Em Memória de Sophia (1919-2004)

Poesia

Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.

Exílio

Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

Quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar

Theodor Herzl – תיאודור הרצל

(2 de Maio de 1860 – 3 de Julho de 1904)

::A LER:: Theodor Herzl – Wikipedia / Theodor Herzl – Jewish Virtual Library / Theodor Herzl, The Jewish State, 1896 (edição integral do livro on-line) / E-Notes: Theodor Herzl: An Appreciation – FPRI / Centenary of the Death of Theodor Herzl / Theodor Herzl Books and Articles – Questia Online Library / Resources and Articles by Theodor Herzl / The Dreyfus Affair, and The Rise of Political Zionism / Beyond the Pale: The Dreyfus Affair / Alfred Dreyfus and “The Affair” – Jewish Virtual Library / “The Dreyfus Affair” / J’Accuse…! – Émile Zola / J’Accuse…! (versão inglesa anotada) / “J’ACCUSE …!” EMILE ZOLA, ALFRED DREYFUS, AND THE GREATEST NEWSPAPER ARTICLE IN HISTORY / 1893-1895 – Rui Barbosa e Dreyfus / HISTÓRIA – O Caso Dreyfus – Os Intelectuais e os Direitos do Homem / Crónicas – O centenário do ‘Caso-Dreifus – José Silveira / Haaretz – Was Herzl mistaken?

Legitimidades

Mais do que uma exigência, mais do que um slogan gritado numa qualquer manifestação, esta imagem (cortesia de Rui Tavares, do Barnabé) é publicada aqui com a convicção de que o Presidente da República irá optar pela única solução possível para a actual “crise” política: a dissolução do Parlamento e a convocação de eleições intercalares. Qualquer outra solução seria, no mínimo, desastrosa. Faço minhas as sábias palavras de Bruno Sena Martins, do Avatares de um Desejo, escritas num post intitulado “O simulacro da democracia: um possível estudo de caso”:

“A questão suscitada pela provável nomeação de Durão Barroso para presidente da Comissão Europeia coloca na reflexão política uma diferença muitas vezes pouco considerada: a diferença entre legalidade e legitimidade. Ou seja, se do ponto de vista legal a substituição do primeiro-ministro é concebível, do ponto de vista da legitimidade democrática ela seria algo de profundamente sinistro.”

Para acompanhar os comentários que sobre o assunto vão surgindo na blogolândia vale bem a pena juntar um novo blog ao lote de favoritos: CPeC – Crise Política em Curso, mais um serviço público da autoria do incansável Paulo Querido.

Distâncias II – Only in America

Para ver o Portugal-Inglaterra na televisão lá paguei mais 25 dólares (à medida que o Euro progride a empresa que me serve a TV por cabo, a Adelphia, vai aumentando os preços). A emissão é da BBC Sports e o jogo tem os comentários de Gary Lineker. Aos nervos do jogo junta-se a irritação provocada pelos comentários tendenciosos a favor dos ingleses – compreensíveis, é certo, mas irritantes nevertheless. Mesmo assim os nervos ganham. Fuma-se um maço inteiro de cigarros em duas horas. Mas as arrelias estão longe de se esgotar por aqui. O pior de tudo: a Adelphia decide cortar a emissão quando faltavam dois pénaltis para o fim do jogo. Pois é, o que Ricardo defendeu e o outro que ele marcou. O ecrã fica a negro no momento em que Vassell parte para a bola, deixando tudo em suspenso. Em qualquer outro país do mundo isto seria pretexto para motins. Mas não nos EUA.
A forma displicente como a Adelphia cortou a emissão dos dois últimos pénaltis fez-me recordar uma velha teoria geopolítica, onde se mistura a visão que a América tem do mundo com a incapacidade quase genética que os americanos têm de compreender o fenómeno planetário do futebol. Mas isso é conversa para outros campeonatos.

Ricardo

João Pinto Delgado, Poeta Marrano

Apesar de virtualmente desconhecido e ignorado em Portugal, João Pinto Delgado é considerado o maior poeta marrano* do século XVII – equiparado a Luis de León, Garcilaso de la Vega e outros nomes grandes da Época Dourada. Nascido em Portimão, em 1580 – o ano provável da morte de Luís de Camões –, era o mais velho dos três filhos de Gonçalo Delgado e neto de um poeta menor igualmente chamado João Pinto Delgado – com quem seria muitas vezes confundido. Aos 20 anos deixa o Algarve e muda-se com a família para Lisboa, com o objectivo de estudar e prosseguir as suas ambições literárias. É na capital – entretanto já sob o domínio espanhol da dinastia Filipina – que toma contacto pela primeira vez com as obras de Jorge Manrique, Garcilaso, Herrera, Góngora e Luis de León, que na época circulavam sob a forma de manuscritos. Apesar de existirem alguns poemas seus em português, o grosso da sua obra foi originalmente escrito em espanhol.
Em 1624, João Pinto Delgado parte para Ruão para se juntar aos seus pais, que entretanto tinham escapado à Inquisição portuguesa. É nesta cidade francesa – onde o seu pai é um dos líderes da comunidade marrana ibérica ali radicada – que publica uma colecção de poemas que viria a cimentar a sua reputação literária: Poema de la Reyna Ester. Lamentaciones del Profeta Ieremias. Historia de Rut, y varias Poesias.
Pouco depois da Inquisição espanhola ter enviado um emissário a Ruão para investigar os cripto-judeus em França, a família de João Pinto Delgado parte para Antuérpia e logo a seguir para Amsterdão. Aqui, perante a relativa tolerância religiosa holandesa, passa a praticar o judaísmo de forma aberta e livre pela primeira vez, e João passa a chamar-se Moshe (Moisés) Pinto Delgado. Entre 1636 e 1640 torna-se um dos sete parnasim (governadores) da Yeshiva (seminário religioso) Talmude Torá de Amsterdão, onde na altura estudava o pequeno Baruch (Bento) Spinoza.
Na sua obra poética, João Pinto Delgado busca os seus temas frequentemente na Bíblia Hebraica, uma tendência que partilha com os poetas marranos da época. Tem uma atracção particular por histórias que relatam o poder de Deus para resgatar Israel em tempos de sofrimento, tal como o demonstram as narrativas de Ester e do Êxodo, ambos por ele adaptadas poeticamente.
Em Lamentaciones del Profeta Ieremias, João Pinto Delgado discorre sobre as tragédias da história de Israel, apresentando a visão de que o povo é responsável pelo seu sofrimento por ter falhado aderir por completo à Lei de Moisés. Este é um tema recorrente da literatura marrana, derivado em grande medida de sentimento de culpa em relação à sua própria observância religiosa judaica, disfarçada sob a falsa capa do omnipresente catolicismo.
Na poesia de João Pinto Delgado transparece a sua noção de que a Inquisição seria um instrumento de Deus para trazer os marranos de volta ao judaísmo, acordando neles a firme noção das suas origens. João Pinto Delgado morreu em Amsterdão, a 23 de Dezembro de 1653.

Publica-se hoje aqui na Rua da Judiaria a primeira de três partes de La Salida de Lisboa, um dos raros poemas autobiográficos de João Pinto Delgado, retirado de um manuscrito da colecção Etz Haim, de Amsterdão, publicado pela primeira vez por pelo historiador I.S. Révah no artigo “Autobiographie d’un Marrane” (Revue des Études Juives, 1961).

*Marrano é o termo pelo qual habitualmente se designam os judeus portugueses e espanhóis (e os seus descendentes) forçados a converter-se ao catolicismo para salvar as suas vidas. Durante séculos, o termo foi considerado pejorativo, acreditando-se que derivava da palavra espanhola para porco (marrã em português arcaico). No entanto, actualmente existe uma corrente de linguistas e historiadores que defendem uma outra proveniência para o termo: marrano terá surgido da contracção das palavras hebraicas márr (amargo) e anússe (forçado). Assim, marranos quererá dizer “aqueles forçados à amargura”. Na liturgia da Páscoa Judaica, por exemplo, são utilizadas “ervas amargas” (márrór), para recordar a amargura da escravidão no Egipto. Em hebraico, os marranos são simplesmente designados como anussim – os forçados.
Entre os mais célebres marranos portugueses sobressai, obviamente, o nome de Baruch (Bento) Spinoza (ver Benedict De Spinoza [Internet Encyclopedia of Philosophy]).

La Salida de Lisboa (Parte I)

Aquí está la infame puerta,
la del olivo y la espada,
Para salir tan cerrada,
Y para entrar tan abierta.

Si en ti la paz se destierra,
no eres del ramo capaz,
Porque uno promete paz
y el outro la guerra.

Recoge, o nave, a Sodoma;
sólo a su cómplice embarca,
que, como no eres el Arca,
no hay que esperar la paloma.

Mancha tu cuchillo fiero
y queda pendiente aquí:
quedará la insignia en ti
como blasón verdadero.

Y tú, el más fiero león,
que matas quien no te ofende,
por mano de quien te entiende
tendrás la satisfacción.

Y aunque nace tu alegría
viendo a tantos perecer,
si a muchos lo hiciste ver,
también has de ver tu dia.

Si nuestro pecado obliga
a sufrir tanto rigor,
considera que el Señor,
si disimula, castiga.

Si parece que se olvida
de castigar su enemigo,
es sólo porque el castigo
ha de ser más que en la vida.

Porque el cielo más se indine,
fabricaste tu palacio
donde diste um breve espacio
para que el cuerpo se incline.

La doncella, entre el tormento,
estando en la vida incierta,
medio viva e medio muerta,
responde a tu pensamiento.

Y entre penas y entre engaños,
su temor no perdonó
al padre que la engendró,
cuanto y más a los extraños.

Niegas la vida a quein niega,
y el que confiessa y se olvida,
si ver remedio, su vida
entre las llamas entrega.

No basta ver que sudó
el pobre com lo que vives,
pues lo que ganó recibes
e coges lo que él sembró.

João Pinto Delgado (1580-1653)
(Continua…)

Distâncias

A 9133 quilómetros de distância, o jogo vê-se num canal pago – pay-per-view, a única forma de seguir o Euro 2004 por estas bandas… onde estará o “Futebol de Serviço Público” da RTP Internacional quando mais se precisa dele? Vinte dólares desembolsados para suar e sofrer. Mesmo longe, demasiado longe, é impossível escapar ao turbilhão que nos garante que o futuro – não só do país, mas também, talvez, a própria ordem do Universo – depende do resultado. O final, já todos sabem, foi feliz. Muito feliz. Não consigo resistir, visto a camisola da selecção nacional – comprada na eBay para o fatídico Verão de 2002 – e sigo para o supermercado. No Trader Joe’s de West Hollywood ninguém faz a mínima ideia de que se acabara de jogar em Lisboa o destino de uma fracção da humanidade. A camisola vermelha é apenas isso: uma camisola estranhamente vermelha.
Esta é uma das vantagens da distância. Basta olhar em redor para que tudo volte a ser colocado em perspectiva. After all it’s just a game. But a great game nevertheless.

Jorge Luis Borges

(24 de agosto de 1899 – 14 de junho de 1986)

Borges

É impossível reduzir o labirinto de Borges a um caminho de sentido único. Ainda assim, aqui na Rua da Judiaria, dois dias depois do aniversário da sua morte, presta-se homenagem ao “judaísmo borgeano”, uma das mais fascinantes faces dos seus espelhos múltiplos. Filosemita assumido, estudioso apaixonado da Cabalá e do misticismo judaico, Jorge Luís Borges suspeitava ser descendente de judeus portugueses convertidos pela força ao catolicismo. Morreu sem nunca conseguir provar essa ligação de sangue, mas o judaísmo e os judeus seriam um tema recorrente ao longo de toda a sua obra. No poema Los Borges, o poeta e escritor argentino explora a sua provável obscura origem marrana portuguesa, enleando-a no mito sebastianista, ele próprio alimentado pelo sentimento messiânico dos judeus lusitanos dos séculos XVI e XVII:

Nada o muy poco sé de mis mayores
portugueses, los Borges: vaga gente

que prosigue en mi carne, oscuramente,
sus hábitos, rigores y temores.

Tenues como si nunca hubieran sido
y ajenos a los trámites del arte,
indescifrablemente forman parte
del tiempo, de la tierra y del olvido.

Mejor así. Cumplida la faena,
son Portugal, son la famosa gente
que forzó las murallas del Oriente

y se dio al mar y al otro mar de arena.
Son el rey que en el místico desierto
se perdió y el que jura que no ha muerto.

Em 1934, a sua identificação com o povo judeu transforma-o num alvo fácil para o crescente antisemitismo argentino. Nesse ano, o periódico católico Crisol, num texto profundamente antisemita, imputa a Jorge Luis Borges uma “ascendência judaica, maliciosamente oculta, mas mal dissimulada”. Ao ataque, Borges responde com elegância e humor nas páginas da revista Megáfono, de Buenos Aires, a 12 de Abril de 1934, num artigo intitulado “Yo, Judío” (“Eu, Judeu”).

No lo merezco. He hecho lo mejor que pude para ser un judío. Pude haber fracasado. Si pertenecemos a la civilización occidental, entonces todos nosotros, a pesar de las muchas aventuras de la sangre, somos griegos y judíos. Muchas veces me pienso judío pero me pregunto si tengo el derecho de hacerlo.

Dois anos antes, recém regressado de Espanha, em Agosto de 1932, Jorge Luis Borges defendera a comunidade judaica argentina contra um crescendo de ataques veiculados pela imprensa nacionalista católica. Um manifesto da Legión Cívica Argentina, publicado no Crisol, e assinado pelo tenente-coronel Juan Molina, enumerava os “perigos” que ameaçavam o país: “o socialismo, o comunismo, o anarquismo e o judaísmo.” Borges riposta nas páginas do Mundo Israelita, a 27 de Agosto de 1932:

Ciertos desagradecidos católicos –léase personas afiliadas a la Iglesia de Roma, que es una secta disidente israelita servida por un personal italiano, que atiende al público los días feriados y domingos – quieren introducir en esta plaza una tenebrosa doctrina, de confesado origen alemán, rutenio, ruso, polonés, valaco y moldavo. Basta la sola enunciación de ese rosario lóbrego para que el alarmado argentino pueda apreciar toda la gravedad del complot. Por cierto que se trata de un producto más deletéreo y mucho menos gratuito que el DUMPING. Se trata –soltemos de una vez la palabra obscena– del Antisemitismo. Quienes recomiendan su empleo suelen culpar a los judíos, a todos, de la crucifixión de Jesús. Olvidan que su propia fe ha declarado que la cruz operó nuestra redención. Olvidan que inculpar a los judíos equivale a inculpar a los vertebrados, o aun a los mamíferos. Olvidan que cuando Jesucristo quiso ser hombre, prefirió ser judío, y que NO eligió ser francés ni siquiera porteño, ni vivir en el año 1932 después de Jesucristo para suscribirse por un año a LE ROSEAU D’OR. Olvidan que Jesús, ciertamente, no fue un judío converso. La basílica de Luján, para El, hubiera sido tan indescifrable espectáculo como un calentador a gas o un antisemita… Borrajeo con evidente prisa esta nota. En ella no quiero omitir, sin embargo, que instigar odios me parece una tristísima actividad y que hay proyectos edilicios mejores que la delicada reconstrucción, balazo a balazo, de nuestra Semana de Enero, aunque nos quieran sobornar con la vista de la enrojecida calle Junín, hecha una sola llama.”

O escritor que, em 1949, escolhera o nome da primeira letra do alfabeto hebraico (א) para título do seu segundo livro de contos, El Aleph, manteve até ao fim da vida uma íntima relação afectiva e intelectual com o judaísmo, os judeus e Israel.

ISRAEL

Un hombre encarcelado y hechizado
un hombre condenado a ser serpiente
que guarda un oro infame,
un hombre condenado a ser Shylok,
un hombre que se inclina sobre la tierra
y sabe que estuvo en el Paraíso,
un hombre viejo y ciego que ha de romper
las columnas del templo,
un rostro condenado a ser una máscara,
un hombre que a pesar de los hombres
es Spinoza y el Baal Shem y los Cabalistas,
un hombre que es el Libro,
un hombre que alaba desde el abismo
la justicia del firmamento,
un procurador o un dentista
que dialogó con Dios en una montaña,
un hombre condenado a ser el escarnio,
la abominación, el judío,
un hombre lapidado, incendiado
y ahogado en cámaras letales,
un hombre que se obstina en ser inmortal
y que ahora ha vuelto a su batalla,
a la violenta luz de la victoria,
hermoso como un león al mediodía

Jorge Luis Borges

::A LER:: Algunos Pareceres de Nietzsche, Jorge Luis Borges / Borges Sobre Spinoza / Marcelo Abadi: Spinoza in Borges / Borges Studies on Line, by the J. L. Borges Center for Studies & Documentation / JUDEIDAD Y BORGES / Borges, judío – Moshe Korin / FORWARD : Why Jorge Luis Borges Wished He Was an ‘Israelite’ / Carlos Garcia: Borges y Orígenes / Algunas reflexiones sobre el “judaísmo” de Borges” – Mario Goloboff / BORGES, ARGENTINO UNIVERSAL – José Isaacson / Borges oral (entrevista com Bernard Pivot) / Charlas con Borges / Jorge Luis Borges, Emma Zunz, in El Aleph, 1949 / A Israel (outro poema de Borges dedicado a Israel, traduzido para português).

Um imenso obrigado à Ana Albergaria, autora do blog Crónicas Matinais, pela lembrança do aniversário da morte de Borges, aqui recordado com dois dias de atraso.

Herança Judaica Portuguesa em Selos

Selo Comemorativo da Herança Judaica Portuguesa

Os CTT – Correios de Portugal acabam de emitir uma série de selos comemorativa da presença judaica em Portugal. “Eduyot Leyahadut be’Portugal” é o título escrito em hebraico nos selos, o que traduzido literalmente dá qualquer coisa como “Testemunhos do Judaísmo em Portugal”. Por detrás da imagem principal conseguem ainda ler-se algumas palavras hebraicas, entre elas “consolação” e “oculta”. Um acaso feliz quando se pretende celebrar uma tradição desprezada e apagada da História oficial portuguesa.
A gravura escolhida para o selo aqui representado [imagem à esquerda], desenhado por José Brandão e Teresa Cabral, é retirada de uma iluminura do livro Mishná Torá [imagem à direita], um dos mais representativos símbolos da tradição cultural e artística dos judeus portugueses. Os dois volumes de Mishná Torá (ou Mishneh Torah, segundo a mais comum transliteração inglesa) de Maimonides, elaborados em Lisboa em 1472, são considerados a maior obra prima da escola de iluminura portuguesa do século XV, desenvolvida, em grande medida, em manuscritos sefarditas decorados com as primeiras influências da Renascença. Esta escola portuguesa de iluminura viria a ter um fim abrupto com a conversão forçada imposta aos judeus portugueses, em 1497.
A Inquisição, apostada em apagar todos os vestígios da cultura judaica portuguesa, destruiria a esmagadora maioria dos livros hebraicos produzidos no país – incluindo o primeiro livro impresso em Portugal, uma edição do Pentateuco em hebraico de D. Samuel Porteiro, um judeu de Faro, datada de 1487, e o Comentário ao Pentateuco, do rabino medieval espanhol Moisés ben Nahman (Nachmanides), o primeiro livro impresso em Lisboa, igualmente em hebraico, editado por Eliezer Toledano. A inquisição queimou também uma edição impressa em 1488 dos 22 volumes do Talmude, por Samuel Porteiro, da qual restam apenas fragmentos.
O manuscrito que serve de inspiração ao selo representado acima faz hoje parte da colecção permanente de Manuscritos Hebraicos da British Library. Uma parte dessa colecção pode ser visitada aqui: The British Library Hebrew Collections.

A VISITAR: CTT Correios / The British Library Hebrew Collections / O Primeiro Livro Impresso em Portugal / Judaic Treasures of the Library of Congress: Lisbon’s First Book.

O mesmo manuscrito iluminado foi utilizado aqui na Rua da Judiaria, em Janeiro, para ilustrar um poema de Solomon Ibn Gabirol. Este post ficaria incompleto sem um imenso agradecimento ao Boss, do Renas e Veados, que me alertou por email para o lançamento dos selos comemorativos.

ADENDA: Esta série de selos dos CTT insere-se nas comemorações oficiais do centenário da Sinagoga Shaaré Tikvá (Porta da Esperança), de Lisboa, que se celebra este ano (ver Centenário da Sinagoga).

Tendress et Rage – A Música Yiddish

Músicas da Judiaria IV

 Moshe Leiser (voz e guitarra), Ami Flammer (violino) e Gérard Barreaux (acordeão)

Para ouvir:

Chansons Yiddish: Reyzele

Nesta edição das Músicas da Judiaria IV presta-se homenagem à tradição musical popular e à língua dos judeus da Europa Central e de Leste, o yiddish. À semelhança do ladino – a língua franca dos judeus de tradição ibérica –, o yiddish é também uma língua mesclada, feita de palavras tomadas primariamente de empréstimos do alemão e do hebraico. Enquanto língua viva, o yiddish florescera dos dois lados do Atlântico.
Com o fluxo migratório gerado antes e durante a Segunda Guerra Mundial, a língua que apaixonara Franz Kafka muda o seu epicentro da Europa para os Estados Unidos. Em Nova Iorque, o yiddish aparece intimamente ligado a manifestações culturais da vasta comunidade judaica – da literatura ao teatro, passando pela música e pela rádio. Era a língua materna de George Gershwin.
Para ter uma ideia da importância do impacto do yiddish na cultura popular americana aconselho vivamente a audição de uma reportagem radiofónica efectuada pela National Public Radio (disponível aqui em formato RealAudio).
Aos poucos, o yiddish foi perdendo notoriedade, correndo mesmo risco de extinção. O Shoá (Holocausto) e o desaparecimento progressivo das gerações que tinham no yiddish a sua língua materna – aliado ao ideal nacionalista israelita de fazer do hebraico a língua nacional – quase condenaram o yiddish (e também o Ladino) ao desaparecimento.
Em 1985, um grupo de três jovens músicos judeus residentes em Paris (na foto), resolveu tentar resgatar a língua moribunda dos seus pais gravando um conjunto de canções populares dos judeus da Europa Central e de Leste. Moshe Leiser (voz e guitarra), Ami Flammer (violino) e Gérard Barreaux (acordeão), todos com formação clássica gravaram então “Chansons Yiddish – Tendress et Rage”. O yiddish não era a “língua primária” de nenhum deles, mas todos tinham crescido a ouvir o idioma falado e cantado pelos pais. A gravação contém, de forma perfeitamente assumida, alguns erros de pronúncia, mas, mais do que forma, é o espírito que importa.
Actualmente, Moshe Leiser, o vocalista, é director artístico da Welsh National Opera, de Cardiff, depois de ter desempenhado funções idênticas no Grand Théâtre de Genève, Opéra de Lyon, Théâtre des Champs-Elysées e no Teatro Mariinsky, de São Petersburgo, entre outras companhias. Na Welsh National Opera, Moshe Leiser dirige este Verão La Traviata, de Verdi.
Por último, não resisto à tentação de dedicar esta canção das Músicas da Judiaria IV a Rui Zink, que em 1993 me ofereceu uma cassete onde gravara “Chansons Yiddish – Tendress et Rage“. É a ele que devo o meu primeiro contacto com estas notáveis cantigas de ternura e raiva. Obrigado Rui.

::A VISITAR:: Yiddish Radio Project / National Yiddish Book Center / Vilnius Yiddish Institute / Shtetl, Yiddish Language and Culture / Yiddishkeit (palavras e expressões em yiddish traduzidas para o inglês) / The Spoken Yiddish Language Project / Yiddish-Hebrew-English-German-Russian-French Picture Dictionary

Porque é Dia de Camões

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela,
mas não servia ao pai, servia a ela,
que ela só por prémio pretendia.
Os dias na esperança de um só dia
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe deu Lia.
Vendo o triste pastor com que enganos
assim lhe era negada a sua pastora,
como se não a tivera merecida;
começou a servir outros sete anos
dizendo: mais servira se não fora
para tão longo amor, tão curta a vida.

Luís Vaz de Camões, um soneto “judaico”, inevitavelmente de amor, inspirado na história de Jacob, patriarca hebreu.

Silêncio, em 899 caracteres

Professor Sousa FrancoÉ de longe que vou lendo as notícias da campanha eleitoral para as europeias. De muito longe. Uma lonjura que os mapas me garantem ser de 9133 quilómetros. Quem alguma vez viveu longe, sabe que existe uma tendência natural para romantizar as memórias que restam do país, de olhar para trás com óculos rosados postos na cara, de esquecer convenientemente as misérias de Portugal. Mas há sempre alturas em que a realidade nos dá um soco no estômago.
Foi assim com a notícia da morte do professor Sousa Franco e das circunstâncias que a rodearam. A ela juntam-se os insultos que marcaram a campanha e os elogios post mortem que agora jorram – manifestações típicas da cultura da irresponsabilidade que teima em dominar o quotidiano nacional. Ninguém assume nada. Ninguém se responsabiliza pelas suas palavras ou actos. Às vezes, o respeito devido a quem morre é melhor servido pelo silêncio.

ADENDA: Morte em Campanha: Um Exemplo Americano

Morto em Campanha: Senador Paul Wellstone, 1944-2002Dois anos depois de ter considerado a hipótese de se candidatar à presidência dos Estados Unidos, a 27 de Outubro de 2002, a menos de cinco dias das eleições legislativas americanas, o senador democrata Paul Wellstone morreu num acidente de avião que vitimou também Sheila, a sua mulher, e a sua filha Marcia. Filho de emigrantes judeus russos, Wellstone, um professor de Ciência Política, era um dos mais emblemáticos senadores da chamada “ala progressista” do Partido Democrata. Paul Wellstone era também um caso quase único na política americana – foi eleito directamente para o Senado, em 1991, pelo estado do Minnesota, sem nunca ter exercido qualquer cargo público. Nas eleições de 2002, a sua vitória eleitoral sobre o opositor republicano, Norm Coleman, era tida como certa.
O desaparecimento de Paul Wellstone, daquela forma trágica e a poucos dias das eleições, abalou fortemente as estruturas do Partido Democrata, que em 2002 contava reconquistar a maioria no Senado. A campanha eleitoral é suspensa.
Para substituir Wellstone, em cima da hora, o partido decide nomear o prestigiado veterano Walter Mondale – que exercera as funções de vice-presidente de Jimmy Carter –, ele próprio um ex-senador. Ao mesmo tempo, cometem um erro estratégico que viria a revelar-se irreversível.
Os democratas organizam um “comício de homenagem à memória” de Paul Wellstone, com figuras nacionais do partido, entre eles Bill e Hillary Clinton. Mas o comício transforma-se em mais do que um simples exercício de homenagem: os oradores fazem emocionados apelos ao voto no Partido Democrata em nome da memória de Paul Wellstone.
Na noite eleitoral, quando os resultados revelaram a vitória inesperada e surpreendente do republicano Norm Coleman, e a derrota de Walter Mondale, os analistas pegaram nas sondagens realizadas à boca das urnas pelo consórcio das agências noticiosas e cadeias de televisão americanas. A resposta não podia ser mais clara: o eleitorado sentira que os democratas tinham feito “chantagem emocional”. Com Wellstone fora do boletim de voto, os eleitores do estado do Minnesota acabaram por punir a estratégia dos democratas. E para isso bastara-lhes a percepção de que existira um “aproveitando” da morte de Paul Wellstone para retirar dividendos eleitorais.

Escrevo em Hebraico

Escrevo em hebraico,
que não é a minha língua materna,
para me perder no mundo. Aquele que
não se perde, nunca encontrará o todo.
Porque todos têm os mesmos dedos dos pés.
O dedo grande da esquerda
perto do calcanhar direito.

Às vezes escrevo em hebraico
para arrefecer o sangue que brota
incessantemente do meu coração.
Sempre foi assim.
Há muitos tesouros
no cofre que construí no meu peito.
Mas as cores da noite embutida
nas paredes expostas, escorrem
sem nunca saber o que é
toda esta maravilha.

E escrevo em hebraico, para
me perder nas minhas palavras
e para encontrar interesse
nos meus passos.
Não parei de andar. Muito caminhos
se viajaram. Gravados pelas minhas mãos.
Porei os pés ao caminho
e encontrarei muita gente. E todos serão
meus amigos. Quem é estrangeiro?
Quem está perto, quem está longe?
Não há estranheza nas coisas do mundo.
Porque a estranheza, muitas vezes,
Descansa no coração dos homens.

Salman Masalha, poeta árabe israelita contemporâneo.

::A LER:: Salman Masalha: Biography / Salman Masalha interview – Israeli Arab Intellectual and Poet on Illiteracy in the Arab World.