60 anos da Libertação de Auschwitz I

A Cidade do Massacre
Levanta-te agora e vai à cidade do massacre;
Passeia pelos seus pátios; (…)

Haim Nahman Bialik

Wolloch Haggadah em Memória do Holocausto *
Ilustrador: David Wander
Caligrafia e Micrografia: Yonah Weinrib
Haifa, Galeria de Arte Goldman, 1988

“Em cada geração temos a obrigação de considerar como se nós próprios, pessoalmente, tivéssemos saímos do Egipto.”

* A Haggadah é um livro litúrgico judaico que se lê em família durante o jantar ritual de Seder, da Páscoa, contendo o relato da libertação dos judeus, liderados por Moisés, da escravidão no Egipto.

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A Cidade do Massacre

Haim Nahman Bialik

Levanta-te agora e vai à cidade do massacre;
Passeia pelos seus pátios;
Com a tua mão toca,
e com os olhos da tua cara

olha nas árvores, nas pedras, nos muros, na cale
os pingos de sangue e os miolos secos dos mortos.
Vai depois às ruínas, onde
se estendem as paredes fendidas,
onde cresce o vazio e maior cresce a brecha;
Passa sobre a lareira despedaçada,
alcança as paredes quebradas
cujos tijolos queimados e estéreis,
cujas pedras carbonizadas
revelam as bocas abertas dessas feridas,
que nenhum remendo alguma vez remendará,
ou cura curará.
Ali penas afundarão os teus pés, e
tropeçarás em destroços duplamente destroçados,
pergaminhos empilhados em manuscritos.
Fragmentos outra vez fragmentados.

Não pares neste caos; segue o teu caminho.
O perfume dos rebentos de acácias virá trazido pelo vento
e metade das suas flores serão penas,
que exalam o odor do sangue.
E, mortificando-te, estranhos incensos trarão.
Banindo o teu asco, toda a beleza da Primavera,
os mil raios dourados do sol, descerá sobre a tua maldição.
Porque Deus chamou o Massacre e a Primavera juntos;
O assassino matou, as flores desabrocharam,
e depois veio o tempo ameno e o sol.

Vai depois a um quintal, observa o monte.
Sobre o monte estão dois decepados:
Um judeu e o seu cão de caça.
Golpeados com o mesmo machado, os dois,
arremessados para a mesma pilha
onde porcos buscam estrume.
Amanhã a chuva lavará os seus sangues misturados
para os riachos, e perder-se-ão
em pilhas de lixo, em poças estagnadas, em lama.

O seu grito não será ouvido.
E tudo será como sempre foi.

Sobe até ao sótão, caminha com pés e mãos;
Observa a sombra da morte erguida entre as sombras.
Ali no canto funesto, ali no esconderijo sombrio,
numerosos olhos posarão em ti atravessando o silêncio triste.
Estas são as almas do espírito dos mártires,
Juntas, finalmente, sob estas vigas e dentro destes buracos ignóbeis.
O machado encontrou-as aqui, e para cá vieram
selar com o último olhar, com o último sopro,
a agonia das suas vidas, o terror das suas mortes.
Fantasmas que tombam e tropeçam, vieram aqui encolher-se.
O seu silêncio chora e são os seus olhos que clamam:
Porque razão, Senhor, e porquê?
É um silêncio que só Deus pode suportar.

Levanta então os teus olhos para o tecto;
não há lá nada, a não ser um seguro silêncio
suspenso nas traves.
Interroga a aranha no seu esconderijo.
Os seus olhos viram todas estas coisas;
E com a sua teia ela pode desenrolar um relato
horrendo aos ouvidos dos homens:
uma história de ventres rasgados, de narinas pregadas,
de crânios e ossos esmagados e derramados.
De homens assassinados pendurados nas traves.
E de um recém-nascido arremessado ao lado da mãe
trespassada por uma lança;
De como um punhal cortou ao meio a palavra de uma criança,
ouviu-se ma, mas mamã nunca chegou a formar-se.
Ó, ainda agora os seus olhos me pedem explicações
do relato que a aranha reconta,
histórias que perfuram o cérebro, histórias que te cortam
o corpo, o espírito, a alma, da vida, para sempre.
Então vais implorar ao teu espírito –
Pára, chega!
Asfixia a raiva que te sobe a garganta,
enterra estas coisas malditas,
bem fundo no teu peito, antes que o coração te estoure.
Depois deixarás estes lugares e partirás – olha! –
A terra é como era, o sol brilha ainda:
É um dia como qualquer outro.

Desce depois às adegas da cidade,
aqui violaram as virginais filhas das gentes,
onde sete bárbaros se atiraram às mulheres,
a mãe à vista da filha,
a filha à vista da mãe,
antes da matança, durante a matança, depois da matança.
Toca com teus dedos o forro manchado,
sente a almofada ensanguentada,
foi aqui que as bestas selvagens
com machados sangrentos nas patas
obrigaram as tuas filhas a sucumbir…
Esmagadas na vergonha, viram tudo;
Não arrancaram os olhos;
Não esmagaram a cabeça contra paredes.
Talvez, talvez, as testemunhas buscaram nos corações orações:
Um milagre, Senhor, poupa a minha pele mais um dia!

Vem, agora, levar-te-ei aos seus esconderijos,
Às latrinas e chiqueiros onde se ocultaram
os herdeiros dos Hasmoneanos, com joelhos trémulos,
escondidos e agachados – os filhos dos Macabeus!
A semente de santos, a prole dos leões!
Que, amontoados em multidões nos santuários da humilhação,
tanto santificaram o Meu nome!
Fugiram a fuga dos ratos,
o correr das carochas foi a sua fuga;
morreram como cães e morreram!
E, na manhã seguinte, depois da noite terrível
o filho que não foi morto encontrou no chão
o cadáver desprezado do seu pai.
Porque razão, Senhor, e porquê?

Exausta e gasta, uma escura Shekinah
Corre para cada canto sem encontrar descanso;
Deseja chorar, mas o choro não vêm;
Quer rugir; emudeceu.
Com a cabeça debaixo da asa, a asa estendida
sobre as sombras dos mártires mortos,
as suas lágrimas vertidas em silêncio e penumbra.

Tu, também, filho do homem, fecha agora o portão;
Fecha-te na escuridão, é tua agora esta morgue;
Tardando ali serás uno com a dor e a angustia
e enche de mágoa o teu coração por todos os seus dias.
Então, no dia da tua própria desolação
parecerá um refúgio,
pousado em ti como maldição, uma emboscada de demónio,
o assombrar de um pesadelo,
Ó, arrastando-o no teu coração, pela extensão do mundo
quererás proclamá-lo, falar dele
mas os teu lábios não encontrarão palavras.

Vai além dos subúrbios, chega ao cemitério.
Não deixes que homem algum te veja; chega só,
Um lugar de campas santas e pedra-mártir.
Chega-te perto do solo revolvido e fresco.
O silêncio tomará conta de ti,
O teu coração enfraquecerá com pena e vergonha,
mas não deixarei que uma lágrima caia dos teus olhos.
Endurecerei o teu coração,
não te permitirei um suspiro.
Olha, vê os bezerros mortos, massacrados;
Há algum preço para a sua morte? Como deve ser pago esse preço?
Perdoai, humilhados da terra, o vosso é um Senhor pobre!
Pobre foi Ele em vida, e pobre continua ainda.
Quando à minha porta vieres buscar recompensa,
abri-la-ei de par em par: Vejam, perdi a grandeza dos Meus altos domínios.
Sofro por vós, meus filhos. O meu coração entristece por vós.
Os vossos mortos morreram em vão; e nem eu nem tu
sabemos porque morreste ou porque razão, por quem, ou porque leis;
As tuas mortes são sem razão; as tuas vidas são sem causa.

Volta agora o teu olhar dos mortos, vou guiar-te
do cemitério aos teus irmãos vivos,
e virás, com os da tua própria geração,
à sinagoga, e no dia do jejum,
para ouvir o seu grito de agonia,
as suas eternas lágrimas.
A pele arrefecerá, os cabelos da tua cabeça ficarão de pé,
e serás movido, trémulo, pelo medo.
Assim geme um povo perdido.
Olha nos seus corações – observa o triste vazio
onde nem a vingança consegue crescer,
mas ainda assim, nos seus lábios não se levantam
altas maldições, ou juramentos de blasfémia.
Fala com eles, implora-lhes raiva!
Deixa que contra mim levante a mão ultrajada,
Deixa que exijam!
Exijam retribuição pelos humilhados
de todos os séculos e todos os tempos!
Que se atirem punhos como pedras
Contra os céus e o Trono celeste!

E tu, também, não lhes mostres misericórdia, não lhes toques nas feridas;
Não deites nem mais uma gota no seu cálice.
Onde tocasses encontrarias uma ferida,
as suas carnes são todas chaga.
Porque com resignação enfrentaram a dor
e com a humilhação fizeram pazes,
de que lhes servirá a tua consolação?
São coitados demais para evocar em ti desprezo.
São arruinados demais para evocar em ti compaixão.
Deixa-os ir, então, homens nascidos na aflição,
enlutados e esmagados sob o peso que os oprime.
Parte então das suas casas e lares
podridão nos ossos, corrupto coração.
E vai até à estrada,
encontrarás ai estes homens destroçados pela mágoa,
suspirando e gemendo, às portas dos ricos
proclamando as suas feridas, como mercadoria de pedinte,
A um a cabeça espancada, outro os membros enfermos,
um mostra um braço ferido, outro os ossos partidos.
E todos têm olhos que são os olhos de escravos,
Escravos açoitados em frente dos donos;
cada um suplica, cada um deseja:
Recompensa-me, Senhor, pelo meu crânio quebrado.
Recompensa-me, Senhor, pelo meu pai martirizado!

E assim compaixão imploram.
Porque és agora o que sempre foste
Como estendeste a mão
assim a estendes,
e como foste desgraçado,
assim desgraçado és.

Que fazes aqui, filho do homem?
Levanta-te, foge para o deserto!
Leva para lá contigo o cálice de desgosto!
Levai a sua alma, rasga-a em mil retalhos!
Com raiva impotente, com coração deformado!
Verte a tua lágrima sobre rochas áridas
e manda o seu grito amargo à tempestade!

Haim Nahman Bialik (1873-1934). Poeta. Judeu nascido na Rússia. Falecido em Tel Aviv, é conhecido como o Poeta Nacional de Israel.

A Cidade do Massacre” foi escrito por Bialik em homenagem às vítimas do Pogrom de Kishinev, ocorrido em 1903. A sua profunda e emotiva descrição de um sofrimento inimaginável torna-o extraordinariamente apropriado para recordar Auschwitz.

[tradução preliminar da chamada “versão curta” do poema]

No Dia de Martin Luther King


Marcha pela Paz no Cemitério Nacional de Arlington, 6 de Fevereiro de 1968. Da esquerda para a direita: rabino Abraham Heschel, Martin Luther King, reverendo Ralph Abernathy e o rabino Maurice Eisendrath (carregando a Torá).

Foto de John C. Goodwin

:: Sobre Martin Luther King Jr. :: The Martin Luther King, Jr. Papers Project / MLK Papers Project – About King / The Seattle Times: Martin Luther King Jr. / Martin Luther King Jr National Historic Site (National Park Service)/ National Civil Rights Museum / As MLK Day Approaches, Some Question State of Black-Jewish Ties / Amazon.com: Books: Shared Dreams: Martin Luther King Jr. and the Jewish Community / In Honor of the Reverend Doctor Martin Luther King Junior / A Special Bond: Martin Luther King, Jr., Israel and American Jewry By Stuart Appelbaum / Martin Luther King on Anti-Zionism / Ebony: Advice for living – excerpts from columns written by Martin Luther King Jr. for Ebony magazine from 1957-58 – 50th Anniversary Reprint / God-talk, Friendship, and Activism: the Relationship Between Abraham Joshua Heschel and Martin Luther King (article by By Susannah Heschel, rabbi Heschel’s daughter).

:: Os Discursos :: [áudio formato .rm] I Have a Dream / Let Freedom Ring / I’ve seen the Mountain Top / Stand Up for Justice (formato .mov).


Judeus Negros em Harlem, Nova Iorque, fotografados por
James VanDerZee, em 1929, frente à Sinagoga Mourisca Sionista.
Rabinos Levi Ben Levy, A. Jona, D. Small, W.A. Matthew(rabino chefe),
M. Stephens, Rabbi E. Grey. Harlem, Nova York, 1967.

:: Identidade Negra-Judaica :: Black Jews, Hebrews, and Israelites / Struggling: My Pathway to Conversion (um ensaio de Michael Hudson).

:: Judeu Negros Famosos :: Sammy Davis, Jr. (cantor) / Aaron Freedman (jornalista e comediante americano) / Julius Lester (professor catedrático e escritor) / Walter Mosley (escritor, autor do famoso “Devil in a Blue Dress”) / Yaphet Kotto (actor) / Rebecca Walker (escritora) / Sheree Curry Levy (jornalista) / Lenny Kravitz (músico) / Lisa Bonet (actriz).

Oito Dias Depois

A Circuncisão de Cristo, pormenor do Breviário de Martin d’Aragão (séc. XIV).

Se os cálculos do calendário gregoriano estivessem correctos, ontem teriam passado 2005 anos sobre o dia em que Yeshua ben Yosef (ישו בן יוסף) recebeu o nome e foi submetido ao ritual judaico da circuncisão, exactamente oito dias após o seu nascimento, cumprindo à risca os preceitos da Lei Judaica (ver Lucas 2:21). O mundo haveria de conhecer este judeu da Galileia através da corruptela grega do seu nome: Ιησούς Jesus.

… Mas as Crianças, Senhor? *

O controverso papa Pio XII (na foto à esquerda), terá ordenado à Igreja Católica francesa que não devolvesse crianças judias aos seus pais ou a instituições judaicas caso estas tivessem sido baptizadas para ocultar a sua verdadeira identidade durante a ocupação nazi. A revelação é feita numa das últimas edições do diário italiano Corriere Della Sera, de Milão, num texto assinado pelo historiador Alberto Melloni, professor de história religiosa da Universidade de Bolonha e um dos maiores especialistas mundiais em história cristã.
Sob o título Pio XII a Roncalli: non restituite i bimbi ebrei (Pio XII a Roncalli: não se restituam as crianças hebreias), Melloni defende que Pio XII instruíra pessoalmente as instituições da Igreja em França a fazer tudo para negar a restituição de crianças judias confiadas à sua guarda.
O diário milanês publica ainda a carta na íntegra, datada de 20 de Outubro de 1946, enviada pelo Santo Ofício (actual Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé) ao núncio apostólico em Paris, que mais tarde se tornaria papa com o cognome de João XXIII. Aqui segue a tradução do documento:

“A respeito das crianças judias que, durante a ocupação alemã, foram entregues a famílias e instituições católicas e que agora são pedidas de volta pelas instituições judaicas, a Congregação do Santo Ofício tomou as decisões que a seguir se dão conta:

1) Evitar, na medida do possível, responder por escrito às autoridades judaicas, fazendo-o apenas oralmente.
2) Nos casos que seja necessário responder, bastará dizer que a Igreja terá de fazer as suas indagações para estudar casos particulares.
3) As crianças que foram baptizadas não poderão ser entregues às instituições [judaicas] que não possam assegurar a sua educação cristã.
4) Às crianças que não têm pais e que se encontram a cargo da Igreja, não é conveniente que sejam abandonadas pela Igreja ou entregues a pessoas que sobre elas não têm direitos, uma vez que não podem decidir por elas próprias. Isto é evidentemente para as crianças que não foram baptizadas
5) Se as crianças foram entregues à guarda da Igreja pelos seus pais e se os seus pais agora as reclamam, elas podem ser devolvidas, assumindo que as mesmas crianças não tenham recebido o baptismo

Note-se que esta decisão da Congregação do Santo Ofício foi aprovada pelo Santo Padre.”

[a tradução italiana do documento original pode ser lida aqui: I piccoli giudei, se battezzati, devono ricevere uneducazione cristiana]

Com a descoberta deste documento, torna-se bem mais complexa a defesa intransigente de Pio XII a que alguns católicos se vão dedicando com zelo. O papa, cujo pontificado atravessou uma era de genocídio desabrido, não só fechou os olhos como fez por perpetuar, desta forma absolutamente repugnante, séculos de crimes do catolicismo contra os judeus.
A um historiador é impossível não comparar esta recusa do Vaticano em entregar as crianças judias, sob o pretexto da necessidade de lhes dar uma educação cristã, com incidentes semelhantes ocorridos no passado. Na península Ibérica, séculos antes da formação política de Portugal, os reis visigóticos foram os primeiros a usar os mesmos métodos. Depois de várias leis antisemitas decretadas após a conversão ao catolicismo do rei Recaredo, em 586, o rei Sisebuto ordenou a conversão forçada de todos os judeus do seu reino. Para assegurar que os descendentes destes judeus convertidos seriam cristãos verdadeiros, ordenou que todas as crianças judias com menos de 12 anos fossem retiradas aos seus pais, confiando-as à guarda de famílias católicas. O sequestro de crianças judias como política de estado prosseguiria de forma intermitente até ao reinado de Roderico, o “último dos visigodos”. Mas a medida não surtiria os efeitos desejados, em parte por causa da afortunada desorganização que caracterizou os reinos visigóticos na península Ibérica. A prova disso foi dada com o elevado número de judeus existentes por altura da invasão árabe de 711.
No final do século XV, D. Manuel I repetiria o gesto, raptando mais de 2000 crianças judias portuguesas às suas famílias, enviando-as em seguida para “povoar e embranquecer a raça” (sic.) da ilha de São Tomé. O historiador britânico Cecil Roth conta a propósito: “Um grande número de crianças foi brutalmente retirada dos braços dos seus pais, levadas para povoar a insalubre ilha de São Tomé, onde a vasta maioria acabaria por morrer.” Um ano após a deportação, apenas 600 crianças sobreviviam. [Ver também The Jews of Africa – Sao Tome and Principe e Judaic Research in Balearic Islands and Sao Tome]
Também aqui a medida extrema acabaria por falhar e muitas das crianças raptadas continuaram a praticar a religião dos seus pais. Disto mesmo dão conta várias cartas assinadas por D. Pedro da Cunha Lobo, nomeado bispo de São Tomé em 1616. Um judeu português, Samuel Usque, escreveria sobre estas crianças na sua obra maior, “Consolação às Tribulações de Israel” (publicada em Ferrara em 1553).
A descoberta agora deste novo documento do pontificado de Pio XII, datado de 1946, trás à tona memórias de um passado que muitos querem fazer por esquecer. Mas dentro destas maquinações do Santo Oficio, tão ao jeito das suas obras do passado, reside uma suprema ironia: uma dessas crianças, Aaron Jean-Marie Lustiger, com a mãe morta em Auschwitz, e baptizado aos 14 anos, é agora um dos Príncipes da Igreja, arcebispo de Paris, apontado como um dos prováveis sucessores de João Paulo II na cadeira de São Pedro.
O cardeal Lustiger (na foto à direita) continua a considerar-se profundamente judeu — uma afinidade, afinal, que partilha com o messias cristão — chegando a afirmar: “Nasci judeu e assim continuo, mesmo que tal seja inaceitável para muitos. Para mim, a vocação de Israel é trazer a luz aos goyim **. Esta é a minha esperança e acredito que a cristandade é a forma de alcançar este propósito.”
As suas palavras tendem a ser habitualmente polémicas, tanto junto dos católicos como dos judeus. Mas à luz da Lei Judaica (Halakhá), Aaron Lustiger continua a ser um judeu, para todos os efeitos, apesar da sua apostasia.
Em relação às acusações normalmente proferidas contra Pio XII – colaboracionismo com a Alemanha nazi e indiferença perante o genocídio e sofrimento continuado de dezenas de milhões de pessoas na Europa – ver uma excelente recolha de documentação dos dois lados da discussão elaborada pela Jewish Virtual Library: Pope Pius XII Table of Contents

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* do poema “Balada da Neve“, de Augusto Gil
** a palavra hebraica goy,
גוי (ou goyim no plural), traduzida habitualmente como gentio quer dizer literalmente estrangeiro

Mário Alberto Nobre Lopes Soares: 80 anos


Mário Soares, então Presidente da República, apresenta em Belmonte, em 1989, um pedido formal de desculpas à comunidade judaica pelo sofrimento infligindo pela Inquisição e pela monarquia aos judeus portugueses. Na foto, à direita, o então rabino da comunidade de Lisboa, Abraão Assor Z”L, e o presidente da CIL na época, Joshua Ruah, aceitam o gesto simbólico. Dirigindo-se aos judeus de Belmonte – na sua maioria ainda cripto-judeus – Soares afirmaria: “Ergam as vossas cabeças e tenham orgulho nas vossas nobres origens”.

:: Nota :: Achei deveras interessante – demonstrativo, talvez – que a entrada portuguesa sobre Mário Soares na Wikipedia seja muitíssimo menos detalhada do que a versão da mesma em hebraico

Kristallnacht – A Noite de Cristal


Nuernberger Tor, uma das entradas da Universidade da cidade alemã de Erlangen, 9 de Novembro de 1938. No cimo, uma faixa declara a proibição de entrada a judeus. Em baixo, outra faixa apela ao recrutamento para o partido nazi.

Kristallnacht, a Noite de Cristal, ou O Pogrom de Novembro, marcou o início da marcha macabra para uma das páginas mais negras da História da humanidade. Nas noites de 9 e 10 de Novembro de 1938, numa manobra cuidadosamente orquestrada por Joseph Goebbels – o chefe da propaganda nazi –, por toda a Alemanha e nos recém conquistados territórios da Áustria e Sudetenland (Checoslováquia), as populações judaicas foram vítimas de atentados e ataques continuados nas ruas, em suas casas e nas sinagogas, naquele que seria o maior pogrom da história. Pogromnacht. Pelo menos uma centena de judeus foram assassinados e largas centenas ficaram feridos; cerca de duas mil sinagogas foram incendiadas; perto de 8 mil lojas e escritórios propriedade de judeus foram pilhados e destruídos; cemitérios e escolas judaicas foram vandalizados; mais de 30 mil judeus foram presos e enviados para campos de concentração.
Para os judeus alemães as restrições haviam começado muito antes da Kristallnacht e leis e medidas anti-judaicas eram já aplicadas há vários meses. Entre as numerosas directivas, os cidadãos judeus eram obrigados a declarar todos os seus bens; as suas empresas e pequenas lojas tinham de ser registadas e expressamente sinalizadas; os inquilinos judeus perderam todos os seus direitos legais; médicos, advogados e professores judeus foram proibidos de exercer as suas profissões. Todos os judeus alemães passaram também a ser obrigados a possuir um passaporte especial, marcado com um “J”, e um nome próprio foi acrescentado a cada judeu: “Israel”, para os homens; “Sarah”, para as mulheres.
Kristallnacht, ליל הבדולח, fora “uma bofetada no rosto da Humanidade”, como lhe chamou Elie Wiesel. Mas o mundo ignorou os sinais e voltou a face. O Holocausto (shoá, שואה) estava à porta.

Kristallnacht
9 de Novembro de 1938

::A LER::Quase em Português (um excelente post de Lutz Brückelmann) / The United States Holocaust Memorial Museum :: Kristallnacht – The November 1938 Pogroms Virtual Exhibition (fotos, documentos e testemunhos em video) / Kristallnacht – Wikipedia / ליל הבדולח / Jewish Virtual Library – Kristallnacht: Table of Contents / Simon Wiesenthal Center Multimedia Learning Center Online / Kristallnacht 1938 – Zeitzeugen berichten / Aish.com – Kristallnacht / Aish.com – Kristallnacht And The World’s Response / Remember.org – Kristallnacht Perspective / PLETZ.com – A NOITE DE CRISTAL 65 ANOS DEPOIS – Edda Bergmann / Yad Vashem – About The Holocaust / Yad Vashem Kristallnacht – Pages of Testimony / Rescuers From the Holocaust/Introduction / United States Holocaust Memorial Museum / United States Holocaust Memorial Museum – Antisemitism / Memo38 (Alemão e Inglês).

Yitzhak Rabin (יצחק רבין (1922-1995

Segundo o calendário hebraico, comemora-se hoje a passagem do 9° aniversário do assassinato de Yitzhak Rabin, ocorrido no dia 12 do mês de Cheshvan do ano 5756 (4 de Novembro de 1995). Rabin foi abatido por um extremista israelita, momentos depois de ter participado num comício pela paz numa praça de Tel Aviv que hoje ostenta o seu nome. No palco, depois de discursar, o então primeiro-ministro israelita e Prémio Nobel da Paz juntara a sua voz ao imenso coro que entoou a canção שיר לשלום (A Canção da Paz). O papel com a letra da canção, que guardou no bolso, ficaria manchado com o seu sangue.

George Bush e “o Impostor”

Tradução do guia da exposição Jewes in America*, que decorre na New York Public Library até meados de Novembro (ver também NYPL, Exhibitions at the Humanities and Social Sciences Library):

GEORGE BUSH (1796-1859)
The Valley of Vision, or, The Dry Bones of Israel Revived
New York: Saxton and Miles, 1844
Dorot Jewish Division

Quando a Universidade de New York (NYU) foi fundada em 1830 como uma alternativa não sectária e democrática à elitista e episcopal Columbia, contrataram o mais competente hebraista americano, Isaac Nordheimer – antigo estudante na Eslováquia do Rabino Moses Schreiber – como seu primeiro professor da cadeira de Árabe. É um paradoxo que a primeira instituição secular e laica de ensino superior da cidade tenha considerado impossível permitir que um judeu ensinasse a Língua Sagrada. […] Mas, igualmente paradoxal foi a escolha de George Bush para ensinar Hebraico. Um hebraista cristão capaz, George Bush era na altura conhecido apenas como o autor do primeiro livro americano sobre o Islão – uma biografia de Muhammad, a quem Bush insistia em chamar “o impostor”. […] Bush construíra a sua reputação enquanto crítico do que considerava serem movimentos religiosos “de má reputação” – islamismo, milenarismo, etc. –, mas agora surgia como um dos principais defensores de duas controversas crenças mais recentes: a religião ocultista de Emanuel Swedenborg e a medicina alternativa de Anton Mesmer. George Bush deixou a NYU e passou o resto da vida como ministro da Church of the New Jerusalem em Brooklyn, uma igreja swedenborgiana. Os famosos homónimos actuais deste George Bush são descendentes directos do seu irmão, Timothy.

[via Zackary Sholem Berger]

* Esta exposição integra-se nas comemorações dos 350 anos da chegada dos primeiro judeus à colónia holandesa de Nova Amsterdão, actual Nova Iorque. Estes pioneiros eram judeus portugueses que tentavam escapar à reintrodução da Inquisição no Recife (ver Judeus Portugueses nas Américas – Arquivos da Judiaria).

Um Ano de Adufe

“Informação literária e iconográfica testemunha que o “tambor quadrado” [Adufe], que consiste num pedaço de pele curtida esticado sobre uma moldura quadrada, era um instrumento bastante popular entre mulheres trovadoras das comunidades judaicas e islâmicas da península Ibérica medieval. Devido ao facto do instrumento ser associado às mulheres e às culturas semitas “infiéis”, a sua representação em bíblias e portais de catedrais ibéricas dos séculos XII e XIII era, dependendo do contexto, invariavelmente associada ao judaísmo, ao “Outro” pagão ou ao simbolismo messiânico. A representação do instrumento na iconografia cristã medieval é produto de uma prática artística anterior de modernizar e secularizar os instrumentos musicais mencionados nas escrituras. Uma vez que o adufe era tocado por mulheres e judeus resolveu-se o problema de representar um tambor descrito na Torá, um instrumento tocado maioritariamente por mulheres chamado tof (traduzido na Vulgata como tympanum). Assim, em manuscritos como a Bíblia de Pamplona, ele é representado na adoração do bezerro dourado e na “fornicação” das mulheres moabitas, enquanto o portal da catedral de Burgos o mostra nas mãos de um dos profetas do Antigo Testamento.”

in “The square drum as a Semitic and messianic symbol in medieval Spanish iconography”, Mauricio Molina, City University of New York. Trabalho apresentado na conferência “Music in Art: Iconography as a Source for Music History”. Dedicado ao Rui M. Cerdeira Branco. Parabéns!

Theodor Herzl – תיאודור הרצל

(2 de Maio de 1860 – 3 de Julho de 1904)

::A LER:: Theodor Herzl – Wikipedia / Theodor Herzl – Jewish Virtual Library / Theodor Herzl, The Jewish State, 1896 (edição integral do livro on-line) / E-Notes: Theodor Herzl: An Appreciation – FPRI / Centenary of the Death of Theodor Herzl / Theodor Herzl Books and Articles – Questia Online Library / Resources and Articles by Theodor Herzl / The Dreyfus Affair, and The Rise of Political Zionism / Beyond the Pale: The Dreyfus Affair / Alfred Dreyfus and “The Affair” – Jewish Virtual Library / “The Dreyfus Affair” / J’Accuse…! – Émile Zola / J’Accuse…! (versão inglesa anotada) / “J’ACCUSE …!” EMILE ZOLA, ALFRED DREYFUS, AND THE GREATEST NEWSPAPER ARTICLE IN HISTORY / 1893-1895 – Rui Barbosa e Dreyfus / HISTÓRIA – O Caso Dreyfus – Os Intelectuais e os Direitos do Homem / Crónicas – O centenário do ‘Caso-Dreifus – José Silveira / Haaretz – Was Herzl mistaken?

Herança Judaica Portuguesa em Selos

Selo Comemorativo da Herança Judaica Portuguesa

Os CTT – Correios de Portugal acabam de emitir uma série de selos comemorativa da presença judaica em Portugal. “Eduyot Leyahadut be’Portugal” é o título escrito em hebraico nos selos, o que traduzido literalmente dá qualquer coisa como “Testemunhos do Judaísmo em Portugal”. Por detrás da imagem principal conseguem ainda ler-se algumas palavras hebraicas, entre elas “consolação” e “oculta”. Um acaso feliz quando se pretende celebrar uma tradição desprezada e apagada da História oficial portuguesa.
A gravura escolhida para o selo aqui representado [imagem à esquerda], desenhado por José Brandão e Teresa Cabral, é retirada de uma iluminura do livro Mishná Torá [imagem à direita], um dos mais representativos símbolos da tradição cultural e artística dos judeus portugueses. Os dois volumes de Mishná Torá (ou Mishneh Torah, segundo a mais comum transliteração inglesa) de Maimonides, elaborados em Lisboa em 1472, são considerados a maior obra prima da escola de iluminura portuguesa do século XV, desenvolvida, em grande medida, em manuscritos sefarditas decorados com as primeiras influências da Renascença. Esta escola portuguesa de iluminura viria a ter um fim abrupto com a conversão forçada imposta aos judeus portugueses, em 1497.
A Inquisição, apostada em apagar todos os vestígios da cultura judaica portuguesa, destruiria a esmagadora maioria dos livros hebraicos produzidos no país – incluindo o primeiro livro impresso em Portugal, uma edição do Pentateuco em hebraico de D. Samuel Porteiro, um judeu de Faro, datada de 1487, e o Comentário ao Pentateuco, do rabino medieval espanhol Moisés ben Nahman (Nachmanides), o primeiro livro impresso em Lisboa, igualmente em hebraico, editado por Eliezer Toledano. A inquisição queimou também uma edição impressa em 1488 dos 22 volumes do Talmude, por Samuel Porteiro, da qual restam apenas fragmentos.
O manuscrito que serve de inspiração ao selo representado acima faz hoje parte da colecção permanente de Manuscritos Hebraicos da British Library. Uma parte dessa colecção pode ser visitada aqui: The British Library Hebrew Collections.

A VISITAR: CTT Correios / The British Library Hebrew Collections / O Primeiro Livro Impresso em Portugal / Judaic Treasures of the Library of Congress: Lisbon’s First Book.

O mesmo manuscrito iluminado foi utilizado aqui na Rua da Judiaria, em Janeiro, para ilustrar um poema de Solomon Ibn Gabirol. Este post ficaria incompleto sem um imenso agradecimento ao Boss, do Renas e Veados, que me alertou por email para o lançamento dos selos comemorativos.

ADENDA: Esta série de selos dos CTT insere-se nas comemorações oficiais do centenário da Sinagoga Shaaré Tikvá (Porta da Esperança), de Lisboa, que se celebra este ano (ver Centenário da Sinagoga).

“Como elRei mandou degollar dous seus criados, porque roubarom huum judeu e o matarom”


Este Rei Dom Pedro em quanto viveo, husou muito de justiça sem afeiçom, teendo tal igualdade em fazer direito, que a nenhuum perdoava os erros que fazia, por criaçom nem bem querença que com el ouvesse; e se dizem que aquel he bem aventurado Rei, que per si escodrinha os malles e forças que fazem os pobres, e bem he este do conto de taaes, ca el era ledo de os ouvir, e folgava em lhes fazer direito, de guisa que todos viviam em paz, e era ainda tam zeloso de fazer justiça, espeçiallmente dos que travessos eram, que perante si os mandava meter a tormento, e se confessar nom queriam, el se desvestia de seus reaaes panos, e per sua maão açoutava os malfeitores, e pero que dello muito prasmavom seus conselheiros e outros alguuns, anojavasse de os ouvir, e nom o podiam quitar dello per nenhuuma guisa. (…) Assi aveo que pousando el nos paaços de Bellas que el fezera, dous seus escudeiros que gram tempo avia que com el viviam, seendo ambos parceiros ouverom comselho que fossem roubar huum Judeu que pelos montes andava vendendo speçearia, e outras cousas, e foi assi de feito, que forom buscar aquella çuja prea e roubaromno de todo, e o peor desto, foi morto per elles; sua ventura que lhe foi contraira, aazou de tal guisa que forom logo presos e tragidos a elRei ali hu pausava. ElRei como os vio tomou gram prazer por seerem filhados, e começouhos de preguntar como fora aquello, elles pensando que longa criaçom e serviço que lhe feito aviam, o demovesse a ter alguum geito com elles, nom tal como tiinha com outras pessoas, começarom de negar, dizendo que de tal cousa nom sabiam parte. El que sabia ja de que guisa fora, disse que nom aviam por que mais negar, que ou confessassem como ho matarom, se nom que a poder de cruees açoutes lhe faria dizer a verdade: elles em negando, virom que elRei queria poer em obra o que lhe per pallavra dizia, comfessarom todo assi como fora; e elRei sorrindosse disse que fezerom bem, que tomar queriam mester de ladroões e matar homeens pelos caminhos, de se ensinarem primeiro dos Judeus, e depois viinriam aos Christãos; e em dizendo estas e outras palavras passeava perantelles dhuma parte aa outra, e parece que nenbrando-lhe a criaçom que em elles fezera e como os queria mandar matar, viinham-lhe as lagrimas aos olhos per vezes; depois tornava asperamente contra elles reprendendoos muito do que feito aviam, e assi andou per huum grande espaço. Os que hi estavam que aquesto viam, sospeitando mal de suas razoões, aficavamse muito a pedir merçee por elles, dizendo que por huum Judeu astroso nom era bem morrerem taaes homeens, e que bem era de os castigar per degredo, ou outra alguuma pena, mas nom mostrar contra aquelles que criara pello primeiro erro tam grande crueza. ElRei ouvindo todos respondia sempre que dos Judeos viinriam depois aos Christaãos, en fim destas e outras razoões, mandou que os degollassem, e foi assi feito.”

Fernão Lopes (1380– 1460), Crónica de D. Pedro I

Nota – O relato do cronista é demonstrativo da mentalidade cristã medieval e do comportamento geral em relação aos judeus portugueses. A pesada pena de morte – uma punição normal para a época, mesmo para pequenos delitos contra a propriedade (roubo de galinhas, por exemplo) – é imposta pelo rei aos escudeiros não por eles terem morto o judeu vendedor de especiarias, mas porque “poderiam depois vir a matar cristãos”. Assim era a justiça de D. Pedro I, “O Justiceiro”. De notar ainda a defesa dos escudeiros feita pelos conselheiros, que diziam ao rei: “por um maldito judeu não era bem morrerem tais homens.”

Judeus Secretos e o Aperto de Mão

Os portugueses têm o estranho costume de não “cruzar” apertos de mão. Isto é, quando quatro pessoas se cumprimentam simultaneamente, tenta evitar-se que os braços se intersectem durante o aperto de mão, formando uma cruz. Quando confrontados por estrangeiros perplexos, desconhecedores do costume, em regra, os portugueses não sabem explicar a razão de ser desta tradição, relegando-a para a vasta categoria das “superstições populares”…

Os portugueses têm o estranho costume de não “cruzar” apertos de mão. Isto é, quando quatro pessoas se cumprimentam simultaneamente, tenta evitar-se que os braços se intersectem durante o aperto de mão, formando uma cruz. Quando confrontados por estrangeiros perplexos, desconhecedores do costume, em regra, os portugueses não sabem explicar a razão de ser desta tradição, relegando-a para a vasta categoria das “superstições populares”.
Na verdade, a origem do estranho gesto remonta aos finais do século XV, altura em que os judeus portugueses foram forçados a converter-se ao catolicismo sob pena de morte. Para muitos, a conversão assumiu apenas um aspecto exterior, continuando o judaísmo a ser praticado dentro de casa, de forma secreta e escondida. Vários historiadores compilaram listas de orações criptojudaicas quinhentistas – algumas sobreviveram até aos nossos dias na comunidade de Belmonte – que denotam uma tentativa de manter viva a ligação ao judaísmo. A mais conhecida será a oração dita pelos cristão-novos/criptojudeus ao entrar numa igreja: “Nesta casa entro mas não adoro pau nem pedra mas sim o Deus que tudo governa, Adonai, Deus de Israel” (in Os Criptojudeus da Faixa Fronteiriça Portuguesa, Eduardo Mayone Dias, 1997).
Da mesma forma, outros gestos quotidianos seriam influenciados por esta necessidade de manter afastados os símbolos da religião que lhes fora imposta à força. A cruz (e os crucifixos) era vista pelos cristãos-novos portugueses como um símbolo aziago e, como tal, a evitar a todo o custo. Segundo David M. Gitlitz, professor da University of Rhode Island, no seu livro Secrecy & Deceit: The Religion of the Crypto-Jews, é neste contexto que judeus portugueses forçados ao catolicismo começam a evitar cruzar braços quando apertam a mão a alguém, afirmando que o gesto “dá azar”. O mesmo costume alargou-se também à representação acidental da cruz à mesa, evitando cruzar facas e garfos.
A assimilação dos judeus forçados à conversão, que ocorreu nos séculos posteriores, levou à propagação da prática, tornando-a parte do subconsciente colectivo nacional – chegando mesmo a implantar-se também em algumas regiões do Brasil, onde durante o período colonial existiram comunidades significativas de cripto-judeus, nomeadamente no Recife e na Bahia.
Hoje, ironicamente, o mais católico dos católicos continua a evitar “fazer cruzes” quando aperta mãos, desconhecendo que o gesto surgiu como resistência, e mesmo rejeição, ao catolicismo imposto à força aos judeus portugueses no século XV.