Karol Józef Wojtyła (1920 – 2005)

“Deus dos nossos pais, que escolheste Abraão e os seus descendentes para trazer o Teu nome às nações: estamos profundamente tristes com o comportamento daqueles que, ao longo do curso da história, causaram sofrimento a estes teus filhos e, pedindo o teu perdão, manifestamos o desejo de nos comprometermos a uma irmandade genuína com o povo do convénio.”

João Paulo II, mensagem deixada entre as pedras do Muro das Lamentações (Kotel), em Jerusalém, a 26 de Março de 2000.

Arthur Miller (1915-2005)

Dramaturgo premiado e prolífico, Arthur Miller, hoje falecido, escreveu apenas um romance – Focus, em 1945 –, cujo tema central é o antisemitismo e a intolerância…

Arthur Miller

Dramaturgo premiado e prolífico, Arthur Miller, hoje falecido, escreveu apenas um romance – Focus, em 1945 –, cujo tema central é o antisemitismo e a intolerância. O personagem principal, Lawrence Newman é o director de pessoal de uma empresa que recusa empregar judeus. Ele próprio um antisemita, Lawrence vê a sua vida profundamente transformada quando começa a usar um par de óculos que imediatamente o fazem “parecer judeu” aos olhos dos colegas de trabalho e dos vizinhos. Esta alteração na sua aparência física faz com que Lawrence seja tratado com hostilidade – é despromovido e obrigado a demitir-se. Depois de tentar por todos os meios contestar as suposições erradas sobre a sua pretensa identidade judaica, Lawrence Newman resigna-se. No final do romance, a perseguição fez dele um judeu, convencendo-o ao mesmo tempo da irracionalidade do preconceito e da necessidade de o confrontar e combater.
Focus foi transposto para o cinema em 2001, adaptado por Kendrew Lascelles num filme homónimo realizado por Neal Slavin, com William H. Macy a encarnar Lawrence Newman.
Em 1947, dois anos após a sua publicação, Focus servira já de inspiração ao primeiro filme a confrontar directamente o antisemitismo: Gentleman’s Agreement, realizado por Elia Kazan (o amigo que dez anos mais tarde denunciaria Arthur Miller perante o tristemente célebre House Un-American Activities Committee), com Gregory Peck no principal papel.

::A LER:: CNN.com – Playwright Arthur Miller dead at 89 – Feb 11, 2005 / Arthur Miller – Wikipedia / Arthur Miller: A Life / Arthur Miller – MAJOR WORKS with brief synopses / A Brief Chronology of Arthur Miller’s Life and Works / Houghton Miffilin – Arthur Miller / Arthur Miller and the House of Un-American Activities Committee (HUAC) / Death of a Salesman / BBC – The Marilyn mystery / NNDB: Arthur Miller.

Henrique Canto e Castro (1930-2005)

Nunca tive jeito para obituários. Cada vez que me sinto obrigado a escrever sobre a morte de alguém que me marcou, recordo-me de uma frase escrita por Fernando Assis Pacheco, a propósito do aniversário da morte de Zeca Afonso, no Jornal de Letras em 1992: “(…) não tendo nós o dom da ressurreição, caímos não obstante num discurso tão próximo do evangélico que soa a falso.” Mas com Canto e Castro tenho a obrigação de correr esse risco. Ele foi a primeira personalidade pública que entrevistei.
Lembro-me de estar extraordinariamente nervoso. No agora longínquo Verão de 1986, sentado durante duas horas num minúsculo estúdio de rádio, Canto e Castro fez-me esquecer por completo que outros ouvidos ouviam a conversa. Era um homem que tinha muitas histórias para contar.
Conhecera-o anos antes, por intermédio de Romeu Correia, que por sua vez me aturava por ser doente da minha mãe. Eu tinha uns 12 anos, e confesso que demorei algum tempo até perceber que reconhecia a voz de Canto e Castro porque cresci a ouvi-la transplantada em desenhos animados, da “Abelha Maia” ao “Marco”.
Anos antes, ele estava também em palco na primeira vez que me lembro de ir ao teatro – levaram-me a ver “Tempos Difíceis”, uma peça escrita por Romeu Correia, na Companhia de Teatro de Almada, que durante anos, antes do Teatro Nacional, fora a casa de Canto e Castro.
Com Luís de Sttau Monteiro e Romeu Correia, ele fez parte de um notável grupo de velhos intelectuais marxistas que, com conversas e livros, marcaram profundamente a minha adolescência na Rua da Judiaria, em Almada. Canto e Castro foi um dos melhores actores da sua geração, um homem grande e intensamente generoso. Por natureza uma criatura do palco, fez também muita televisão e cinema, trabalhando com todos os “mestres”, de Manoel de Oliveira a Wim Wenders. No meio disto, conseguiu sempre ser suficientemente despretensioso para se sentar a tomar café, no Central ou no Tic-Tac (na Rua Capitão Leitão, frente à decrépita sede do PC de Almada), e ter paciência para aturar um miúdo que gostava de ouvir histórias e de saber o que liam os mais velhos.
Canto e Castro morreu ontem de madrugada. Deixa muitas saudades.

Will Eisner (1917 – 2005)


:: A LER :: Will Eisner.com / Will Eisner – Wikipedia / The Onion A.V. Club – Interview With the Comics Legend / Will Eisner s’attaque aux “Protocoles des Sages de Sion” / Fagin the Jew / Fagin the Jew (Amazon) / Comic creator: Will Eisner / Profile – Eisner/Miller TPB / Will Eisner and The Spirit – A Biography and History of a Comics Legend / CNN.com – Comic book legend Will Eisner dead – Jan 5, 2005 / Will Eisner Dies; Drew ‘The Spirit’ Comic Strip (washingtonpost.com) / The New York Times > Books > Will Eisner, a Pioneer of Comic Books, Dies at 87 / Will Eisner – a brief look at the creator of The Spirit

Susan Sontag (1933-2004)


Foto da autoria de Annie Leibovitz

::A LER:: Susan Sontag.com / Susan Sontag – Wikipedia / Susan Sontag / The New York Review of Books: Susan Sontag / Salon – The “traitor” fires back / Susan Sontag: “Fascinating Fascism / Online NewsHour: Conversation: Susan Sontag – February 2, 2001 (com video) / New York State Writers Institute – Susan Sontag / Interview with Susan Sontag (com áudio) / TNR Online Trophy as Metaphor by Daniel Halpern / The Guardian – The risk taker / Royce Carlton – Susan Sontag Fiction Writer Cultural Critic / Susan Sontag – political commentary on Sept. 11

Jacques Derrida, 1930-2004

“Les contingences ont fait de moi un juif français d’Algérie de la génération née avant la “guerre d’indépendance”: autant de singularités, même parmi les juifs et même parmi les juifs d’Algérie. J’ai participé à une transformation extraordinaire du judaïsme français d’Algérie: mes arrière-grands-parents étaient encore très proches des Arabes par la langue, les coutumes, etc. Après le décret Crémieux (1870), à la fin du XIXe siècle, la génération suivante s’est embourgeoisée: bien qu’elle se soit mariée presque clandestinement dans l’arrière-cour d’une mairie d’Alger à cause des pogroms (en pleine affaire Dreyfus), ma grand-mère élevait déjà ses filles comme des bourgeoises parisiennes (bonnes manières du 16e arrondissement, leçons de piano…). Puis ce fut la génération de mes parents : peu d’intellectuels, des commerçants surtout, modestes ou non, dont certains exploitaient déjà une situation coloniale en se faisant les représentants exclusifs de grandes marques métropolitaines : avec un petit bureau de 10 mètres carrés et sans secrétaire, on pouvait représenter tout le “savon de Marseille” en Afrique du Nord – je simplifie un peu. Puis ce fut ma génération (une majorité d’intellectuels : professions libérales, enseignement, médecine, droit, etc.). Et presque tout ce monde en France en 1962. Moi, ce fut plus tôt (1949). C’est avec moi, j’exagère à peine, que les mariages “mixtes” ont commencé. De façon quasi tragique, révolutionnaire, rare et risquée.”
Extracto da última entrevista de Derrida: Le Monde, 19/08/2004
[Com um imenso obrigado a Luis Carmelo]
:: A VER :: Derrida Movie Clip

Amargura

As notícias tristes parecem chegar sempre de madrugada. São quatro e meia da manhã de uma noite em branco. Primeiro leio em inglês: Portuguese Guitar Master Paredes Dies at 79. Depois procuro a consolação da língua pátria vagueando por blogs e sites portugueses. Ponho a tocar baixinho Espelho de Sons, comprado há anos em Sunset Boulevard. Há dias em que a distância dói. A música humedece-me os olhos. Olho para a capa do CD, fixo-me na guitarra e quase juro que uma lágrima negra lhe escorre pela face.


(imagem de Carlos Paredes via Chafarica Iconoclasta)

::A LER:: O Mundo Segundo Carlos Paredes (Introdução de Viriato Teles ao disco Guitarra – O melhor de Carlos Paredes, Edição EMI-Valentim de Carvalho, 1998) / “Guitarra Portugesa” a poem by Michael Spring.
::A OUVIR:: O Mundo Segundo Carlos Paredes: Despertar.

Marlon Brando (1924-2004)


I attended the New School for Social Research for only a year, but what a year it was. The school and New York itself had become a sanctuary for hundreds of extraordinary European Jews who had fled Germany and other countries before and during World War II, and they were enriching the city’s intellectual life with an intensity that has probably never been equaled anywhere during a comparable period of time. I was raised largely by these Jews. I lived in a world of Jews. They were my teachers; they were my employers. They were my friends. They introduced me to a world of books and ideas that I didn’t know existed…”
in Songs My Mother Taught Me (autobiografia), Marlon Brando , p. 72

Larry King: This Yiddish thing, you got a lot of that in New York, right? You’re part Jewish.

Marlon Brando: I… well, technically I’m not a Jew but culturally I am. I spent ten years in New York and that was when New York was New York. The Daily Forward… and Stella very kindly invited me into her home and all of my employers, my teachers, I went to the New School of Social Research which is an extraordinary institution of learning.

Larry King: Still there.

Marlon Brando: And it was at a time when all the people were coming out of this extraordinary academia of Germany, like Hannah Arendt… the list is endless.

Fragmento da última entrevista televisiva de Marlon Brando, conduzida por Larry King, gravada na CNN em 1994. A transcrição integral pode ser lida aqui: CNN.com – Transcripts.

Em Memória de Sophia (1919-2004)

Poesia

Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.

Exílio

Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

Quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar

Theodor Herzl – תיאודור הרצל

(2 de Maio de 1860 – 3 de Julho de 1904)

::A LER:: Theodor Herzl – Wikipedia / Theodor Herzl – Jewish Virtual Library / Theodor Herzl, The Jewish State, 1896 (edição integral do livro on-line) / E-Notes: Theodor Herzl: An Appreciation – FPRI / Centenary of the Death of Theodor Herzl / Theodor Herzl Books and Articles – Questia Online Library / Resources and Articles by Theodor Herzl / The Dreyfus Affair, and The Rise of Political Zionism / Beyond the Pale: The Dreyfus Affair / Alfred Dreyfus and “The Affair” – Jewish Virtual Library / “The Dreyfus Affair” / J’Accuse…! – Émile Zola / J’Accuse…! (versão inglesa anotada) / “J’ACCUSE …!” EMILE ZOLA, ALFRED DREYFUS, AND THE GREATEST NEWSPAPER ARTICLE IN HISTORY / 1893-1895 – Rui Barbosa e Dreyfus / HISTÓRIA – O Caso Dreyfus – Os Intelectuais e os Direitos do Homem / Crónicas – O centenário do ‘Caso-Dreifus – José Silveira / Haaretz – Was Herzl mistaken?

Morrer em Diferido

Ninguém escreveu sobre os seus sorrisos. Ninguém lhes apontou as qualidades ou os defeitos. Não se reclamou contra a mediatização das suas mortes. Faltaram as câmaras em directo. Vítimas da banalização do sofrimento, no país que chorou Miklós Fehér, os dez mortos de Jerusalém recebem um encolher de ombros, como se o destino de morrer no autocarro 19, ontem antes das nove da manhã, na esquina das ruas Gaza e Arlozorov, lhes tivesse sido ditado justamente. Como se o ódio podesse alguma vez ser razão alguma. Como se a causa justa de um povo se podesse construir com alicerces assentes em eviscerados corpos inocentes.

Kadish
Avraham (Albert) Balhasan, 28 anos; Rose Boneh, 39; Chana Bunder, 38; Anat Darom, 23; Octavian Floresco, 42; Natalia Gamril, 53; Baruch Hondiashvili, 38; Dana Itach, 24; Eli Zfira, 48; e Yehezkel Goldberg, 41.

Para que a memória não apague estas imagens.

NOTA: o vídeo a que este link se refere (gravado momentos após o atentado) contém imagens verdadeiramente chocantes, não aconselháveis a pessoas mais sensíveis.

Um Adeus a José Dias Bravo

Soube ontem, por mero acaso, da morte de José Dias Bravo, faz agora dois meses. Não tenho jeito nenhum para necrologias, confesso, mas senti que tinha de escrever pelo menos umas breves linhas.
Jurista, Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, Vice-Procurador Geral da República e presidente da Aliança Evangélica, Dias Bravo foi uma figura fundamental para a definição do protestantismo português do século XX. Perseguido pela PIDE desde os 16 anos por distribuir Bíblias e folhetos religiosos não católicos, lutou desde cedo contra a hegemonia religiosa nacional e a intolerância por outras igrejas e religiões, características que durante séculos marcaram o nosso país. A sua biografia oficial, no site da AE, conta que aos 12 anos foi expulso inúmeras vezes das aulas de Religião e Moral, por desafiar abertamente o padre-professor, citando escrituras e contrapondo as doutrinas que devia aprender. Como magistrado e presidente da Aliança Evangélica, anos mais tarde, seria um dos responsáveis pela gradual mudança da imagem das igrejas protestantes em Portugal.
Pessoalmente, conheci-o em 1994, na Procuradoria, andava eu, jornalista novato, a tentar especializar-me a escrever sobre religião. Na altura, procurei os comentários e conselhos de Dias Bravo para várias peças e reportagens. Na sua bondade natural e infinita paciência, esteve sempre disponível. Pelo meio foi-me contando histórias do seu protestantismo, da sua fé.
Nos últimos anos da sua vida, já reformado, Dias Bravo dedicou-se a viajar pelo mundo, conheceu os meus tios numa visita a Israel e ficou amigo da família. Com ele aprendi os pontos de contacto existentes entre as experiências dos protestantes e dos judeus portugueses. Ensinou-me também que os preconceitos, fobias e ódios dos outros podem ser gradualmente vencidos, nunca na mesma moeda, mas através do exemplo de homens como ele. José Dias Bravo foi verdadeiramente um hasidei umot ha’olam.