Notas da blogolândia e arredores

The Song Remains the Same é o título que Mário Pires deu à galeria online das suas fotografias dedicadas à música. Iimprescindível.

Hugo Neves da Silva lançou o projecto BlogReporters, um espaço destinado a servir de veículo ao trabalho de jornalistas (ou candidatos a jornalistas) à procura de emprego. Uma iniciativa a seguir atentamente.

O Blogo Existo, de João Pinto e Castro, fez dois anos. Um dos blogs mais lúcidos da nossa praça. Muitos parabéns!

Por último, recomendo a leitura da entrevista a Oriana Fallaci publicada ontem no Wall Street Journal, intitulada Prophet of Decline. Aos 76 anos, fragilizada por um cancro quase em fase terminal, a lendária jornalista italiana vive aqueles que poderão ser os últimos meses da sua vida envolvida num polémico processo judicial por “difamação” (vilipêndio é o termo jurídico italiano aplicado ao caso), movido por grupos islâmicos que querem ver banido o seu livro La forza della Ragione.

Características comuns em estados pós-genocídio

Jonathan Edelstein escreveu um post absolutamente indispensável: On the commonalities of post-genocidal states: a rough sketch, um ensaio onde se estabelecem termos de comparação entre as experiências de Israel, da Arménia e do Ruanda, três estados que vivem com a pesada herança deixada pelo genocídio. No texto, Jonathan Edelstein (que explica as razões para a não inclusão de Timor-Leste neste grupo) desenvolve cinco noções básicas comuns – um forte sentido de pátria e refúgio; uma ética de autodefesa; ligação a um protector; problemas com os países vizinhos; e uma extrema reticência em confiar nas intenções de terceiros.
Escrito com extrema lucidez. Para ler com atenção.

Direitos Humanos?


Na véspera da divulgação do relatório da comissão Volcker sobre o escândalo Oil-for-Food na ONU (ver Roger L. Simon: Special Report – Oil-for-Food Investigation), para os que continuam a acreditar que a Organização das Nações Unidas pode ainda ser levada a sério, vale a pena ler este artigo de opinião assinado Frida Ghitis, colunista do Boston Globe, intitulado The UN charade on human rights. Curiosamente, um tribunal de Tripoli condenou à morte cinco freiras búlgaras. Esta é a mesma Líbia que até há pouco tempo presidia à Comissão de Direitos Humanos da ONU (ver BBC NEWS – Libya ‘right for human rights job’).

Ilustração e sugestão de leitura roubadas ao The Wandering Jew

Nome, maldito nome…

Primeiro foi o “Guerreiro Menino”… lá vieram as piadas costumeiras, que aturei com enfado. Agora é um tal padre Nuno, um franciscano, que quer ver reinstituída a Inquisição em Portugal. Malfadado nome o meu. A partir de agora, se fizerem favor, tratem-me pelo meu nome hebraico: מיכאל בן יהושוע

Ciclo de Violência?

Há três semanas, o aperto de mãos entre Mahmoud Abbas e Ariel Sharon em Sharm El-Sheik trazia a esperança de que tudo podia mudar. A paz, por muito difícil que pudesse parecer, estaria perto, garantiam as notícias. Hoje, um atentado suicida numa discoteca de Tel Aviv – prontamente reivindicado pelos terroristas das Brigadas dos “Mártires” de al-Aqsa e da Jihad Islâmica – faz reviver o síndroma do Groundhog Day.
Um dos mais propagados mitos sobre o conflito israelo-palestiniano defende que os atentados terroristas são uma “resposta directa” às acções do governo israelita. Uma passagem de olhos pelos títulos das notícias das últimas três semanas é prova suficiente para deitar por terra esta teoria. Senão vejamos:
Sharon assina retirada histórica de Gaza e alteração do traçado da Barreira de Segurança; Israel antecipa retirada de Gaza; Israel reafirma confiança no novo parceiro de paz; Israel liberta 500 prisioneiros palestinianos.
Lidas as notícias, analisado o encaminhamento dado ao processo de paz por Abbas e Sharon, gostaria que me explicassem a que “responde” o atentado de hoje em Tel Aviv? Aos que insistem em acreditar no mito aconselho a leitura de um artigo de Alan Dershowitz intitulado As Causas dos Atentados Suicidas.
Dito isto, penso ser importante sublinhar que acredito no facto da actual liderança da Autoridade Palestiniana (PA) estar honestamente empenhada na construção da paz. Mas também é importante notar que a PA não consegue ter mão nos grupos terroristas que utilizam os atentados, não só contra a população civil de Israel, mas também como “arma política” interna, de forma a mostrar à Autoridade Palestiniana que qualquer negociação com Israel pode ser descarrilada caso as suas exigências não sejam ouvidas.
Meus caros: esta gente, os responsáveis pelo atentado de hoje, não são “militantes” nem sequer “extremistas”. Estes eufemismos apenas mascaram uma realidade bem mais fria e nojenta. A palavra correcta é terroristas – porque sobrevivem apenas num clima de terror. Porque a paz não lhes interessa. Porque se alimentam da violência e do medo. E da resposta à sua violência. Esta gente não precisa de pretextos. As últimas semanas de esperança provam isso mesmo.

Dois Pesos e Duas Medidas

Quando a palavra ocupação é lida nas páginas dos jornais é geralmente associada à situação vivida nos territórios palestinianos – uma ocupação, aliás, contra a qual sempre me exprimi publicamente – ou, mais recentemente, no Iraque. Não me lembro de ter lido na Imprensa portuguesa uma única peça jornalística sobre a brutal ocupação militar e política do Líbano pela ditadura Síria, que perdura há quase 30 anos.
Hoje, numa manifestação de rua em Beirute, milhares de pessoas defenderam uma independência nacional efectiva para o Líbano exigindo a retirada das tropas sírias e o fim da ocupação, no seguimento do assassinato do ex-primeiro-ministro libanês Rafiq Hariri.
Por uma questão de coerência, quem se diz selectivamente contra uma ou outra ocupação tem o dever de pelo menos saber que existem outras ocupações que raramente saltam para as páginas dos jornais.

::A LER:: Syrian Occupation of Lebanon / Syrian Terrorism against Lebanese People / The Syrian occupation of Lebanon – Mordechai Nisan / Lebanonwire.com – Syria must open the door to freedom and fully end its occupation of Lebanon / The New York Times – Thomas L. Friedman: ‘Hama Rules’ / The Daily Star – Opinion Articles – The ramifications of Hariri’s assassination / “We Don’t Need Syria” in Lebanon – article by Daniel Pipes / Muslim American Society – Thousands Hold Anti-Syria Rally, Troops Said to Pullout of Lebanon / The Guardian – Lebanese Hold Historic Anti-Syrian March.

Último Comentário Sobre as Eleições

“Não pude votar, mas não pensem que essa eleição me passe ao lado. Dei, rangendo os dentes, o meu voto virtual ao PS e José Sócrates, para poder responsabilizá-lo integralmente pelo que fará nos próximos quatro anos.
Pode ter a certeza, se falhar, cair-lhe-ei em cima!”

Escrito por Lutz no Quase em Português, este post reflecte na perfeição aquilo que sinto. Assino por baixo. Em absoluto.

A Campanha Vista a 9133 Km de Distância (III)

Serei eu o único a achar o “dia de reflexão” uma imensa idiotice paternalista de uma Lei Eleitoral a precisar de profundas reformas? Estarei sozinho? Para cúmulo, leio que a Comissão Nacional de Eleições vai “vigiar os blogs” para policiar eventuais “desvios” ou “violações” ao “dia de reflexão” – uma aberração que honestamente encaro como uma violação séria à liberdade de opinião.
Este “policiamento” dos blogs levanta uma questão interessante: como poderá, por exemplo, a CNE punir um cidadão português que mora no estrangeiro e escreve um blog alojado em servidores internacionais? Mais um exemplo concreto: a diferença horária que me separa de Portugal (menos 8 horas) faz com que esteja a escrever este post já depois da meia noite de sábado em Lisboa, embora para mim ainda sejam 16:30h de sexta-feira aqui em Los Angeles. Será que violo o “dia de reflexão” ao comentar as sondagens ou o comportamento de Santana Lopes, José Sócrates ou Francisco Louçã?
Se o voto dos emigrantes valesse alguma coisa – isto é, se eu fosse mesmo votar no domingo – estaria mais do que tentado a testar esta dúbia fronteira.

A Esperança

A Esperança

Mahmoud Abbas e Ariel Sharon apertaram ontem as mãos em Sharm El-Sheik. É um imenso sinal de esperança. Mas é apenas o princípio – um passo de anão para uma caminhada longa. Tal como Francisco José Viegas, e por mais sinais contraditórios que me atirem para cima, insisto que se sublinhe a esperança. Mas provavelmente tudo isto é mais fácil de longe, uma vez que o cepticismo tem tendência a reduzir-se à razão inversa da distância.
No Aviz, Francisco falava de imagens idênticas vistas noutros tempos, com outros rostos sorridentes, mas a mesma esperança. Allison Kaplan Sommer, uma jornalista residente em Israel, compara Sharm El-Sheik a Groundhog Day, a notável comédia onde Bill Murray é condenado a reviver infinitamente o mesmo dia. Vale a pena ler o que ela escreve para perceber a nesga de cepticismo: An Unsealed Room: Groundhog Day.
Mas enquanto Abbas e Sharon, dois homens com percursos opostos mas finalmente apostados em cessar o ciclo de violência, dão provas de boa vontade no caminho da paz, há ainda quem insista no demente discurso do ódio. No sermão de sexta-feira passada (dia 4 de Fevereiro), o sheik Ibrahim Madiras, um dos mais importantes líderes religiosos palestinianos, falava num retorno às fronteiras de 1967 como “temporário”, insistindo que o objectivo final será sempre “a destruição de Israel”. O sermão poderia ser apenas tomado como o desvario de mais um fanático a espumar pela boca, mas foi transmitido em directo pela PA TV, o canal official de televisão da Autoridade Palestiniana.
Mesmo assim tenho esperança. Quero acreditar que desta vez é que é – que virá a paz para israelitas e palestinianos.
E desta vez não quero acordar como Phil Connors, o personagem de Bill Murray em Groundhog Day: cada dia que nasce apaga o anterior e às seis da manhã o rádio despertador volta a tocar invariavelmente a mesma canção.

::A LER:: CNN.com – Transcript of Ariel Sharon’s speech at Egypt summit – Feb 8, 2005 / CNN.com – Transcript of Mahmoud Abbas’ speech at Egypt summit – Feb 8, 2005.

A Campanha Vista a 9133 Km de Distância (II)

“Jogo Sujo”, ou a Má Influência Americana

Não me proponho fazer uma análise à campanha – há muita gente a fazê-lo diariamente na blogosfera muito melhor do que eu –, ou sequer ao debate de ontem à noite entre Santana Lopes e José Sócrates, mas como jornalista a viver há 10 anos nos EUA e a acompanhar diariamente a realidade política americana, admito que fiquei bastante surpreendido com a crescente americanização da política portuguesa. O mimetismo é inescapável.
Não estou aqui a falar do formato civilizado – a expressão não é minha – do debate, mas da forma como a campanha propriamente dita está a ser gerida. Os rumores e boatos, os ataques pessoais feitos por interposta pessoa, enfim toda a “campanha negativa”, são marcas inequívocas de uma importação do que de pior se faz na política americana. Exagero? Acredito que não.
O próprio Pedro Santana Lopes admitiu isso mesmo ontem à noite durante o debate quando confrontado directamente por Sócrates em relação ao célebre cartaz da JSD: “As campanhas em que se fala dos adversários são hábito em todas as democracias, nomeadamente, na americana”, respondeu o ainda primeiro-ministro. Mas esta admissão é apenas a ponta do véu. Sócrates tem razão num ponto – nunca se assistira em Portugal a uma campanha de ataque sistemático ao adversário, onde mais de metade do esforço de propaganda do partido do governo faz referência directa às posições da oposição em vez de veicular as suas próprias ideias.
É certo que as americanices não são novidade nas campanhas políticas portuguesas. Dos chapéus de palha da candidatura presidencial de Freitas do Amaral, em 1986, aos aventais de Paulo Portas, há muito que os políticos portugueses se inspiravam nas campanhas eleitorais americanas. A novidade é a importação das tácticas da “campanha suja”.
Pode ser apenas por estar a acompanhar esta campanha eleitoral com óculos americanos, mas acredito que Santana Lopes – e os seus assessores – está a copiar ao milímetro as tácticas usadas pelo actual presidente americano em 2000 e 2004, acreditando que foram elas que deram a vitória a George W. Bush – ele próprio um político algo impopular, acusado de incompetência e com uma imagem pública não muito favorável. Santana acredita que pode fazer em Portugal o decalque de uma campanha eleitoral americana. Vamos aos exemplos:

Boatos e Rumores – Em 2000, depois do senador John McCain ter vencido folgadamente as primárias republicanas em New Hampshire, a “máquina venenosa” montada por Karl Rove – o “arquitecto” das campanhas de Bush – avançou em força para a Carolina do Sul, onde as sondagens apontavam para mais uma derrota quase certa. Anúncios televisivos da candidatura de Bush atacavam McCain directamente. Mas isso não chegava. De uma forma consistente e misteriosa, começaram a circular entre o eleitorado republicano fotocópias de uma fotografia de família de McCain, onde o senador aparecia abraçado à mulher e ao seu filho adoptivo vietnamita. A insinuação era clara: num estado sulista onde a guerra civil americana ainda é referida como “a guerra de agressão nortenha”, onde o racismo ainda marca a vida quotidiana, a imagem de McCain abraçado a um adolescente de pele escura valia mais que mil palavras (ver Slate – Instant Analysis by Jacob Weisberg e BBC – Republican’s negative campaign row).
Convém dizer que John McCain é um dos mais emblemáticos políticos americanos – um republicano moderado que sempre se recusou curvar à chamada “direita religiosa” e que assina propostas legislativas ao lado dos democratas.
Mas Rove não se deu por satisfeito. Paralelamente à fotocópia da foto de família, surgiu um rumor segundo o qual John McCain teria problemas de estabilidade mental e emocional como consequência de ter passado cinco anos da sua vida como prisioneiro de guerra no Vietname. Ao mesmo tempo, alistou a “direita religiosa” para atacar também John McCain – ver Reverend Pat Robertson attacks McCain.
Os golpes contra McCain resultariam e George W. Bush ganhou as primárias na Carolina do Sul, uma vitória que abriria caminho para a disputa da Casa Branca (ver For ‘Gutter Politics,’ Look to the Bush Camp).
É verdade que sempre existiram boatos e rumores na política eleitoral portuguesa. Mas é também verdade que estes nunca tinham sido utilizados de forma tão deliberada e sistemática pela máquina de um partido.

Ataques Indirectos – O célebre cartaz da JSD contra José Sócrates é o anúncio dos “swift boat veterans” de Pedro Santana Lopes. A sua responsabilidade é atribuída à JSD, ilibando o ainda primeiro-ministro de qualquer tipo de responsabilidades no ataque pessoal e nas insinuações, da mesma forma que George W. Bush lavou as mãos do anúncio televisivo que questionava o serviço militar de John Kerry no Vietname. Curiosamente, o republicano John McCain, que em 2000 sofrera na pele os efeitos da “máquina venenosa” de Bush, veio de imediato a público classificar os ataques como deploráveis e desonestos, tal como alguns destacados militantes do PSD criticam agora a estratégia de ataque sem precedentes claramente escolhida por Santana Lopes. Mas, tal como McCain o fez em 2004, também eles ainda assim vão votar no candidato que desprezam.
A vantagem política dos rumores, boatos e ataques indirectos é o facto de ser impossível combatê-los de forma eficaz. Responder a insinuações nem sempre é uma manobra inteligente. E, por vezes, não contestar ainda é pior (Kerry esperou três semanas até responder às acusações dos swift boat vets, numa estratégia que tentava ignorar os insultos mas que acabaria por lhe sair pela culatra dado o impacto que o anúncio teve junto do eleitorado – ver JS Online: Swift boat ad has outsize impact).

Há mais exemplos de estratégias simétricas entre a campanha de Santana Lopes e a arquitectura desenhada por Karl Rove para as candidaturas de George W. Bush – a insistência em “issue politics”, ou política de “causas”, é outro, mas ficará para um post futuro.
Mas outros paralelos existem. Para muitos, tal como John Kerry face a George W. Bush, José Sócrates é também o não-Santana. Tal como Kerry, Sócrates é monocórdico, desprovido de carisma, quase robótico (usando uma expressão de Luís Osório). Pedro Santana Lopes, tal como Bush, transpira uma imagem de incompetência e não se importa de jogar sujo, de chafurdar na lama, se pensar que com isso poderá continuar a seguir em frente.
Mas, depois de tudo isto, Pedro Santana Lopes e os assessores que o aconselham a enveredar pela “campanha suja” decalcada da campanha eleitoral americana esquecem-se de um pequeno pormenor: Portugal não é os Estados Unidos e a realidade – e as tradições – políticas e sociais dos dois países tornam a transposição pura e simples de estratégias simplesmente risível. Para mais, a juntar às diferenças, George W. Bush teve Karl Rove e um partido unido em peso atrás de si. Pedro Santana Lopes não tem ninguém equiparável a Rove e o PSD, por sua causa, enfrenta uma profunda crise de identidade.

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“Campanhas sujas” e a História Americana

As campanhas eleitorais americanas foram sempre marcadas por intensos ataques pessoais. Segundo os historiadores, a mais “suja” campanha de sempre decorreu em 1828, entre Andrew Jackson e John Quincy Adams – que, em 1796, chegou a ser ministro plenipotenciário dos Estados Unidos em Portugal. A candidatura de Jackson chamava a Adams “O Chulo”, enquanto um jornal favorável a Adams acusava a mãe de Jackson de ser “uma vulgar prostituta trazida pelos soldados ingleses”. Mas as calúnias não se ficaram por aqui: adúltero, dono de escravos, bêbado, analfabeto, briguento e ateu foram alguns dos insultos trocados entre dois candidatos. E quando deixaram de ter nomes para chamar um ao outro, Jackson e Quincy Adams voltaram-se para as mulheres do adversário. Estava dado o mote para um futuro promissor que atravessa agora o Atlântico com quase dois séculos de atraso.

A Campanha Vista a 9133 Km de Distância (I)

1. Dois posts para ponderar: Em quem vou votar?, de Paulo Gorjão, e o voto em branco, de João Miranda.

2. O facto de Paulo Portas (ainda Ministro da Defesa) ter aproveitado as bases de dados pessoais do seu ministério para fazer campanha eleitoral ultrapassa tudo o que pode ser admissível em democracia. Num post intitulado A Fina Linha, Luís G. Rodrigues, autor do excelente Random Precision, conta que o líder do CDS/PP enviou uma carta de propaganda eleitoral – assinada também por Bagão Felix – a 400 mil antigos combatentes, recorrendo às moradas que constam nos arquivos à guarda do Ministério da Defesa. “Violação da lei de protecção de dados informáticos”, “utilização de recursos do Estado para a prossecução de interesses eleitorais partidários” e “falta de ética política e intelectual” – é assim que Luís G. Rodrigues classifica este golpe francamente baixo de Portas.

::ADENDA:: Um exemplar da carta recebida pelos ex-combatentes nos últimos dias, datada de “Dezembro de 2004”, pode ser visto no des-Encantos. O Victor, um dos visados pela missiva, comenta-a aqui.

“Conceitos de Moral”

ou Leituras para uma Frase Moralista de Francisco Louçã

“O homem que não queira voltar a Moisés, a Cristo, ou Maomet, e que não se contenta com um arlequim ecléctico, tem de reconhecer que a moral é um produto da evolução social; que nada tem de invariável; que serve os interesses da sociedade; que estes interesses são contraditórios; que a moral tem, mais do que qualquer outra forma de ideologia, um carácter de classe.” (p.39)

“A burguesia, cuja consciência de classe é muito superior à do proletariado, pela sua plenitude e pela sua intransigência, tem um interesse vital em impor ‘a sua’ moral às classes exploradas. As normas concretas do catecismo burguês servem-se de abstracções morais colocadas sob a égide da religião, da filosofia, ou dessa coisa híbrida que se chama o ‘bom senso’.” (p. 42 e 43)

“Mas não sobrestimemos o grau de consciência dos moralistas. As suas intenções não são assim tão más. Elas vão servindo de alavanca na engrenagem do provir.” (p. 87)

Lev Davidovich Bronstein, conhecido como Leon Trotsky (1879 – 1940). Revolucionário. Judeu russo.
[citações do livro “Conceitos de Moral”, edição portuguesa não datada de “Leur Morale et la Nôtre”, de 1938.]

:: NOTA :: Para contrabalançar aconselho a leitura deste post de Daniel Oliveira: O Paradoxo.

O Melhor Post Sobre a Tomada de Posse de Bush…

Dia da tomada de posse
Ou um duplo sentido intencional

Ao mesmo tempo que consultava um dos meus pacientes, um esquizofrénico, ele via a tomada de posse do Presidente na televisão. A sua fala era alucinada e desordenada.

Zackary Sholem Berger, médico, escritor, crítico literário, poeta e colunista do diário judaico nova-iorquino Forward.

:: NOTA :: Sobre o gesto de Bush (ou outros segundos sentidos intencionais): As aparências iludem mesmo e a linguagem dos gestos está longe de ter uma interpretação universal. Na foto, a mão erguida do presidente americano representa a tradicional saudação texana conhecida como “Hook ’em, ‘horns!”, o “grito de guerra” da equipa de futebol americano da Universidade do Texas, os Longhorns (que traduzido dá qualquer coisa como “cornos longos”). Bush usou a saudação em Washington enquanto assistia ao desfile da banda de música da universidade texana – um gesto que seria repetido igualmente pela sua mulher e pelas filhas. Em Portugal, onde é usado com frequência como “saudação” automobilística, tem o significado que todos sabemos. Na Noruega, o jornal Verdens Gang sentiu-se na obrigação de explicar aos seus leitores que Bush não estava a fazer uma saudação satânica, ao contrário do que os costumes locais fariam prever.

Mau gosto


Um misterioso spot publicitário de gosto bastante duvidoso começou a circular há dois dias na Internet sem que ninguém assumisse a sua paternidade. Tecnicamente imperfeito (especialmente na montagem), o anúncio mostra um homem de aspecto árabe, envergando um keffiyeh palestiniano, conduzindo um carro pelas ruas de uma cidade não identificada. Subitamente, o carro pára frente a uma esplanada e o condutor carrega no detonador de um colete-bomba. Mas a explosão é contida pelo carro. O slogan é a pièce de résistance: “Polo. Small but tough.”
Aparentemente, tudo fazia crer que se tratava de um anúncio televisivo para o Volkswagen Polo, mas a Volkswagen negou determinantemente que o tivesse autorizado. Afinal o anúncio não passou de uma brincadeira de uma agência de publicidade, a Leeanddan, um “spec ad” destinado a mostrar o “humor de risco” de que são capazes.
O “anúncio” pode ser visto aqui: VW-20-B2, ainda disponível no site da Leeanddan, ou em alternativa através deste link: VW Suicide Bomber.
Ao ver o pequeno vídeo (tomei conhecimento da história via Jewlicious e depois no MuseumOfHoaxes.com), lembrei-me de ter lido comentários em vários blogs sobre o aparecimento de piadas idiotas sobre a catástrofe do sudoeste asiático. Lembrei-me particularmente de um post brilhante de José Luís Peixoto intitulado Engraçadinhos Sem Graça. Escreveu ele: “É o luxo daqueles que imaginam que o seu pequeno mundo nunca será destruído. É a ignorância daqueles que nunca perderam ninguém, que acreditam que nunca irão perder ninguém e que vêem o mundo como uma brincadeirinha, um jogo de playstation, uma elaboração teórica que nunca os afectará. É a total falta de empatia em relação ao sofrimento dos outros – uma das principais marcas psicológicas dos psicopatas.” E isto vale para todos os sofrimentos do mundo.