Jerusalém

Num terraço da Cidade Velha
há roupa estendida à luz do fim de tarde:
o lençol branco de uma mulher que me odeia,
a toalha de um homem que me odeia,
que ele usa para limpar o suor do rosto.

Nos céus da Cidade Velha
um papagaio de papel.
No outro lado do cordel,
uma criança
que não consigo ver
por causa do muro.

Içamos muitas bandeiras,
eles içam muitas bandeiras.
Para nos fazer acreditar que são felizes.
Para os fazer acreditar que somos felizes.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita. Do livro Poemas, 1948-1962.


Ilustração: ירושלים (Yerushalayim), litografia de Victor Shrem.

Vielen Dank Lutz und מזל טוב !

Há muito que as visitas ao Quase em Português se tornaram para mim obrigatórias. O imprescindível blog de Lutz Brückelmann fez agora um ano. Parabéns Lutz, e obrigado.
De uma forma muito pessoal, gostaria de agradecer especialmente as reflexões que Lutz – um arquitecto alemão que reside em Lisboa – tem feito ao longo deste ano que passou em relação ao Shoá. As suas palavras, imbuídas de uma intensa introspecção e humanidade, tocaram-me e comoveram-me de forma particularmente intensa. Como seria diferente a história dos povos se a generosidade que ele representa tivesse suplantado os ódios irracionais.
Outra das razões que me levam a admirar o Quase em Português é a coragem de Lutz em se expressar numa língua lhe é estrangeira, coisa que faz muitas vezes melhor do que muitos que nela nasceram. Na minha condição de estrangeiro em terra estrangeira, partilho com Lutz inegáveis cumplicidades. Vielen Dank Lutz und מזל טוב!

::Adenda:: Acabei de constatar que hoje faz anos também o blog de André Abrantes Amaral, O Observador. André Amaral merece uma referência especial, entre outras qualidades, pela sua incansável insistência na denúncia das novas encarnações do antisemitismo – um fenómeno que os historiadores classificam como “o mais antigo ódio o mundo”. Obrigado André e muitos parabéns. מזל טוב

Irresponsabilidades

1.) Ontem perdi o Telejornal da RTP1, que me chega aqui a Los Angeles ao meio-dia, via RTP Internacional. Depois de ler na blogosfera vários comentários à cobertura televisiva feita em Portugal à morte de Arafat, decidi ir aos arquivos de vídeo da RTP para ver a emissão de ontem à noite. Com a palavra Muqata atirada abundantemente a cada frase, a notícia dominou o programa. Numa das reportagens apresentadas falava-se da “reacção dos judeus”. As imagens mostravam um grupo de meia dúzia de ultra-ortodoxos – literalmente meia dúzia! – que cantavam e dançavam em Jerusalém.

Para a jornalista que narrava a peça, aqueles senhores, por si, representavam a reacção de todos os judeus à morte de Arafat. Em voz off, a jornalista insistia: “Jerusalém é assim uma cidade dividida. Do lado judeu, a festa. Na parte árabe, o luto.” Ao mesmo tempo, as imagens mostravam um dos ultra-ortodoxos a ser preso por dois polícias israelitas – mas a voz “off” passaria por cima da imagem sem a comentar ou explicar.
Em jornalismo chama-se a isto “folclore”, ou “colorido”. No mundo real tem outros nomes: distorção e irresponsabilidade. Habituados a fazer “reportagens de rua” pelos pretextos mais irrisórios, perguntando a passantes o que pensam sobre isto ou aquilo, os jornalistas da RTP foram incapazes de repetir a fórmula em Israel, limitando-se a regurgitar receitas estereotipadas que em nada representam o que verdadeiramente sente a esmagadora maioria do povo israelita. Com milhares de cafés em Jerusalém e Tel Aviv, a tarefa não seria nada complicada.
Imagine-se o que seria se uma equipa de televisão estrangeira que cobria a morte e o funeral de Francisco Sá Carneiro (este é o primeiro exemplo que me vem à cabeça), falando da reacção da oposição portuguesa, fizesse uma reportagem contendo apenas imagens dos “festejos” e dos foguetes que na altura se lançaram em algumas zonas do país.
O apontamento de reportagem da RTP sobre a “reacção dos judeus” equivaleria a entrevistar meia dúzia membros do “Partido Nacional Renovador” ou da FER para saber o que pensam os portugueses. Falo aqui do discurso dos extremos poder ser encarado como “consenso generalizado”. A percepção do conflito israelo-palestiniano continua assim, em Portugal, a ser enformada em amostras de jornalismo irresponsável.
Para saber realmente como estão a reagir os israelitas – e as opiniões de uma sociedade plural que não pode ser reduzida a um estereotipo extremado –, aqui vai uma sugestão: veja-se o noticiário de ontem da IBA, o canal estatal de televisão israelita. Aqui vão os links directos: IBA Channel 33 – English News Edition / IBA News (hebraico)

2.) A insistência das autoridades francesas em não divulgar as causas da morte de Yasser Arafat é uma atitude de perfeita irresponsabilidade. Ainda hoje, os assassinos do Hamas, e de outros grupos terroristas, continuaram a reiterar a sua “crença profunda” de que Arafat teria sido “envenenado pelos israelitas”, apesar da própria Autoridade Palestiniana ter já desmentido a acusação estapafúrdia. Ao impedir que se conheçam as verdadeiras causas da morte do líder palestiniano, pondo fim a especulações e teorias de conspiração, a França corre o risco de vir a ter sobre si o ónus da eclosão de um novo ciclo de atentados terroristas perfeitamente evitáveis. A manutenção do silêncio francês é diplomática e humanamente irresponsável.

Yasser Arafat (1929-2004) – O Princípio de uma Nova Era

“Quando cair o teu inimigo, não te alegres,
nem quando tropeçar se regozije o teu coração,
para que o Senhor não o veja, e o desgoste”

Provérbios, 24:17,18

Confesso que pouco tenho a dizer sobre a morte de Arafat. Não partilho da teoria segundo a qual todos os obituários se devem escrever em tons suaves e inócuos, afogados em elogios. A morte não apaga o que se fez em vida. Por isso não posso lamentar a sua morte. Lamento, isso sim, a situação caótica em que a sua liderança colocou o povo palestiniano.
Yasser Arafat foi um ditador corrupto que acumulou uma fortuna incomensurável; que pagava uma mesada de 150 mil euros mensais à sua mulher, em Paris, ao mesmo tempo que o seu povo continuava a viver na miséria, em Gaza e na Cisjordânia; que usava os fundos que desviou para comprar influências e manter o poder; que fingiu querer a paz para a rejeitar repetidamente cada vez que ela se aproximava.
Agora, o factor mais importante, a meu ver, é a esperança da morte de Arafat poder alterar a dinâmica de violência e abrir caminho para o estabelecimento de uma paz duradoura no Médio Oriente. Por um lado, a OLP tem agora uma oportunidade única de quebrar o ciclo de caciquismo e corrupção que marcaram a era Arafat. Por outro, Israel fica privada do alibi que a “irrelevância” de Arafat propiciava e será obrigada a agir rapidamente no caminho da paz. O governo israelita tem, agora mais do que nunca, a obrigação moral e o dever de apoiar a nova liderança da Autoridade Palestiniana e reconhecer nela uma legítima parceria na mesa de negociações, sob pena de ver emergir os assassinos do Hamas como “alternativa”. Para já, deverá negociar-se de imediato com a AP a transição de poder provocada pelo plano de retirada unilateral de Gaza.
Com o desaparecimento de Arafat, pessoalmente acredito que seria agora a vez de Ariel Sharon abandonar o governo israelita, de forma a permitir que o retomar das negociações de paz possa ser feito sem a presença de figuras polarizadoras.
Numa amostra do que pode, e deve, ser o jornalismo feito para a Internet, o New York Times tem disponível uma notável reportagem multimédia recente bastante aprofundada sobre as complexidades e desafios da sociedade palestiniana, um trabalho francamente bem feito a não perder, da autoria do jornalista James Bennet.

::A LER:: Jornal de Noticias – Arafat – artigo de Francisco José Viegas / Haaretz – Yasser Arafat, 1929-2004: Father of the Palestinian nation / Foreign Policy: Think Again: Yasir Arafat / Aljazeera: The Fight for Arafat’s Fortune Begins / Who will get Arafat’s millions? Wife is fighting Palestinian officials for assets, Arab TV reports / Suha’s Scream – Arafat’s wife cries conspiracy, and the international press follows the money / The Globe and Mail – Arafat’s wife refuses to go away quietly / Forbes Magazine: Auditing Arafat / The Advertiser: Wife’s battle for Arafat’s fortune [07nov04] / Haaretz – Peace Index / Arafat s leaving won t change things / Honest Reporting -Yassir Arafat: 1929-2004 / Yasser Arafat’s Dark Legacy / Yasser Arafat – Biography / Yasser Arafat – Wikipedia / Suha Arafat – Wikipedia / Arafat’s Pilfered Profits / Arab News – Arafat Aides Resume Talks With Israel, Fight Over His Fortune / Haaretz – After Arafat: A new Mideast? / O “senhor Sharafat”: dois homens teimosos e muitos mortos – artigo de Amos Oz – Arquivos da Judiaria / As Causas dos Atentados Suicidas – artigo de Alan Dershowitz – Arquivos da Judiaria.

Kristallnacht – A Noite de Cristal


Nuernberger Tor, uma das entradas da Universidade da cidade alemã de Erlangen, 9 de Novembro de 1938. No cimo, uma faixa declara a proibição de entrada a judeus. Em baixo, outra faixa apela ao recrutamento para o partido nazi.

Kristallnacht, a Noite de Cristal, ou O Pogrom de Novembro, marcou o início da marcha macabra para uma das páginas mais negras da História da humanidade. Nas noites de 9 e 10 de Novembro de 1938, numa manobra cuidadosamente orquestrada por Joseph Goebbels – o chefe da propaganda nazi –, por toda a Alemanha e nos recém conquistados territórios da Áustria e Sudetenland (Checoslováquia), as populações judaicas foram vítimas de atentados e ataques continuados nas ruas, em suas casas e nas sinagogas, naquele que seria o maior pogrom da história. Pogromnacht. Pelo menos uma centena de judeus foram assassinados e largas centenas ficaram feridos; cerca de duas mil sinagogas foram incendiadas; perto de 8 mil lojas e escritórios propriedade de judeus foram pilhados e destruídos; cemitérios e escolas judaicas foram vandalizados; mais de 30 mil judeus foram presos e enviados para campos de concentração.
Para os judeus alemães as restrições haviam começado muito antes da Kristallnacht e leis e medidas anti-judaicas eram já aplicadas há vários meses. Entre as numerosas directivas, os cidadãos judeus eram obrigados a declarar todos os seus bens; as suas empresas e pequenas lojas tinham de ser registadas e expressamente sinalizadas; os inquilinos judeus perderam todos os seus direitos legais; médicos, advogados e professores judeus foram proibidos de exercer as suas profissões. Todos os judeus alemães passaram também a ser obrigados a possuir um passaporte especial, marcado com um “J”, e um nome próprio foi acrescentado a cada judeu: “Israel”, para os homens; “Sarah”, para as mulheres.
Kristallnacht, ליל הבדולח, fora “uma bofetada no rosto da Humanidade”, como lhe chamou Elie Wiesel. Mas o mundo ignorou os sinais e voltou a face. O Holocausto (shoá, שואה) estava à porta.

Kristallnacht
9 de Novembro de 1938

::A LER::Quase em Português (um excelente post de Lutz Brückelmann) / The United States Holocaust Memorial Museum :: Kristallnacht – The November 1938 Pogroms Virtual Exhibition (fotos, documentos e testemunhos em video) / Kristallnacht – Wikipedia / ליל הבדולח / Jewish Virtual Library – Kristallnacht: Table of Contents / Simon Wiesenthal Center Multimedia Learning Center Online / Kristallnacht 1938 – Zeitzeugen berichten / Aish.com – Kristallnacht / Aish.com – Kristallnacht And The World’s Response / Remember.org – Kristallnacht Perspective / PLETZ.com – A NOITE DE CRISTAL 65 ANOS DEPOIS – Edda Bergmann / Yad Vashem – About The Holocaust / Yad Vashem Kristallnacht – Pages of Testimony / Rescuers From the Holocaust/Introduction / United States Holocaust Memorial Museum / United States Holocaust Memorial Museum – Antisemitism / Memo38 (Alemão e Inglês).

A Escrita de Outono

Com a tinta dos seus aguaceiros,
com a pena dos seus reluzentes relâmpagos,
e a mão das suas nuvens,
o Outono escreveu uma carta no jardim,
em púrpura e azul.
Nenhum artista conseguiria conceber tais coisas.
E por isso a terra,
invejosa dos céus,
bordou estrelas nas bordas dos canteiros.

Solomon Ibn Gabirol (1021-1058), poeta e filósofo. Judeu de Cordova.

Nota de Tradução – No original hebraico, o ritmo e a cadência das palavras de Gabirol evoca de uma forma marcante os ritmos da própria chuva, criando um efeito poético notável, mas impossível de trasladar eficazmente para o português.

Four More Years…

Por Nuno Guerreiro, nos EUA

Em 1992, do pódio da Convenção do Partido Republicano que nomeara George H. Bush para concorrer a um segundo mandato, Pat Buchanan, um antigo assessor de Richard Nixon e representante máximo da ala extremista dos republicanos, fez um discurso que ficaria para a história. Candidato derrotado às eleições primárias do partido, Buchanan afirmou que existia “uma guerra cultural em curso pela alma da América”. Segundo ele, o país tinha de ser resgatado às garras das elites de esquerda que, de Nova Iorque e Hollywood, controlavam e suplantavam os valores da “América profunda”.
Agora, 12 anos depois, as palavras de Buchanan ressoam com timbre profético. A estratégia da campanha de reeleição de George W. Bush foi traçada ao milímetro por Karl Rove – um ex-lobbista que nos anos 80, em Washington, teve na sua carteira de clientes nomes como Ferdinando Marcos e Jonas Savimbi. Rove acreditava que Bush só podia ganhar se a base ultraconservadora do partido – composta maioritariamente por cristãos evangélicos – fosse votar. E para isso era necessário motivá-los.
Ainda antes da campanha começar, Bush faria isso mesmo ao propor uma emenda constitucional para proibir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, sabendo de antemão que tal nunca passaria no Senado devido ao complexo processo de revisão constitucional. Mas não era uma emenda na Constituição que ele pretendia – Bush falava ao eleitorado ultraconservador. Mostrava-se como seu defensor. Como o defensor dos “valores morais tradicionais”.
Quem de fora comenta a América, geralmente fala em termos uniformes, diz “os americanos isto” e “os americanos aquilo”. Mas não podia ser mais errado colocar uma etiqueta única num país marcado pela diversidade.
Um olhar pelo novo mapa eleitoral americano mostra um país dividido em dois, uma clivagem entre os estados litorais e os do interior. Entre as megalópoles e a insolaridade.
Mais do que qualquer outro país, os Estados Unidos são feitos de assimetrias, onde os mundos hiper-tecnológicos de Nova Iorque ou Los Angeles coexistem com a falta de saneamento básico nas montanhas de Appalachia ou nos recantos perdidos de Montana. O país de Michael Moore, mas também de Newt Gingrich.
Os resultados eleitorais mostram um país dividido ao extremo: na geografia, nas emoções, nos valores e nos medos. John Kerry venceu em Nova Iorque, na Califórnia em New Jersey. George W. Bush ganhou no “Bible Belt”, nas Carolinas, na Geórgia, no Texas, em Montana.
Os resultados das eleições mostram que Karl Rove estava certo. George W. Bush é uma figura polarizadora. Os ódios que gera à esquerda levaram um grande número de novos eleitores às urnas. Os democratas acreditavam que esta afluência recorde seria suficiente para o derrotar. Mas a estratégia de Rove, ao apelar aos medos mais recônditos da “América profunda” – religiosa, conservadora e receosa de mudanças drásticas – não só anulou a pretensa vantagem do Partido Democrata como a suplantou em estados chave, como a Florida e o Ohio. As sondagens à boca das urnas provam-no: quando interrogados sobre a sua principal preocupação actual, a fatia maior do eleitorado respondeu serem os “valores morais”. Não o terrorismo, nem o Iraque, nem sequer a economia ou o desemprego. Os “valores morais”.
Nestas eleições, George W. Bush apresentou-se ao eleitorado como um “presidente de guerra”. A vitória nas urnas confirma-o. Mas esta não é a guerra no Iraque nem no Afeganistão; não é contra a al-Qaeda nem contra o terrorismo. É a tal “guerra cultural pela alma da América”. E vai durar mais quatro anos.

[Crónica publicada na edição de 5/11/2004 do Semanário Económico>

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:: ADENDA :: (05/11/2004) – Para uma visão contextualizada do mapa eleitoral americano, aconselho a passagem por dois excelentes posts do …Blogo Existo, de João Pinto e Castro: O cerco das cidades pelos campos e Bush country vs. Kerry country. Afinal a América não é tão vermelha quanto a pintam…

As Eleições Americanas Vistas do Meu Bairro *


Election Judges
Senhoras simpáticas fiscalizam uma mesa eleitoral.

Brian Fosterjuiz eleitoral na mesa do
Centro Comunitário de W. Hollywood.

Rita e Alexander – Octagenários, judeus russos, votam em Kerry.

Mesa de Voto – Conferem-se cadernos eleitorais.
Aqui fala-se Inglês, Russo, Yiddish e Hebraico.

Assembleia de Voto no
Centro Educacional Chabad-Lubavitch
Eleições americanas com cheiro a misticismo judaico.

A “Terceira Via”… em Santa Monica Boulevard

* West Hollywood, Los Angeles.

::Update (3/11/2004, 17h10):: Aqui em Los Angeles, John Kerry venceu com 1.670.341 votos (62,86%), contra 954.764 votos para Bush (35,93%). Em termos nacionais, segundo a CNN (ver CNN.com Election 2004), 76% dos judeus americanos votaram em Kerry. Bush quedou-se com 24% do “voto judaico”. Consolação pouca, é certo. (Acredito que isto responde à pergunta de Luís Nazaré…)

O Dia D

Por Nuno Guerreiro, em Los Angeles

Pouco passa das sete da manhã de 2 de Novembro, o dia de eleições nos Estados Unidos. As urnas abrem às 8:00h, mas à porta da pequena biblioteca de Plummer Park, em West Hollywood, onde se situa uma das milhentas mesas de voto da imensa cidade de Los Angeles, cerca de 50 pessoas esperam já a sua vez para votar. West Hollywood é um bairro heterogéneo, mas a sua população é maioritariamente judaica, com uma grande componente de emigrantes judeus russos chegados aos Estados Unidos na década de 80.
Entre aqueles que esperam, Vladimir Dovidov, um catedrático de física reformado, de 84 anos, vai lendo um livro de poesia para passar o tempo. Residente nos EUA desde 1987, Vladimir nunca perdeu a oportunidade e votar desde que assumiu a cidadania americana. “Muitos americanos não compreendem a importância de poder escolher. Durante a maior parte da minha vida nunca pude votar. Agora que posso aproveito sempre a oportunidade que me dão”, conta o emigrante ancião, acrescentando que desta vez votará em John Kerry. Por três razões, diz ele: “Porque não gosto de Bush, porque Putin gosta de Bush e porque, como judeu, acredito que a Israel precisa de um presidente americano que acredite na paz.”
Vladimir é um homem fascinante, com um sotaque cerrado e uma vitalidade muito maior do que a sua idade poderia fazer antever. Meia hora depois, o velho professor cumpriria o seu ritual democrático, juntando o seu voto ao de milhões de californianos apostados em conceder os 55 votos eleitorais do estado a John Kerry.

[Crónica publicada na edição de 3 de Novembro de 2004 do Diário Económico]

O Dia D…

A mais de 4 horas do encerramento das primeiras assembleias de voto, começo a ter acesso às primeiras “exit polls” – sondagens à boca das urnas, um privilégio de jornalista, pois – e tudo parece apontar para… uma vitória de John Kerry! O candidato democrata está à frente na Florida e em Ohio, dois dos “estados oscilantes” tidos como essenciais para a vitória nas presidenciais de hoje. Ainda é cedo para tirar conclusões definitivas, mas os dados estão lançados. Vou dar uma volta pela cidade e conto postar mais tarde algumas fotos de mesas de voto aqui de Los Angeles.

:: Adenda :: Os resultados das eleições podem ser seguidos aqui: C-SPAN: 2004 GENERAL ELECTION RESULTS e Yahoo! News – Elections
:: News Update :: (23h00 PST) Ao que tudo indica, as sondagens à boca das urnas voltaram a errar de forma estrondosa, repetindo os erros e o descalabro das presidenciais de 2000. Contrariando as previsões iniciais, Bush venceu na Florida. E Ohio pode ser a “Florida” de 2004… (ver New Woes Surface in Use of Estimates – WashingtonPost.com)

(no ícone à esquerda escreve-se Kerry, em hebraico)

Post Scriptum – Um dos meus blogs favoritos, o excelente Jumento, faz hoje um ano. Aqui vão os votos das maiores felicidades e desejos de longevidade para este blog fundamental.

Sem os Meus Amigos…

Que mal fiz eu às estrelas?
Nas noites em que meus amigos a mim se juntam,
Elas voam depressa, como pássaros, da face dos céus;
Mas nas noites em que me sento em solidão,
Elas mancam, como se estivessem enfraquecidas.
Sem os meus amigos os dias são sombrios,
Mas com a sua companhia, a noite ilumina-se.

Moses Ibn Ezra (1070-1138), poeta, judeu de Granada. < Ilustração: Marc Chagall (מארק שאגאל), Lamentações de Jeremias, litografia, 1956

Sem os Meus Amigos…

Que mal fiz eu às estrelas?
Nas noites em que meus amigos a mim se juntam,
Elas voam depressa, como pássaros, da face dos céus;
Mas nas noites em que me sento em solidão,
Elas mancam, como se estivessem enfraquecidas.
Sem os meus amigos os dias são sombrios,
Mas com a sua companhia, a noite ilumina-se.

Moses Ibn Ezra (1070-1138), poeta, judeu de Granada.

Ilustração: Marc Chagall (מארק שאגאל), Lamentações de Jeremias, litografia, 1956

Yitzhak Rabin (יצחק רבין (1922-1995

Segundo o calendário hebraico, comemora-se hoje a passagem do 9° aniversário do assassinato de Yitzhak Rabin, ocorrido no dia 12 do mês de Cheshvan do ano 5756 (4 de Novembro de 1995). Rabin foi abatido por um extremista israelita, momentos depois de ter participado num comício pela paz numa praça de Tel Aviv que hoje ostenta o seu nome. No palco, depois de discursar, o então primeiro-ministro israelita e Prémio Nobel da Paz juntara a sua voz ao imenso coro que entoou a canção שיר לשלום (A Canção da Paz). O papel com a letra da canção, que guardou no bolso, ficaria manchado com o seu sangue.

Um Ano de Judiaria

A Rua da Judiaria faz hoje um ano. A todos os leitores que por cá vão passando – excedendo todas as minhas expectativas– o meu muito sincero obrigado!

:: Adenda :: Queria deixar ainda aqui um agradecimento especial aos que fizeram questão de assinalar o aniversário da Judiaria:

Aviz (Francisco José Viegas) / Adufe (Rui Branco) / Afixe (Gibel) / Almocreve das Petas (Masson) / Amor e Ócio (Rui Baptista) / AnarcoConservador (JAC) / Através dos Espelhos (Vítor Hermes) / Avatares de Um Desejo (Bruno Sena Martins) / Babugem (Ricardo Gross) / Blasfémias (Sara Muller) / Blogico (Rafael Azevedo) / BdE – Blogue de Esquerda (II): (Jorge Palinhos) / Bloguitica (Paulo Gorjão) / A Bordo (Fernando Macedo) / Cabo Raso (L.F. Vieira) / Catedral (Dionísio Leitão) / Causa Nossa (Vital Moreira) / Cibertúlia (Miguel Marujo) / Chafarica Iconoclasta (CTX) / Como se Fosse uma Baleia… (PSA) / Contra a Corrente (MacGuffin) / Conversa na Travessa (Maria das Flores) / Crónicas Matinais (Ana Albergaria) / À Deriva (João Sousa André) / Dædalus (Francisco Curate) / Diário de Lisboa (Maura) / Empatia/ (Alfarrábio) / Enchamos Tudo de Futuros (Zé Filipe) / O Escrevinhador Diario (LC) / Estarreja Efervescente (Vladimiro Jorge Silva) / Estremoz in loco (“Zedtee”) / Forum Comunitário (W. R.) / FUMAÇAS (João Carvalho Fernandes) / Glória Fácil… (João Pedro Henriques) / Guarda-Factos (G. F.) / Guia dos Perplexos (José) / Grande Loja do Queijo Limiano (Manuel) / Hauptwege und Nebenwege (César de Oliveira) / Homem a Dias (Alberto Gonçalves) / Idanhense (J. Batista) / Ideias Soltas (Carlos Araújo Alves) / Impensável / O Intermitente (Miguel Noronha) / Janela Para o Rio (Nuno P.) / O Jumento (“Rocinante”) / Kleps‎ýdra (Rui Curado Silva) / Letras Com Garfos III (Orlando) / Local & Blogal (António Baeta Oliveira) / Ma-Schamba (José Teixeira) / Malícia-de-Mulher (Cristina) / Maizumpomonte II / Mar Salgado (Filipe Nunes Vicente) / Meia Livraria (Cláudio) / Memória Virtual (Leonel Vicente) / Miniscente (Luis Carmelo) / A [ M i n h a ] J o r n a d a (Filinto Melo) / A Montanha Mágica (Luis) / O Mundo à Minha Procura (Joana) / Nova Floresta (Luís Bonifácio) / O Acidental (Paulo Pinto Mascarenhas) / O Observador (André Abrantes Amaral) / O Ouvido Pensante… (João Oliveira Santos) / Pedro O Tolo (Pedro Silveira) / Portugalidades (Luis Miguel Rocha) / Povo de Bahá (Marco Oliveira) / (re)Primadesblog (C. A. Paredes) / Professorices (João Vasconcelos Costa) / Pula Pula Pulga (“PPP”) / PuxaPalavra (Raimundo Narciso) / Quase em Português (Lutz Brückelmann) / Quartzo, Feldspato & Mica (Rui Manuel Amaral) / Razao Impura (António Fonseca) / A Razao das Coisas (Afonso) / Renas e Veados (Boss) / Respublica (Filipe Alves) / Retorta (Mário Filipe Pires) / Sol&Tude (Bastet) / Super Flumina (Rui J. Oliveira) / Terras do Nunca (João Morgado Fernandes) / Touch Of Evil (Rui Silva) / Tugir (Luis Novaes Tito e Carlos Manuel Castro) / Um Pouco Mais de Azul (R.) / Vadiar (Sónia) / Vila Dianteira (António Neves) / Welcome to Elsinore (Carla).

[ainda em actualização]

Honestamente, sou incapaz de verbalizar a minha imensa gratidão pelas palavras amigas dos autores dos blogs acima citados. Obrigado soa-me a muito pouco…

Cabala – as Morfologias de um Velho Ódio

“Os seres humanos esparramam ao vento, premeditada ou inadvertidamente, abundantes palavras em incontáveis combinações, porém são muito poucos os que sabem que aspectos tinham essas palavras em seus dias de grandeza. Algumas chegaram ao mundo depois de uma grande e difícil viagem através das gerações; outras brilharam como relâmpagos e iluminaram repentina e momentaneamente o mundo inteiro, algumas passaram várias transmutações, deixando atrás de si sua estrela e aroma, outras mais serviram de vasilhas para complexos mecanismos de pensamentos profundos e sentimentos exaltados em maravilhosas permutas.”

In “Lo Revelado y lo Encubierto en la Lenguaje”, Haim Nahman Bialik (1873 – 1934), poeta israelita de origem russa.

Confesso que já há algum tempo que estava para escrever este post. Talvez mesmo desde o princípio deste blog. Depois de muito adiar (já lá vai quase um ano que comecei aqui a escrever), não consegui resistir ao desafio lançado por José Teixeira, no seu Ma-Schamba. Sou obrigado a admitir que sempre me perturbou a utilização que na política portuguesa – e no jornalismo, já agora – se faz da palavra cabala. Se à primeira vista este abuso do termo revela, por si só, algumas das piores características da “alma colectiva” portuguesa – entre elas a aparente incapacidade de assumir responsabilidades e a eterna maquinação de conspirações –, uma análise mais aprofundada escava algo bem mais triste.
A palavra cabala é um dos vocábulos da língua portuguesa onde a linguística e a filologia se intersectam com o fanatismo histórico e a intolerância. E com o antisemitismo institucional que durante séculos vigorou em Portugal graças à Inquisição.
Bem distanciada da definição que lhe é dada pelo português corrente, na sua raiz cabala é uma palavra hebraica (קבלה – pronunciada cabalá), habitualmente transliterada também como kabbalah, que significa literalmente “tradição recebida” e, na prática, traduz o conceito místico no judaísmo.

É impossível traçar as origens da cabala com precisão histórica – “monstros sagrados” das religiões comparadas, como Mircea Eliade e Gershom Scholem nunca chegaram a acordo –, mas o seu primeiro marco definitivo é o Livro da Formação (ספר יצירה), uma composição mística com pouco mais de 32 páginas atribuída pela tradição judaica ao patriarca Abraão e alegadamente redigida há mais de 3700 anos. Há cerca de dois mil anos, ainda durante o período mishnaico do judaísmo, o rabino Shimon bar Yohai viria a compor o Livro do Esplendor (ספר הזהר), um tratado de 20 volumes de interpretação da Torá (תורה), escrito em aramaico, que acabaria por se assumir como a obra central da cabala.
Peço desculpa a José Teixeira por transgredir por completo as suas exigências de um post “resumido e fácil”, mas definir a cabala em poucas linhas é uma tarefa absolutamente impossível. Como escreveu Gershom Scholem: “A Cabala não é um sistema único com princípios básicos que possam ser explicados de uma forma simples e directa, mas é antes composta por uma multiplicidade de metodologias diversas, amplamente separadas umas das outras e por vezes completamente contraditórias.” (On the Kabbalah and Its Symbolism, Keter House, Jerusalém, 1965).
Agora, para perceber a metamorfose da palavra no vocabulário português – de definição de um sistema religioso/espiritual do judaísmo até ao actual sinónimo de conspiração, intriga e trama usado na política e no futebol – é necessário mergulhar no universo histórico do Portugal quinhentista.
A Inquisição Portuguesa é decretada oficialmente pelo papa Clemente VII em 1531, iniciando um regime de terror e obscurantismo que viria a subjugar o país até ser finalmente abolida, em 22 de Abril de 1821 (ver A Inquisição e o Declínio do Império Português – Arquivos da Judiaria). Os judeus portugueses seriam os seus alvos primários, a esmagadora maioria dos quais convertidos à força ao catolicismo no seguimento do decreto de expulsão assinado pelo rei Manuel I a 5 de Dezembro de 1496.
Já de si, mesmo nos círculos judaicos tradicionais, a cabala era algo envolto numa aura de mistério, da qual muitos ouviam falar mas poucos sabiam exactamente o que significava. Até ao início do século XX, a esmagadora maioria dos rabinos defendia que o estudo da cabala podia apenas ser desenvolvido por homens casados, versados no Talmude e na Torá, e só depois de completarem 40 anos de idade. No Portugal quinhentista, onde o judaísmo era praticado em segredo e sob o espectro permanente das fogueiras da Inquisição, o secretisimo era ainda mais exacerbado.
Este período da história portuguesa é marcado por um antisemitismo religioso sem paralelo. Para tentar perceber o que isto poderia significar, Jean-Paul Sartre escreveu em Réflexions sur la Question Juive: “O que pesava sobre ele [Judeu] originalmente era a acusação de ser o assassino de Cristo. Alguma vez parámos para ponderar a intolerável situação de homens condenados a viver numa sociedade que adora o Deus que eles são acusados de matar? Originalmente, o Judeu era então um assassino ou o filho de um assassino – o que aos olhos de uma sociedade com um conceito pré-lógico de responsabilidade acaba inevitavelmente por ser a mesma coisa.”
Vistos como párias sociais, os judeus são alvo de uma campanha de vilificação sem tréguas. Palavras como “judeu”, “judiaria” e “judiar” passam a ser usadas em sentido pejorativo, como insulto ou sinónimo de crueldade – quando os judeus eram, eles sim, as vítimas das prisões, torturas e fogueiras inquisitoriais. O mesmo aconteceu com a palavra cabala. Associada à mística judaica, misteriosa aos olhos dos não-iniciados, cabala passa igualmente a partir daí a ter uma conotação negativa, ela própria associada ao secretismo e à conspiração, num sentido lato e sinistro.
Marca visível de um fanatismo e de uma intolerância históricas inegáveis, a versão deturpada destas palavras entrou na linguagem corrente por via da propaganda inquisitorial. E permaneceu através dos séculos.
Agora, 183 anos depois do fim da Inquisição, a palavra cabala jorra das bocas de ministros e dirigentes desportivos, transformada num tributo inconsciente e póstumo à obra daquela que foi a mais nefasta instituição da história portuguesa. Não é preciso um doutoramento em linguística ou semiótica para compreender a importância do vocabulário na moldagem das mentalidades. Basta ler George Orwell ou Aldous Huxley.

George Bush e “o Impostor”

Tradução do guia da exposição Jewes in America*, que decorre na New York Public Library até meados de Novembro (ver também NYPL, Exhibitions at the Humanities and Social Sciences Library):

GEORGE BUSH (1796-1859)
The Valley of Vision, or, The Dry Bones of Israel Revived
New York: Saxton and Miles, 1844
Dorot Jewish Division

Quando a Universidade de New York (NYU) foi fundada em 1830 como uma alternativa não sectária e democrática à elitista e episcopal Columbia, contrataram o mais competente hebraista americano, Isaac Nordheimer – antigo estudante na Eslováquia do Rabino Moses Schreiber – como seu primeiro professor da cadeira de Árabe. É um paradoxo que a primeira instituição secular e laica de ensino superior da cidade tenha considerado impossível permitir que um judeu ensinasse a Língua Sagrada. […] Mas, igualmente paradoxal foi a escolha de George Bush para ensinar Hebraico. Um hebraista cristão capaz, George Bush era na altura conhecido apenas como o autor do primeiro livro americano sobre o Islão – uma biografia de Muhammad, a quem Bush insistia em chamar “o impostor”. […] Bush construíra a sua reputação enquanto crítico do que considerava serem movimentos religiosos “de má reputação” – islamismo, milenarismo, etc. –, mas agora surgia como um dos principais defensores de duas controversas crenças mais recentes: a religião ocultista de Emanuel Swedenborg e a medicina alternativa de Anton Mesmer. George Bush deixou a NYU e passou o resto da vida como ministro da Church of the New Jerusalem em Brooklyn, uma igreja swedenborgiana. Os famosos homónimos actuais deste George Bush são descendentes directos do seu irmão, Timothy.

[via Zackary Sholem Berger]

* Esta exposição integra-se nas comemorações dos 350 anos da chegada dos primeiro judeus à colónia holandesa de Nova Amsterdão, actual Nova Iorque. Estes pioneiros eram judeus portugueses que tentavam escapar à reintrodução da Inquisição no Recife (ver Judeus Portugueses nas Américas – Arquivos da Judiaria).