Um conto de Isaac Bashevis Singer (Biography)
(tradução minha, inédita)
Parte V (ver Parte I; Parte II; Parte III e Parte IV)

O Gueto de Varsóvia, Polónia, inverno de 1938. Fotografia de Roman Vishniac.
As leis eternas, aparentemente, não tinham ainda ordenado o fim do Dr. Fischelson.
À esquerda da entrada do quarto do Dr. Fischelson havia uma porta que dava para um corredor escuro, apinhado de caixas e cestos, no qual um cheiro a cebola frita e sabão azul e branco estava sempre presente. Atrás desta porta vivia uma solteirona a quem os vizinhos chamavam Dobbe Preta. Dobbe era alta, magra e morena como a pá de um padeiro. Tinha o nariz partido e por cima do lábio despontava um bigode. A sua voz era rouca e masculina e usava sapatos de homem. Durante anos, Dobbe Preta vendera pão que comprava ao padeiro da esquina. Mas um dia zangou-se com o padeiro e mudara-se para o mercado, onde agora vendia “amassados”, um nome que o povo dava a ovos rachados. Dobbe Preta não tinha sorte com os homens. Ficara noiva duas vezes de aprendizes de padeiro mas duas vezes acabara o noivado. Algum tempo depois ficou noiva de um velho, um vidreiro que lhe dissera ser divorciado, mas que mais tarde se descobriu ainda ter mulher. Dobbe Preta tinha um primo na América, um sapateiro, que ela sempre dizia que um dia lhe havia de mandar uma passagem. Mas ia ficando por Varsóvia. As mulheres da vizinhança provocavam-na dizendo: “Já não há esperança para ti, Dobbe. Vais morrer velha e solteira.” Dobbe respondia sempre: “Não quero ser escrava de um homem qualquer. Eles que apodreçam todos.”
Naquela tarde Dobbe recebeu uma carta da América. Habitualmente ela pedia a Leizer, o alfaiate, que lhe lesse a correspondência. Mas naquela tarde Leizer não estava na loja, por isso Dobbe pensou no Dr. Fischelson, que os vizinhos pensavam ser um converso por nunca ir rezar à sinagoga. Ela bateu à porta do quarto do doutor mas não houve resposta.
“O herege saiu”, pensou Dobbe mas, mesmo assim, bateu novamente e, desta vez, a porta moveu-se ligeiramente. Ela empurrou-a ainda mais e entrou, assustada. O Dr. Fischelson jazia na sua cama completamente vestido; a sua cara estava amarela como cera; a maçã de Adão quase que lhe saltava do pescoço; a sua barba apontava para cima. Dobbe gritou; tinha a certeza que ele estava morto, mas – não – o seu corpo mexeu-se. Dobbe pegou num copo que estava em cima da mesa e correu para o encher à torneira, trazendo-o para a beira da cama e atirando a água à cara do homem inconsciente. O Dr. Fischelson abanou a cabeça e abriu os olhos.
“Que se passa consigo? Está doente?” perguntou Dobbe.
“Muito obrigado! Não!”
“Tem família? Posso ir chamá-los.”
“Não tenho família,” disse o Dr. Fischelson.
Dobbe queria ir ao outro lado da rua chamar o barbeiro, mas o Dr. Fischelson insistiu que não queria a ajuda do barbeiro. Uma vez que Dobbe não ia nesse dia ao mercado, uma vez que não havia “amassados” para comprar ou vender, ela decidiu fazer uma boa acção. Ajudou o doente a sair da cama e colocou-lhe um cobertor sobre os ombros. Depois despiu o Dr. Fischelson e preparou-lhe uma sopa no fogão a petróleo. O sol nunca entrava no quarto de Dobbe, mas aqui os raios de sol desenhavam rectângulos luminosos nas paredes desbotadas. O chão estava pintado de vermelho. Por cima da cama estava pendurada a imagem de um homem de cabelo comprido com um enorme colarinho de folhos. “Um homem de tanta idade mas, mesmo assim, tem o quarto tão asseado e arrumado,” pensou Dobbe. O Dr. Fischelson pediu-lhe a Ética e ela deu-lhe o livro a contragosto. Estava convencida que se tratava de um livro de orações dos gentios. Depois começou a arrumar o quarto, varreu o chão e trouxe um balde de água. O Dr. Fischelson comeu; depois de terminar, estava com mais forças e Dobbe pediu que ele lhe lesse a carta.
Ele leu-a devagar, com o papel a tremer-lhe nas mãos. Vinha de Nova Iorque, do primo de Dobbe. Uma vez mais ele escrevia que lhe havia de mandar “uma carta muito importante” e um bilhete para a América. Dobbe já sabia a história de cor e até ajudou o velhote a decifrar os rabiscos do seu primo. “Ele está a mentir”, disse Dobbe. “Há muito tempo que ele se esqueceu de mim.” Dobbe voltou à noite. Uma vela num candelabro de bronze ardia na cadeira ao lado da cama. Sombras avermelhadas tremiam nas paredes e no tecto. O Dr. Fischelson estava sentado na cama, a ler um livro. A vela lançava uma luz dourada sobre a sua testa, que parecia fendida em duas metades. Um pássaro voara pela janela e pousara na mesa. Por um momento Dobbe ficou com medo. Este homem fazia-a pensar em bruxas, espelhos negros, cadáveres a vaguear pela noite e mulheres aterradoras. Mesmo assim, deu alguns passos na direcção dele e perguntou: “Então, como se sente? Está melhor?”
“Sim, um pouco melhor, obrigado.”
“É verdade que é um converso?” perguntou ela sem compreender muito bem o que a palavra significava.
“Eu, um converso? Não, sou um judeu como qualquer outro judeu”, respondeu-lhe o Dr. Fischelson.
A garantia do doutor fez com que Dobbe se sentisse mais em casa. Procurou a garrafa de petróleo e acedeu o fogão, depois foi a casa buscar um copo de leite para fazer papas de farinha. O Dr. Fischelson continuou a estudar a Ética, mas naquela noite ele não estava com cabeça para os teoremas e provas com as suas muitas referências a axiomas, definições e outros teoremas. Com as mãos trémulas ele ergueu o livro à altura dos olhos para ler: “A ideia de uma afecção qualquer do corpo humano não implica um conhecimento adequado do corpo exterior… A ideia de uma afecção qualquer da mente humana não implica um conhecimento adequado da mente humana.”
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