Paz Selvagem

Yehuda Amichai

Não a paz de um cessar-fogo
nem mesmo a visão do lobo e do cordeiro,
Mas antes
como no coração quando acaba a excitação
e não se consegue falar a não ser do susto.
Eu sei que sei matar, isso faz de mim um adulto.
E o meu filho brinca com uma pistola de plástico
e sabe abrir e fechar os olhos e dizer mamã.

Uma paz
sem o grande barulho de fazer das espadas arados
Sem palavras, sem
o ruído surdo de um pesado carimbo:
que seja leve, flutuante, como preguiçosa espuma branca.
Um pequeno descanso para as feridas – quem fala de cura?
(E o grito dos órfãos é passado de uma geração
para outra, como uma corrida de estafetas:
o testemunho nunca cai.)

Deixem-na vir
como flores do campo, selvagens,
abruptamente, porque o campo
precisa delas: paz selvagem.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita que hoje, 6 de Maio de 2004, completaria 80 anos. Um poema aniversariante que a Judiaria dedica ao Abrupto, “o verdadeiro blogue do judeu errante“, que hoje comemora um ano de existência. Parabéns José Pacheco Pereira.

Nota: Anunciando a criação do Prémio de Poesia com o seu nome, o diário israelita Ha’aretz publica na sua edição em hebraico um poema inédito de Amichai, intitulado “Estações”. Dedicado à guerra, um tema recorrente em Amichai, a sua complexidade não permite traduções apressadas, mas prometo uma tentativa assim que o tempo me permitir.

License

This work is published under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 2.5 License.