Oração da Meia-Noite

Na escuridão da noite, o vento derrama
baldes de chuva no rosto da aldeia;
A pobre terra, afundada em lama,
salpicos e repouso, descansa.

As ruas calaram-se, apenas se ouve
o crepitar do cair da chuva.
Em redor, as casas humildes
projectam-se, aqui e ali, da escuridão.

Como órfãos que boa gente esqueceu
de vestir antes do soprar dos ventos frios,
as barracas de telhados nus
agacham-se procurando abrigo.

Será que sonhos medonhos inquietam o seu descanso?
Será que visões abomináveis se colam em seu redor?
Erguendo os punhos no ar,
parecem tremer e protestar.

Os pingos de chuva escorrem nas paredes
e com o som de choro enchem os ouvidos,
os telhados encharcados balançam, soltos.
A pequena aldeia cobre-se de lágrimas.

Nem uma estrela penetra a escuridão,
densa, suspensa sobre nós,
uma janela apenas revela uma centelha:
Um judeu acordou para orar à meia-noite.

Haim Nahman Bialik (1873 – 1934), poeta israelita de origem russa.


Marc Chagall (מארק שאגאל), Solidão (Solitude).

A Chuva

Marc Chagall (מארק שאגאל), A Chuva (La Pluie), 1911.

Hoje chove em Los Angeles. Há mais de oito meses que não caia água dos céus por estas paragens. Sentia-lhe a falta. Tinha saudades. Juro que nos últimos meses adormeci várias vezes a recordar as ruas molhadas de Lisboa, a sensação húmida das roupas… quem vive em fartura diluviana nem imagina que alguém possa alguma vez sentir-lhe a falta. Mas deste outro lado do mundo, só se vê chuva três, talvez quatro, vezes por ano. Hoje, encharcado de contentamento, lembrei-me de Chagall.

Os Olhos Esperam

Os olhos das gentes esperam por mim
Como pavios de velas por uma luz.

Irmãos humilhados imploram ajuda,
Irmãs enganadas sonham com consolação

E eu, com teimosa audácia, prometi
Acrescentar ternura ao mundo.

E parece que irei, com tempo,
Passar por esta terra
Com o brilho de todas as estrelas
Nos meus olhos

Abraham Joshua Heschel (1907 – 1972), rabino, filósofo e poeta.

:: NOTA :: Poema do livro The Ineffable Name of God: Man (Continuum, Setembro de 2004) onde se publicam agora pela primeira vez em inglês 66 poemas escritos por Heschel originalmente em yiddish entre 1927 e 1933, traduzidos por Morton M. Leifman.

A não perder…

…a entrevista do escritor israelita Amos Oz à revista de domingo do diário espanhol El Mundo: “Palestinos e israelíes están dispuestos a crear dos estados. Lo que ocurre es que Sharon y Arafat son unos cobardes”. A reler também o artigo assinado por Oz há dois anos no New York Times, intitulado O “senhor Sharafat”: dois homens teimosos e muitos mortos.

“A Circulação da Informação” …ou a Arte das Manipulações

As forças armadas israelitas (FDI) reconheceram ontem que erraram ao acusar a ONU de auxiliar grupos terroristas por alegadamente transportar lança-rockets nas suas ambulâncias (ver notícia completa no Ha’aretz). Um avião não-pilotado, vulgo drone, captara há semanas imagens aéreas de um homem a carregar um longo objecto tubular para dentro de uma ambulância da ONU. O formato e as dimensões do objecto levantaram suspeitas e as FDI apressaram-se a acusar a ONU. Agora, ficou provado que o tal “objecto suspeito” não passava de uma simples maca. O blog Not a Fish posta uma foto retirada do diário Yediot Aharonot (ידיעות אחרונות), na qual um funcionário das Nações Unidas demonstra como as autoridades militares israelitas foram induzidas em erro pela aparência de uma maca dobrada.
No Terras do Nunca, João Morgado Fernandes, com a sua ironia habitual, escreve um post intitulado “a circulação da informação” que merece ser lido com atenção. Digo isto porque o João não é um blogger qualquer. É um jornalista com responsabilidades na secção Internacional de um dos diários portugueses “de referência”.
No seu post, João Morgado Fernandes ridiculariza as acusações e receios israelitas (entretanto já desmentidos), esquecendo que nem tudo é a preto e branco no conflito israelo-palestiniano. A verdade é que a utilização de ambulâncias das Nações Unidas por membros armados do Hamas não é novidade e foi já documentada por diversas vezes.
A foto de cima, que ilustra este post, é retirada de imagens recolhidas nos territórios ocupados por um repórter da agência Reuters a 11 de Maio passado, mostrando um grupo de palestinianos armados a fugir numa ambulância da ONU. Curiosamente, ou talvez não, a notícia na altura não chegou à Europa e o próprio responsável máximo da UNRWA (United Nations Relief and Works Agency for Palestine Refugees in the Near East) chegou a reconhecer que era “perfeitamente natural” que a agência da ONU empregasse militantes do Hamas, uma organização terrorista responsável pela morte de centenas de civis. O vídeo da Reuters pode ser visto na íntegra clicando aqui (formato Windows Media).
Como é fácil comprovar, as acusações israelitas das últimas semanas em relação à UNRWA, apesar de se provarem agora infundadas, não apareciam de geração espontânea e eram fundamentadas na experiência de um passado bem recente.
A “circulação da informação”, como lhe chama o João, tem tendência a funcionar em sentido inverso. Basta recordar a forma absolutamente irresponsável como alguma imprensa europeia cobriu o célebre “massacre” de Jenin. O “massacre” nunca existiu, mas dele ficou o mito, atirado desde então como argumento em debates sucessivos sobre o Médio Oriente. Alguns jornais mais responsáveis, como o Guardian, deram-se ao trabalho de tentar perceber a origem do erro e dos preconceitos. Para que se aprenda com o passado, é um texto velho de dois anos que vale bem a pena ler: Guardian.co.uk – How Jenin battle became a “massacre”.

O Sonho Teológico

Não vejo hoje, nas cores do céu, esse azul que,
por vezes, se encontra nos horizontes de setembro. E
se a manhã nasceu enevoada, obrigando cada um a
olhar para dentro de si, é porque também o espírito
sente a opressão obscura do infinito. Com efeito,
o que ultrapassa os limites do conhecimento
pode obrigar-nos a não ver as cores mais puras;
e uma análise atenta da matéria leva-nos ao coração
da sombra, como se estivesse aí o segredo
do ser. Porém, há sempre alguma coisa que
nos lembra que as nuvens podem passar; e que,
para lá das impressões de hoje, o sol irá
voltar ao centro do universo. Então, mesmo que
se trate de uma ilusão de óptica, e que para lá
de nós outras galáxias nos afastem do sonho
da eternidade, ao menos por um instante
teremos saboreado um gosto divino.

Nuno Júdice (poema inédito)

[Ver nota neste post]

EUA: Judeus e as Presidenciais

Contrariando muito do que se tem escrito na Europa sobre o assunto, uma sondagem recente, efectuada pelo American Jewish Committee, mostra que 69% dos judeus dos Estados Unidos vão votar em John Kerry, contra apenas 24% que declaram a sua preferência por George W. Bush.
Na prática, a incessante campanha encetada pelo Partido Republicano para captar o chamado “voto judaico” valeu-lhe apenas uma subida de cinco pontos percentuais em relação às presidenciais de 2000 [ver também um interessante post sobre divisões étnicas/religiosas e as eleições americanas na Grande Loja].
Em relação às opções de voto, esta sondagem não traz grandes novidades, uma vez que historicamente a esmagadora maioria dos judeus americanos vota à esquerda – Al Gore obteve 79% do “voto judaico” em 2000 e Bill Clinton alcançou 80% em 1992 e 78% em 1996.
Os aspectos mais reveladores da sondagem prendem-se com as atitudes dos judeus em relação a temas sociais que actualmente dividem a sociedade americana, e que traçam uma linha de fronteira inexpugnável entre George W. Bush e John Kerry. Um desses temas é o casamento entre pessoas do mesmo sexo – oposto pelos republicanos e usado por Bush há alguns meses para assegurar o apoio das bases da chamada “direita religiosa”. Três em cada quatro judeus inquiridos é contra a proposta de Bush de criar uma emenda constitucional destinada a proibir o casamento gay. Mais de metade dos inquiridos mostra-se favorável à possibilidade de casais gay poderem vir a usufruir dos mesmos benefícios legais que os restantes cidadãos.
Apesar de constituirem apenas 2% da população dos Estados Unidos, os judeus têm uma presença considerável em alguns dos estados chave que podem decidir as presidenciais de 2 de Novembro, como a Florida e New Jersey.
De notar ainda que é por causa das questões sociais – onde a postura de Bush se cola à extrema-direita religiosa da Coligação Cristã –, a par da irresponsabilidade fiscal patente no défice recorde de 436, 9 mil milhões de dólares, que o actual presidente está a perder terreno junto da “ala libertária/liberal” do Partido Republicano. Basta ler com atenção o que vão escrevendo alguns ícones da direita blogosférica americana, como Andrew Sullivan ou Josh Chafetz (OxBlog). Hoje, especialmente depois dos debates, estão ambos à beira de declarar publicamente que irão votar em John Kerry.

Jacques Derrida, 1930-2004

“Les contingences ont fait de moi un juif français d’Algérie de la génération née avant la “guerre d’indépendance”: autant de singularités, même parmi les juifs et même parmi les juifs d’Algérie. J’ai participé à une transformation extraordinaire du judaïsme français d’Algérie: mes arrière-grands-parents étaient encore très proches des Arabes par la langue, les coutumes, etc. Après le décret Crémieux (1870), à la fin du XIXe siècle, la génération suivante s’est embourgeoisée: bien qu’elle se soit mariée presque clandestinement dans l’arrière-cour d’une mairie d’Alger à cause des pogroms (en pleine affaire Dreyfus), ma grand-mère élevait déjà ses filles comme des bourgeoises parisiennes (bonnes manières du 16e arrondissement, leçons de piano…). Puis ce fut la génération de mes parents : peu d’intellectuels, des commerçants surtout, modestes ou non, dont certains exploitaient déjà une situation coloniale en se faisant les représentants exclusifs de grandes marques métropolitaines : avec un petit bureau de 10 mètres carrés et sans secrétaire, on pouvait représenter tout le “savon de Marseille” en Afrique du Nord – je simplifie un peu. Puis ce fut ma génération (une majorité d’intellectuels : professions libérales, enseignement, médecine, droit, etc.). Et presque tout ce monde en France en 1962. Moi, ce fut plus tôt (1949). C’est avec moi, j’exagère à peine, que les mariages “mixtes” ont commencé. De façon quasi tragique, révolutionnaire, rare et risquée.”
Extracto da última entrevista de Derrida: Le Monde, 19/08/2004
[Com um imenso obrigado a Luis Carmelo]
:: A VER :: Derrida Movie Clip

Na Hora da Morte*

A morte veio ao meu encontro
num centro comercial, disse-lhe
espera por mim em casa, não
me leves daqui como se fosse
uma mercadoria, e a morte
assim fez e não estando eu
em casa à hora marcada
partiu de mãos vazias. Depois
foi numa igreja, invoquei
sacrilégio e foi-se embora,
mais tarde numa praça e aleguei
vergonha pública, e num
café pedi para terminar o lanche,
até que a morte me visitou
no meu quarto e eu disse esta
é a casa de meus pais.

*(a partir de um conto talmúdico)

Pedro Mexia (poema inédito)

[Ver nota neste post]

13 de Setembro. Variações

em s. joão de acre
no calor das três da tarde
no passeio entre o cais
e os muros dos cruzados

uma mulher sorria
brincando com a filha
brincava alegremente:
podia ser judia

ou palestiniana
ou cristã ou arménia
ou bósnia ou angolana

foi em s. joão de acre
não há uma semana

Vasco Graça Moura (poema inédito)

[Ver nota neste post]

Salmo

quem às portas do deserto
se confia à imagem que lhe queima os olhos?

vigia a vida frágil o fogo e a suspeita
nem às portas do indemne nos confiamos
o sangue que tingia a soleira da porta
deixou de nos proteger do Anjo vingador

o dia não é dia a noite não é noite
o veneno do ódio obscureceu o céu

restam-nos as sombras de um deus decepado
num teatro de sombras nos movemos
sabendo que um mundo sem Nome
é insuportável

no niilismo presente revê-se o tohu bohu originário
o vazio absoluto que precedia o mundo

um Deus ex Machina
ronda agora a casa em que a carne e o diabo
nos vigiam, os dentes afiados

retirou-se “Aquele que diz basta”
para não obturar o espaço da liberdade
e de Caim
que continua a descriar o mundo

a que porta encostar a esperança
quando o desastre sufoca’
o instante em que o grito mesmo se abole e precipita?

quando os espelhos se quebram
que deus resiste ainda?

virá o Messias
quando tivermos desesperado da sua vinda
quando a esperança for arrancada ao branco do desejo
para a entregar ao puro possível?

guardarei o nome secreto que meus pais me deram
para a passagem do Anjo

estou sentado sobre um dicionário
a folhear o teu Nome
“abrigo-me à sombra das tuas asas
até que passe a tormenta”

José Augusto Mourão, op (poema inédito)

[Ver nota neste post]

A IURD e os Símbolos Judaicos

A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) é provavelmente uma das mais controversas organizações religiosas da actualidade. Fortemente implantada no Brasil e em Portugal, a IURD tem sido criticada por igrejas cristãs tradicionais não só pelas suas pouco ortodoxas opções teológicas, mas principalmente pela maneira como explora as inseguranças dos seus crentes para obter receitas financeiras.
Há muito que a IURD faz uso de “amuletos” vários, como pequenos frascos com “água do rio Jordão”, que vende aos fiéis alegando que estes possuem poderes de “protecção” e “cura”. Agora, a “igreja” fundada pelo ex-funcionário da lotaria federal brasileira Edir Macedo Bezerra resolveu transformar em amuleto seu um dos símbolos máximos do judaísmo: a mezuzá.
Tradicionalmente, a mezuzá é colocada nas ombreiras das portas das casas onde moram judeus como símbolo do cumprimento da Lei de Moisés. Por si só, a mezuzá é uma pequena caixa – que pode ser de madeira, pedra, metal ou plástico – contendo um pergaminho manuscrito com a oração Shemá Israel, a declaração de fé do judaísmo.
No Brasil, a Igreja Universal começou agora a vender mezuzot (apenas as “caixas”, sem pergaminho) aos seus fiéis para “protecção do lar”. Esta manobra de marketing religioso tem irritado vários rabinos, que acusam a “igreja” de apropriação indevida de símbolos religiosos alheios com nítidos objectivos de lucro.
A Igreja Universal do Reino de Deus é uma organização sincrética fortemente inspirada na chamada “teologia da prosperidade” e “confissão positiva”, uma corrente pós-evangélica popularizada nos Estados Unidos por “tele-evangelistas” como Benny Hinn ou Jimmy Swagger, e em Portugal por Jorge Tadeu da Igreja Maná. Segundo alguns teólogos, é neste sincretismo, onde se misturam crenças diversas com superstições populares fortemente enraizadas, que reside o segredo do sucesso da Igreja Universal: em vez de impor novas regras aos crentes, a IURD cria as suas normas em torno das crenças dos seus fiéis.
A utilização de símbolos judaicos pela IURD no Brasil pode estar relacionada com a crescente popularidade das chamadas “igrejas messiânicas” – instituições religiosas cristãs que proclamam um retorno aos rituais judaicos como forma de contextualizar o messias cristão nas suas raízes judaicas (ver :: Rua da Judiaria :: Jesus, o Judeu ).
O apego dos judeus ao simbolismo da mezuzá ficou bem patente, por exemplo, depois da conversão forçada dos judeus portugueses, em 1497. Forçados a esconder qualquer sinal exterior de judaísmo, os cripto-judeus ocultavam a mezuzá dentro de estátuas de santos católicos. Ao entrar em casa, estes “cristãos-novos” beijavam a mezuzá – agora escondida dentro dos santos – cumprindo um duplo propósito: manter a antiga tradição judaica de beijar mezuzá e mostrar aos vizinhos cristãos-velhos a “devoção” aos santos católicos.

Chegar até onde a luz se põe sem querer

chegar até onde a luz se põe sem querer
saber porque se põe (ser do céu uma das
cores) e/ou pertencer ao quente ar do
crepúsculo sentindo que nenhum outro

exacto momento se repete assim. depois:
deixar sair os olhos em contínuos voos
espirais como aves de mar a cair na espera

ondulante das águas e acreditar nas leis do
pensamento como quem mais não pode
que aceitar porque o homem é breve ainda
para se conseguir compreender. eis que tudo

quanto é sonho se torna real tudo quanto é
temporal ocorre agora dissipando eventuais
porquês perante a real forma das coisas

João Luís Barreto Guimarães (poema inédito)

[Ver nota neste post]

Um Judeu Português no “Faroeste Selvagem”


Salomão Nunes Carvalho, auto-retrato daguerreotipo não datado.

Salomão [Solomon] Nunes Carvalho, um descendente de judeus portugueses nascido na cidade de Charleston, na Carolina do Sul, foi o primeiro fotógrafo a atravessar os Estados Unidos da América e a registar com a sua objectiva as paisagens e as gentes do longínquo e mítico Oeste americano.
Integrado na quinta expedição do coronel John Charles Frémont, destinada a explorar traçados possíveis para o caminho de ferro entre o rio Mississippi e a costa do Pacífico, Nunes Carvalho tirou mais de 300 fotografias (daguerreotipos) da expedição, muitas delas em condições de extrema dificuldade.
O coronel John Charles Frémont tentara recolher registos fotográficos das suas viagens anteriores, chegando mesmo a tentar ele próprio a complexa arte do daguerreotipo, mas sem qualquer tipo de sucesso. É a sua reputação que faz com que Frémont convide Nunes Carvalho para acompanhar a expedição.
Considerado um dos melhores daguerreotipistas americanos da época, Salomão Nunes Carvalho tinha um estúdio na cidade de Baltimore e era reconhecido também como retratista e pintor. Alguns dos seus desenhos chegaram a figurar nas notas de um dólar da Reserva Federal.
Salomão Nunes Carvalho nasceu a 27 de Abril de 1815 no seio de uma família judaica de tradição e ascendência portuguesa. O seu pai, David Nunes Carvalho, fora um dos principais impulsionadores do movimento de reforma litúrgica judaica nos EUA, defendendo a tradução dos livros de orações e a introdução de sermões em Inglês nas sinagogas, chegando a ser um dos fundadores da Reformed Society of Israelites de Charleston, a primeira congregação americana do judaísmo reformado. O tio de Salomão, Emanuel Nunes Carvalho, mais tradicionalista, era hazzan (condutor da liturgia) da comunidade de judeus portugueses de Barbados, emigrando depois para os EUA, onde exerceria as mesmas funções nas sinagogas portuguesas de Charleston e Filadélfia. Em 1815, o ano em que Salomão nasceu, o seu tio publicou o primeiro livro de gramática hebraica escrito por um judeu nas Américas.
Criado no seio de uma família onde o judaísmo fazia parte do quotidiano – das orações às restrições alimentares impostas pelas regras de kashrut –, uma longa e perigosa viagem por montanhas e florestas representou um desafio acrescido para o fotografo da expedição do coronel Frémont.
Em várias ocasiões, a falta de mantimentos obrigou Nunes Carvalho a quebrar as duras regras diatéticas do judaísmo. Nos rigores do Inverno do Colorado, conta Salomão no seu diário de viagem, durante um nevão que durou quase uma semana, os exploradores foram obrigados a comer uma das mulas.
A aventura de Salomão Nunes Carvalho, iniciada a 22 de Agosto de 1853, demorou mais de um ano. De Kansas City a Los Angeles, o fotógrafo descendente de judeus portugueses transpôs as montanhas Rochosas, passou pelo Lago Salgado, pelo Grand Canyon e atravessou os desertos de Mojave e Death Valley.
Os mais de 300 daguerreotipos com que Nunes Carvalho registou a sua expedição perderam-se irremediavelmente no incêndio de um armazém em Nova Iorque, em 1881. Recentemente, o fotografo norte-americano Robert Shlaer decidiu reconstituir o registo fotográfico perdido da aventura de Salomão Nunes Carvalho. Utilizando as mesmas técnicas fotográficas e recorrendo ao diário do fotógrafo novecentista, Shlaer reconstituiu parte da viagem no livro Sights Once Seen: Daguerreotyping Frémont’s Last Expedition Through the Rockies, lançado dos EUA em 2000.
Em Portugal, o país de onde emigraram os seus pais, o nome de Salomão Nunes Carvalho é totalmente desconhecido.


Anúncio de jornal: publicidade ao estúdio fotográfico
de Salomão Nunes Carvalho

Os filhos de Nunes Carvalho, David e Charity.
Auto-retrato “já avançado nos anos”.


Aldeia Cheyenne. Provavelmente o único daguerreotipo
da expedição de Nunes Carvalho que sobreviveu ao incêndio de 1881.
:: A LER :: Incidents of Travel and Adventure, edição on-line do livro de Salomão Nunes Carvalho baseado nos seus diários de viagem / Route of 1853 railroad / Early California Jewish Biographies / Collected Works Bookstore – Jews Among the Indians:: A VER :: Auto-retrato de Salomão Nunes Carvalho (Library of Congress Daguerreotype Collection) / Daguerreotype Portraits and Views, 1839-1862 (Library of Congress Daguerreotype Collection)