É impossível traçar as origens da
cabala com precisão histórica – “monstros sagrados” das religiões comparadas, como
Mircea Eliade e
Gershom Scholem nunca chegaram a acordo –, mas o seu primeiro marco definitivo é o
Livro da Formação (
ספר יצירה), uma composição mística com pouco mais de 32 páginas atribuída pela tradição judaica ao patriarca Abraão e alegadamente redigida há mais de 3700 anos. Há cerca de dois mil anos, ainda durante o período
mishnaico do judaísmo, o rabino
Shimon bar Yohai viria a compor o
Livro do Esplendor (
ספר הזהר), um tratado de 20 volumes de interpretação da Torá (
תורה), escrito em aramaico, que acabaria por se assumir como a obra central da
cabala.
Peço desculpa a
José Teixeira por transgredir por completo as suas exigências de um
post “resumido e fácil”, mas definir a
cabala em poucas linhas é uma tarefa absolutamente impossível. Como escreveu Gershom Scholem: “A Cabala não é um sistema único com princípios básicos que possam ser explicados de uma forma simples e directa, mas é antes composta por uma multiplicidade de metodologias diversas, amplamente separadas umas das outras e por vezes completamente contraditórias.” (
On the Kabbalah and Its Symbolism, Keter House, Jerusalém, 1965).
Agora, para perceber a metamorfose da palavra no vocabulário português – de definição de um sistema religioso/espiritual do judaísmo até ao actual sinónimo de conspiração, intriga e trama usado na política e no futebol – é necessário mergulhar no universo histórico do Portugal quinhentista.
A Inquisição Portuguesa é decretada oficialmente pelo papa Clemente VII em 1531, iniciando um regime de terror e obscurantismo que viria a subjugar o país até ser finalmente abolida, em 22 de Abril de 1821 (ver
A Inquisição e o Declínio do Império Português – Arquivos da Judiaria). Os judeus portugueses seriam os seus alvos primários, a esmagadora maioria dos quais convertidos à força ao catolicismo no seguimento do decreto de expulsão assinado pelo rei Manuel I a 5 de Dezembro de 1496.
Já de si, mesmo nos círculos judaicos tradicionais, a
cabala era algo envolto numa aura de mistério, da qual muitos ouviam falar mas poucos sabiam exactamente o que significava. Até ao início do século XX, a esmagadora maioria dos rabinos defendia que o estudo da
cabala podia apenas ser desenvolvido por homens casados, versados no Talmude e na Torá, e só depois de completarem 40 anos de idade. No Portugal quinhentista, onde o judaísmo era praticado em segredo e sob o espectro permanente das fogueiras da Inquisição, o secretisimo era ainda mais exacerbado.
Este período da história portuguesa é marcado por um antisemitismo religioso sem paralelo. Para tentar perceber o que isto poderia significar, Jean-Paul Sartre escreveu em
Réflexions sur la Question Juive: “O que pesava sobre ele [Judeu] originalmente era a acusação de ser o assassino de Cristo. Alguma vez parámos para ponderar a intolerável situação de homens condenados a viver numa sociedade que adora o Deus que eles são acusados de matar? Originalmente, o Judeu era então um assassino ou o filho de um assassino – o que aos olhos de uma sociedade com um conceito pré-lógico de responsabilidade acaba inevitavelmente por ser a mesma coisa.”
Vistos como párias sociais, os judeus são alvo de uma campanha de vilificação sem tréguas. Palavras como “
judeu”, “
judiaria” e “
judiar” passam a ser usadas em sentido pejorativo, como insulto ou sinónimo de crueldade – quando os judeus eram, eles sim, as vítimas das prisões, torturas e fogueiras inquisitoriais. O mesmo aconteceu com a palavra
cabala. Associada à mística judaica, misteriosa aos olhos dos não-iniciados,
cabala passa igualmente a partir daí a ter uma conotação negativa, ela própria associada ao secretismo e à conspiração, num sentido lato e sinistro.
Marca visível de um fanatismo e de uma intolerância históricas inegáveis, a versão deturpada destas palavras entrou na linguagem corrente por via da propaganda inquisitorial. E permaneceu através dos séculos.
Agora, 183 anos depois do fim da Inquisição, a palavra
cabala jorra das bocas de ministros e dirigentes desportivos, transformada num tributo inconsciente e póstumo à obra daquela que foi a mais nefasta instituição da história portuguesa. Não é preciso um doutoramento em linguística ou semiótica para compreender a importância do vocabulário na moldagem das mentalidades. Basta ler George Orwell ou Aldous Huxley.