60 anos da Libertação de Auschwitz II

Sempre me chocaram as fotografias. Não só as óbvias. Mas também as outras. As fotografias tiradas antes de tudo acontecer. As fotografias onde rostos sorriem sem ter a mínima consciência do que está para vir. Há algo de perverso em olhar hoje para aquelas caras, cheias de esperanças e de futuros, e saber que nenhum dos seus sonhos se realizou; em olhar para aquelas fotografias de tempos felizes – ou pelo menos “normais” – sabendo de antemão o horrível destino daquelas vidas. Quando digo que as fotografias me chocam não falo de sentidos figurados – refiro-me a uma reacção profundamente física: um nó no estômago, um aperto de maxilar na tentativa de conter lágrimas que começam a turvar a vista.
Já aqui escrevi um dia sobre esta sensação. Há quase um ano, em casa dos meus sogros, debruçámo-nos sobre uma pilha de álbuns de família, daqueles com fotos amarelecidas de gente com roupas e penteados de outros tempos. Eram avó, tios, tias, primos, primas e amigos. A maioria sorria invariavelmente para a câmara, com expressões agora suspensas no tempo. Os sorrisos destes rostos do passado mostravam a despreocupação natural de quem tira um retrato de família, inconsciente dos horrores que se aproximam. Judeus polacos, a esmagadora maioria da família dos meus sogros – os que não tinham já conseguido escapar para Israel – morreu no Shoá, em descampados de província na Polónia, frente a pelotões de fuzilamento, ou em lugares com timbre macabro: Auschwitz, Bergen-Belsen, Buchenwald e Dachau. Vítimas no maior acto de genocídio da História humana, deles apenas restam os fantasmas guardados naqueles álbuns de família. E a memória dos que ficaram.
Ilustração: imagem de Daniel Blaufuks, retirada do documentário Sob Céus Estranhos / Under Strange Skies.

De uma forma estritamente pessoal, sem pretender ser um qualquer “porta-voz de todos os judeus”, gostaria mesmo assim de agradecer profundamente a todos quantos usaram hoje os seus blogs para recordar o 60° aniversário da libertação de Auschwitz pelo Exército Vermelho e os horrores do Holocausto.

60 anos da Libertação de Auschwitz I

A Cidade do Massacre
Levanta-te agora e vai à cidade do massacre;
Passeia pelos seus pátios; (…)

Haim Nahman Bialik

Wolloch Haggadah em Memória do Holocausto *
Ilustrador: David Wander
Caligrafia e Micrografia: Yonah Weinrib
Haifa, Galeria de Arte Goldman, 1988

“Em cada geração temos a obrigação de considerar como se nós próprios, pessoalmente, tivéssemos saímos do Egipto.”

* A Haggadah é um livro litúrgico judaico que se lê em família durante o jantar ritual de Seder, da Páscoa, contendo o relato da libertação dos judeus, liderados por Moisés, da escravidão no Egipto.

___________________________________________________

A Cidade do Massacre

Haim Nahman Bialik

Levanta-te agora e vai à cidade do massacre;
Passeia pelos seus pátios;
Com a tua mão toca,
e com os olhos da tua cara

olha nas árvores, nas pedras, nos muros, na cale
os pingos de sangue e os miolos secos dos mortos.
Vai depois às ruínas, onde
se estendem as paredes fendidas,
onde cresce o vazio e maior cresce a brecha;
Passa sobre a lareira despedaçada,
alcança as paredes quebradas
cujos tijolos queimados e estéreis,
cujas pedras carbonizadas
revelam as bocas abertas dessas feridas,
que nenhum remendo alguma vez remendará,
ou cura curará.
Ali penas afundarão os teus pés, e
tropeçarás em destroços duplamente destroçados,
pergaminhos empilhados em manuscritos.
Fragmentos outra vez fragmentados.

Não pares neste caos; segue o teu caminho.
O perfume dos rebentos de acácias virá trazido pelo vento
e metade das suas flores serão penas,
que exalam o odor do sangue.
E, mortificando-te, estranhos incensos trarão.
Banindo o teu asco, toda a beleza da Primavera,
os mil raios dourados do sol, descerá sobre a tua maldição.
Porque Deus chamou o Massacre e a Primavera juntos;
O assassino matou, as flores desabrocharam,
e depois veio o tempo ameno e o sol.

Vai depois a um quintal, observa o monte.
Sobre o monte estão dois decepados:
Um judeu e o seu cão de caça.
Golpeados com o mesmo machado, os dois,
arremessados para a mesma pilha
onde porcos buscam estrume.
Amanhã a chuva lavará os seus sangues misturados
para os riachos, e perder-se-ão
em pilhas de lixo, em poças estagnadas, em lama.

O seu grito não será ouvido.
E tudo será como sempre foi.

Sobe até ao sótão, caminha com pés e mãos;
Observa a sombra da morte erguida entre as sombras.
Ali no canto funesto, ali no esconderijo sombrio,
numerosos olhos posarão em ti atravessando o silêncio triste.
Estas são as almas do espírito dos mártires,
Juntas, finalmente, sob estas vigas e dentro destes buracos ignóbeis.
O machado encontrou-as aqui, e para cá vieram
selar com o último olhar, com o último sopro,
a agonia das suas vidas, o terror das suas mortes.
Fantasmas que tombam e tropeçam, vieram aqui encolher-se.
O seu silêncio chora e são os seus olhos que clamam:
Porque razão, Senhor, e porquê?
É um silêncio que só Deus pode suportar.

Levanta então os teus olhos para o tecto;
não há lá nada, a não ser um seguro silêncio
suspenso nas traves.
Interroga a aranha no seu esconderijo.
Os seus olhos viram todas estas coisas;
E com a sua teia ela pode desenrolar um relato
horrendo aos ouvidos dos homens:
uma história de ventres rasgados, de narinas pregadas,
de crânios e ossos esmagados e derramados.
De homens assassinados pendurados nas traves.
E de um recém-nascido arremessado ao lado da mãe
trespassada por uma lança;
De como um punhal cortou ao meio a palavra de uma criança,
ouviu-se ma, mas mamã nunca chegou a formar-se.
Ó, ainda agora os seus olhos me pedem explicações
do relato que a aranha reconta,
histórias que perfuram o cérebro, histórias que te cortam
o corpo, o espírito, a alma, da vida, para sempre.
Então vais implorar ao teu espírito –
Pára, chega!
Asfixia a raiva que te sobe a garganta,
enterra estas coisas malditas,
bem fundo no teu peito, antes que o coração te estoure.
Depois deixarás estes lugares e partirás – olha! –
A terra é como era, o sol brilha ainda:
É um dia como qualquer outro.

Desce depois às adegas da cidade,
aqui violaram as virginais filhas das gentes,
onde sete bárbaros se atiraram às mulheres,
a mãe à vista da filha,
a filha à vista da mãe,
antes da matança, durante a matança, depois da matança.
Toca com teus dedos o forro manchado,
sente a almofada ensanguentada,
foi aqui que as bestas selvagens
com machados sangrentos nas patas
obrigaram as tuas filhas a sucumbir…
Esmagadas na vergonha, viram tudo;
Não arrancaram os olhos;
Não esmagaram a cabeça contra paredes.
Talvez, talvez, as testemunhas buscaram nos corações orações:
Um milagre, Senhor, poupa a minha pele mais um dia!

Vem, agora, levar-te-ei aos seus esconderijos,
Às latrinas e chiqueiros onde se ocultaram
os herdeiros dos Hasmoneanos, com joelhos trémulos,
escondidos e agachados – os filhos dos Macabeus!
A semente de santos, a prole dos leões!
Que, amontoados em multidões nos santuários da humilhação,
tanto santificaram o Meu nome!
Fugiram a fuga dos ratos,
o correr das carochas foi a sua fuga;
morreram como cães e morreram!
E, na manhã seguinte, depois da noite terrível
o filho que não foi morto encontrou no chão
o cadáver desprezado do seu pai.
Porque razão, Senhor, e porquê?

Exausta e gasta, uma escura Shekinah
Corre para cada canto sem encontrar descanso;
Deseja chorar, mas o choro não vêm;
Quer rugir; emudeceu.
Com a cabeça debaixo da asa, a asa estendida
sobre as sombras dos mártires mortos,
as suas lágrimas vertidas em silêncio e penumbra.

Tu, também, filho do homem, fecha agora o portão;
Fecha-te na escuridão, é tua agora esta morgue;
Tardando ali serás uno com a dor e a angustia
e enche de mágoa o teu coração por todos os seus dias.
Então, no dia da tua própria desolação
parecerá um refúgio,
pousado em ti como maldição, uma emboscada de demónio,
o assombrar de um pesadelo,
Ó, arrastando-o no teu coração, pela extensão do mundo
quererás proclamá-lo, falar dele
mas os teu lábios não encontrarão palavras.

Vai além dos subúrbios, chega ao cemitério.
Não deixes que homem algum te veja; chega só,
Um lugar de campas santas e pedra-mártir.
Chega-te perto do solo revolvido e fresco.
O silêncio tomará conta de ti,
O teu coração enfraquecerá com pena e vergonha,
mas não deixarei que uma lágrima caia dos teus olhos.
Endurecerei o teu coração,
não te permitirei um suspiro.
Olha, vê os bezerros mortos, massacrados;
Há algum preço para a sua morte? Como deve ser pago esse preço?
Perdoai, humilhados da terra, o vosso é um Senhor pobre!
Pobre foi Ele em vida, e pobre continua ainda.
Quando à minha porta vieres buscar recompensa,
abri-la-ei de par em par: Vejam, perdi a grandeza dos Meus altos domínios.
Sofro por vós, meus filhos. O meu coração entristece por vós.
Os vossos mortos morreram em vão; e nem eu nem tu
sabemos porque morreste ou porque razão, por quem, ou porque leis;
As tuas mortes são sem razão; as tuas vidas são sem causa.

Volta agora o teu olhar dos mortos, vou guiar-te
do cemitério aos teus irmãos vivos,
e virás, com os da tua própria geração,
à sinagoga, e no dia do jejum,
para ouvir o seu grito de agonia,
as suas eternas lágrimas.
A pele arrefecerá, os cabelos da tua cabeça ficarão de pé,
e serás movido, trémulo, pelo medo.
Assim geme um povo perdido.
Olha nos seus corações – observa o triste vazio
onde nem a vingança consegue crescer,
mas ainda assim, nos seus lábios não se levantam
altas maldições, ou juramentos de blasfémia.
Fala com eles, implora-lhes raiva!
Deixa que contra mim levante a mão ultrajada,
Deixa que exijam!
Exijam retribuição pelos humilhados
de todos os séculos e todos os tempos!
Que se atirem punhos como pedras
Contra os céus e o Trono celeste!

E tu, também, não lhes mostres misericórdia, não lhes toques nas feridas;
Não deites nem mais uma gota no seu cálice.
Onde tocasses encontrarias uma ferida,
as suas carnes são todas chaga.
Porque com resignação enfrentaram a dor
e com a humilhação fizeram pazes,
de que lhes servirá a tua consolação?
São coitados demais para evocar em ti desprezo.
São arruinados demais para evocar em ti compaixão.
Deixa-os ir, então, homens nascidos na aflição,
enlutados e esmagados sob o peso que os oprime.
Parte então das suas casas e lares
podridão nos ossos, corrupto coração.
E vai até à estrada,
encontrarás ai estes homens destroçados pela mágoa,
suspirando e gemendo, às portas dos ricos
proclamando as suas feridas, como mercadoria de pedinte,
A um a cabeça espancada, outro os membros enfermos,
um mostra um braço ferido, outro os ossos partidos.
E todos têm olhos que são os olhos de escravos,
Escravos açoitados em frente dos donos;
cada um suplica, cada um deseja:
Recompensa-me, Senhor, pelo meu crânio quebrado.
Recompensa-me, Senhor, pelo meu pai martirizado!

E assim compaixão imploram.
Porque és agora o que sempre foste
Como estendeste a mão
assim a estendes,
e como foste desgraçado,
assim desgraçado és.

Que fazes aqui, filho do homem?
Levanta-te, foge para o deserto!
Leva para lá contigo o cálice de desgosto!
Levai a sua alma, rasga-a em mil retalhos!
Com raiva impotente, com coração deformado!
Verte a tua lágrima sobre rochas áridas
e manda o seu grito amargo à tempestade!

Haim Nahman Bialik (1873-1934). Poeta. Judeu nascido na Rússia. Falecido em Tel Aviv, é conhecido como o Poeta Nacional de Israel.

A Cidade do Massacre” foi escrito por Bialik em homenagem às vítimas do Pogrom de Kishinev, ocorrido em 1903. A sua profunda e emotiva descrição de um sofrimento inimaginável torna-o extraordinariamente apropriado para recordar Auschwitz.

[tradução preliminar da chamada “versão curta” do poema]

“Conceitos de Moral”

ou Leituras para uma Frase Moralista de Francisco Louçã

“O homem que não queira voltar a Moisés, a Cristo, ou Maomet, e que não se contenta com um arlequim ecléctico, tem de reconhecer que a moral é um produto da evolução social; que nada tem de invariável; que serve os interesses da sociedade; que estes interesses são contraditórios; que a moral tem, mais do que qualquer outra forma de ideologia, um carácter de classe.” (p.39)

“A burguesia, cuja consciência de classe é muito superior à do proletariado, pela sua plenitude e pela sua intransigência, tem um interesse vital em impor ‘a sua’ moral às classes exploradas. As normas concretas do catecismo burguês servem-se de abstracções morais colocadas sob a égide da religião, da filosofia, ou dessa coisa híbrida que se chama o ‘bom senso’.” (p. 42 e 43)

“Mas não sobrestimemos o grau de consciência dos moralistas. As suas intenções não são assim tão más. Elas vão servindo de alavanca na engrenagem do provir.” (p. 87)

Lev Davidovich Bronstein, conhecido como Leon Trotsky (1879 – 1940). Revolucionário. Judeu russo.
[citações do livro “Conceitos de Moral”, edição portuguesa não datada de “Leur Morale et la Nôtre”, de 1938.]

:: NOTA :: Para contrabalançar aconselho a leitura deste post de Daniel Oliveira: O Paradoxo.

Viajar no Tempo

ou Interlúdio de Elogio Familiar

Durante os meus quase 10 anos de vida em Los Angeles dei por mim muitas vezes a questionar a validade desta minha opção. De vez em quando, em conversas com amigos, era frequentemente recordado da frase lapidar de Woody Allen referindo-se a Los Angeles numa cena de Annie Hall: “Porque raio queres tu viver numa cidade cuja única vantagem cultural é poder virar à direita num sinal vermelho?” Woody Allen, um nova-iorquino, fazia por instigar a velha rivalidade entre as costas americanas. Sou obrigado a confessar que na maior parte dos dias Woody até tem razão. Mas dizer mal de Los Angeles é demasiado fácil. Até porque há sempre felizes excepções a esta regra que nem sequer o é.
Sábado à noite foi uma dessas ocasiões – fui até ao Getty Center assistir a um concerto de música antiga perfeitamente delicioso: Elaborate Measures: Performing the Orient. Pode mesmo ser deformação que quem estuda eternamente a História, mas poucas coisas dão mais prazer do que ouvir música escrita há séculos. Sons que ouvidos antigos ouviram. A culpa foi inteiramente do meu cunhado, Avi Stein, brilhante tocador de cravo e membro do La Monica, o ensemble responsável pelo concerto. Enquanto as leis da física continuem a impossibilitar que se viaje no tempo (aparentemente?), aquelas horas foram um substituto quase perfeito.

תודה רבה אבי

PS –By the way, em Los Angeles (e em toda a Califórnia) pode-se mesmo passar um sinal vermelho para virar com o carro à direita. Em Nova Iorque não…


A Invenção do Orientalismo
O Concerto da Concubina do Grão-Turco, Carle Vanloo, 1737.

O Melhor Post Sobre a Tomada de Posse de Bush…

Dia da tomada de posse
Ou um duplo sentido intencional

Ao mesmo tempo que consultava um dos meus pacientes, um esquizofrénico, ele via a tomada de posse do Presidente na televisão. A sua fala era alucinada e desordenada.

Zackary Sholem Berger, médico, escritor, crítico literário, poeta e colunista do diário judaico nova-iorquino Forward.

:: NOTA :: Sobre o gesto de Bush (ou outros segundos sentidos intencionais): As aparências iludem mesmo e a linguagem dos gestos está longe de ter uma interpretação universal. Na foto, a mão erguida do presidente americano representa a tradicional saudação texana conhecida como “Hook ’em, ‘horns!”, o “grito de guerra” da equipa de futebol americano da Universidade do Texas, os Longhorns (que traduzido dá qualquer coisa como “cornos longos”). Bush usou a saudação em Washington enquanto assistia ao desfile da banda de música da universidade texana – um gesto que seria repetido igualmente pela sua mulher e pelas filhas. Em Portugal, onde é usado com frequência como “saudação” automobilística, tem o significado que todos sabemos. Na Noruega, o jornal Verdens Gang sentiu-se na obrigação de explicar aos seus leitores que Bush não estava a fazer uma saudação satânica, ao contrário do que os costumes locais fariam prever.

Humor Contra o Antisemitismo

– As nossas desgraças vêm todas dos judeus!
– Dos judeus e dos ciclistas!
– Dos ciclistas?! Porquê?
– E por quê dos judeus?

Pitigrilli (1893-1975) pseudónimo do escritor italiano Dino Segre.
(via Professorices)

Ilustração: Autor desconhecido (via Luís Bonifácio). Postal ilustrado anti-nazi distribuído pela embaixada britânica em Lisboa durante a Segunda Guerra Mundial.
[For my English language readers and since the automatic translator will not pick up the caption in the illustration, here it goes: “Aryan type: blond like Hitler, slender like Goering and tall like Goebbles.”]

Mau gosto


Um misterioso spot publicitário de gosto bastante duvidoso começou a circular há dois dias na Internet sem que ninguém assumisse a sua paternidade. Tecnicamente imperfeito (especialmente na montagem), o anúncio mostra um homem de aspecto árabe, envergando um keffiyeh palestiniano, conduzindo um carro pelas ruas de uma cidade não identificada. Subitamente, o carro pára frente a uma esplanada e o condutor carrega no detonador de um colete-bomba. Mas a explosão é contida pelo carro. O slogan é a pièce de résistance: “Polo. Small but tough.”
Aparentemente, tudo fazia crer que se tratava de um anúncio televisivo para o Volkswagen Polo, mas a Volkswagen negou determinantemente que o tivesse autorizado. Afinal o anúncio não passou de uma brincadeira de uma agência de publicidade, a Leeanddan, um “spec ad” destinado a mostrar o “humor de risco” de que são capazes.
O “anúncio” pode ser visto aqui: VW-20-B2, ainda disponível no site da Leeanddan, ou em alternativa através deste link: VW Suicide Bomber.
Ao ver o pequeno vídeo (tomei conhecimento da história via Jewlicious e depois no MuseumOfHoaxes.com), lembrei-me de ter lido comentários em vários blogs sobre o aparecimento de piadas idiotas sobre a catástrofe do sudoeste asiático. Lembrei-me particularmente de um post brilhante de José Luís Peixoto intitulado Engraçadinhos Sem Graça. Escreveu ele: “É o luxo daqueles que imaginam que o seu pequeno mundo nunca será destruído. É a ignorância daqueles que nunca perderam ninguém, que acreditam que nunca irão perder ninguém e que vêem o mundo como uma brincadeirinha, um jogo de playstation, uma elaboração teórica que nunca os afectará. É a total falta de empatia em relação ao sofrimento dos outros – uma das principais marcas psicológicas dos psicopatas.” E isto vale para todos os sofrimentos do mundo.

No Dia de Martin Luther King


Marcha pela Paz no Cemitério Nacional de Arlington, 6 de Fevereiro de 1968. Da esquerda para a direita: rabino Abraham Heschel, Martin Luther King, reverendo Ralph Abernathy e o rabino Maurice Eisendrath (carregando a Torá).

Foto de John C. Goodwin

:: Sobre Martin Luther King Jr. :: The Martin Luther King, Jr. Papers Project / MLK Papers Project – About King / The Seattle Times: Martin Luther King Jr. / Martin Luther King Jr National Historic Site (National Park Service)/ National Civil Rights Museum / As MLK Day Approaches, Some Question State of Black-Jewish Ties / Amazon.com: Books: Shared Dreams: Martin Luther King Jr. and the Jewish Community / In Honor of the Reverend Doctor Martin Luther King Junior / A Special Bond: Martin Luther King, Jr., Israel and American Jewry By Stuart Appelbaum / Martin Luther King on Anti-Zionism / Ebony: Advice for living – excerpts from columns written by Martin Luther King Jr. for Ebony magazine from 1957-58 – 50th Anniversary Reprint / God-talk, Friendship, and Activism: the Relationship Between Abraham Joshua Heschel and Martin Luther King (article by By Susannah Heschel, rabbi Heschel’s daughter).

:: Os Discursos :: [áudio formato .rm] I Have a Dream / Let Freedom Ring / I’ve seen the Mountain Top / Stand Up for Justice (formato .mov).


Judeus Negros em Harlem, Nova Iorque, fotografados por
James VanDerZee, em 1929, frente à Sinagoga Mourisca Sionista.
Rabinos Levi Ben Levy, A. Jona, D. Small, W.A. Matthew(rabino chefe),
M. Stephens, Rabbi E. Grey. Harlem, Nova York, 1967.

:: Identidade Negra-Judaica :: Black Jews, Hebrews, and Israelites / Struggling: My Pathway to Conversion (um ensaio de Michael Hudson).

:: Judeu Negros Famosos :: Sammy Davis, Jr. (cantor) / Aaron Freedman (jornalista e comediante americano) / Julius Lester (professor catedrático e escritor) / Walter Mosley (escritor, autor do famoso “Devil in a Blue Dress”) / Yaphet Kotto (actor) / Rebecca Walker (escritora) / Sheree Curry Levy (jornalista) / Lenny Kravitz (músico) / Lisa Bonet (actriz).

De um coração para outro

Abraham Joshua Heschel

Tão curta a distância – de um coração para outro.
Se me sinto a mim, aos meus desejos,
porque não a ti e os teus?

Milhões de olhos buscam e não conseguem encontrar o outro.
Cada um evita o outro, como aranhas famintas.
Quem não carrega no seu seio amor, gratidão
a outros?

Deixa-me confessar abertamente o meu desejo por ti!
E como uma ponte abarcando mil terras
que te separam de mim,
deixa-me, eu próprio, deitar-me para te alcançar

Abraham Joshua Heschel, (1907 – 1972), rabino, filósofo e poeta.

[Poema do livro The Ineffable Name of God: Man (Continuum, Setembro de 2004) onde se publicam, agora pela primeira vez em inglês, 66 poemas escritos por Heschel originalmente em yiddish, entre 1927 e 1933, traduzidos por Morton M. Leifman.]

Mea Culpa

No final do post RTP na Palestina: Os Erros de Paulo Dentinho, manifestei a minha surpresa ao ouvir Judite de Sousa dizer (por duas vezes) a palavra “rizorte” no Telejornal de sábado passado. Cheguei a escrever que esta era a primeira vez que ouvia uma expressão de “emigrantês” típico vinda de uma pessoa que nunca viveu fora de Portugal. Erro meu! A palavra “rizorte” – em tempos traduzida como “estância de férias” – aparentemente passou a fazer parte integrante do vocabulário corrente português: nos últimos dias voltei a ouvi-la na boca de mais dois jornalistas da RTP e mencionada pelo porta-voz do Partido Socialista, José Junqueiro – um catedrático, professor na Universidade de Aveiro (com um trabalho de doutoramento sobre a Didáctica das Línguas Clássicas), e deputado do PS –, a propósito das mini-férias de Morais Sarmento. Afinal a culpa parece ser inteiramente minha. Depois de 11 anos a viver fora de Portugal perdi o contacto com a evolução e apuramento da nossa língua. Cristalizei-me tristemente. The facts are overwhelming: “rizorte” existe e recomenda-se. Shame on me

Will Eisner (1917 – 2005)


:: A LER :: Will Eisner.com / Will Eisner – Wikipedia / The Onion A.V. Club – Interview With the Comics Legend / Will Eisner s’attaque aux “Protocoles des Sages de Sion” / Fagin the Jew / Fagin the Jew (Amazon) / Comic creator: Will Eisner / Profile – Eisner/Miller TPB / Will Eisner and The Spirit – A Biography and History of a Comics Legend / CNN.com – Comic book legend Will Eisner dead – Jan 5, 2005 / Will Eisner Dies; Drew ‘The Spirit’ Comic Strip (washingtonpost.com) / The New York Times > Books > Will Eisner, a Pioneer of Comic Books, Dies at 87 / Will Eisner – a brief look at the creator of The Spirit

שרון ואבו-מאזן: נמשיך לדבר


Sharon e Abu Mazen: Vamos Retomar o Diálogo” – é assim o título da notícia do diário israelita Maariv (disponível apenas em hebraico, a edição em inglês encerrou há três semanas por falta de verba…), descrevendo uma conversa ocorrida há poucas horas entre Sharon e o presidente-eleito da Autoridade Palestiniana. A notícia (assinada por dois jornalistas israelitas – um judeu e um árabe) conta que Ariel Sharon telefonou a Abu Mazen para o felicitar pela sua vitória nas eleições palestinianas de domingo e que ambos concordaram em reunir-se muito em breve. Pode ser desta… quero acreditar que sim.

שלום إلهة يريد
(A Paz… oxalá)

:: Adenda :: Entretanto, a notícia aparece já também na edição online em inglês do Haaretz. Segundo o jornal, o líder do Partido Trabalhista, Shimon Peres – agora vice-primeiro-ministro do novo governo de “salvação nacional” israelita (uma coligação do Likud com os Trabalhistas destinada a aliviar a pressão da extrema-direita) –, telefonou também a Abu Mazen: “Israel fará tudo o que puder para ajudar o povo palestiniano a estabelecer um governo democrático, para que possamos viver em paz, lado a lado, em duas democracias”, disse Shimon Peres.

:: A LER :: Uma análise extremamente bem feita por um dos “profetas” da coluna da esquerda aqui da Judiaria: David Butter, no já indispensável Alto Volta, que recentemente completou o primeiro ano de vida blogosférica. Parabéns!

Notas da Nova Modernidade

A meio de uma frase, escrevo “Aquilino Ribeiro” no processador de texto. O Microsoft Word 2003 reconhece ser um nome próprio e pespega-lhe uma “smart tag”. Opções: “Send Email / Schedule Meeting / Make Phone Call”. Aponto o cursor para o botão que diz “Cancel”. Acho melhor esperar pelo menos mais meio século e falar-lhe pessoalmente.

Mudam-se os tempos…


Durante anos, o meu pai contava ter visto nas paredes da Europa graffiti em alemão, russo e ucraniano que dizia: “Judeus Vão para a Vossa Terra, Judeus para a Palestina”. Décadas mais tarde, já cidadão de Israel, ele haveria de ver novos escritos nas mesmas paredes: “Judeus Fora da Palestina”. A mensagem para os judeus parece ser simples: “Não estejam aqui e não estejam ali. Simplesmente não existam.”

Amos Oz, escritor israelita.
Retirado do livro de memórias “Uma História de Amor e Penumbra” (סיפור על אהבה וחושך), publicado em 2003 (ainda sem tradução portuguesa).

:: A LER :: The New Yorker – Profiles: Amos Oz / O “senhor Sharafat”: dois homens teimosos e muitos mortos :: Arquivos da Judiaria / Fadiga :: Arquivos da Judiaria / Oz em entrevista ao El Mundo :: Arquivos da Judiaria

:: A COMPRAR :: Contra o Fanatismo (Livraria Cultura, Brasil) / O Mesmo Mar (Fnac, Portugal)

:: NOTA :: Obviamente, a ilustração não corresponde a fotografias reais, limitando-se a traduzir graficamente as palavras de Amos Oz.