Um conto de Isaac Bashevis Singer (Biography)
(tradução minha, inédita)

Władysław Podkowiński, Avenida Novo Mundo, Varsóvia, durante o Inverno (1892).
Parte III (ver Parte I e Parte II)
Quando o Dr. Fischelson regressou a Varsóvia vindo de Zurique, onde estudara filosofia, houve quem previsse que um grande futuro se abriria à sua frente. Os seus amigos sabiam que ele estava a escrever um importante livro sobre Spinoza. Um jornal judaico polaco convidara-o a escrever artigos de opinião e crítica; era visita frequente de várias famílias de meios e tornara-se director da biblioteca da Sinagoga de Varsóvia. Ainda que na altura já fosse considerado um solteirão razoavelmente entrado nos anos, as casamenteiras tinham-lhe proposto arranjos com várias raparigas ricas. Mas o Dr. Fischelson não aproveitou essas oportunidades. Queria ser tão independente quanto o próprio Spinoza. E na verdade assim o foi. Mas por causa das suas ideias heréticas entrou em conflito com o rabino e foi obrigado a demitir-se do cargo de director da biblioteca. Durante anos, ganhou dinheiro dando aulas privadas de Hebraico e Alemão. Depois, quando adoeceu, a comunidade judaica de Berlim decidiu conceder-lhe um subsídio de quinhentos marcos anuais. Isto foi possível devido à intervenção do famoso Dr. Hildesheimer, com quem ele se correspondia sobre filosofia. O Dr. Fischelson mudara-se para o quarto do sótão e começara a cozinhar as suas próprias refeições num pequeno fogão a petróleo. Tinha um armário com inúmeras gavetas, cada uma delas rotulada com o nome do que continha – trigo, arroz, cevada, cebolas, cenouras, batatas, cogumelos. Uma vez por semana o Dr. Fischelson punha o seu chapéu negro de abas largas, com um cesto numa mão e a Ética de Spinoza na outra, e lá ia ao mercado comprar provisões. Enquanto esperava a sua vez, ia folheando a Ética. Os comerciantes conheciam-no e faziam-lhe sinal para que avançasse até aos balcões.
“Vai um queijinho senhor doutor? Este até derrete na boca.”
“Temos cogumelos frescos, acabadinhos de chegar da floresta.”
“Vá lá minhas senhoras, deixem passar o senhor doutor”, gritava o dono do talho.
Durante os primeiros anos da sua doença, o Dr. Fischelson ainda ia à noite até ao café frequentado por professores de Hebraico e por outros intelectuais. Tornara-se um hábito seu sentar-se por lá a jogar xadrez e a tomar café. Por vezes parava nas lojas da Rua de Santa Cruz onde se podiam comprar baratos todos os tipos de livros e revistas. Numa ocasião, um antigo aluno seu convidara-o para jantar, mas quando o Dr. Fischelson chegou ao restaurante foi surpreendido por um grupo de amigos e admiradores que o forçaram a sentar à cabeça da mesa enquanto faziam discursos sobre ele. Mas tudo isto aconteceu há muito tempo. Agora já ninguém se interessava por ele. Isolara-se completamente até se tornar um homem esquecido. Os acontecimentos de 1905 ainda aumentaram mais o seu isolamento, quando os rapazes da Rua do Marcado começaram a organizar greves, a atirar bombas a esquadras de polícia e a disparar contra os fura-greves de maneira a que as lojas estivessem fechadas até durante os dias de semana. Começou a desprezar tudo o que estivesse associado com o judeu moderno – sionismo, socialismo, anarquismo. Aos seu olhos, os jovens em questão não passavam de uma maralha ignorante decidida a destruir a sociedade – sociedade sem a qual nenhuma existência razoável seria possível. Ainda lia ocasionalmente uma revista em Hebraico, mas sentia um indisfarçável desdém pelo Hebraico moderno, que não tinha qualquer raiz na Bíblia ou na Mishná. A ortografia das palavras polacas também mudara. O Dr. Fischelson concluíra que até os chamados homens espirituais tinham abandonado a razão e estavam a fazer os possíveis para satisfazer a populaça. De vez em quando ainda visitava uma biblioteca e folheava os livros modernos de história da filosofia, mas achava que os professores não compreendiam Spinoza, citavam-no incorrectamente, atribuíam ao filósofo as suas próprias ideias desorganizadas. Apesar do Dr. Fischelson estar bem ciente que a raiva era uma emoção indigna daqueles que caminham na senda da razão, mesmo assim ficava furioso, e rapidamente fechava o livro e voltava a colocá-lo na estante. “Idiotas”, murmurava, “asnos, pretensiosos.” E jurava nunca mais voltar a pôr os olhos em filosofia moderna.
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