Literatura e Realidade

Caricatura de AB Yehoshua da autoria de David Levine, publicada na New York Review of Books Descrito uma vez por Harold Bloom no New York Times como “uma espécie de Faulkner israelita”, Avraham B. Yehoshua, professor de Literatura Comparada na Universidade de Haifa, é um dos meus escritores contemporâneos preferidos. No seu último livro, A Missão do Homem dos Recursos Humanos – uma Paixão em Três Actos (Shlichuto Shel Ha-Memune Al Mashabei Enosh), acabado de lançar em Israel (e por enquanto apenas disponível em hebraico), A. B. Yehoshua conta a história de um burocrata israelita encarregue de acompanhar o corpo de Yulia Ragayev, uma emigrante russa morta num atentado suicida em Jerusalém.
Em entrevista ao diário israelita Maariv, Yehoshua fala da génese do romance: “Até agora, acredito que em certa medida, os mortos e feridos têm sido encerrados numa caixa, tanto socialmente como de um ponto de vista literário. Eu quis penetrar esta caixa e examinar o ambíguo sentido de culpa que a cobre: a Direita política sente culpa por causa da nossa impossibilidade de defender as nossas crianças, enquanto a Esquerda sente culpa porque interpreta estes atentados como uma punição. Depois há o facto da grande maioria das pessoas mortas ou feridas nos atentados suicidas serem oriundas de classes desfavorecidas – israelitas pobres e trabalhadores imigrantes.”
Na entrevista, Yehoshua admite que escrevera o seu penúltimo romance, A noiva Liberta, com um maior “sentimento de paz interior”.
“Foi uma tentativa de compreender os árabes, mas não a insanidade dos atentados suicidas. Este novo livro nasceu da própria realidade – da necessidade de enfrentar a realidade, mas não de uma forma sentimental. Foi por isso que escolhi uma mulher sem família, que não tinha ninguém que a chorasse, que não tem nada a ver com o conflito político em questão. Mesmo assim, eventualmente este tipo, que faz parte do sistema burocrático, subitamente sente compaixão e mesmo amor por esta mulher que ele nunca conheceu.”
Yehoshua começou a escrever este romance em 2002, e poucas semanas depois um amigo seu morria num atentado em Jerusalém, e outros dois foram feridos num outro ataque suicida num restaurante em Haifa. “Subitamente tudo estava mais perto, invadia a minha vida. Queria uma maior distância da realidade, mas esta continuava a forçar-se sobre mim.” Membro da chamada “esquerda literária” israelita, ao lado de Amos Oz e David Grossman, nas suas últimas intervenções públicas, ao mesmo tempo que continua a condenar os atentados terroristas palestinianos, A.B. Yehoshua tem apelado ao fim da ocupação e ao desmantelamento dos colonatos.

A Visitar: Haaretz – Shadow play in the twilight zone (recensão do livro) / Talkin’ ’bout his generation / Avraham B. Yehoshua (bio) / Yehoshua Interview (Ha’aretz, March 2004) / Abraham B. Yehoshua – Books in Translation / Ideas – A.B. Yehoshua – International Society for the Performing Arts / A.B. Yehoshua: What’s the alternative? :: Middle East Information / A B Yehoshua – The Literature of the Generation of the State / Articles by A. B. Yehoshua / Une interview d’A.B. Yehoshua / The Independent : AB Yehoshua: The border guard / A trajetória sefardita em ‘O Sr. Máni’, de A. B. Yehoshua (Dissertação de Mestrado).

[Em português, existem actualmente apenas dois livros de A.B. Yehoshua no mercado: Shiva e Viagem ao Fim do Milênio, traduzidos por Milton Lando e editados no Brasil pela Companhia das Letras (disponíveis aqui). Em edições agora esgotadas, foram ainda lançados no Brasil os seus romances O Amante (Summus), Senhor Mani (Imago) – o meu favorito – e Cinco Estações (Imago). Em Portugal… nada.]

License

This work is published under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 2.5 License.