Camille Pissarro, um pintor “transmontano”


Pissarro, pai do Impressionismo, descendente de judeus portugueses de Trás-os-Montes.

Até há pouco tempo, quando se discutia a paternidade da pintura moderna, o consenso parecia apontar para um único nome: Paul Cézanne. Nas últimas décadas, no entanto, um número crescente de historiadores de arte começou a questionar este pressuposto, olhando antes para Camille Pissarro, amigo e mestre de Cézanne, como o verdadeiro precursor da revolução que transformaria radicalmente a pintura na última metade do século XIX. Jacob Camille Pissarro, de seu nome completo, era filho de Abraham (Frederic) Gabriel Pissarro, um judeu “marrano” português, transmontano de Bragança, que ainda criança (nos finais do século XVIII) emigrara com os pais para Bordéus, onde na altura existia uma comunidade significativa de judeus portugueses refugiados da Inquisição. Camille nasceu a 10 de Julho de 1830 em St. Thomas, nas Ilhas Virgens, para onde o pai se mudara anos antes para servir de executor do testamento de um tio.
Camille Pissarro era um personagem fascinante. Amigo e mestre de Degas, Cézanne e Gauguin, Camille Pissarro era visto pelos colegas como um “patriarca” – uma figura generosa, amável e profundamente fiel às suas amizades. “Pissarro foi como um pai para mim: era o homem a quem se pediam conselhos, era como le bon Dieu”, escreveu sobre ele Cézanne. Henri Matisse chamou-lhe “o Moisés da pintura contemporânea, aquele que nos dá a Lei”; Cézanne afirmaria categoricamente: “todos nós descendemos de Pissarro.”
Anarquista convicto, Camille Pissarro não era religioso em termos formais mas, mesmo assim, nunca dissimularia o judaísmo herdado dos seus antepassados portugueses. Pelo contrário, Pissarro orgulhava-se de ser judeu.
Durante o Caso Dreyfus – o paradigma do antisemitismo que dividiu a sociedade francesa dos finais do século XIX – Pissarro, ao mesmo tempo que combatia o ódio irracional contra os judeus, sentiria na pele o antisemitismo de alguns dos seus colegas, mesmo vindo de amigos, como Degas e Renoir. Nessa altura, alguns dos seus colegas mais próximos chegariam mesmo a por em causa a sua relação de amizade, temendo “ficar contaminados” por se associarem a um judeu. “Continuar com o israelita Pissarro é ficar manchado com revolução”, escreveu Renoir, com um antisemitismo tristemente típico da época.
Na última edição da revista Commentary, o crítico de arte Dana Gordon escreve um excelente artigo de cinco páginas intitulado Justice to Pissarro, onde defende que a paternidade da pintura moderna deve ser definitivamente atribuída, não a Cézanne, mas a Camille Pissarro, o pintor descendente de judeus sefarditas de Bragança.


Camille Pissarro, L’Ermitage à Pontoise, 1867.


Camille Pissarro, Vue de ma fenêtre, Eragny sur Epte, 1886-88.

[Organizada pelo Museum of Modern Art (MOMA), de Nova Iorque, a exposição Pioneering Modern Painting: Cézanne and Pissarro pode ser visitada no LACMA, em Los Angeles, até 16 de Janeiro de 2006 e depois, entre 27 de Fevereiro e 28 de Maio no Musée d’Orsay, em Paris.]

::A VER:: Pioneering Modern Painting: Cézanne and Pissarro / Camille Pissarro The first Impressionist / L’Impressionnisme – Biographie de Camille PISSARRO / WebMuseum: Camille Pissarro / Camille Pissarro Online / Camille Pissarro – Olga’s Gallery / Camille Pissarro ~ The Artist / Camille Pissarro, 1830-1903 – a Political Biography of an Anarchist / Commentary – Justice to Pissarro / CNN.com – arts & style – Pissarro’s art reflects St. Thomas roots – July 17, 2000 / Frederic Bonin Pissarro (pintor, bisneto de Camille Pissarro).

Fotografias da Judiaria

Shaar Aliyah, 1950. Campo de refugiados judeus Rosh Hay’n, nos arredores da cidade de Haifa. Foto de Robert Capa, um dos mais reconhecidos repórteres fotográficos de sempre. Capa, um judeu nascido em Budapeste, na Hungria, cujo nome verdadeiro era Ernest Andrei Friedmann, foi morto a 25 de Maio de 1954, aos 40 anos, no Vietname, ao pisar uma mina terrestre deixada pelos guerrilheiros de Ho Chi Minh.

O Surdo (um pequeno conto)


Violiniste bleu (detalhe), Marc Chagall, 1947

O rabino Moshe Hayim Efraim, o neto do Baal Shem Tov, escreveu:
“Ouvi esta história do meu avô: um dia um violinista tocava na rua uma melodia tão bela e tão doce que todos os que por ele passavam começavam a dançar, até que se juntou em volta dele uma pequena multidão de gente. Todos dançavam. Nesse altura passou pela rua um homem surdo, que nada conhecia de música. Sem poder ouvir a beleza sublime do som do violino, tudo o que ele viu foi gente aos saltos, gesticulando e comportando-se como loucos.”

Pequeno conto da escola mística do rabino Israel Ben Eliezer, conhecido como o Baal Shem Tov (Polónia 1698-1760), o Mestre do Bom Nome, citado em Die Legende des Baal Schem [As Lendas de Baal Shem], Martin Buber, Frankfurt 1908.
Um conto dedicado a Bruno Sena Martins, pelo segundo aniversário do seu excelente Avatares de um Desejo.

Joshua Benoliel em retrospectiva


Joshua Benoliel – Embarque do Corpo Expedicionário Português para a Flandres,
Cais de Santa Apolónia, Lisboa, 1917

A edição deste ano da bienal de fotografia LisboaPhoto integra uma notável retrospectiva – a primeira do género – dedicada ao trabalho de Joshua Benoliel, considerado o pai do foto-jornalismo português. Nascido em Lisboa, em 1873, Joshua Benoliel captou com a sua objectiva alguns dos momentos mais marcantes da história portuguesa do início do século XX: do assassinato do rei D. Carlos, em 1908, à participação portuguesa na Grande Guerra de 1914-18, passando pela implantação da república, em 1910, e pela “revolução” de Sidónio Pais, em 1917.
Judeu, membro activo da comunidade judaica de Lisboa e frequentador assíduo dos serviços religiosos da sinagoga Shaaré Tikvá (Portas da Esperança), Joshua Benoliel deixou transparecer na sua obra um fascínio indisfarçável por Lisboa. Sobre esta faceta de Benoliel conta José Pedro de Aboim Borges:

“Sente-se o amor que este homem tinha pela sua cidade e pelas suas gentes, a facilidade com que deambulava pelas ruas mais esconsas, testemunhando a precaridade das situações sociais, numa atitude próxima dos americanos Riis e Hine. É uma postura mais íntima, mais ‘fado’, mais humana.”

Quando o jornalismo português tentava colmatar o atraso que levava em relação à onda de modernização gráfica que varria o mundo – numa altura em que a própria arte da fotografia em Portugal era, ela própria, ainda embrionária – Joshua Benoliel transforma-se no primeiro repórter fotográfico português, produzindo milhares de “clichés” para inúmeras publicações nacionais e estrangeiras. De entre todas destaca-se a Ilustração Portuguesa, que chegou a atingir uma tiragem de 24 mil exemplares em 1908, um feito notável num país que na altura tinha cerca de 5 milhões de habitantes e uma taxa de analfabetismo na ordem dos 80%.
Sobre a copiosa produção de Joshua Benoliel escreve ainda José Pedro de Aboim Borges:

“Benoliel enviava semanalmente mais de 180 fotografias para a Ilustração Portuguesa (placas de vidro, de gelatino-brometo, de formato 9×12 cm). Se acrescentarmos mais umas 50 para as restantes publicações com quem colaborava, obteremos um número próximo das 260 fotografias semanais efectivamente transaccionadas.”

A exposição retrospectiva da obra de Joshua Benoliel, organizada por Emília Tavares, pode ser visitada até 21 de Agosto na Cordoaria Nacional, Torreão Nascente, em Lisboa.


Joshua Benoliel – Postal ilustrado. Sinagoga de Lisboa, inaugurada a 18 de Maio 1904.

::A VER:: Rui Tavares colocou online algumas excelentes fotografias de Joshua Banoliel (e também de Aurélio da Paz dos Reis, outro pioneiro) no Álbum do Barnabé. A merecer uma visita.

A solidão do meu vizinho Vladimir


“Casal sob a Huppá” (1930), Aurel Richter, pintor judeu de origem húngara.

Vladimir praticamente não fala inglês. Professor de Física na extinta União Soviética, reformado e emigrado sob o sol de Los Angeles, o meu vizinho da frente é um velho judeu simpático que sorri sempre que nos cruzamos no corredor. “Pesach… when?” Perguntou-me ele esta tarde, querendo saber o dia da Páscoa judaica. “Saturday”, disse-lhe eu. “You… Seder… with your son?”, perguntei tentando perceber se ele ia passar a Páscoa com o filho. Vladimir abanou a cabeça negativamente, explicando a seguir, num misto de russo, inglês e yiddish que o filho estava fora de Los Angeles.
Pesach… gefilte fish…”, ao pronunciar estas palavras – evocando a memória de um prato de peixe recheado tradicional da páscoa dos judeus da Europa oriental – o seu sorriso esvai-se. Vladimir volta a cara abanando a cabeça. Olha para mim e pede desculpa. Os seus olhos estão agora vermelhos, jorrando lágrimas. É a primeira Páscoa que Vladimir passa sem a mulher, falecida há duas semanas vítima de um cancro irreversível. Vladimir é um homem profundamente só. Desde que os conhecera, via-os vezes sem conta passear até ao parque ao cair da tarde. Ele empurrando a cadeira de rodas dela, conversando e rindo como se namorassem.
Vê-lo assim provocou em mim um sentimento de tristeza e profunda impotência. Que se pode dizer a um homem quando ele perde o amor da sua vida? Como se consola alguém que tem um vazio imenso dentro de si e dentro da sua própria vida? Os dias de festa – e a lembrança do que esses dias foram no passado – só aumentam mais a dor, como sal numa ferida aberta. A Páscoa é para os judeus o que o Natal é para os cristãos –um dia para passar em família, celebrando com um imenso jantar.
Come to our house for Seder”, convidei eu. “but… me… no English…”, respondeu Vladimir. Tentei sossegá-lo, dizendo que a minha sogra vai lá estar e que ela fala yiddish. Por breves instantes, o sorriso voltou-lhe. Ficou combinado. O meu velho vizinho acenou com a cabeça, abriu a porta de casa e olhando para mim apontou para o retrato da mulher, pendurado por cima do sofá, logo à entrada. É o retrato de uma mulher jovem e bela, provavelmente tal como ela era há 55 anos, quando se casaram. Uma mulher de quem ele sente agora uma falta impossível de exprimir no curto vocabulário da língua que temos em comum. Vladimir vira-se para a foto e depois para mim. Abana a cabeça com os olhos humedecidos e raiados de um vermelho vivo. “Sorry… sorry… shalom”, despede-se ele pedindo desculpa.
Fechei a porta. Tentando imaginar a inimaginável solidão de Vladimir, fiquei irremediavelmente contagiado pelas suas lágrimas.

A Greve

Nova Iorque, 1 de Maio de 1909: Manifestação sindical contra o trabalho infantil na indústria têxtil americana – que na época empregava maioritariamente mulheres judias recém chegadas da Europa de Leste. As duas jovens envergam faixas a favor da abolição da “escravatura infantil”, em inglês e yiddish.
Foto: Library of Congress, George Grantham Bain Collection. (Clique na foto para ampliar)