O Spinoza da Rua do Mercado (VII)

Um conto de Isaac Bashevis Singer (Biography)
(tradução minha, inédita)

Parte VII (conclusão)
(ver Parte I; Parte II; Parte III; Parte IV; Parte V e Parte VI)

No dia em que Dobbe Preta foi ao escritório do rabino e anunciou que ia casar com o Dr. Fischelson, a mulher do rabino pensou que ela tinha enlouquecido de vez. Mas a notícia tinha já chegado ao alfaiate Leizer, espalhando-se pela padaria e pelas outras lojas. Havia os que pensavam que a “solteirona” estava cheia de sorte; o doutor, diziam eles, tinha muito dinheiro. Mas outros garantiam que o velho degenerado lhe havia de pegar sífilis. Apesar do Dr. Fischelson ter insistido numa cerimónia de casamento pequena e simples, uma multidão de convidados compareceu no gabinete do rabino. Os aprendizes do padeiro, que habitualmente andavam pelas ruas descalços, em cuecas e com sacos de papel na cabeça, vestiam agora fatos claros, chapéus de palha, sapatos amarelos, gravatas berrantes e tinham trazido com eles grandes bolos e panelas cheias de bolachas. Tinham mesmo conseguido encontrar uma garrafa de vodka, apesar das bebidas alcoólicas terem sido proibidas em tempo de guerra. No momento em que os noivos entraram no gabinete do rabino os murmúrios da multidão encheram também a sala. As mulheres não queriam acreditar nos seus olhos. A mulher que viam agora diante delas não podia ser a mesma que elas conheciam. Dobbe usava um chapéu de abas largas amplamente adornado com cerejas, uvas e ameixas; o vestido que ela envergava era de seda branca e tinha uma cauda; nos pés tinha sapatos de salto alto, dourados, e do seu fino pescoço pendia um colar de pérolas de imitação. Mas isto não era tudo: os seus dedos reluziam com anéis e pedras brilhantes. O seu rosto estava coberto por um véu. Ela parecia quase uma daquelas noivas ricas que se casam nos salões de Viena. Os aprendizes de padeiro assobiavam e riam. O Dr. Fischelson trazia o seu casaco preto e os sapatos de verniz. Ele quase não conseguia andar, apoiando-se em Dobbe. Quando ele viu a multidão que o esperava dentro do gabinete do rabino, assustou-se e ainda tentou dar uns passos atrás, mas o antigo patrão de Dobbe saltou-lhe ao caminho e disse: “Vá lá noivo. Não se acanhe. Agora isto é tudo família.”
A cerimónia prosseguiu de acordo com a lei. O rabino, que vestia uma velha gabardina de cetim, escreveu o contrato de casamento e depois fez com que os noivos tocassem no seu lenço como sinal de acordo; o rabino limpou então a ponta da sua caneta ao quipá. Alguns moços de recados chamados da rua para fazer quorum seguravam agora, durante a cerimónia, o toldo matrimonial. O Dr. Fischelson envergou uma veste branca, para simbolizar o dia da sua morte, e Dobbe andou à sua volta sete vezes, tal como requeria a tradição. A luz das velas entrançadas chamejava as paredes. As sombras ondulavam. Deitando vinho num cálice, o rabino cantou as bênçãos com uma triste melodia. Dobbe chorou. As outras mulheres seguravam os seus lenços rendados e faziam caretas. Quando os rapazes da padaria começaram a cochichar piadas entre eles, o rabino levantou o dedo em riste à altura dos lábios e murmurou: “Eh nu oh!” como sinal de que era proibido falar. Chegada a altura de colocar a aliança no dedo da noiva, as mãos do Dr. Fischelson começaram a tremer e ele não conseguia localizar os dedos de Dobbe. A seguir, de acordo com a tradição, devia partir-se o copo, mas apesar do Dr. Fischelson o ter pisado várias vezes, ele permanecia inteiro. Finalmente, um dos aprendizes estilhaçou o copo com o seu calcanhar. Até o rabino não conseguiu conter um sorriso. Após a cerimónia, os convidados beberam vodka e comeram bolo e bolachas. O antigo patrão de Dobbe veio ter com o Dr. Fischelson e disse-lhe: “Mazel tov, noivo. Que a sua sorte seja tão boa quanto a sua mulher.” “Obrigado, obrigado”, murmurou o Dr. Fischelson, “mas eu não espero sorte nenhuma.” Ele estava ansioso por regressar o mais depressa possível ao seu quarto no sótão. Sentia uma pressão estranha no estômago e doía-lhe o peito. O seu rosto tornara-se esverdeado. Dobbe subitamente ficou irritada. Levantou o véu e dirigiu-se à multidão de convidados: “De que se estão a rir? Isto não é nenhum espectáculo.” E sem pegar na fronha na qual tinham sido embrulhados os presentes, voltou com o marido aos seus quartos no quinto andar.
O Dr. Fischelson deitou-se na cama feita de lavado no seu quarto e começou a ler a Ética. Dobbe fora para o seu quarto. O doutor explicara-lhe que era já um homem de muita idade, que estava doente e sem forças. Não lhe prometera nada. Ainda assim, ela regressou com um vestido de noite de seda, pantufas com pompons e com o cabelo solto sobre os ombros. Tinha um sorriso acanhado e hesitante no rosto. O Dr. Fischelson estremeceu e a Ética tombou-lhe das mãos. A vela apagou-se. No escuro, as mãos de Dobbe procuraram o Dr. Fischelson. Ela beijou-lhe os lábios. “Meu querido marido”, sussurrou-lhe ela, “Mazel tov.”
O que aconteceu naquela noite pode ser descrito como um milagre. Se o Dr. Fischelson não estivesse convencido que tudo acontece em concordância com as leis da natureza, ele teria pensado que Dobbe Preta lhe lançara um feitiço. Poderes há muito adormecidos acordaram dentro de si. Apesar de ter tomado apenas um pequeno trago do vinho da benção na cerimónia, sentia-se como se estivesse embriagado. Beijou Dobbe e falou-lhe de amor. Citações há muito esquecidas de Klopstock, Lessing, Goethe saiam-lhe dos lábios. As dores cessaram. Abraçou Dobbe, apertou-a contra o seu corpo, era de novo um homem como tinha sido na sua juventude. Dobbe quase desfalecia de deleite; chorando, murmurou-lhe coisas num calão de Varsóvia que ele não compreendia. Mais tarde, o Dr. Fischelson mergulhou no sono profundo que só os homens novos conhecem. Sonhou que estava na Suíça, que escalava montanhas – corria, caía, voava. De madrugada abriu os olhos; pareceu-lhe que alguém soprava no seu ouvido. Dobbe ressonava. O Dr. Fischelson levantou-se da cama cuidadosamente. Na sua longa camisa de noite, aproximou-se da janela, subiu as escadas e olhou para fora maravilhado. A Rua do Mercado estava adormecida, respirando com uma tranquilidade profunda. As lâmpadas de gás piscavam. As negras persianas das lojas estavam cerradas com barras de ferro. Soprava uma brisa fresca. O Dr. Fischelson olhou para o céu. O arco negro estava semeado de estrelas – havia estrelas verdes, vermelhas, amarelas, azuis; havia estrelas grandes e pequenas, umas que piscavam e outras que permaneciam constantes. Havia estrelas aglomeradas em conjuntos e havia estrelas solitárias. Nas altas esferas, aparentemente, pouco importância tinha que um tal Dr. Fischelson, no tempo que lhe restava, casara com alguém a quem chamavam Dobbe Preta. Vista de cima, até a Grande Guerra nada mais era do que uma temporária tragédia de costumes. Uma miriade de estrelas continuou a viajar pelas suas rotas destinadas no espaço infinito. Os cometas, planetas, satélites e asteróides continuaram a circular estes centros brilhantes. No caos das nebulosas, formava-se matéria primordial. De vez em quando, uma estrela soltava-se e varria os céus, deixando um rasto de fogo. Estava-se no mês de Agosto, quando havia chuvas de meteoros. Sim, a substância divina alargava-se e não tinha princípio nem fim; era absoluta, indivisível, eterna, sem duração, infinita nos seus atributos. As suas ondas em ebulição dançavam no caldeirão universal, efervescentes de mudança, seguindo a ininterrupta cadeia de causa e efeito, e ele, o Dr. Fischelson, com o seu inevitável destino, era parte de tudo isto. O doutor cerrou os olhos e deixou que a brisa arrefecesse o suor da sua teste e penetrasse a sua barba. Respirou fundo o ar da madrugada, apoiou as mãos trémulas no parapeito da janela e murmurou: “Divino Spinoza, perdoa-me. Tornei-me um tolo.”

FIM

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