábios e murmurou: “Eh nu oh!” como sinal de que era proibido falar. Chegada a altura de colocar a aliança no dedo da noiva, as mãos do Dr. Fischelson começaram a tremer e ele não conseguia localizar os dedos de Dobbe. A seguir, de acordo com a tradição, devia partir-se o copo, mas apesar do Dr. Fischelson o ter pisado várias vezes, ele permanecia inteiro. Finalmente, um dos aprendizes estilhaçou o copo com o seu calcanhar. Até o rabino não conseguiu conter um sorriso. Após a cerimónia, os convidados beberam vodka e comeram bolo e bolachas. O antigo patrão de Dobbe veio ter com o Dr. Fischelson e disse-lhe: “Mazel tov, noivo. Que a sua sorte seja tão boa quanto a sua mulher.” “Obrigado, obrigado”, murmurou o Dr. Fischelson, “mas eu não espero sorte nenhuma.” Ele estava ansioso por regressar o mais depressa possível ao seu quarto no sótão. Sentia uma pressão estranha no estômago e doía-lhe o peito. O seu rosto tornara-se esverdeado. Dobbe subitamente ficou irritada. Levantou o véu e dirigiu-se à multidão de convidados: “De que se estão a rir? Isto não é nenhum espectáculo.” E sem pegar na fronha na qual tinham sido embrulhados os presentes, voltou com o marido aos seus quartos no quinto andar.
O Dr. Fischelson deitou-se na cama feita de lavado no seu quarto e começou a ler a Ética. Dobbe fora para o seu quarto. O doutor explicara-lhe que era já um homem de muita idade, que estava doente e sem forças. Não lhe prometera nada. Ainda assim, ela regressou com um vestido de noite de seda, pantufas com pompons e com o cabelo solto sobre os ombros. Tinha um sorriso acanhado e hesitante no rosto. O Dr. Fischelson estremeceu e a Ética tombou-lhe das mãos. A vela apagou-se. No escuro, as mãos de Dobbe procuraram o Dr. Fischelson. Ela beijou-lhe os lábios. “Meu querido marido”, sussurrou-lhe ela, “Mazel tov.”
O que aconteceu naquela noite pode ser descrito como um milagre. Se o Dr. Fischelson não estivesse convencido que tudo acontece em concordância com as leis da natureza, ele teria pensado que Dobbe Preta lhe lançara um feitiço. Poderes há muito adormecidos acordaram dentro de si. Apesar de ter tomado apenas um pequeno trago do vinho da benção na cerimónia, sentia-se como se estivesse embriagado. Beijou Dobbe e falou-lhe de amor. Citações há muito esquecidas de Klopstock, Lessing, Goethe saiam-lhe dos lábios. As dores cessaram. Abraçou Dobbe, apertou-a contra o seu corpo, era de novo um homem como tinha sido na sua juventude. Dobbe quase desfalecia de deleite; chorando, murmurou-lhe coisas num calão de Varsóvia que ele não compreendia. Mais tarde, o Dr. Fischelson mergulhou no sono profundo que só os homens novos conhecem. Sonhou que estava na Suíça, que escalava montanhas – corria, caía, voava. De madrugada abriu os olhos; pareceu-lhe que alguém soprava no seu ouvido. Dobbe ressonava. O Dr. Fischelson levantou-se da cama cuidadosamente. Na sua longa camisa de noite, aproximou-se da janela, subiu as escadas e olhou para fora maravilhado. A Rua do Mercado estava adormecida, respirando com uma tranquilidade profunda. As lâmpadas de gás piscavam. As negras persianas das lojas estavam cerradas com barras de ferro. Soprava uma brisa fresca. O Dr. Fischelson olhou para o céu. O arco negro estava semeado de estrelas – havia estrelas verdes, vermelhas, amarelas, azuis; havia estrelas grandes e pequenas, umas que piscavam e outras que permaneciam constantes. Havia estrelas aglomeradas em conjuntos e havia estrelas solitárias. Nas altas esferas, aparentemente, pouco importância tinha que um tal Dr. Fischelson, no tempo que lhe restava, casara com alguém a quem chamavam Dobbe Preta. Vista de cima, até a Grande Guerra nada mais era do que uma temporária tragédia de costumes. Uma miriade de estrelas continuou a viajar pelas suas rotas destinadas no espaço infinito. Os cometas, planetas, satélites e asteróides continuaram a circular estes centros brilhantes. No caos das nebulosas, formava-se matéria primordial. De vez em quando, uma estrela soltava-se e varria os céus, deixando um rasto de fogo. Estava-se no mês de Agosto, quando havia chuvas de meteoros. Sim, a substância divina alargava-se e não tinha princípio nem fim; era absoluta, indivisível, eterna, sem duração, infinita nos seus atributos. As suas ondas em ebulição dançavam no caldeirão universal, efervescentes de mudança, seguindo a ininterrupta cadeia de causa e efeito, e ele, o Dr. Fischelson, com o seu inevitável destino, era parte de tudo isto. O doutor cerrou os olhos e deixou que a brisa arrefecesse o suor da sua teste e penetrasse a sua barba. Respirou fundo o ar da madrugada, apoiou as mãos trémulas no parapeito da janela e murmurou: “Divino Spinoza, perdoa-me. Tornei-me um tolo.”

FIM

O Spinoza da Rua do Mercado (VI)

Um conto de Isaac Bashevis Singer (Biography)
(tradução minha, inédita)

Parte VI (ver Parte I; Parte II; Parte III; Parte IV e Parte V)


Conversa no Gueto de Varsóvia, Polónia, inverno de 1938. Fotografia de Roman Vishniac.

O Dr. Fischelson tinha a certeza que iria morrer brevemente. Escreveu um testamento, deixando todos os seus livros e manuscritos à biblioteca da sinagoga. As suas roupas e mobília iam para Dobbe, uma vez que ela tinha tomado conta dele. Mas a morte não veio. Em vez disso, a sua saúde melhorou. Dobbe voltou à sua banca no mercado, mas visitava-os várias vezes ao dia, fazia-lhe sopa, deixava-lhe uma chávena de chá e contava-lhe as notícias da guerra. Os alemães tinham ocupado Kalish, Bendin, Cestechow e marchavam agora em direcção a Varsóvia. Dizia-se que numa manhã sossegada se podia ouvir, ao longe, o estrondo dos canhões. Dobbe contou-lhe que as baixas eram pesadas. “Eles caiem que nem moscas”, disse ela. “Que desgraça para as pobres mulheres.”
Ela não conseguia explicar porquê, mas o quarto do velhote atraia-a. Gostava de tirar das estantes os livros debruados a dourado, de os limpar, e depois de os arejar no parapeito da janela. De vez em quando ela subia os degraus até à janela e espreitava pelo telescópio. Também gostava de conversar com o Dr. Fischelson. Ele falou-lhe da Suíça, onde estudara, das grandes cidades por onde tinha passado, das grande montanhas que se cobriam de neve mesmo no Verão. O seu pai tinha sido um rabino, contou ele, e antes de ter ido para a universidade o próprio Dr. Fischelson tinha estudado num seminário rabínico. Ela perguntou-lhe quantas línguas ele conhecia, ele respondeu-lhe que conseguia falar e escrever em hebraico, russo, alemão e francês, para além do yiddish. Também sabia latim. Dobbe ficava estupefacta que um homem com tanta instrução pudesse viver num sótão na Rua do Mercado. Mas o que mais a espantava era o facto de ele não poder passar receitas, apesar de ter o título de “doutor”. “Porque não se torna um doutor a sério?” perguntou-lhe ela. “Mas eu sou um doutor. Não sou médico, mas sou doutor.” “Que espécie de doutor?” “Doutor de filosofia.” Apesar de não fazer a mínima ideia do que isso significava, ela sentia que devia ser muito importante. “Oh, mas onde é que foi buscar uma cabeça dessas?”, dizia-lhe ela.
Uma noite, depois de Dobbe lhe ter um copo de leite com bolachas, ele começou a fazer-lhe perguntas: de onde tinha vindo; quem eram os seus pais; e porque não se tinha casado. Dobbe ficou surpresa. Nunca ninguém lhe perguntara estas coisas. Ela contou-lhe a sua história em voz baixa e ficou até às onze da noite. O seu pai fora moço de fretes num talho kosher. A mãe depenara galinhas num matadouro. A família viveu numa cave do número 19 da Rua do Mercado. Quando ela tinha dez anos começara a trabalhar como criada. O seu patrão era um receptador que comprava mercadoria roubada aos ladrões na praça. Dobbe tinha um irmão que foi para o exército russo e nunca mais voltou. A irmã casara com um cocheiro de Praga e morrera ao dar à luz. Dobbe contou as batalhas entre o submundo e os revolucionários em 1905; falou-lhe do cego Itche e da sua quadrilha e de como eles cobravam dinheiro aos comerciantes em troca de protecção, dos criminosos que atacavam rapazes e raparigas que passeavam nas tardes de sábado se não lhes dessem dinheiro. Falou também de proxenetas que vagueavam pelas ruas em carroças raptando moças novas para serem vendidas em Buenos Aires. Dobbe jurou até que um homem a tentou seduzir a entrar num bordel, mas que ela conseguiu fugir. Queixou-se de milhares de males de que tinha sido vítima. Tinha sido roubada; tinham-lhe roubado o namorado; uma vendedora sua inimiga vazara um dia gasolina na sua cesta de pão; o seu próprio primo, o sapateiro, tinha-a feito perder uma centena de rublos antes de partir para a América. O Dr. Fischelson ouvia atentamente. Fazia-lhe perguntas, abanava a cabeça, suspirava.
“Bem, acreditas em Deus?” perguntou ele finalmente.
“Não sei”, respondeu ela. “E você acredita?”
“Sim, acredito.”
“Então porque não vai à sinagoga?” perguntou ela.
“Deus está em todo o lado. Na sinagoga. No mercado. Neste mesmo quarto. Nós próprios fazemos parte de Deus”, respondeu ele.
“Não diga essas coisas que me assusta”, disse Dobbe.
Ela saiu do quarto e o Dr. Fischelson ficou com a certeza que ela se tinha ido deitar. Mas ficou sem perceber porque não tinha ela dito “boa noite.” “Assustei-a com a minha filosofia”, pensou ele. Momentos depois ouviu-lhe os passos. Ele entrou no quarto carregando uma pilha de roupa, como se fosse uma vendedora ambulante.
“Queria-lhe mostrar isto. É o meu enxoval”, disse ela. E começou a desdobrar vestidos sobre a cadeira – de lã, de seda, de veludo. Tirando um vestido de cada vez, ela segurava-os contra o seu corpo. Mostrou-lhe tudo o que tinha no enxoval – roupa interior, sapatos, meias.
“Não sou gastadora. Sou muito poupada. Tenho dinheiro suficiente para ir para a América”, disse-lhe ela.
Depois fez-se silêncio e a sua cara ficou vermelha como um tijolo. Ela olhou para o Dr. Fischelson pelo canto do olho, tímida, curiosa. O corpo do Dr. Fischelson começou a tremer como se ele tivesse febre. “Muito bonito… coisas muito bonitas”, disse ele. Com as sobrancelhas arqueadas, puxou pela barba com dois dedos. Um sorriso triste apoderou-se da sua boca desdentada e os seus grandes olhos agitados, olhando à distância através da janela do sótão, sorriam também melancolicamente.

(continua…)

O Spinoza da Rua do Mercado (V)

Um conto de Isaac Bashevis Singer (Biography)
(tradução minha, inédita)

Parte V (ver Parte I; Parte II; Parte III e Parte IV)


O Gueto de Varsóvia, Polónia, inverno de 1938. Fotografia de Roman Vishniac.

As leis eternas, aparentemente, não tinham ainda ordenado o fim do Dr. Fischelson.
À esquerda da entrada do quarto do Dr. Fischelson havia uma porta que dava para um corredor escuro, apinhado de caixas e cestos, no qual um cheiro a cebola frita e sabão azul e branco estava sempre presente. Atrás desta porta vivia uma solteirona a quem os vizinhos chamavam Dobbe Preta. Dobbe era alta, magra e morena como a pá de um padeiro. Tinha o nariz partido e por cima do lábio despontava um bigode. A sua voz era rouca e masculina e usava sapatos de homem. Durante anos, Dobbe Preta vendera pão que comprava ao padeiro da esquina. Mas um dia zangou-se com o padeiro e mudara-se para o mercado, onde agora vendia “amassados”, um nome que o povo dava a ovos rachados. Dobbe Preta não tinha sorte com os homens. Ficara noiva duas vezes de aprendizes de padeiro mas duas vezes acabara o noivado. Algum tempo depois ficou noiva de um velho, um vidreiro que lhe dissera ser divorciado, mas que mais tarde se descobriu ainda ter mulher. Dobbe Preta tinha um primo na América, um sapateiro, que ela sempre dizia que um dia lhe havia de mandar uma passagem. Mas ia ficando por Varsóvia. As mulheres da vizinhança provocavam-na dizendo: “Já não há esperança para ti, Dobbe. Vais morrer velha e solteira.” Dobbe respondia sempre: “Não quero ser escrava de um homem qualquer. Eles que apodreçam todos.”
Naquela tarde Dobbe recebeu uma carta da América. Habitualmente ela pedia a Leizer, o alfaiate, que lhe lesse a correspondência. Mas naquela tarde Leizer não estava na loja, por isso Dobbe pensou no Dr. Fischelson, que os vizinhos pensavam ser um converso por nunca ir rezar à sinagoga. Ela bateu à porta do quarto do doutor mas não houve resposta.
“O herege saiu”, pensou Dobbe mas, mesmo assim, bateu novamente e, desta vez, a porta moveu-se ligeiramente. Ela empurrou-a ainda mais e entrou, assustada. O Dr. Fischelson jazia na sua cama completamente vestido; a sua cara estava amarela como cera; a maçã de Adão quase que lhe saltava do pescoço; a sua barba apontava para cima. Dobbe gritou; tinha a certeza que ele estava morto, mas – não – o seu corpo mexeu-se. Dobbe pegou num copo que estava em cima da mesa e correu para o encher à torneira, trazendo-o para a beira da cama e atirando a água à cara do homem inconsciente. O Dr. Fischelson abanou a cabeça e abriu os olhos.
“Que se passa consigo? Está doente?” perguntou Dobbe.
“Muito obrigado! Não!”
“Tem família? Posso ir chamá-los.”
“Não tenho família,” disse o Dr. Fischelson.
Dobbe queria ir ao outro lado da rua chamar o barbeiro, mas o Dr. Fischelson insistiu que não queria a ajuda do barbeiro. Uma vez que Dobbe não ia nesse dia ao mercado, uma vez que não havia “amassados” para comprar ou vender, ela decidiu fazer uma boa acção. Ajudou o doente a sair da cama e colocou-lhe um cobertor sobre os ombros. Depois despiu o Dr. Fischelson e preparou-lhe uma sopa no fogão a petróleo. O sol nunca entrava no quarto de Dobbe, mas aqui os raios de sol desenhavam rectângulos luminosos nas paredes desbotadas. O chão estava pintado de vermelho. Por cima da cama estava pendurada a imagem de um homem de cabelo comprido com um enorme colarinho de folhos. “Um homem de tanta idade mas, mesmo assim, tem o quarto tão asseado e arrumado,” pensou Dobbe. O Dr. Fischelson pediu-lhe a Ética e ela deu-lhe o livro a contragosto. Estava convencida que se tratava de um livro de orações dos gentios. Depois começou a arrumar o quarto, varreu o chão e trouxe um balde de água. O Dr. Fischelson comeu; depois de terminar, estava com mais forças e Dobbe pediu que ele lhe lesse a carta.
Ele leu-a devagar, com o papel a tremer-lhe nas mãos. Vinha de Nova Iorque, do primo de Dobbe. Uma vez mais ele escrevia que lhe havia de mandar “uma carta muito importante” e um bilhete para a América. Dobbe já sabia a história de cor e até ajudou o velhote a decifrar os rabiscos do seu primo. “Ele está a mentir”, disse Dobbe. “Há muito tempo que ele se esqueceu de mim.” Dobbe voltou à noite. Uma vela num candelabro de bronze ardia na cadeira ao lado da cama. Sombras avermelhadas tremiam nas paredes e no tecto. O Dr. Fischelson estava sentado na cama, a ler um livro. A vela lançava uma luz dourada sobre a sua testa, que parecia fendida em duas metades. Um pássaro voara pela janela e pousara na mesa. Por um momento Dobbe ficou com medo. Este homem fazia-a pensar em bruxas, espelhos negros, cadáveres a vaguear pela noite e mulheres aterradoras. Mesmo assim, deu alguns passos na direcção dele e perguntou: “Então, como se sente? Está melhor?”
“Sim, um pouco melhor, obrigado.”
“É verdade que é um converso?” perguntou ela sem compreender muito bem o que a palavra significava.
“Eu, um converso? Não, sou um judeu como qualquer outro judeu”, respondeu-lhe o Dr. Fischelson.
A garantia do doutor fez com que Dobbe se sentisse mais em casa. Procurou a garrafa de petróleo e acedeu o fogão, depois foi a casa buscar um copo de leite para fazer papas de farinha. O Dr. Fischelson continuou a estudar a Ética, mas naquela noite ele não estava com cabeça para os teoremas e provas com as suas muitas referências a axiomas, definições e outros teoremas. Com as mãos trémulas ele ergueu o livro à altura dos olhos para ler: “A ideia de uma afecção qualquer do corpo humano não implica um conhecimento adequado do corpo exterior… A ideia de uma afecção qualquer da mente humana não implica um conhecimento adequado da mente humana.”

(continua…)

O Spinoza da Rua do Mercado (IV)

Um conto de Isaac Bashevis Singer (Biography)
(tradução minha, inédita)

Parte IV (ver Parte I; Parte II e Parte III)

De três em três meses um carteiro especial que só entregava vales de correio trazia ao Dr. Fischelson oitenta rublos. Desde o início de Julho que ele esperava a sua verba trimestral, mas os dias foram passando sem que lhe aparecesse o homem alto com bigode louro e botões reluzentes, fazendo com que ele ficasse cada vez mais ansioso. Já praticamente não lhe sobrava um vintém sequer. Quem sabe – possivelmente a comunidade de Berlim rescindira o seu subsídio; talvez o Dr. Hildesheimer tivesse morrido, Deus queira que não; os correios podem ter cometido um erro. Que todos os acontecimentos tinham a sua causa sabia o Dr. Fischelson. Tudo estava determinado, tudo era necessário, e um homem racional não tinha o direito de se preocupar. Mesmo assim, as preocupações invadiam-lhe o cérebro, zumbindo à sua volta como moscas. Na pior das hipóteses, pensou ele, poderia suicidar-se, mas depois recordou-se que Spinoza não aprovava o suicídio e comparava a loucos aqueles que acabavam com as suas próprias vidas.
Um dia, quando o Dr. Fischelson foi à loja comprar um caderno, ouviu gente a falar da guerra. Algures na Sérvia, um príncipe austríaco tinha sido morto a tiro e a Áustria enviara um ultimato aos sérvios. O dono da loja, um homem novo com barba amarelada e amarelados olhos manhosos, anunciou “então lá vamos ter uma guerrinha”, aconselhando o Dr. Fischelson a armazenar comida porque no futuro era provável que houvesse racionamento.
Tudo aconteceu tão depressa. O Dr. Fischelson ainda não tinha decidido se valia a pena gastar quatro centavos num jornal, quando começaram a aparecer por toda a cidade cartazes a anunciar a mobilização. Viam-se homens a caminhar na rua com pequenas placas metálicas redondas na lapela, sinal de que tinham sido incorporados no exército. Eram seguidos pelas suas mulheres chorosas. Numa segunda-feira, o Dr. Fischelson desceu à rua para comprar comida com o dinheiro que lhe restava mas encontrou as lojas fechadas. Os donos e as suas mulheres estavam na rua, a explicar aos fregueses que era impossível obter mercadorias. Mas alguns fregueses especiais eram chamados à parte e conduzidos ao interior da loja pela porta das traseiras. Na rua tudo era confusão. Viam-se polícias montados a cavalo com espadas desembainhadas. Uma grande multidão juntara-se em volta da taberna onde, a mando do Czar, barris de whisky eram despejados na sarjeta.
O Dr. Fischelson foi até ao seu café do costume. Talvez ali encontrasse algum conhecido que o pudesse aconselhar. Mas não encontrou ninguém conhecido. Decidiu, então, visitar o rabino da sinagoga onde ele em tempos dirigira a biblioteca, mas o secretário informou-o que o rabino fora com a família para as termas. O Dr. Fischelson tinha mais amigos na cidade, mas não conseguiu encontrar ninguém em casa. Doíam-lhe os pés de tanto andar; começou a ver manchas pretas e verdes à frente dos olhos e quase desfaleceu. Parou e esperou que as tonturas passassem. Alguns transeuntes empurraram-no. Uma aluna de liceu com olhos negros tentou dar-lhe uma moeda. Apesar da guerra estar ainda no início, soldados marchavam com farda de batalha – estavam já cobertos de poeira e queimados do sol. Tinham cantis amarrados à cintura e envergavam cinturões de balas sobre o peito. As baionetas das suas espingardas cintilavam com um brilho esverdeado e frio. Cantavam com vozes enlutadas. Com os soldados vinham canhões, cada um puxado por oito cavalos; respirando por entre as palas dos freios um terror sombrio. O Dr. Fischelson sentiu náuseas. Doía-lhe o estômago; os seus intestinos pareciam querer voltar-se do avesso. Suores frios cobriam-lhe o rosto.
“Estou a morrer,” pensou ele. “É o meu fim.” Mesmo assim conseguiu arrastar-se até casa, deitando-se na cama de ferro, onde ficou a ofegar e a gemer. Deve ter adormecido, porque subitamente imaginou que estava na sua terra natal, Tishvitz. Tinha uma dor de garganta e a sua mãe preparava uma meia cheia de sal quente para lhe colocar em volta do pescoço. Conseguia ouvir vozes pela casa; falavam sobre uma vela e como um sapo lhe tinha mordido. Ele queria ir para a rua mas não o deixavam porque estava a passar uma procissão católica. Homens com longas vestimentas, segurando nas mãos machados de dois gumes, entoavam uma melodia em latim ao mesmo tempo que salpicavam água benta. Cruzes reluziam; imagens sagradas eram agitadas nos ares. O ar cheirava a incenso e a cadáveres. Subitamente o céus tornou-se rubro e o mundo inteiro começou a arder. Os sinos repicavam; as pessoas corriam loucamente de um lado para o outro. Bandos de pássaros esvoaçavam ao alto, guinchando. O Dr. Fischelson acordou sobressaltado. O seu corpo cobrira-se de suor e a sua garganta estava agora realmente dorida. Tentou meditar acerca daquele sonho extraordinário, para encontrar a sua ligação racional ao que lhe estava a acontecer e para compreender a sua sub specie eternitatis, mas nada fazia sentido. “Ah, o cérebro é um receptáculo de absurdo,” pensou o Dr. Fischelson. “A terra pertence aos loucos.”
Cerrou as pálpebras outra vez; outra vez se deixou dormir; e outra vez mais sonhou.

(continua…)

O Spinoza da Rua do Mercado (III)

Um conto de Isaac Bashevis Singer (Biography)
(tradução minha, inédita)


Władysław Podkowiński, Avenida Novo Mundo, Varsóvia, durante o Inverno (1892).

Parte III (ver Parte I e Parte II)

Quando o Dr. Fischelson regressou a Varsóvia vindo de Zurique, onde estudara filosofia, houve quem previsse que um grande futuro se abriria à sua frente. Os seus amigos sabiam que ele estava a escrever um importante livro sobre Spinoza. Um jornal judaico polaco convidara-o a escrever artigos de opinião e crítica; era visita frequente de várias famílias de meios e tornara-se director da biblioteca da Sinagoga de Varsóvia. Ainda que na altura já fosse considerado um solteirão razoavelmente entrado nos anos, as casamenteiras tinham-lhe proposto arranjos com várias raparigas ricas. Mas o Dr. Fischelson não aproveitou essas oportunidades. Queria ser tão independente quanto o próprio Spinoza. E na verdade assim o foi. Mas por causa das suas ideias heréticas entrou em conflito com o rabino e foi obrigado a demitir-se do cargo de director da biblioteca. Durante anos, ganhou dinheiro dando aulas privadas de Hebraico e Alemão. Depois, quando adoeceu, a comunidade judaica de Berlim decidiu conceder-lhe um subsídio de quinhentos marcos anuais. Isto foi possível devido à intervenção do famoso Dr. Hildesheimer, com quem ele se correspondia sobre filosofia. O Dr. Fischelson mudara-se para o quarto do sótão e começara a cozinhar as suas próprias refeições num pequeno fogão a petróleo. Tinha um armário com inúmeras gavetas, cada uma delas rotulada com o nome do que continha – trigo, arroz, cevada, cebolas, cenouras, batatas, cogumelos. Uma vez por semana o Dr. Fischelson punha o seu chapéu negro de abas largas, com um cesto numa mão e a Ética de Spinoza na outra, e lá ia ao mercado comprar provisões. Enquanto esperava a sua vez, ia folheando a Ética. Os comerciantes conheciam-no e faziam-lhe sinal para que avançasse até aos balcões.
“Vai um queijinho senhor doutor? Este até derrete na boca.”
“Temos cogumelos frescos, acabadinhos de chegar da floresta.”
“Vá lá minhas senhoras, deixem passar o senhor doutor”, gritava o dono do talho.
Durante os primeiros anos da sua doença, o Dr. Fischelson ainda ia à noite até ao café frequentado por professores de Hebraico e por outros intelectuais. Tornara-se um hábito seu sentar-se por lá a jogar xadrez e a tomar café. Por vezes parava nas lojas da Rua de Santa Cruz onde se podiam comprar baratos todos os tipos de livros e revistas. Numa ocasião, um antigo aluno seu convidara-o para jantar, mas quando o Dr. Fischelson chegou ao restaurante foi surpreendido por um grupo de amigos e admiradores que o forçaram a sentar à cabeça da mesa enquanto faziam discursos sobre ele. Mas tudo isto aconteceu há muito tempo. Agora já ninguém se interessava por ele. Isolara-se completamente até se tornar um homem esquecido. Os acontecimentos de 1905 ainda aumentaram mais o seu isolamento, quando os rapazes da Rua do Marcado começaram a organizar greves, a atirar bombas a esquadras de polícia e a disparar contra os fura-greves de maneira a que as lojas estivessem fechadas até durante os dias de semana. Começou a desprezar tudo o que estivesse associado com o judeu moderno – sionismo, socialismo, anarquismo. Aos seu olhos, os jovens em questão não passavam de uma maralha ignorante decidida a destruir a sociedade – sociedade sem a qual nenhuma existência razoável seria possível. Ainda lia ocasionalmente uma revista em Hebraico, mas sentia um indisfarçável desdém pelo Hebraico moderno, que não tinha qualquer raiz na Bíblia ou na Mishná. A ortografia das palavras polacas também mudara. O Dr. Fischelson concluíra que até os chamados homens espirituais tinham abandonado a razão e estavam a fazer os possíveis para satisfazer a populaça. De vez em quando ainda visitava uma biblioteca e folheava os livros modernos de história da filosofia, mas achava que os professores não compreendiam Spinoza, citavam-no incorrectamente, atribuíam ao filósofo as suas próprias ideias desorganizadas. Apesar do Dr. Fischelson estar bem ciente que a raiva era uma emoção indigna daqueles que caminham na senda da razão, mesmo assim ficava furioso, e rapidamente fechava o livro e voltava a colocá-lo na estante. “Idiotas”, murmurava, “asnos, pretensiosos.” E jurava nunca mais voltar a pôr os olhos em filosofia moderna.

(continua…)

O Pedido

Um Pequeno Conto


“O Cerco de Sebastopol”, 1854, William Simpson, Greenwich Hospital Collection


Contou o rabino Naftali de Ropschitz:
“Durante o cerco de Sebastopol, trotava o czar Nicolau no seu cavalo quando um arqueiro inimigo fez pontaria sobre ele. Um soldado russo, que observava de longe, gritou para assustar o cavalo do czar, que se voltou de repente no exacto momento em que a flecha disparava em sua direcção. Percebendo que fora salvo de morte certa pelo seu soldado, o czar agradeceu ao homem e disse que lhe concederia o desejo que ele quisesse. O soldado não pensou duas vezes: “O nosso sargento é uma besta e bate-me constantemente. Majestade, gostaria de poder ser transferido para uma nova companhia sob as ordens de outro sargento!”
“Idiota!”, respondeu-lhe o czar, “porque não me pedes antes que te faça sargento?”
Nós também somos assim: preocupamo-nos com coisas pequenas, rezamos para suprir as necessidades do momento e esquecemo-nos de ver para além delas.

Rabino Naftali de Ropschitz, Ucrânia, séc. XIX

Parábola sobre a parábola


Reinterpretação da Parábola dos Quatro Filhos, Wolloch Haggadá, David Wander, 1988.

Perguntaram uma vez ao Dubner Maggid: “Porque razão têm as parábolas um efeito tão grande nas pessoas?” Ao que o pregador respondeu: “Posso explicar contando uma parábola.”
E foi esta a parábola que contou;
Há muitos, muitos anos, a Verdade caminhava pelas ruas, nua como no dia em que nasceu. O povo recusava deixa-la entrar nas suas casas naquele estado. Qualquer pessoa com quem ela se cruzasse fugia a sete pés. Vagueava a Verdade com grande tristeza quando um dia se cruzou com a Parábola, que se vestia com roupas de esplêndidas cores. A Parábola perguntou-lhe: “Diz-me amiga, o que te faz andar tão triste?” Ao que a Verdade respondeu: “É terrível, minha irmã. Sou muito velha e por isso ninguém me liga.”
“Não é por causa da tua idade que as gentes não gostam de ti. Eu também sou velha, mas quantos mais anos passam mais as pessoas me apreciam. Deixa-me dizer-te um segredo: o povo gosta de adornos e encobrimento. Vou emprestar-te algumas das minhas roupas e verás como o povo também vai gostar de ti.”
E assim foi. A Verdade seguiu o conselho e vestiu as roupas da Parábola. Desde esse dia, a Verdade e a Parábola passaram a andar sempre juntas e o povo gosta das duas.

Rabino Yakov Krantz (1740-1804), conhecido como “o Pregador de Dubno” (Dubner Maggid), Ucrânia.
in Jewish Preaching 1200-1800, Marc Saperstein, Yale University Press, 1989.

O ceifeiro ladrão e a sua filha

(um pequeno conto)


Judeus de Tunis: família judaica fotografada durante uma cerimónia de Brit-milá.
Postal francês dos finais do século XIX.

Há muitos, muitos anos, um homem foi ao campo roubar trigo e levou a filha com ele para que ela o ajudasse na tarefa. “Filha”, disse ele, “fica aqui na estrada de guarda para que ninguém me veja.” Mas assim que o homem começou a ceifar a filha gritou-lhe: “Pai, estão a ver-te.” O homem levantou a cabeça e olhou para a esquerda, mas como não viu ninguém continuou a ceifar. “Pai, estão a ver-te”, gritou a criança uma segunda vez. O homem levantou a cabeça e olhou para a direita, como nada viu continuou a ceifar. Passados mais uns minutos a menina gritou uma terceira vez: “Pai, estão a ver-te”. O homem olhou para a frente, mas não viu ninguém e continuou a ceifar. “Pai, estão a ver-te”, gritou a filha pela quarta vez. O homem olhou para trás e como não viu ninguém ficou irritado com a criança: “Então filha?! Dizes que me vêem mas eu já olhei em todas as direcções e não vejo ninguém.”
A filha encolheu os ombros: “Mas pai, estão a ver-te dali”, disse ela apontando para o céu.

Conto tradicional dos judeus da Tunísia, publicado pela primeira vez nos finais do século XIX pelo rabino Abba Shaul Haddad. Este conto é muito semelhante a uma outra história tradicional contada pelos judeus da Índia.

Um bolo eternamente sujo (um pequeno conto)

Um velho rico e avarento andava pela rua com um bolo que acabara de comprar quando este lhe caiu das mãos e rolou pela poeira e lama da estrada. Nessa preciso momento, um pedinte passou por ele e pediu-lhe qualquer coisa para comer. O avaro deu-lhe o bolo sujo sem pensar duas vezes, contente consigo próprio por se ter livrando dele. Nessa noite o rico avarento sonhou que estava sentado num enorme café cheio de gente, com os empregados atarefados a trazer para as mesas as mais preciosas delícias de pastelaria. Mas só ele não era servido. Ele esperou até que se lhe esgotou a paciência e decidiu reclamar. Finalmente, depois de muito esperar, um dos empregados trouxe-lhe um pedaço de bolo, sujo e coberto de lama. “Então, o que é isto? Como se atreve a trazer-me um bolo todo emporcalhado? Sabe quem eu sou? Sou um homem muito rico e por isso não mereço ser tratado desta maneira”, barafustou o velho avarento. O empregado encolheu os ombros: “Desculpe-me, mas o senhor está enganado. Aqui não pode comprar nada com o seu dinheiro. O senhor chegou à Eternidade e só tem aqui direito ao que enviou antecipadamente do Mundo dos Vivos. A única coisa que o senhor mandou foi este bolo sujo e enlameado, por isso será a única coisa que lhe poderei servir.”

História oral tradicional dos judeus da Tunísia, recolhida pelos investigadores do Israel Folktale Archive, na Universidade de Haifa. Existem paralelos deste conto na tradição oral dos judeus da Europa Oriental, Turquia e Pérsia.

O Spinoza da Rua do Mercado (II)

Um conto de Isaac Bashevis Singer (Biography)
(tradução minha, inédita)


Estudante faz uma pausa na leitura do Talmude para olhar à janela.
Moukatchevo, Ucrânia, 1938. Fotografia de Roman Vishniac.

Parte II (ver Parte I)

Empoleirado no último dos degraus, quando espreitava pela janela o Dr. Fischelson podia olhar para dois mundos. Acima dele estavam os céus, densamente polvilhados de estrelas. O Dr. Fischelson nunca estudara seriamente astronomia mas conseguia distinguir os planetas, aqueles corpos celestes que, como a terra, giravam em torno do sol, e as estrelas fixas, elas próprias sóis distantes cuja luz demora centenas ou mesmo milhares de anos a chegar até nós. Ele reconhecia as constelações que marcam o caminho da terra pelo espaço e aquela moldura nebulosa, a Via Láctea. O Dr. Fischelson tinha um pequeno telescópio que comprara na Suíça quando lá estudara e gostava particularmente de ver a lua através dele. Podia distinguir claramente na superfície da lua os vulcões banhados pela luz do sol e as crateras escuras e sombrias. Gostava de observar aquelas fendas e gretas. Pareciam-lhe simultaneamente distantes e próximas, ao mesmo tempo substanciais e insubstanciais. De vez em quando via uma estrela cadente traçando um arco largo de um lado ao outro dos céus até desaparecer, deixando atrás de si uma cauda flamejante. O Dr. Fischelson sabia então que um meteorito atingira a nossa atmosfera e que, talvez, um fragmento seu tinha ido parar ao oceano ou caído no deserto, ou mesmo em alguma região habitada. Aos poucos, as estrelas que tinham aparecido atrás do telhado do Dr. Fischelson subiam até brilharem por cima das casas do outro lado da rua. Sim, quando o Dr. Fischelson olhava para os céus ele tinha noção dessa extensão infinita que é, de acordo com Spinoza, um dos atributos de Deus. O Dr. Fischelson sentia-se confortado ao saber que, apesar de ser apenas um homem débil e fraco ele era mesmo assim uma parte do cosmos, feito da mesma matéria dos corpos celestes, uma permutação da Substância infinita absoluta; na medida em que era uma parte da Divindade, ele sabia que não podia ser destruído. Nesses momentos, o Dr. Fischelson sentia o Amor Dei Intellectualis que é, segundo o filósofo de Amsterdão, a mais elevada perfeição da mente. O Dr. Fischelson respirou fundo, levantou a cabeça o mais alto que o seu apertado colarinho permitia e sentiu-se literalmente a rodopiar na companhia da terra, do sol, das estrelas, da Via Láctea e da infinidade de galáxias conhecidas apenas do pensamento infinito. As suas pernas tornaram-se leves, como que desafiando a gravidade, forçando-o a agarrar com força o parapeito da janela, não fosse ele voar para a eternidade.
Quando o Dr. Fischelson se cansava de observar os céus, o seu olhar descia até à Rua do Mercado, lá em baixo. Dali podia ver uma longa faixa desde o mercado de Yanash até à Rua do Ferro, com as lâmpadas dos candeeiros de gás a formarem uma fileira de pontos luminosos. Fumo subia pelas chaminés nos telhados negros de estanho; os padeiros aqueciam os fornos e aqui e ali fagulhas luzentes misturavam-se com o fumo preto. A rua nunca era tão barulhenta e apinhada como nas noites de Verão. Ladrões, prostitutas, apostadores, jogadores de cartas e receptadores vadiavam na praça que vista de cima parecia uma pretzel polvilhada de sementes de sésamo. Os rapazes novos riam desbragadamente e as raparigas guinchavam. Um vendedor de melancias gritava com voz selvagem, e a longa faca que ele usava para cortar a fruta pingava um sumo cor de sangue. Às vezes a rua ficava ainda mais agitada. Carros de bombeiros, com as pesadas rodas a tinir, chegavam a correr, puxados por robustos cavalos negros arreados pelos ajustes. A seguir vinha a ambulância com a sirene aos berros. Depois alguns rufias desatavam à pancada entre eles e a polícia tinha de ser chamada. Um transeunte era roubado e corria a gritar por socorro. Algumas carroças carregadas de lenha tentavam passar para o pátio da padaria, mas os cavalos não conseguiam levantar as rodas sobre o passeio e os carroceiros insultavam os animais e batiam-lhes com o chicote. Faíscas saltavam-lhes dos cascos. Já há muito que passava das sete, que era a hora de lei para fechar as lojas, mas na verdade era agora que o comércio começava. Os fregueses eram discretamente conduzidos pela porta das traseiras. Na rua, os polícias russos, subornados no princípio do mês, nada viam. Os vendedores continuavam a apregoar os seus produtos, uns tentando gritar mais alto que os outros.
“Oiro, oiro, oiro”, berrava uma mulher que vendia laranjas podres.
“Açúcar, açúcar, açúcar”, grasnava um vendedor de ameixas demasiado maduras.
“Cabeças, cabeças, cabeças”, rugia um rapaz que vendia cabeças de peixe.
Pela janela da casa de estudo dos hassidim, do outro lado da rua, o Dr. Fischelson podia ver rapazes com longos caracóis no cabelo perto das orelhas, balançando sobre pesados volumes sagrados, fazendo caretas e estudando em voz alta, quase a cantar. Carniceiros, estivadores e vendedores de fruta bebiam cerveja em baixo, na taberna. Da porta aberta da taberna jorrava vapor como se fosse de uma sauna e lá de dentro vinha o som de música alta. À entrada da taberna rameiras tentavam atirar-se a soldados bêbados e a operários a caminho de casa. Alguns carregavam fardos de lenha nos ombros, fazendo recordar ao Dr. Fischelson os penitentes condenados a acender os seus próprios fogos no Inferno. Grafonolas fanhosas raspavam canções que se ouviam pelas janelas. A liturgia de Yom Kippur alternava com as melodias burlescas do vaudeville.
O Dr. Fischelson espreitou para o caos meio iluminado da rua e aguçou o ouvido. Ele sabia que o comportamento da populaça era a própria antítese da razão. Estas pessoas estavam mergulhadas nas mais inúteis das paixões, ébrios de emoções e, segundo Spinoza, emoção nunca era boa. Em vez do prazer que buscavam, tudo o que conseguiam ganhar era doenças e prisão, vergonha e o sofrimento que resultava da ignorância. Até os gatos que vadiavam nos telhados pareciam mais agitados e selvagens do que aqueles de outras partes da cidade. Miavam com as vozes de mulheres em parto e como demónios subiam pelas paredes e saltavam pelas varandas e beirais. Um desses gatos parou sobre a janela do Dr. Fischelson e soltou um guincho que o fez estremecer. O doutor desceu da janela e, agarrando uma vassoura, sacudiu-a em frente dos brilhantes olhos verdes do negro animal. “Vá, embora seu selvagem ignorante!” – e bateu com o cabo da vassoura no telhado até que o gato fugiu.

(continua…)

O Spinoza da Rua do Mercado

Um conto de Isaac Bashevis Singer (Biography)
(tradução minha, inédita)


Dois judeus à conversa nas ruas de Varsóvia, 1938. Fotografia de Roman Vishniac.

Parte I

O Dr. Nahum Fischelson caminhava para trás e para a frente no seu quarto, numas águas-furtadas da Rua do Mercado, em Varsóvia. O Dr. Fischelson era um homem baixo, encurvado, com barba acinzentada e praticamente calvo, à excepção de um tufo de cabelo que permanecia na nuca. Tinha o nariz curvo que nem um bico e os seus olhos eram grandes, escuros e agitados como os de um imenso pássaro. Era uma quente noite de Verão, mas o Dr. Fischelson vestia um casaco negro que lhe chegava aos joelhos, usava um colarinho apertado e um laço. Da porta caminhava até à clarabóia do tecto em declive, e dali voltava para trás. Era preciso subir uns degraus para olhar para a rua. Uma vela ardia num castiçal de bronze em cima da mesa e uma variedade de insectos zumbiam à sua volta. De vez em quando, uma das criaturas esvoaçava demasiado perto da chama e chamuscava as asas, ou outra incendiava-se e fazia o pavio brilhar ainda mais por um breve instante. Quando isso acontecia o Dr. Fischelson fazia uma careta. A sua face enrugada contorcia-se e debaixo do bigode desgrenhado mordia o lábio. Por fim tirou o lenço do bolso e agitou-o na direcção dos insectos. “Vão-se embora daqui, idiotas e imbecis”, ralhou ele. “Aqui não se aquecem; só se queimam.”
Os insectos dispersaram, mas um segundo depois estavam de volta e uma vez mais circundavam a chama trémula. O Dr. Fischelson limpou o suor da testa enrugada e suspirou, “tal como os homens eles não querem mais nada do que o prazer do momento.” Na mesa havia um livro aberto, escrito em latim, e nas suas largas margens estavam anotações e comentários rabiscados em letra pequena pelo Dr. Fischelson. O livro era a Ethica de Spinoza que o Dr. Fischelson estudava há 30 anos. Conhecia-lhe de memória todas as preposições, todas as provas, todos os corolários e cada nota. Quando ele queria encontrar uma passagem em particular, geralmente abria o livro no lugar exacto sem ter de procurar. Mas, ainda assim, continuava a estudar a Ethica horas a fio todos os dias, com uma lupa nas suas mãos magras, murmurando e acenado a cabeça. A verdade é que quanto mais o Dr. Fischelson estudava, mais frases surpreendentes encontrava, mais passagens pouco claras e mais observações crípticas. Cada frase continha pistas inimagináveis para qualquer dos estudiosos de Spinoza. Na verdade, o filósofo antecipara toda a crítica da razão pura feita por Kant e pelos seus seguidores. O Dr. Fischelson estava a escrever um comentário à Ethica. Tinha gavetas cheias de anotações e rascunhos, mas parecia que nunca iria completar o trabalho. O problema de estômago que o atormentava há anos piorava de dia para dia. Agora o estômago começava a doer-lhe logo às primeiras colheradas de farinha de aveia. “Deus do céu, é difícil, muito difícil”, dizia para si próprio usando a mesma entoação do seu pai, o falecido rabino de Tishevitz. “É muito, muito difícil.”
O Dr. Fischelson não tinha medo de morrer. Primeiro, porque já não era um homem novo. Segundo, como declara a quarta parte da Ethica, “um homem livre pensa apenas na morte e a sua sabedoria é uma meditação, não na morte, mas da vida.” Terceiro, porque também se diz que “a mente humana não pode ser absolutamente destruída com o corpo humano pois há uma parte dela que permanece eterna.” Ainda assim, a úlcera do Dr. Fischelson (ou talvez fosse cancro) continuava a importuná-lo. A sua língua sabia-lhe sempre mal. Arrotava frequentemente e emitia um gás nauseabundo de cada vez que o fazia. Sofria de azia e cãibras. Umas vezes apetecia-lhe vomitar, mas outras vezes tinha apetite para alho, cebolas e fritos. Há muito que deitara fora os medicamentos receitados pelos médicos e procurava os seus próprios remédios. Descobrira os benefícios de comer rábano ralado após as refeições e de ficar deitado na cama, de barriga para baixo, com a cabeça pendida para um dos lados. Mas estes remédios caseiros ofereciam apenas um alívio temporário. Alguns dos médicos que consultara garantiam-lhe que não tinha doença alguma. “É só nervos”, disseram-lhe. “Você pode viver até aos 100 anos.”
Mas, nesta noite quente de Verão, faltavam as forças ao Dr. Fischelson. Os joelhos tremiam-lhe e tinha o pulso fraco. Sentou-se para ler, mas a visão tornou-se nublada. As letras dançavam na página, ora verdes, ora douradas. As linhas ondulavam, saltando umas sobre as outras, criando largos intervalos em branco, como se pedaços do texto tivessem desaparecido de forma misteriosa. O calor era insuportável e vinha directamente do tecto de lata; o Dr. Fischelson sentia-se dentro de um forno. Por várias vezes subiu os quatro degraus em direcção à janela e pôs a cabeça à mercê da brisa refrescante da noite. Ficava naquela posição até que os joelhos lhe começavam a tremer. “Oh, que bela brisa!”, murmurava ele, “um verdadeiro encanto”, e lembrava-se que, segundo Spinoza, moralidade e felicidade eram idênticas, e que a maior acção moral a que um homem podia aspirar era entregar-se a um qualquer prazer que não fosse contrário à razão.

(continua…)

No Inferno (um pequeno conto)


Retábulo do túmulo de Don Sancho Sáiz Carrillo (detalhe), autor anónimo (século XIV).

E disse o rabino de Apt a Deus:
“Senhor do Mundo, eu sei que não tenho virtude nem mérito para poder merecer, depois da minha morte, entrar no paraíso ao lado dos justos. Mas, se porventura pensas colocar-me no inferno entre os pecadores, lembra-te que não me dou bem com eles. Por isso te suplico que os tires a todos do inferno, para que me possas lá pôr.”

Rabi Avraham Yehoshua Heschel, Apt (Rússia, século XVIII)
in Die Erzählungen der Chassidim (As Lendas dos Hassidim), Martin Buber, 1949.

A pergunta (um pequeno conto)


Quando morrer, e a minha alma for convocada diante de Deus, um turbilhão de apoquentações e dúvidas tomará conta de mim. Nessa altura, imaginando o encontro com o Criador, tentarei antecipar as suas interrogações: “Zusya, porque não foste Moisés? Porque não foste Salomão ou David?” Mas, quando Hashem1 aparecer à minha frente, a sua única pergunta será bem mais simples: “Porque não foste Zusya?”

Rabino Zusya de Anapol (Polónia, século XVIII)
in Die Erzählungen der Chassidim (As Lendas dos Hassidim), Martin Buber, 1949.

1Palavra hebraica, literalmente significa O Nome, sinónimo de Deus no judaísmo.

Dedicado à memória de Simon Wiesenthal (1908-2005), um Homem que viveu além do seu próprio destino.

O Jogo de Damas (um pequeno conto)

Num dos dias de Hanukah, o rabi Nahum, filho do rabino de Rizhin, entrou na sinagoga e encontrou os seus alunos a jogar às damas, como era costume naquele tempo. Quando viram o rabino, envergonharam-se e pararam de jogar. Mas o rabi Nahum sorriu e pediu-lhes que prosseguissem: “Sabem que as regras do jogo de damas são muito parecidas às regras da vida? Pois reparem: a primeira é que não se podem fazer duas jogadas ao mesmo tempo. A segunda regra diz que apenas se pode andar para a frente, e nunca para trás. E, por fim, quando se chega à última casa, alcança-se o dom de poder finalmente andar em qualquer direcção.”

Rabino Nahum de Stepinesht (Ucrânia, século XIX)
in Die Erzählungen der Chassidim (As Lendas dos Hassidim), Martin Buber, 1949.

O rei astuto e os dois pintores (um conto)


Autoretrato, 1939, Joseph Teixeira de Mattos (1892-1971)
Judeu holandês de ascendência portuguesa

Numa terra distante, há muitos anos, um rei mandou construir o mais belo palácio de que havia memória. Quando ficou pronto, o rei quis decorar as paredes dos salões com pinturas das paisagens do seu reino. Havia naquele tempo e naquelas paragens dois pintores famosos muito apreciados pelo seu talento. Sem saber como escolher entre os dois, o rei chamou-os a ambos e desafiou-os a pintar cada um uma parede de um dos imensos corredores do palácio. Entre eles, o rei mandou colocar uma pesada cortina, que os impedia de ver o trabalho do outro.
Aos dois disse o rei: “Têm três meses para pintar uma paisagem na parede. Nessa altura escolherei a pintura que mais gostar; o seu autor será convidado para decorar o resto das paredes do palácio e receberá uma sacola cheia de ouro e jóias.”
Um dos artistas, talentoso e trabalhador, tinha tudo preparado e começou de imediato a pintar. Praticamente não dormia e pouco comia dos manjares que os criados do rei lhe traziam. A pintura ocupava todos os seus pensamentos e gestos.
O outro era bastante preguiçoso. Todos os dias acordava tarde e passava o resto do dia refastelado, bebendo dos melhores vinhos das adegas do rei e comendo o que de melhor lhe serviam. Tudo sem levantar o pincel uma única vez. Quando ouvia o colega trabalhar, ria desabridamente: “Que tolo, está no palácio e nem sabe gozar o luxo”, dizia ele entredentes.
Os dias e meses foram passando. Um pintava dia e noite. O outro nada fazia. Até que faltaram apenas três dias para que terminasse o prazo dado pelo rei e o pintor preguiçoso acordou a meio da noite encharcado em suor: “Não fiz trabalho nenhum… o rei vai-me castigar com toda a certeza.” Aflito, o pintor não comeu nem dormiu. Dois dias passaram sem que ele conseguisse pensar num plano. Até que, finalmente, na véspera da chegada do rei, teve uma ideia. Pegou numa lata de óleo negro e pintou a parede inteira até que esta ficou brilhante como um espelho.
Na manhã seguinte o rei veio inspeccionar o trabalho dos dois pintores acompanhado por membros da corte. Virando-se para a primeira metade do corredor, o rei ficou maravilhado com o trabalho do pintor esforçado. Em cores vibrantes, o artista retratara fielmente a paisagem que envolvia o palácio. “Nunca vi nada tão perfeito. Aqueles pássaros, que beleza, quase que os oiço chilrear. E as flores… só lhes falta o aroma”, disse o rei, maravilhado.
Depois de alguns minutos passados na contemplação da pintura, o rei ordenou que fosse retirada a cortina, para que pudesse ver o que fizera o outro pintor. Para espanto de todos, a segunda parede era exactamente igual à primeira. Uma cópia perfeita, com todos os traços e pinceladas. Ali estavam as mesmas árvores, os mesmos pássaros chilreantes e os mesmos canteiros floridos. “Como é isto possível?”, interrogavam-se entre si os membros da corte.
Mas o rei não se deixara enganar com a mesma facilidade. Sem pensar duas vezes, o rei pegou na prometida sacola de ouro e jóias e colocou-a junto à parede verdadeiramente pintada. Outra sacola idêntica apareceu de pronto no outro lado, fazendo com que todos percebesse que se tratava de um simples reflexo.
Então o rei declarou solenemente: “Cada um de vós receberá o pagamento que merece. Vá, aproximem-se das vossas obras e que cada um recolha a recompensa posta ao lado da respectiva pintura.”
E assim foi.

Pequeno conto do rabino Nachman de Bratslav, Ucrânia, (1772-1810), publicado no livro Kokhavey Or (Estrelas de Luz), editado em Jerusalém, em 1896.